MEC - Miguel Esteves Cardoso

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Mensagempor matahary » 04 ago 2007, 11:07

UM ELOGIO AO AMOR PURO

Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas.Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.

Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, banancides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".

Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. é uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra.

A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

No Expresso


É sempre muito engraçado, divertido, lê-lo.
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Re: UM ELOGIO AO AMOR PURO

Mensagempor matahary » 04 ago 2007, 18:07

Sempre quis esta vida
Ler : Miguel Esteves Cardoso

Doze livros editados, três dos quais romances, enquanto não avança o quarto, acaba de publicar ‘Com os Copos’ (ed. Assírio & Alvim), título sob o qual presta culto a paixão antiga, adolescente, quase infantil: os cocktails!

http://www.correiomanha.pt/noticia.asp? ... l=13&p=200
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Re: UM ELOGIO AO AMOR PURO

Mensagempor matahary » 04 ago 2007, 18:11

O Amor É Fodido

ASSÍRIO E ALVIM - 1994


Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria que ainda
estivesses viva. Só dois ou três minutos: o suficiente para te matar.
Merecias uma morte mais violenta. Se eu soubesse, não te tinha
deixado suicidar com aquelas mariquices todas. Aposto que não
sentiste quase nada. Não está certo. Eu não morri e sofri mais do
que tu. Devias ter sofrido. Porque eras má. Eu pensava que não.
Enganaste-me. Alguma vez pensaste no que isso representou na
minha vida miserável? Agora apetece-me assassinar-te de verdade.
E indecente que já estejas morta.

Quando tomaste os comprimidos sabias que estavas a safar-te.
De boa. Confessa. Foi um bom negócio. As pessoas que levaram
uma vida como a tua costumam morrer em circunstâncias que
deixam muito a desejar. Afogadas em aquários. Estendidas de
pernas abertas numa paragem de autocarro, esfaqueadas, sem
cerimónias, e estranguladas por uma histérica numa casa de banho.
Eu tinha-te dado um tiro. Um tiro limpo nessa cabecinha — o
suficiente para te assustar, mas rápido. A doer um bocadinho.
Morreste há quatro anos. Já deves ter apodrecido. Não gosto
de pensar assim em ti. Tenho pena. Eras tão vaidosa. Deves estar
linda... Um dia embebedo-me e vou desenterrar-te, só para olhar
para a tua cara, ver se é verdade que os cabelos crescem, cheirarte
de perto, tu que cheiravas sempre tão bem, mesmo quando se
passavam dias sem tomares banho. Se calhar, até nisso me vais
desiludir e sais-me uma daquelas criaturas incorruptas, de cadáver
inalterado, com aquela frescura recém-falecida, de quem acaba
desportivamente de tomar cento e vinte barbitúricos, incorrupta e
coberta de chuva de cemitério.

Se fosse por tua vontade, estarias de robe, com o teu robe
lilás, de camarim, de encantadora de serpentes, com que te
arrastavas pela casa, sempre a adiar a hora do banho, bolsos cheios
dum sortido de lenços de papel e números de telefone, com as tuas
pantufas de texugo felpudo que só tu achavas que não cheiravam a
queijo velho. Mas enterraram-te vestida de menina bonita, como se
fosses para uma festa, com o teu sorriso sonso, que eu na altura
achei tão sincero, com as mãos dobradas sobre o peito. Agora
imagino-as a esconder uma pequena bomba, activada pela primeira
pazada de terra que te caísse no caixão, para morrermos todos
contigo, sem preparação ou merecimento.

«Adoro matar animais de todas as espécies.» Era o género de
frase que me apaixonava. Uma vez estávamos a jantar e disseste
«Se pudesse, matava um panda.» «Como?» «Matava-o com uma
pedrada.» «O que é que tens contra os pandas?» «Odeio animais
amorosos.» Pensei que estivesses a defender os animais que não
têm a sorte de ser giros ou de estar à beira da extinção, que vivem
em condições atrozes, sem serem tema de documentários ingleses
ou logotipos de organizações mundiais. Como os frangos. Pensei
que a tua atitude contra os tigres era uma cruzada a favor das
ratazanas. Mas enganaste-me.

Um dia atravessou-se um rato à nossa frente e tu gritaste:
«Mata-o! Mata-o!» Eu peguei num pau de vassoura e respondi:
«Aproveita, Teresa! Mata-o tu!» Tu olhaste-me com desprezo:
«Tenho nojo.» Enquanto eu matava o pobre animal, com a minha
habitual compaixão e inépcia, que tanto prolongam o sofrimento,
enterneci-me com o teu temor e disse: «Tu não eras capaz de
matar nada.»

Passada uma hora, atropelaste um gato de propósito e
disseste, triunfante: «Estás a ver?» E acrescentaste, ante a minha
cara branca: «Para se matar um bicho ele tem de ser minimamente
fofinho. Os animais que não são fofinhos são portadores de doenças
horríveis.»

Nunca houve nada como o amor para nos ajudar a ver o mal. O
amor é o antídoto da cenoura.
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Re: MEC - Miguel Esteves Cardoso

Mensagempor matahary » 05 out 2010, 16:45

"Satisfaça-se com o que lhe agrada, e deixe os outros falarem de si como lhes agrada." - Pitágoras

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Re: MEC - Miguel Esteves Cardoso

Mensagempor xyz » 05 out 2010, 18:03

matahary Escreveu:Gosto de Palavrões

Croniqueiro dum cabrão. Está genial!!!
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Re: MEC - Miguel Esteves Cardoso

Mensagempor matahary » 29 mar 2011, 22:09

Uma família feliz

Nem sei o que hei-de dizer... :heheh :heheh :heheh

http://www.zeno.com.br/index.php?itemid=164
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