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Mensagempor tiririca » 18 jul 2008, 17:53

Escondido atrás de um rochedo, de braços abertos, espreita à procura da esperança, do futuro...

Canon EOS 400D; Manual; 1/65 seg.; f.13; ISO 100; Distancia focal de 55mm
O pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas.
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Re: Fotografia

Mensagempor tiririca » 21 jul 2008, 21:09

Uma ponte, uma passagem, um percurso, um rumo, uma viagem, uma miragem, uma paisagem, uma doçura, um delírio...?!

Sim! A Ponte da Barra às 03:06 AM!

Canon EOS 400D; Manual; 25 seg.; f.8; ISO 200; Distancia focal de 44mm
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Re: Fotografia

Mensagempor tiririca » 24 jul 2008, 21:41

Estamos neste mundo como num mar tempestuoso, como num exílio, por vezes, num vale de lágrimas. Este navio já fez muitas viagens, já suportou muitas tempestades... Agora "descansa" calmamente acostado a um porto seguro, à espera da próxima viagem (e tempestade)... Mesmo as noites totalmente sem estrelas podem anunciar a aurora de um dia cheio de sol.

POSEN

Canon EOS 400D; Manual; 6 seg.; f 9; ISO 100; Distancia focal de 420mm
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Re: Fotografia

Mensagempor Diana » 25 jul 2008, 21:45



Estamos neste mundo como num mar tempestuoso, como num exílio....







http://www.youtube.com/watch?v=xJjpnRBOtEE
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Re: Fotografia

Mensagempor tiririca » 26 jul 2008, 15:29

A estação é a vida de um talvez, de um talvez que nos obriga a esperar. A espera é sempre complexa, ansiosa. E no entanto, estamos ali fielmente almejando que o comboio pare… a pessoa desça, entre a multidão, nos veja e escolha ficar ali…

Estação

Canon EOS 400D; Manual; 1/2 seg.; f 5; ISO 100; Distancia focal de 41mm
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Re: Fotografia

Mensagempor tiririca » 27 jul 2008, 23:08

Mais um trabalho fantástico... uma imagem fabulosa... com a 5D, claro!

Canal Central em noite de Julho - Aveiro

PS: Aquela coisa redonda, é uma roda "gigante" onde os putos gastam o dinheiro dos papás... vista pelo olho de um "gajo" com muito jeito para a "coisa", deu nisto! :shock:
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Re: Fotografia

Mensagempor tiririca » 29 jul 2008, 19:07

Pássaros de ferro...

F 15
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Re: Fotografia

Mensagempor alma » 30 jul 2008, 20:43

Imagem

porque hoje estou feliz…
e porque hoje todas as portas, cá em casa, estão trancadas…

Não perguntes à felicidade quem ela é, nem de onde veio… apenas abra a porta para que entre… e feche-a para não fugir...

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Re: Fotografia

Mensagempor alma » 03 ago 2008, 15:28

O melhor ângulo para fotografar...

Imagem


Imagem


Imagem


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Re: Fotografia

Mensagempor alma » 03 ago 2008, 15:39

fotografias que abalaram o mundo

Imagem
Omayra Sanchez, de 13 anos, foi uma menina vítima do vulcão Nevado del Ruiz durante a erupção de 1985 que arrasou o povoado de Armero, na Colômbia. Omayra ficou três dias sob o lodo, barro, água e o que restava da sua própria casa. Quando os paramédicos, de parcos recursos, tentaram ajudá-la, comprovaram angustiados que lhes era impossível fazê-lo, já que para a removerem da armadilha mortal em que se encontrava precisavam amputar-lhe as pernas e a falta de um especialista para tal cirurgia resultaria na morte da menina.

Segundo os paramédicos e jornalistas que a rodeavam, Omayra mostrou-se forte até o último momento da sua vida. Durante os três dias que durou a agonia pensou somente em voltar ao colégio, aos seus estudos e à convivência com os amigos. O fotógrafo Frank Fournier fez esta foto de Omayra que deu a volta ao mundo e originou uma controvérsia a nível planetário a respeito da indiferença do governo colombiano relativamente às vítimas de catástrofes.


Imagem

Eddie Adams, fotógrafo de guerra da Associated Press, obteve esta foto em 1 de Fevereiro de 1968 nas ruas de Saigão. Com ela ganhou um Pulitzer Prize. A imagem mostra o assassinato a sangue frio de um guerrilheiro vietcong, presumivelmente o oficial vietcong Nguyen Van Lém, pelo chefe da polícia de Saigão, o General Nguyen Ngoc Loan.

