FERNANDO PESSOA

Avatar do Utilizador
matahary
Mensagens: 2623
Registado: 13 fev 2004, 13:20
Localização: Além do Tejo

FERNANDO PESSOA

Mensagempor matahary » 15 jun 2007, 01:58

"Não toquemos na vida nem com as pontas dos dedos.
Não amemos nem com o pensamento.
Que nenhum beijo de mulher, nem mesmo em sonhos, seja uma sensação nossa.

Seja a expressão do nosso rosto um sorriso pálido, como de alguém que vai chorar, um olhar vago, como de alguém que não quer ver, um desdém esparso por todas as feições, como o de alguém que despreza a vida e a vive apenas para ter que desprezar."
"Satisfaça-se com o que lhe agrada, e deixe os outros falarem de si como lhes agrada." - Pitágoras

Uma por dia, tira a azia.

Matisyahu - One Day ^.^ Aurea - Busy for Me

arnaldo anastácio_

Re: FERNANDO PESSOA

Mensagempor arnaldo anastácio_ » 15 jun 2007, 07:37

O mesmo autor, o mesmo génio, a mesma simplicidade e a mesma paz...

Boa leitura.

Arnaldo Anastácio


«Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlaçemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.»

Avatar do Utilizador
Pedro Bala
Mensagens: 1260
Registado: 13 jan 2006, 22:51
Força ou serviço: Polícia de Segurança Pública
Categoria: Agente
Localização: Algures, por aí...

Re: FERNANDO PESSOA

Mensagempor Pedro Bala » 15 jun 2007, 11:52

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa
Deus te dê o dobro daquilo que me desejas.

arnaldo anastácio_

Re: FERNANDO PESSOA

Mensagempor arnaldo anastácio_ » 15 jun 2007, 12:11

Meu coração tardou

Meu coração tardou. Meu coração
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.

Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.

Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem.

Fernando Pessoa

Avatar do Utilizador
calçada
Mensagens: 49
Registado: 18 fev 2004, 15:06
Força ou serviço: Polícia de Segurança Pública
Localização: Lx

Re: FERNANDO PESSOA

Mensagempor calçada » 15 jun 2007, 13:48

Poesias Coligidas (Fernando Pessoa)

"Outros terão um lar, quem saiba, amor...
Ah quanta melancolia...
Minha mulher, a solidão...
Por quem foi que me trocaram...
Cai chuva do céu cinzento...
Eu amo tudo o que foi...
As nuvens são sombrias...
Uma maior solidão lentamente se aproxima...
Chove. Que fiz eu da vida? Fiz o que ela fez de mim...
A Lua (dizem os ingleses) é feita de queijo verde...
Eu tenho idéias e razões...
Aquele peso em mim...
Basta pensar em sentir para sentir em pensar...
Como nuvens pelo céu passam os sonhos por mim...
Minhas mesmas emoções...
Que suave é o ar! Como parece que tudo...
Tenho esperança? Não tenho...
Como é por dentro outra pessoa...
A ciência, a ciência. a ciência...
Tudo quanto penso, tudo quanto sou..."
Calçada
Que Deus me proteja dos meus amigos. Dos inimigos, cuido eu (Voltaire)

Avatar do Utilizador
calçada
Mensagens: 49
Registado: 18 fev 2004, 15:06
Força ou serviço: Polícia de Segurança Pública
Localização: Lx

Re: FERNANDO PESSOA

Mensagempor calçada » 15 jun 2007, 13:55

Ficçoes do Interludio (Fernando Pessoa)

"Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não."
"Só uma grande intuição pode ser bússola nos descampados da alma; só com um sentido que usa da inteligência, mas se não assemelha a ela, embora nisto com ela se funda, se pode distinguir estas figuras de sonho na sua realidade de uma a outra."

Poemas de Alberto Caeiro:
O meu olhar é nítido como um girassol...
Pensar em Deus é desobederecer a Deus
Num meio-dia de fim de primavera tive um sonho....
Sou um guardador de rebanhos...
Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois...
Se eu morrer novo, sem poder publicar livro nenhum...
Assim como falham as palavras quando querem exprimir...
Pouco me importa...

Odes de Ricardo Reis:
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio...
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia tinha...
Segue o teu destino, rega as tuas plantas...
Tão cedo passa tudo quanto passa...
Para ser grande, sê inteiro...

