Pratica feita á missa do dia pelo muito reverendo prior de..

Avatar do Utilizador
Fulano_de_tal
Mensagens: 854
Registado: 02 ago 2008, 22:33
Força ou serviço: Polícia de Segurança Pública

Pratica feita á missa do dia pelo muito reverendo prior de..

Mensagempor Fulano_de_tal » 01 abr 2015, 10:09

Pratica feita á missa do dia pelo muito reverendo prior de...*

«_Deus dixit Petro ubi sunt oves meæ;
nescio, respondit autem Petrus_»


Deus disse a Pedro «que é das minhas ovelhas?» e Pedro respondeu «eu não
sei d'ellas.»

Que bondade, que prudencia, que sabedoria, meus queridos irmãos, não
devemos nós admirar em Pedro; que, mesmo no momento em que seu Divino
Mestre lhe pergunta, onde estão as minhas ovelhas; responde com toda a
delicadeza que não sabe d'ellas, porque essas ovelhas não estavam em
estado de apparecerem perante o seu Senhor. Asneiras, meus caros ouvintes,
eu não tinha esse genio, não sou mentiroso nem falso, não tenho papas na
lingua, e se o Mestre me pergutasse, como a Pedro, onde estão as minhas
ovelhas, eu logo lhe dizia sem mais cerimonia, foram pastar para casa do
diabo, Senhor.

E com effeito, se Elle tivesse vindo hontem á noite perguntar-me pelas
minhas ovelhas, que lhe havia eu de responder?

Elle que recommenda tanto no seu Evangelho, que as ovelhas se conservem
sempre separadas dos competentes bodes, o que teria Elle dito se visse
essas mesmas ovelhas misturadas com os bodes, saltando uns em cima dos
outros, e a fazerem gaifonas ao seu pastor!

Sim, amados irmãos, foi grande a balburdia, e ao aspecto de tal desordem,
o amor pelo meu rebanho animou-se de um santo zelo e ardendo em fogo,
corri de cajado na mão, para arrancar as minhas innocentes ovelhas das
dentuças dos lobos encarniçados. Mas, ó dôr, ó desdita, ó patifaria! as
minhas ricas ovelhinhas já não escutam a minha voz; já penetradas pelos
agudos dardos d'aquelles diabos e inundadas pelos seus liquidos venenosos
e seductores, estavam indoceis e levadas da breca. O meu cajado, outr'ora
tão poderoso, não póde juntar senão um pequeno numero, que trago para o
meu curral, onde as hei de ter fechadas e guardadas até que deem os
fructos do seu arrependimento.

Mas vós, amados ouvintes, vós, os que fostes fieis, lamentae a desgraça de
vossos irmãos; comportae-vos sempre bem, e tomae para exemplo esses
grandes santos da antiguidade; menos um tal santo Agostinho, que, segundo
dizem, foi um grande pandigo, quando moço, e é por esse motivo que eu
nunca vos fallo d'elle.

Fallemos antes d'aquelle santo Chrisologo, que diz que um cura é um sol, e
os seus freguezes são uns átomos. Mas eu não sei que diabo de átomos vocês
são! não me pagam a congrua, querem que os case de graça e ainda em cima
dizem: «ora, estamos nas malvas para o _seu_ padre cura, elle não tem
filhos para sustentar!» Vocês sabem la disso? Não sabem que nós outros
padres, temos mais trabalho em os esconder, do que vocês em os fazer?...

Mas voltando á vacca fria, pensemos na vossa conversão, se ella é
possivel.

Julgo que a melhor maneira de o conseguir é fallando-vos das maroteiras
que se fazem na freguezia.

Por exemplo: o João da Canhota, regedor, sae á noite e se ha de vir ao
sermão, vai-se metter em casa da Felicia do Frade, e não sae de lá senão
de madrugada. Diz que vae tomar chá, mas imaginem os ouvintes que
qualidade de chá elle não tomará...

Aqui não ha senão desordem e immoralidade. Immoralidade nos velhos,
immoralidade nos moços, immoralidade nos grandes, immoralidade nos
pequenos.

Digo immoralidade nos velhos, porque esses velhos, raça damnada de Caim,
depois de haverem passado toda a vida... em patuscadas e pandigas, ainda
mesmo arrumados ao bordão e de cabeça calva, se vão metter em logares
suspeitos! Infames velhos de Suzana! quando é que lhes acabarão as furias
carnaes e burriçaes?

Immoralidade nos moços. Os rapazes e as raparigas andam por essas ruas aos
beijos e abraços, cantando cantigas indecentes e immoraes; ainda eu hontem
ouvi a filha do Thomaz da Horta e o filho do Ignacio do Dente a cantarem o
Pirolito que bate que bate! Ora não ha maior pouca vergonha, uns fedelhos
que ainda cheiram a coeiros e já sabem o que isto quer dizer!

Immoralidade nos grandes. Esses mariolões e essas mocetonas que vão todos
os dias para o matto, sob pretexto de que vão buscar lenha, e por fim
fazem por lá couzas do arco da velha... Lenha no forno queriam ellas,
malditas!

E quando vão aos figos! O que acontece?