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Re: Fotografia

Mensagempor tiririca » 03 ago 2008, 23:39

Uma noite maravilhosa de verão, uma temperatura amena, que permitiu desfrutar a beleza do local enquanto se recordava certas amizades.

Tive ainda a possibilidade de encontrar três casais escoceses que se mostraram interessados pelo historiografia da região e nas técnicas fotográficas. Uma boa hora de conversa e ficamos todos a saber um pouco mais... surpreendeu-me o conhecimento de um deles, que conhecia o nome de todos os nosso capitães do descobrimentos.

Vouzela - Parque da Liberdade, Antiga Ponte Ferroviária da Linha do Vouga, que ligava Aveiro a Viseu

Canon EOS 400D; Manual; 30 seg.; f 9; ISO 100; Distancia focal de 18mm
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Re: Fotografia

Mensagempor tiririca » 09 ago 2008, 22:33

As noites no Alentejo.

As noites agradáveis dos dias quentes de verão... A luz do luar que permite vislumbrar as escuras silhuetas dos sobreiros que se projectam na terra, como envergonhadas criaturas de luz reflectida... O Verão das noites da aragem fresca, que vem não sei de onde, carregadinha de fresquidão, que corre a afagar-nos o corpo, a secar a pele ensopada e que perfuma o ar salpicado de estrelas, oferendo-nos o paraíso. Mas para se apreciar devidamente uma noite de verão, é fundamental que o dia tenho sido quente. Muito quente. Sempre foi assim, o fresco só tem valor para quem está quente.

Muitas almas ali veneraram, muitos olhos o observaram... velho conhecido de tempos muito antigos, é inconfundível na sua beleza.

Templo de Diana

Canon EOS 400D; Manual; 15 seg.; f 9; ISO 100; Distancia focal de 22mm

Quanto à noite, ela só é bela para quem também vive o dia.
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Re: Fotografia

Mensagempor Diana » 10 ago 2008, 20:16

Imagem


Georgia



:( :( :(
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Re: Fotografia

Mensagempor tiririca » 11 ago 2008, 21:00

A Igreja de São Francisco em Évora é uma igreja de arquitectura gótico-manuelina. Construída entre 1480 e 1510 pelos mestres de pedraria Martim Lourenço e Pero de Trilho e decorada pelos pintores régios Francisco Henriques, Jorge Afonso e Garcia Fernandes, está intimamente ligada aos acontecimentos históricos que marcaram o período de expansão marítima de Portugal. Isso fica patente nos símbolos da monumental nave de abóbada ogival: a cruz da Ordem de Cristo e os emblemas dos reis fundadores, D. João II e D. Manuel I.

In wikipedia

Igreja de São Francisco

Canon EOS 400D; Manual; 4 seg.; f 9; ISO 100; Distancia focal de 24mm

A nave

Canon EOS 400D; Manual; 1/20 seg.; f 3.5; ISO 400; Distancia focal de 18mm
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Re: Fotografia

Mensagempor Diana » 11 ago 2008, 21:25

Imagem


Tskhinvali - Ossétia do Sul



Portugal, apesar de todos os problemas não tem "disto".
Temos Paz. Felizmente.



:( :( :(
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Re: Fotografia

Mensagempor Diana » 11 ago 2008, 21:29

tiririca Escreveu:As noites no Alentejo.



Templo de Diana

Canon EOS 400D; Manual; 15 seg.; f 9; ISO 100; Distancia focal de 22mm

Quanto à noite, ela só é bela para quem também vive o dia.



Hummmmmmmmm, vejo que visitou o "meu" Templo. :LOL :LOL :LOL

E que bonito que ficou. A noite é mágica, tiririca.
As suas melhores fotografias são sempre feitas de noite.


Parabéns, Caro Amigo. :))
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Re: Fotografia

Mensagempor Diana » 11 ago 2008, 21:31

tiririca Escreveu:
Igreja de São Francisco

Canon EOS 400D; Manual; 4 seg.; f 9; ISO 100; Distancia focal de 24mm

A nave

Canon EOS 400D; Manual; 1/20 seg.; f 3.5; ISO 400; Distancia focal de 18mm



Estas duas fotos estão F-A-N-T-Á-S-T-I-C-A-S .... !!! :))
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Re: Fotografia

Mensagempor tiririca » 13 ago 2008, 01:42

Uma das maiores certezas da vida, é o nascer do sol. Todas as manhãs, quer estejamos cá ou não para viver mais um dia, o sol vai nascer cheio de alegria a leste, irradiar a sua luz... até se pôr a oeste num final de tarde.