Poesias de Álvaro de Campos:
Passagem das horas: Trago dentro do meu coração...
Tabacaria: Não sou nada, nunca serei nada...
Apontamento: A minha alma partiu-se como um vaso vazio...
Aniversário: No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Magnificat: Quando é que passará esta noite interna...
Todas as cartas de amor são ridículas...
O Binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo...
Poema em linha reta: nunca conheci quem tivesse levado porrada...
Calçada

Que Deus me proteja dos meus amigos. Dos inimigos, cuido eu (Voltaire)

Avatar do Utilizador
calçada
Mensagens: 49
Registado: 18 fev 2004, 15:06
Força ou serviço: Polícia de Segurança Pública
Localização: Lx

Re: FERNANDO PESSOA

Mensagempor calçada » 15 jun 2007, 14:05

O Guardador de Rebanhos (Alberto Caeiro)
Não tem Permissão para ver os ficheiros anexados nesta mensagem.
Calçada

Que Deus me proteja dos meus amigos. Dos inimigos, cuido eu (Voltaire)

Avatar do Utilizador
matahary
Mensagens: 2623
Registado: 13 fev 2004, 13:20
Localização: Além do Tejo

Re: FERNANDO PESSOA

Mensagempor matahary » 23 nov 2007, 09:54

Novo caderno de Fernando Pessoa foi adquirido por quatro mil euros

http://dn.sapo.pt/2007/11/23/artes/novo ... quiri.html
"Satisfaça-se com o que lhe agrada, e deixe os outros falarem de si como lhes agrada." - Pitágoras

Uma por dia, tira a azia.

Matisyahu - One Day ^.^ Aurea - Busy for Me

Avatar do Utilizador
masahemba
Mensagens: 243
Registado: 07 jan 2008, 15:17
Força ou serviço: Polícia de Segurança Pública
Categoria: Agente

Re: FERNANDO PESSOA

Mensagempor masahemba » 12 jan 2008, 18:01

amigo Sultão, porventura sabes o que é um texto psicografado? Então como pode haver uma auto psicografia? Estamos num tópico de Fernando Pessoa. Independentemente da qualidade dos textos, que são universalmente excepcionais, pois trata-se de Fernando Pessoa, não estou a ver isso de uma auto psicografia. Explica-te melhor. Aguardo. Briosas saudações.Masahemba

Avatar do Utilizador
Diana
Mensagens: 965
Registado: 15 mar 2008, 22:21
Localização: Região Metropolitana de Lisboa

Re: FERNANDO PESSOA

Mensagempor Diana » 06 abr 2008, 09:34

Barbearias



Entrei no barbeiro no modo do costume, com o prazer de me ser fácil entrar sem constrangimento nas casas conhecidas.
A minha sensibilidade do novo é angustiante: tenho calma só onde já tenho estado.

Quando me sentei na cadeira, perguntei, por um acaso que lembra, ao rapaz barbeiro que me ia colocando no pescoço um linho frio e limpo, como ia o colega da cadeira da direita, mais velho e com espírito, que estava doente.

Perguntei-lhe sem que me pesasse a necessidade de perguntar: ocorreu-me a oportunidade pelo local e a lembrança.

«Morreu ontem», respondeu sem tom a voz que estava por detrás da toalha e de mim, e cujos dedos se erguiam da última inserção na nuca, entre mim e o colarinho.
Toda a minha boa disposição irracional morreu de repente, como o barbeiro eternamente ausente da cadeira ao lado.
Fez frio em tudo quanto penso.
Não disse nada.

Saudades!
Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida.
Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais - se deixo de vê-las entristeço;
e não me foram nada, a não ser o símbolo de toda a vida.

O velho sem interesse das polainas sujas, que cruzava frequentemente comigo às nove e meia da manhã?
O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente?
O velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria?
O dono pálido da tabacaria?
O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver, foram parte da minha vida?

Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros.
Amanhã também eu - a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim - sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um «o que será dele?»..


E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.



Fernando Pessoa




Concerto de Aranjuez
Pelo rei às vezes, pela Pátria sempre
(pro rege saepe; pro patria semper)

Avatar do Utilizador
matahary
Mensagens: 2623
Registado: 13 fev 2004, 13:20
Localização: Além do Tejo

Re: FERNANDO PESSOA

Mensagempor matahary » 11 mai 2008, 22:58

Fernando Pessoa eleito uma das personalidades mais influentes da cultura europeia

http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Cultur ... t_id=92931
"Satisfaça-se com o que lhe agrada, e deixe os outros falarem de si como lhes agrada." - Pitágoras

Uma por dia, tira a azia.

Matisyahu - One Day ^.^ Aurea - Busy for Me

Avatar do Utilizador
matahary
Mensagens: 2623
Registado: 13 fev 2004, 13:20
Localização: Além do Tejo

Re: FERNANDO PESSOA

Mensagempor matahary » 11 jun 2008, 21:16

Falta verba à Casa Fernando Pessoa

PAPEL HIGIÉNICO

Apesar desta reivindicação, Inês Pedrosa salienta ter "todo o apoio da Direcção Municipal de Cultura", patente em aspectos tão caricatos quanto a cedência de toalhas de papel para as casas de banho da Casa Fernando Pessoa. "Enviaram 25 rolos de papel higiénico em Fevereiro e disseram que era para durar até final de Maio", lembra a escritora, que no início deste ano substituiu Francisco José Viegas.

