Conceituosa parabola das moscas e das mazelas

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Nemo_
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Conceituosa parabola das moscas e das mazelas

Mensagempor Nemo_ » 03 jun 2007 15:48

Mas, perdão--antes de encetarmos este assumpto, uma pequena historia:

Era uma vez um velho burro. Fora madraço e manhoso. Não conquistára
amigos porque os não merecia. Tinham-o lançado á margem no fim da vida.
Principiou a viver ao acaso, pelos montes. Um dia achava-se defronte de
um vallado, estacado ao sol sobre as suas quatro patas, inerte, immovel,
olhando para um cardo secco com os seus grandes olhos redondos e
encovados em orbitas esqueleticas, pensando nas vicissitudes da vida e
procurando arrancar do seu cerebro, para se consolar, algumas idéas
philosophicas.

Passou por elle e deteve-se a contemplal-o um joven asno, no viço das
illusões, cheio de amor e de zurros, de alegria e de coices. A vetusta
ossada angulosa do ancião parecia furar-lhe a pelle resequída e aspera.
Um espesso enxame de moscas cobria-lhe as mataduras do lombo e dava-lhe
o aspecto de ter um albardão feito de zumbidos e d'asas sobre um fundo
de missangas pretas e palpitantes,--coisa rabujosa á vista.

--Sacode esse mosqueiro, disse-lhe o burro novo. Dar-se-ha o caso de
que, á similhança do homem, deixasses tambem tu atrophiar o precioso
musculo que ahi tens na face para por meio d'elle abanares a orelha e
moveres a pelle?... Sacode-te, bestiaga!

Ao que o lazarento, pausado, retorquiu:

--Não sabes o que zurras, joven temerario! O destino de quem tem maselas
é que o mosqueiro o cubra. As moscas que tu vês, e de que o meu cerro é
a estalagem com mesa redonda, são moscas fartas, teem a mansidão
abundante dos estomagos cheios. Se eu as sacudisse, viriam outras,--as
famintas, de ferrões gulosos, que zinem como frechas, pousam como
causticos, mordem como furunculos. As que tu vês prestam-me um serviço
impagavel:--livram-me das que podem vir; são o meu xairel benigno e
suave, o meu arnez, a minha couraça. Quando te chegar a idade de seres
pasto de moscas (e breve te soará essa hora porque a mocidade é, como a
herva, uma ephemera transição entre o alfobre da meninice e a palha da
edade madura); quando te chegar o teu dia, lembra-te, asninho
imprudente, d'este conselho amigo de um burro velho, que não aprende
linguas, mas que tem a experiencia que vale tanto como o ouro: Nunca
sacudas mosca desde que creares masela! Teme-te dos papos vasios das
revoadas novas. Papos cheios não só não mordem mas até empacham!
Comprehendeste, burrinho, a philosophia da minha inercia?


In revista "farpas" R.ortigao Eça de queiros.
CHRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES
Ver só com os olhos é fácil e vão
Por dentro das coisas é que as coisas são

arnaldo anastácio_

Re: Conceituosa parabola das moscas e das mazelas

Mensagempor arnaldo anastácio_ » 03 jun 2007 17:50

Amigo Nemo.

Vejo, com sincero agrado, que temos algo em comum. Ambos gostamos de ler e de dar a conhecer as obras de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão.

Se o primeiro – Eça de Queirós -, é sobejamente conhecido, antes de mais por ser um autor de estudo obrigatório no ensino secundário, já o segundo – Ramalho Ortigão -, muito poucos sabem quem foi e o que escreveu. Lamento por eles, pois não sabem o que perdem.

Aproveitando este seu tema, tomo a liberdade de colocar alguma informação sobre este meu conterrâneo e, para muitos, um ilustre desconhecido, com o intuito de lhe aguçar a curiosidade e, quiçá, descobrirem mais um génio da Literatura Portuguesa.

Já agora, a talhe de foice, quando puderem leiam a obra “O Mistério da Estrada de Sintra”, escrito por Eça de Queirós com a colaboração de Ramalho Ortigão.