Não se "deitará", não dará lugar às estrelas, sem mostrar toda a sua beleza e poder, irradiando "fogo" por todo o firmamento.

Ocaso 1

Ocaso 2

Ocaso 3

A vida e uma peça de teatro que não permite ensaios, por isso, ria, chore, viva intensamente, antes que a peça termine e a cortina se feche sem aplausos. ;)
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Re: Fotografia

Mensagempor alma » 13 ago 2008, 15:45

De facto as nossas vidas é uma peça de teatro que nem todos temos os mesmos ensaios :LOL ou entao contrecenamos com verdadeiros actores

parabens tiririca
Belas fotos!excelentes 5 *****

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Re: Fotografia

Mensagempor tiririca » 16 ago 2008, 20:04

Só podemos conhecer as ruas, caminhando!

Praça do Giraldo

Praça do Giraldo
Alma Escreveu:parabens tiririca
Belas fotos!excelentes 5 *****


Obrigado... é sempre bom ouvir palavras de incentivo... e saber que há quem aprecia o que fazemos, mesmo que muitas vezes até nem tenha grande qualidade!!! ;)

Abraço
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Re: Fotografia

Mensagempor tiririca » 18 ago 2008, 20:34

Igreja Matriz de Vouzela - Região de Lafões

Templo românico-gótico, datado do século XIII, e no qual se salientam o pórtico ogival e a rosácea, ambos na fachada principal. (Monumento Nacional)

Igreja de Santa Maria
Canon EOS 400D; Manual; 25 seg.; f 14; ISO 100; Distancia focal de 25mm

Vale a pena percorrer as ruas antigas da vila e contemplar algumas das suas construções: a Casa dos Teles, o antigo edifício da Câmara, a Casa dos Sanches de Baena etc. e ainda o pelourinho da Vila. A sua pastelaria é célebre pelos inimitáveis pasteis de Vouzela. Também a vitela de Lafões é um prato a não perder.
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Re: Fotografia

Mensagempor Diana » 20 ago 2008, 08:59

.


O dia em que há luz sobre a fotografia

11:00 | Terça-feira, 19 de Ago de 2008


É sempre de desconfiar dos dias "de" qualquer coisa. Em regra servem para abrir o consumo imediato. Logo: é de pôr logo a mão no bolso. Os dias "de" são sempre homenagens piegas ou louva minhas a causas perdidas.

Não sabia mas também já temos Dia da Fotografia. Como é uma das belas artes que se coloca sempre entre a marginalidade e o chique cultural é possível enquadrar-se a si própria na lista dos dias festivos.

Se há forma de expressão que motiva a curiosidade humana é a fotografia. Desde a antiguidade que se sentiu a necessidade e o encanto de se poder fixar uma imagem para a eternidade, de se transformar em duas dimensões a vida no seu esplendor. Aristóteles, no século X, já descrevia o princípio da câmara escura e o napolitano Giovanni Della Porta, em 1558 na sua obra Maggie Naturalis, revelava detalhes sobre a construção e uso desse artefacto conhecido por sábios, artistas e... ilusionistas. Mesmo a teoria da Caverna de Platão contém em si o conceito da câmara escura.

Foram séculos a procurar uma técnica capaz de fixar uma imagem. Na Renascença a utilização da câmara escura estava banalizada por pintores. Leonardo da Vinci terá mesmo sido um usuário frequente da técnica de desenhar por cima da projecção de objectos sobre uma superfície lisa.

Só no início do século XIX é que a burguesia inglesa e francesa, quase simultaneamente, conseguiram fixar uma imagem para sempre. Foi em 1827 que Niépce conseguiu pela primeira vez fixar sobre uma base de verniz de asfalto, chamado de betume da Judeia, aplicada sobre vidro, endurecida e misturada com óleos, que ajudavam à fixagem, a primeira fotografia. O resultado era tosco e a fotografia precisou de 8 longas horas para ser impressionada na mistela mágica.

Foi uma pequena foto para o homem e uma grande janela que se abriu para a humanidade. O progresso técnico não mais parou e evoluiu a partir de então com grande rapidez.

Olhada ao princípio com desconfiança pelos artistas pintores, que viam na fotografia uma concorrência desleal, acabou por ser adoptada pela burguesia que finalmente tinha um meio acessível, credível e realista de mostrar a vida da classe em ascensão e de documentar para a eternidade os rostos e as cenas das famílias chiques.

