O ETERNO RETORNO

arnaldo anastácio_

O ETERNO RETORNO

Mensagempor arnaldo anastácio_ » 04 jun 2007, 20:28

Sei que este texto vai deleitar o Nemo e o Sultão.
Decorrido mais de um século, é impressionante como nada (ou quase nada) mudou e como se mantém actual.
Será que explica o continuarmos, cada vez mais, na cauda da Europa?!
Ou será o mito do eterno retorno Nietzschiano?!

Um abraço e boa leitura.

Arnaldo Anastácio

«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias. Sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional. Reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (...) Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na politica portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro (...) Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do pais, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre, - como da roda duma lotaria. A justiça ao arbítrio da Politica, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas; Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, - de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)»

Guerra Junqueiro, in "Pátria", escrito em 1896.

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Nemo_
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Re: O ETERNO RETORNO

Mensagempor Nemo_ » 04 jun 2007, 21:40

"Lestes a historia do sabio burro ? Eu
sou esse burro. Vós sois a revoada das novas moscas pretendendo
expulsar a revoada velha. Ora, moscas por moscas--sendo meu destino que
ellas sempre me cubram e me comam--prefiro as antigas moscas saciadas ás
novas moscas famintas."
Globalizaçoes, e neoliberais :))
Ver só com os olhos é fácil e vão
Por dentro das coisas é que as coisas são

arnaldo anastácio_

Re: O ETERNO RETORNO

Mensagempor arnaldo anastácio_ » 05 jun 2007, 07:31

Amigo Nemo

Há quatro espécies de homens:

O que não sabe e não sabe que não sabe: é tolo, EVITA-O;

O que não sabe e sabe que não sabe: é simples, ENSINA-O;

O que sabe e não sabe que sabe: ele dorme, ACORDA-O;

O que sabe e sabe que sabe: é sábio, SEGUE-O.


Pausa para reflexão...


De uma coisa tenho a certeza, é que atrás de si não vou.


Boa leitura.

Arnaldo Anastácio

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Pedro Bala
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Re: O ETERNO RETORNO

Mensagempor Pedro Bala » 18 ago 2007, 12:47

POEMA DO ETERNO RETORNO

Se não houvesse mais nada
(mesmo mais nada)
senão átomos,
se a mesma causa desse sempre o mesmo efeito
e para cada efeito houvesse sempre a mesma causa
então o meu salgueiro
havia um dia de ressuscitar.

Se não houvesse mais nada
(mesmo mais nada)
senão átomos,
e eu próprio,
na efeméride eternamente repetida
deste momento de agora,
tornaria a rever o meu salgueriro.

Se não houvesse mais nada
(mesmo mais nada)
senão átomos,
os milhões de milhões de milhões de átomos
que compõem os milhões de milhões de milhões de galáxias
dispostos de milhões de milhões de milhões de maneiras diferentes,
teriam forçosamente de repetir,
daqui a milhões de milhões de milhões de séculos,
exactíssimamente a mesma disposição que agora têm

E então,
nesse dia infinitamente longínquo mas infinitamente próximo,
eu, fulano de tal,
filho legítimo de Fulano de tal e de Dona Fulana de Tal,
nascido e baptizado na freguesia de Tal,
a tantos de Tal,
neto paterno de Fulanos de Tal,
e materno de Tal e Tal,
etc. e tal,
se não houvesse mais nada
(mesmo mais nada)
senão átomos,
encontrar-me-ia no mesmo ponto do mesmo Universo
a olhar parvamente para o meu salgueiro.

Isto, é claro,
se não houvesse mais nada
(mesmo mais nada)
Senão átomos.

António Gedeão
Deus te dê o dobro daquilo que me desejas.


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