As raparigas sobem para cima das arvores e os mariolões ficam em baixo, a
olhar para cima e a dizer: Olha Antonia vejo-te os calcanhares, e as
pernas, e os joelhos, e o...

Ponham cobro a este escandal-o, amados irmãos, são couzas que se não devem
ver senão em certas occasiões. Eu não pego aos rapazes e ás raparigas que
vão ao matto e comam por lá o seu figuinho e mesmo que subam ás figueiras,
mas para evitar indecencias, as raparigas fiquem debaixo e os rapazes que
lhes vão acima.

Immoralidade nos pequenos. Essa gaiatada miuda que anda todos os dias a
correr pelo adro cá da freguezia, onde estão as campas dos nossos
antepassados, e que depois vão fazer as suas necessidades mesmo á porta da
sachristia. Se não teem respeito pelos mortos, tenham ao menos compaixão
pelos vivos, não póde uma pessoa entrar na egreja pela porta de traz sem
ficar a bem dizer atolado até o nariz. Já disse ao sr. regedor da
freguezia que pozesse mão n'estas cousas, mas por ora continúa a mesma
marmelada á porta da sachristia.

Tambem é digno de reprehensão o comportamento d'essas mulheres casadas,
que sem nenhuma consideração pelos seus maridos, se levantam do leito
conjugal de madrugada, sob pretexto de levarem o gado ao campo, e depois
de andarem lá por fóra a laurear, em pernas, recolhem-se para casa frias
de neve, e vão-se outra vez metter na cama com os maridos e arripial-os
sem piedade! Pobres homens! Se fosse comigo, que coça que ellas não
levavam...

Tambem ha certa moça cá na freguezia, que eu trago d'olho ha dias, cá por
certa cousa. Eu devia já dizer quem é, mas emfim por hoje limitar-me-hei
só a mettel-a na sachristia e arrumar-lhe um lembrete... domingo direi
quem é, se não tomar juizo... por agora saibam unicamente que é a unica na
freguezia que usa ligas encarnadas... (_Pausa, rumor na egreja._)

Domingo, de hoje a oito dias, me alargarei mais sobre os homens, coçarei
as mulheres casadas, e caírei em cima das solteiras, se não tomarem juizo
d'aqui até lá.

Sendo hoje dia de festa e estando a chuver far-se-ha a procissão só por
baixo da egreja, pois eu não estou para apanhar alguma porrada d'agua. Não
precisa vir toda a gente a ella, basta que de cada familia venha um varão.

A proposito de procissão, tenho a dizer-vos, amados ouvintes, que os
santos cá da freguezia vão estando muito chimfrins. Eu não dava tres
vintens por elles. O São Miguel é que está assim mais direitinho, mas o
diabo que está por baixo já não tem cornos; pois olhem, não ha na
freguezia poucos homens ricos no caso de lh'os darem. O calvario tambem
não está mau; todos os instrumentos da paixão estão em bom estado,
falta-lhe só o gallo, mas a isso não direi nada, porque ha poucos na
freguezia e as gallinhas precisam d'elles: no entanto se houver por ahi
alguma dona de casa que tenha dois, que me mande para cá um.

Esta semana não ha jejum, podem comer tudo quanto quizerem e bebam-lhe
melhor; ha só a bemaventurada santa rainha, que cura a tinha; é quinta
feira, sexta feira ha feira e domingo é a festa de São Simão e São Judas.
Tambem, não sei quem foi o diabo do animal que se lembrou de pôr Judas no
calendario. Juro-vos, amados ouvintes, que se não fosse domingo não lhe
fazia festa, era o que merecia o senhor S. Simão por caír na asneira de se
ir metter com similhante tratante.

Mas acabemos com esta maçada.

Ó _seu Zé_, accenda os sinos e mande tocar as vellas, accenda a agua benta
e bote agua no thuribulo... não, enganei-me, faça o contrario de tudo
isto.

No entretanto façamos as nossas costumadas e ordinarias orações.

Oremos pela conservação da nossa bemaventurada mãe catholica, apostolica e
romana; pela _estripação_ da _cisma_ e abaixamento da hydropisia; oremos
tambem pelos ricassos cá da freguezia, a fim de que Deus os mantenha na
sua honesta pobreza; pois se fossem mais ricos punham-nos o pé no pescoço.
Oremos pelos ausentes e pelos viajantes, afim de se deixarem por lá estar,
se estão bem; oremos pelo feliz successo das mulheres pejadas, afim de que
Deus lhes faça a mercê de largarem o fructo com a mesma facilidade e
doçura com que o comeram. Oremos, n'uma palavra, pela conservação dos bens
da terra, como salada, couves, batatas, pepinos e tomates, e pela
extincção dos seus males, como formigas, lagartos, ortigas, pulgões e
ratazanas... etc.
------------------
Everyone has a right to be stupid once in awhile. Yet some just abuse the privilege.
------------------
https://www.tovarich.net

Voltar para “FÓRUM 11 - GENÉRICO E UNIVERSAL”

Quem está ligado:

Utilizadores neste fórum: CommonCrawl e 0 visitante