O retrato foi o género mais popularizado e naquele onde se começaram por afirmar os verdadeiros fotógrafos. Uns fotografavam com os complexos da pintura, usando luz artificial em poses estereotipadas, outros afirmaram a fotografia com uma linguagem própria, usando com talento a luz ambiente, jogando com a cumplicidade para com os modelos, obtendo expressões vivas e personalizadas. Neste honroso exemplo está Félix Nadar.

A História da aventura fotográfica tem 150 anos onde há capítulos sobre mestres e autores, estilos e escolas completamente diferentes. A evolução da técnica, onde se destacam as emulsões e as câmaras, acabou por condicionar e fazer crescer a linguagem da própria fotografia. Quanto mais portáteis se tornaram as máquinas de fotografar, quanto mais sensíveis se tornaram as películas, melhor o fotógrafo conseguiu captar a alma humana.

A fotografia passou a fazer parte do património da humanidade. Nos primeiros anos eram as imagens captadas em paragens longínquas que despertaram o sentido da aventura e das viagens. Depois as fotografias da Guerra da Crimeia mostravam a brutalidade da guerra como nunca antes tinha sido vista. A fotografia passou de espelho meu da burguesia para testemunho social. Denunciou injustiças, como o fez Lewis Hine com o seu ensaio sobre o trabalho infantil, mostrou a exclusão dos anos trinta da depressão nos Estados Unidos com os retratos de Dorothea Lange, ou deu a ver os bastidores da política no seu lado mais caricato, através do olhar de Salomon, um advogado berlinense que aos 45 anos descobriu a pequena câmara Ermanox (antecessora da Leica) e que com o seu conceito "candid câmera" abriu as portas nos anos vinte, para aquilo que hoje designamos por fotojornalismo moderno.

A democratização da fotografia chegou cedo com a instantânea da Kodak, um caixotinho que só tinha um disparador para "clikar". A Kodak fazia o resto. Desde então é que se sabe: hoje cada um de nós tornou-se num fotógrafo potencial, equipado a todo o momento com telemóveis que vêem, ligados online ao Mundo.

Ao mesmo tempo que se democratizou a fotografia ganhou estatuto de arte. Os surrealistas viram na fotografia um meio de expressão ideal para enquadrarem a realidade de outros ângulos, os construtivistas russos inventaram com ela uma nova estética (longe dos parâmetros académicos). O patamar da fama terá sido dado pelo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque quando nos anos quarenta passou a dispensar tanto espaço à fotografia como à pintura.

Sociólogos como Susan Sontag ou Roland Barthes teorizaram sobre a essência da fotografia, tentaram explicar por vezes o inexplicável: a capacidade de uma imagem fotográfica marcar em definitivo os afectos e a memória e essa estranha atracção que provoca na mais ingénua das mentes à mente mais elaborada.

Se para os muçulmanos ser fotografado é como ser roubado da alma, para as culturas mais ocidentais a fotografia contém também um significado sagrado. Quem não assistiu já a uma mãe embevecida a abrir a carteira e a mostrar o seu maior tesouro? A foto mais querida do filho...

Com betume da Judeia ou com pixels aos milhões, de caixote ou de telemóvel sofisticado, a essência da fotografia mantém-se desde os primórdios. O Homem encontrou na fotografia o meio ideal para se mostrar nas suas grandezas e misérias. Olhando para as imagens é ao espelho que as sociedades se revêem.

Que seria da nossa vida sem esta memória colectiva ?


Luiz Carvalho, fotojornalista do Expresso



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Helmut Newton (Anos 70)
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Re: Fotografia

Mensagempor tiririca » 20 ago 2008, 23:30

Sé de Évora

... O nartex do pórtico, de uma época mais recente e provavelmente acabado na fase de obras do tempo de D. Afonso IV, é completamente aberto por vultuoso arco quebrado com duas fiadas de aduelas que assentam em três consolas cónicas, sobrepujadas de capitéis de crochets coroadas de ábacos poligonais. A abóbada, sem arcos formeiros, tem ogivas de perfil triangular. A porta compõe-se de elegante arco gótico ladeado por seis arquivoltas decoradas de toros delgados, rompentes de capitéis de mármore branco revestidos de folhagem disposta em três andares. Os fustes, assentes em mísulas ornatadas de figuras humanas e animais fantásticos, transformados em colunas-estátuas, ostentam o Apostolado, conjunto raro e o primeiro da escultura medieval portuguesa, que se deve atribuir ao ciclo de obras determinado pelo Bispo D. Pedro IV, entre 1322-40.