Boa leitura

Arnaldo Anastácio


Ramalho Ortigão foi como o seu mestre Garrett, um dandi e, simultaneamente, um reformador.
Afirma Magalhães Basto que, como Garrett na primeira metade do século XIX, Ramalho Ortigão terá sido o principal "autor" daquilo que classifica de "as admiráveis renovações literárias e estéticas operadas em Portugal' na segunda metade do século. Há provavelmente por aqui algum excessivo entusiasmo, mas é certo que o autor de "A Holanda" foi, sobretudo, um persistente pedagogo da sociedade portuguesa a quem, ao longo das quase duas décadas de "As Farpas", quis "ensinar" quase tudo, dos hábitos de higiene à teoria da arte, da filosofia à moral, da história à indústria e à arqueologia.
Como Garrett, Ramalho Ortigão nasceu no Porto (em 24 de Novembro de 1836), mas viveu a maior parte da sua vida em Lisboa, onde morreu (em 1915, quase com 80 anos). E a comparação com Garrett vem, ao menos como mera curiosidade, a propósito, já que o próprio Ramalho expressamente ligou o seu destino à leitura de "Viagens na Minha Terra": "Tive na puberdade - escreve ele - uma febre escarlatina, e foi na convalescença dessa enfermidade que minha mãe me deu a ler um livro de Garrett, as "Viagens na Minha Terra". Ficou-me de cor, penetrou-me inteiramente, entrou-me, para assim dizer, na composição do cérebro e na massa do sangue esse livro (...) Desde esse dia - agora o compreendo bem - o meu destino estava fixado. Bom ou mau, eu tinha de ser fatalmente um escritor".
Filho de um professor e director do desaparecido Colégio da Lapa, José Duarte Ramalho Ortigão viveu no Porto até depois dos 30 anos de idade. Ricardo Jorge, de quem ele foi professor de Francês no mesmo Colégio da Lapa, descreve assim a sua "ramalhal figura" (o epíteto é de Eça): "Estou a ver-lhe o corpanzil, alto, espadaúdo e desempenado, caminhando de cabeça erguida, passada lesta e meneio rasgado (...), a alegria encadernada a primor da moda: figura de bigode e patilhas à Segundo Império, coroado de um chapéu de pano pespontado, a projectar-se -na altiva gorjeira do colarinho à mamã; gravata escocesa de ponta larga; jaquetão trespassado de ratina azul; calças justas de listra larga na ourela, e botão na boca, butes com biqueira quadrada de coiro da Rússia, bengala de cana branca, com castão de muleta de marfim." Em resumo, um dandi. Como também Garrett...
A vocação de reformador de Ramalho Ortigão é, no entanto, tardia. No Porto, onde foi jornalista da secção do noticiário e do folhetim do "Jornal do Porto", pensava e escrevia tão conservadora e tão educadamente como vestia. Diz Eça que ele detestava então a Democracia "porque lhe supunha caspa" e que "achava a religião um acessório indispensável num homem bem-educado". Escrevia num estilo "vernáculo, quinhentista, arcaico, obsoleto", exprimindo "ideias de dandi em prosa de frade". Tomou, como não podia deixar de ser, o partido de Castilho na "Questão Coimbrã" e, em defesa da honra "ofendida" deste, chamou Antero de Quental de covarde e bateu-se com ele num furioso duelo no jardim da Arca de Água.
Foi em Lisboa, onde se empregou como funcionário da secretaria da Academia das Ciências, que conheceu Eça de Queirós, passando a frequentar o seu grupo e a colaborar em numerosos periódicos, que Ramalho, aos poucos, se converteu num rebelde e num "insurrecto". Leu os positivistas, os sociólogos, os divulgadores de ciência... Em 1870, iniciou, com Eça, a publicação de "As Farpas", "crónica mensal de política, de letras e de costumes" de que o autor de "Os Maias" se viria a afastar, no entanto, dois anos depois. A partir de então, a redacção de "As Farpas", que saíram até 1888, ficou exclusivamente entregue a Ramalho. O seu destino de escritor, descoberto na convalescença daquela adolescente escarlatina, consumar-se-ia sobretudo em "As Farpas".
Ramalho Ortigão está sepultado no cemitério da Lapa, ao lado do local onde existiu o velho Colégio que foi, no Porto, o centro da sua vida social e profissional.
"As Farpas" escreva Eça que, mais do ter sido Ramalho a fazer "As Farpas", foram as "As Farpas" que foram fazendo Ramalho. Com efeito, os famosos fascículos, inspirados nas "Guêpes", de Alphonse Karr, evoluíram, ao longo dos anos de publicação, do inicial tom de sátira irónica para a pedagogia crítica e a doutrinação, e do estilo pícaro, demolidor "dos barões, dos 'brasileiros' e dos dinheirosos", para a gravidade professoral. Ao longo dos anos de "As Farpas" (reeditadas mais tarde, de 1887 a 1891, de forma sistemática, em volumes organizados de acordo com a natureza dos temas tratados), Ramalho assumiu, de facto, uma espécie de magistério sobre a mentalidade portuguesa do seu tempo, dando conselho, criticando costumes, fazendo crítica de arte e crítica literária, expondo os princípios das filosofias de Comte, Taine e Proudhon, patrocinando uma pedagogia e uma moral laicas, revalorizando a história e as tradições populares portuguesas, tudo numa prosa sempre rica e colorida, de amplos ritmos e expressão castiça e classicizante. Obra que condensa todas as contradições e inquietações finisseculares, "As Farpas" são, além do testemunho de uma época, o testemunho de um escritor a vários títulos notável.

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Re: Conceituosa parabola das moscas e das mazelas

Mensagempor Pedro Bala » 03 jun 2007 20:27

Sim, senhor! Estou agradavelmente surpreendido por saber que na nossa Polícia há alguns leitores e admiradores da famosa geração de 70. Muito bem! Felicito-vos pelo bom gosto.

Também li As Farpas, que estão tão actuais. É, sem dúvida, leitura recomendada.

Mas o que mais me agrada – digo-o do coração – é saber que há polícias que gostam de ler. E como quem lê tem de pensar e meditar, mesmo não os conhecendo, arriscaria afirmar estar-mos na presença de bons profissionais. E isso é óptimo para todos.

Continuem assim.
Deus te dê o dobro daquilo que me desejas.

arnaldo anastácio_

Re: Conceituosa parabola das moscas e das mazelas

Mensagempor arnaldo anastácio_ » 04 jun 2007 16:26

Amigo Sultão

Como escreveu o : «… muito mais é o que nos une do que o que nos separa…»

Um abraço e boa leitura.

Arnaldo Anastácio

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Re: Conceituosa parabola das moscas e das mazelas

Mensagempor Nemo_ » 04 jun 2007 17:49

O ler,para mim,tem coisas boas, e mais outras más, mas se por exemplo degusto um texto do Eça ou do Camilo, como um supremo manjar, dou comigo a apreciar, as virgulas, pausas, como que se de uma sinfonia musical se tratasse.
No entanto ha outros, -de entre a especie- que ao escrever causam dano e sao periogosos, sao eles, -os poetas,- (nao vos aconselho) porque dizem que as, pedras,os rios, e as flores tem alma. E eu que, sou policia, sem manhas, investiguei. Mentira, as pedras, os rios, e as flores, se tivessem alma seriam gente.
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