Perante um orçamento de apenas 35 mil euros para todas as actividades ao longo deste ano, a programação do 120º aniversário de Fernando Pessoa só não se ressentiu devido ao apoio do grupo editorial Leya – que financiou uma série de filmes que estão a ser exibidos pela RTP – e à boa-vontade dos funcionários, que trabalham por sistema para lá do horário e sem remuneração extra, e de particulares. Inês Pedrosa lembra mesmo o caso de uma empresa que preferiu oferecer a impressão de um catálogo do que "acrescentar uns números à dívida da Câmara de Lisboa".
"Satisfaça-se com o que lhe agrada, e deixe os outros falarem de si como lhes agrada." - Pitágoras

Uma por dia, tira a azia.

Matisyahu - One Day ^.^ Aurea - Busy for Me

Avatar do Utilizador
matahary
Mensagens: 2623
Registado: 13 fev 2004, 13:20
Localização: Além do Tejo

Re: FERNANDO PESSOA

Mensagempor matahary » 27 mar 2010, 22:57

Imagem

Sinopse
As cartas aqui apresentadas são fruto da correspondência amorosa entre Fernando Pessoa e Ophélia Queiroz, que teve lugar entre 1920 e 1930, e demonstram a faceta mais íntima e privada do poeta. Por não se conhecer qualquer outro relacionamento amoroso de Pessoa para além de Ophélia, estas cinquenta cartas revestem-se assim de uma importância particular para uma maior compreensão da complexidade e diversidade do génio literário que foi Fernando Pessoa.

Meu amorzinho, meu Bébé querido:

São cerca de 4 horas da madrugada e acabo, apezar de ter todo o corpo dorido e a pedir repouso, de desistir definitivamente de dormir. Ha trez noites que isto me acontece, mas a noite de hoje, então, foi das mais horriveis que tenho passado em minha vida. Felizmente para ti, amorzinho, não podes imaginar. Não era só a angina, com a obrigação estupida de cuspir de dois em dois minutos, que me tirava o somno. É que, sem ter febre, eu tinha delirio, sentia-me endoidecer, tinha vontade de gritar, de gemer em voz alta, de mil cousas disparatadas. E tudo isto não só por influencia directa do mal estar que vem da doença, mas porque estive todo o dia de hontem arreliado com cousas, que se estão atrazando, relativas á vinda da minha família, e ainda por cima recebi, por intermedio de meu primo, que aqui veio ás 7 1/2, uma serie de noticias desagradaveis, que não vale a pena contar aqui, pois, felizmente, meu amor, te não dizem de modo algum respeito.

Depois, estar doente exactamente numa occasião em que tenho tanta cousa urgente a fazer, tanta cousa que não posso delegar em outras pessoas.

Vês, meu Bébé adorado, qual o estado de espirito em que tenho vivido estes dias, estes dois ultimos dias sobretudo? E não imaginas as saudades doidas, as saudades constantes que de ti tenho tido. Cada vez a tua ausencia, ainda que seja só de um dia para o outro, me abate; quanto mais hão havia eu de sentir o não te ver, meu amor, ha quasi três dias!

Diz-me uma cousa, amorzinho: Porque é que te mostras tão abatida e tão profundamente triste na tua segunda carta - a que mandaste hontem pelo Osorio? Comprehendo que estivesses tambem com saudades; mas tu mostras-te de um nervosismo, de uma tristeza, de um abatimento tães, que me doeu immenso ler a tua cartinha e ver o que soffrias. O que te aconteceu, amôr, além de estarmos separados? Houve qualquer cousa peor que te acontecesse? Porque fallas num tom tão desesperado do meu amor, como que duvidando d'elle, quando não tens para isso razão nenhuma?

Estou inteiramente só - pode dizer-se; pois aqui a gente da casa, que realmente me tem tratado muito bem, é em todo o caso de cerimonia, e só me vem trazer caldo, leite ou qualquer remedio durante o dia; não me faz, nem era de esperar, companhia nenhuma. E então a esta hora da noite parece-me que estou num deserto; estou com sêde e não tenho quem me dê qualquer cousa a tomar; estou meio-doido com o isolamento em que me sinto e nem tenho quem ao menos vele um pouco aqui enquanto eu tentasse dormir.

Estou cheio de frio, vou estender-me na cama para fingir que repouso. Não sei quando te mandarei esta carta ou se acrescentarei ainda mais alguma cousa.

Ai, meu amor, meu Bébé, minha bonequinha, quem te tivesse aqui! Muitos, muitos, muitos, muitos, muitos beijos do teu, sempre teu

Fernando

[14 Março 1920, às 4 da madrugada]

Mais AQUI.

Álvaro de Campos tinha razão: todas as cartas de amor são ridículas, mas, nem por isso, as de Fernado Pessoa deixam de ser lindas, lindas, meigas, de uma ternura estonteante.
Um livro a ler até as páginas ficarem gastas... :)
"Satisfaça-se com o que lhe agrada, e deixe os outros falarem de si como lhes agrada." - Pitágoras

Uma por dia, tira a azia.

Matisyahu - One Day ^.^ Aurea - Busy for Me


Voltar para “Literatura”

Quem está ligado:

Utilizadores neste fórum: CommonCrawl e 0 visitante