Pórtico
Canon EOS 400D; Manual; 25 seg.; f 7.1; ISO 100; Distancia focal de 18mm

Uma cidade cheia de história que numa noite quente de Verão convida a um passeio relaxante pelas suas ruas... pé ante pé... de mansinho, devagar, devagarinho... e a cidade quieta e tranquila... permite-nos sentir o seu cheiro... sentir cada golpe de ar fresco... apreciar a luz cálida dos candeeiros, que abraça cada pedra da calçada e quase nos permite viajar no tempo...

Évora, numa noite de Verão

Canon EOS 400D; Manual; 8 seg.; f 13; ISO 100; Distancia focal de 18mm
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Re: Fotografia

Mensagempor XRuy » 22 ago 2008, 21:21

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Eu quero morrer em paz, durante o sono, como o meu avô, e não gritando aterrorizado como os seus passageiros...

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Re: Fotografia

Mensagempor tiririca » 23 ago 2008, 21:39

Diana Escreveu:O dia em que há luz sobre a fotografia

11:00 | Terça-feira, 19 de Ago de 2008


É sempre de desconfiar dos dias "de" qualquer coisa. Em regra servem para abrir o consumo imediato. Logo: é de pôr logo a mão no bolso. Os dias "de" são sempre homenagens piegas ou louva minhas a causas perdidas....


Olhando o nosso céu

Tio Cerqueira era quem nos tirava as fotos lá em casa. Aparecia assim de repente sem avisos de espécie alguma e virava do avesso o interior da casa que estremecia sob a tonitruância das suas passadas e do seu brado:
- Ei gente desta casa, vamos lá a uma fotografia!
Queria isto dizer duas coisas. Uma, que o dia se apresentava bonito e era fiável em luz e em certezas de se poder espairecer a vista por esses mundos de Deus, como diziam as pessoas de idade sentadas à porta das casas dispostas a armazenar em recipientes invisíveis toda a soalheira possível. Outra, que naquele dia tio Cerqueira tinha acordado liberto de neuras e de quesilências e concentrava na fotografia e na arte de a consumar aquele entusiasmo de possessos que todos lhe conheciam, uma energia a virar febre que se pudesse contagiar, punha todas as pessoas lá na Ilha a tirar fotos. Porque tio Cerqueira não pretendia ser fotografado, não, o papel dele era o de demiurgo de criaturas fotografadas. Dispunha-se a plasmar e a imortalizar em suas máquinas a matéria bruta que lhe era oferecida pelos restantes mortais à volta. Conheceram-se-lhe várias caixinhas escuras que ele trazia penduradas a tiracolo, ia-as coleccionando à medida que aparecia uma mais sofisticada que a anterior. Para tanto lhe chegavam o ordenado de professor e as rendas de uns pastos que ainda possuía na ilha onde nascera, pois que o ser humano não deve viver só do trabalho e das responsabilidades da família. Talhar o destino dos filhos a golpes certeiros e decisivos com a iluminação e o despotismo de quem tudo sabe e tudo pode, nada esquecendo nem a vida da mulher nem a ingerência nos mais pequenos detalhes domésticos, no fim restando-lhe para si apenas o espaço ternurento que lhe merecia a fotografia e tudo o que lhe dissesse respeito, foi isso em última instância o sentido da vida de tio Cerqueira. Mas alto lá, não é justo fazer de tio Cerqueira um ser tão linear e tão espartilhado em previsibilidades, mesmo nas suas fantasias e preenchimento de ócios. Se bem me lembro agora, não eram só as máquinas fotográficas a preencherem-lhe os tais ócios, os tais despautérios ternurentos. De modo nenhum. Havia ainda os livros! Tinha estantes a abarrotar deles. A gente entrava-lhe em casa e deparava logo com prateleiras carregadinhas de livros até ao tecto. Mas aos livros reagiam as pessoas de uma maneira diferente. A maior parte apenas constatava a existência deles num respeito passivo, isento do alvoroço e do enleio que o momento de tirar uma foto provocava. Na fotografia era-se chamado a participar, a estar presente e a partilhar da expectativa de tio Cerqueira. Queriam ficar bonitos? E era a corrida aos retoques de embelezamento, ao mudar de roupa, aos novos penteados, aos pormenores de última hora que tão bem sabiam no colorir a modorra dos dias e dos deveres. Então as crianças nem se fala, era um delírio, um sobressalto feliz de que elas tiravam partido, iam fazer de conta e ficavam à espera do milagre que iria sair daquela caixinha mágica. Infelizmente os adultos muitas vezes tendiam a estragar tudo com aquela mania de Vê lá agora se te mexes, Olha sempre nesta direcção, Põe as mãos assim, Não precisas de arreganhar a boca desse modo até parece que não sabes rir, assim também não, Vê lá se te comportas senão. Mas ao fim e ao cabo, a festa teimava em perdurar para além dos beliscões mais ou menos disfarçados, e festa era aquele jorro de luz repentina a prometer sabe-se lá o quê e depois a surpresa que iriam ser os pequenos rectângulos de papel com as pessoas aprisionadas lá dentro e como que paradas no tempo. Dava gosto ver o mesmo que os outros viam de nós, avaliarmo-nos pelos olhos deles e a gente moldar-se àquela imagem, analisá-la, andar-lhe à volta e farejá-la, sopesar-lhe as virtudes e os defeitos para no fim chegar a conclusão nenhuma, isso era mesmo para os adultos que a maior parte das vezes eram acometidos de um riso nervoso ou desencantado, eles lá sabiam porquê, poses era com eles, não precisavam de dar beliscões a si próprios.
Mas não há dúvida que esta mania fotográfica de tio Cerqueira agradava a todos, pequenos e grandes, toda a família dela tirando partido e embora ele aparecesse ás vezes nos momentos menos oportunos ninguém ousava queixar-se, havia que aproveitar não fosse tio Cerqueira embatucar meses seguidos, nunca se sabia. Porque, como era do conhecimento de todos, havia sempre os livros em alternância. E os livros eram rivais de respeito. Oh se eram. Quando tio Cerqueira era aliciado pela febre da leitura. Descompunha no trato com tudo o que o rodeava, sendo que as crianças da escola muitas vezes pagavam pelo facto de ele ter de cumprir com elas obrigações que nesses momentos eram duras obrigações de angariação de sustento a afastarem-no do mundo apelativo dos livros. Isto para já não falar do clima que se gerava em casa, uma impaciência intransigente, um autoritarismo sem peias que ignorava quaisquer necessidades por mais óbvias que fossem e fulminava o mínimo descuido que pusesse em perigo a muralha de silêncio e de distanciamento atrás da qual se couraçava. Tornava-se irascível, tinha insónias e pesadelos e uma abordagem do mais insignificante assunto degenerava em conflito de dimensões portentosas, pelo que toda a gente lhe evitava o trato e a presença, nunca se sabendo o que de um momento para o outro poderia deflagrar de um ser assim entregue à cegueira de tal assanhamento. Nem o mais pequeno som dos dois pianos que tinha adquirido para os filhos. Nesses dias até a música lhe arrepiava os nervos, e não havia nada nem ninguém que o fizesse sair daquele estado em que automergulhava sem que se tivesse cumprido até ao fim o arrastar desses dias desprovidos de sentido.
Tia Laura tinha a igreja ali em frente de casa e ia todos os dias à missa matinal pedir auxílio divino, ela bem precisava de alento e forças capazes de suportar semelhante fardo. Prolongava as suas devoções que regava com lágrimas impossíveis de reter e era a imagem da resignação serena. Uma postura que lhe havia de merecer ainda em vida a designação de santa. E era-o, não por aturar a tio Cerqueira estas infâmias incríveis, que aí só se vitimizava ingloriamente, mas pela bondade dos seus actos mesmo com estranhos, pelo espírito de missão que fez dela uma professora exemplar e levou mais tarde o próprio ministério da educação a atribuir-lhe uma menção honrosa, sabendo nós como é difícil essas coisas acontecerem.
Os grandes períodos neuróticos de tio Cerqueira coincidiam geralmente com os dias de céu baço e depressivo em que as coisas pareciam lá na Ilha na eminência de serem esmagadas. As coisas e as pessoas, daí que estas acusassem o peso invisível que carregavam sobre os ombros dando-se o caso de tio Cerqueira procurar anular esse peso através da leitura, porém dificilmente o conseguindo como se viu.
Mas quando chegavam os dias de euforia fotográfica de tio Cerqueira, até a Tia Laura se permitia ver a vida através de umas lentes menos desalentadas e toda a casa se ajustava ao novo ritmo, a família reencontrada num longo suspiro de alívio.
Começavam então dias diferentes para toda a gente em todos os recantos da Ilha, os primeiros foguetes marcando essa diferença. E não só foguetes. Os sinos, também os sinos. Parece que se ouviam com mais frequência os sinos das igrejas dispersas por toda a Ilha, pelo menos o seu som tornava-se de repente mais audível e espalhava uma energia nova, vibrátil e melódica que tinha o efeito de, ao mesmo tempo que acordava em todos os seres vivos reminiscências felizes, esconjurar para longe o sentimento de abandono e de melancolia de que as nuvens eram feitas. As aves punham-se a experimentar as asas e ensaiavam voos ainda poucos arriscados rasando a água do mar, mas de longe pressentia-se-lhe a impaciência e o não adiar por muito mais tempo as viagens e os céus altos. É certo que havia a persistência do nevoeiro em certos dias. Mas o nevoeiro era um logro e tinha os dias contados.

(...continua)
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tiririca
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Re: Fotografia

Mensagempor tiririca » 23 ago 2008, 21:41

(... continuação...)

Os primeiros a rirem-se dele eram ainda as aves quando ousavam voos mais largos e lhe debicavam farrapos passando o nevoeiro a apresentar-se furado em vários sítios, inconsistente e desmistificado, gradualmente despojado do poder de impor limites. O riso das aves garganteava então um divertimento tão alegre e tão cristalino que os outros seres vivos eram obrigados a despojarem-se do ensimesmamento de ilhéus tristes e conformados e a partilharem também da leveza que era viver, mesmo sem ser pássaro.
As fotografias desse tempo devolvem-me a imagem de uma criança ora alegre ora pensativa, os olhos expectantes da máquina de tio Cerqueira e do clarão mágico que iria concretizar a magia. As fitas no cabelo iam desaparecendo, eu começava a imitar os penteados à adulta mas continuava a usar abundância de folhos e rendas nos vestidinhos que amorosamente vovó Leocádia ia arranjando para mim. Ela tinha uma habilidade de fada ao transformar em coisas vaporosas e lindas os mamarrachos desprovidos de graça que nos chegavam da América em grandes sacas acocoladas. Também gradualmente foram desaparecendo bonecas, eu brincava com elas às escondidas mas insistia, isso sim, em aparecer aos olhos do mundo cada vez mais próxima do meu irmão que era mais velho sete anos e rivalizava com vovó na transbordância de afecto que me inundava. Incomparável, o meu irmão Rui. Tudo o que ele dissesse ou fizesse merecia a minha aprovação incondicional. Ensinava-me a comer lapas com a concha de outra lapa vazia como eu via os grandes fazer, a arriscar o pino e a subir árvores sem medo ou sem me sentir Maria-rapaz, e outros truques entre os quais ensinar-me a virar o capucho aos polvos, assim eu podia ir nadar para os lugares mais fundos da Poça do Frade onde eles costumavam aparecer e tratar-lhes da saúde como muito bem mereciam. O que eu lastimava as outras mocinhas da minha idade que não tinham um irmão destes. Sim, revejo-me muitíssimo nas fotos daquele tempo. Uma catraia alegre com olhos de verruma, no dizer do próprio tio Cerqueira, em contínuo sopesamento de análise às pessoas e aos seus actos, não fosse elas não estar a sério. Nunca se podiam tomar muito à letra as pessoas, era preciso estar sempre a dar-lhe e devido desconto, oh se era. Só assim se explica que mesmo naquele momento crucial da minha curta existência não me deixasse sucumbir ao peso das lágrimas e da compaixão da vizinhança, à minha volta a ciciar numa meia voz que eu ouvia na perfeição:
- Coitadinha, mais lhe valia ter morrido também.
Sempre achei, ou tinha achado até ali, exagerados os dramatismos dos adultos, o fatalismo de desgraça que lhe escorria das mãos e da voz, o conformismo e a aceitação em uníssono, o cruzar das mãos resignadas, o lenço e o xaile com que embiocavam a cabeça e se embiocavam da vida. Distanciava-me destas manifestações e refugiava-me na minha estranheza de criança para quem o mundo era um lugar de intrigantes descobertas às quais não se devia dar tréguas pois que todas suscitavam um porquê bem sonoro ao qual os adultos infelizmente nem sempre estavam à altura de responder, isso ia eu constatando desconsolada. Como no caso da Salve Rainha. Por que razão se haveria de dizer na invocação à Virgem: Salve, Rainha, a Vós bradamos os degredados filhos de Eva gemendo e chorando neste vale de lágrimas? Não, não achava mesmo nada que este mundo fosse um vale de lágrimas. Que disparate. E não se devia dizer disparates à Virgem. Pois. Mas tudo o que me conseguiram dizer depois de alguns suspiros compadecidos foi: É mesmo um vale de lágrimas este mundo, minha filha, tu ainda és muito nova para perceber, deixa passar o tempo e verás.
Pois bem, estas manifestações sempre tinham chocado com a inabalável resistência do meu optimismo e da minha credulidade encantada. Porque eles ainda tinham acrescentado que o mundo era um lugar de degredo. Vivíamos degredados, o que queria dizer desterrados. Tínhamos sido expulsos do Paraíso terrestre e agora estávamos a pagá-las. E explicaram-me que expiávamos a culpa de Eva, a mulher companheira de Adão que o levou a comer o fruto proibido. E lá vinha a história da maçã e da serpente:
- Então era uma mulher má, dizia eu, coitado do Adão, não deviam tê-lo posto na companhia de uma mulher assim, e todas as mulheres são más, mãe?
- As coisas que esta criança diz, não, não são, Jesualda, a Virgem Maria veio redimir a nossa culpa, ela reabilitou-nos aos olhos de Deus, ou tu não sabes que Ele nasceu de uma mulher?
- Ainda bem, então está tudo bem – e respirava fundo.
Sendo eu um pedacito de mulher, gostava de me sentir reconciliada com o mundo. A verdade é que esta culpa, este pecado da primeira mulher e as suas consequências me impressionavam bastante e não era coisa de que eu me libertasse facilmente. O que eu continuava a achar era que Deus não devia ter colocado ao lado de Adão uma mulher assim fraca, capaz de comprometer o destino das outras que não o são, ou então ao menos devia ter escolhido um outro Adão, um que fosse um homem de verdade, forte e nada dado a tentações. Como os homens são, ou eu pensava que deveriam ser. Pois. Tudo escorreito e linear como os meus olhos de menina viam o mundo naquele tempo. E até àquela data eu sempre me tinha abstido de pactuar com o exagero dos adultos cujo sentido me escapava. Até aquela data, digo bem, pois nada naquele momento, imersa como estava no clima de desgraça à minha volta, já a limpidez das minhas certezas me abandonavam por largos lapsos de tempo e eu sentia-me uma pobre coisinha à deriva a afundar-se sem eira nem beira. A instabilidade do solo que me reduzira àquele estado parecia então contagiar tudo em meu redor. Nada seguro ou de confiança, nada que me oferecesse segurança e certezas, bem que as queria agarrar mas elas fugiam-me, nada fazer. Se vos disser que é terrível a impotência de uma criança, não me critiquem por estar a cair no tal dramatismo adulto de que eu me distanciava. Era de facto terrível, e o serzinho pálido e assustado em que eu me estava a transformar deixava-me submergir no cómodo da protecção dos que me rodeavam, completamente despojado da inata inclinação para os porquês, sentia sem que mo dissessem por palavras que não haveria nunca nenhuma resposta que satisfizesse cabalmente o incrível da situação que eu vivia.................

Maria Luísa Soares
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Re: Fotografia

Mensagempor alma » 25 ago 2008, 21:51

Hoje tenho saudades de mim... :))

Imagem

Sinto saudade do que não vivi...
Saudade dos sonhos, que não realizei
Do “Lago dos Cisnes” que nunca dancei
Daquele palco iluminado, em que nunca pisei
Das “Piruetas” dos passos, que eu não ensaiei
Das sapatilhas de ponta, que não as usei
Confortáveis ou não; não as experimentei...
Tenho saudades da “flor de lis”
Do sino a tocar na Igreja Matriz
Das baladas, das noites, que não freqüentei
Das saídas em grupo, em que me recusei
Da total liberdade, que nunca provei
Do que deixei de aprender, e até hoje não sei
Saudade de ti, que não conheci
Do teu cheiro de homem, que eu nunca senti
Do amor que eu dei e não recebi
Do fruto “pecado” que eu nunca comi
Sinto saudades do que eu não vivi...
Saudade de mim, saudade de ti
Saudades eu guardo, mas nunca te vi
Saudades de um mundo, que eu não escolhi
Saudade dos livros, que eu tive e não li
Das cartas de amor, que não recebi
Saudade do riso, que nunca sorri.

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Re: Fotografia

Mensagempor alma » 25 ago 2008, 22:46

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Quantas vezes vais olhar para trás

estás presa a um passado que pesou

Quantas vezes vais ser tu capaz

fazer sair quem por engano entrou

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Pedro Bala
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Re: Fotografia

Mensagempor Pedro Bala » 26 ago 2008, 12:47

Belos poemas, alma, apesar de muito sofridos.
Fazem lembrar aquele do Pessoa: O poeta é um fingidor...
Deus te dê o dobro daquilo que me desejas.

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Re: Fotografia

Mensagempor alma » 26 ago 2008, 15:25

Imagem

;)
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

De Fernando Pessoa


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