AMIGA É UM TERMO DÚBIO

arnaldo anastácio_

AMIGA É UM TERMO DÚBIO

Mensagempor arnaldo anastácio_ » 06 ago 2007, 17:41

Pedro deambulava pelo seu quarto. O fim da sua relação com a Joana afectara-o de tal forma que não conseguia organizar as ideias. Se ao menos pudesse partilhar os seus problemas com alguém. A imagem de Sandra surgiu na sua mente. “Como não pensei nela antes? Ela é a única capaz de me compreender…”

Saiu para o corredor e dirigiu-se para o quarto de Sandra. Ela acabara de tomar banho e estava a secar o cabelo. O ruído do secador não a deixou ouvir bater à porta. Nem ouviu quando Pedro entrou no quarto. Por isso, teve um sobressalto ao sentir uma mão a pousar no ombro.

- Oh, és tu. Assustaste-me. Podias ter batido à porta.

- E bati, mas não me ouviste. Pensei que te tivesse acontecido alguma coisa e decidi entrar.

- A única coisa que se passa é eu não conseguir fazer nada do meu cabelo hoje. Está impossível…

- No entanto, para mim está óptimo. Gosto da forma como te cai pelos ombros.

Sandra estremeceu ao ouvir o comentário de Pedro. Era um simples elogio, mas o que a emocionava era o facto de ele ter reparado nos seus cabelos. No entanto, as palavras da sua amiga Joana ainda ecoavam na sua cabeça: “Vou acabar com o Pedro, a nossa relação já não faz sentido, não pode ver um rabo de saia, estou farta das suas traições…” Assim, Sandra sabia bem qual era o motivo da visita de Pedro.

- Pois bem, Pedro. Não vieste aqui para me dizer que o cabelo solto me fica bem, pois não?


- Sandra, tu és a minha melhor amiga e só a ti me atrevo a contar o que se passa. Estou sinceramente atormentado.

- Que estranho!

- Não, desta vez é sério. A Joana acabou com a nossa relação. Já não é capaz de perdoar as minhas infidelidades.

- Era de esperar. Deverias ter pensado nisso antes. Agora que é uma realidade, que pensas fazer?

- Não sei.

- Ama-la?

- Sabes bem que não. Na verdade, as mulheres podem por vezes ser tão pegajosas que um homem não sabe como se há-de livrar delas.

- Céus, vejo que continuas a pensar que as mulheres pouco valem.

- Oh, não, Sandra, não me refiro a ti. Oxalá a Joana fosse como tu.

- Sandra olhou-o nos olhos. Pedro não se dava conta do quanto a fazia sofrer a cada frase que dizia. Agora demonstrava-lhe que ela era a mulher ideal, mas não a amava. E muito menos amava Joana.

- Pedro, alguma vez amaste a sério uma mulher?

A pergunta apanhou-o de surpresa. Olhou Sandra com inquietação. Não sabia realmente o que significava amar. Para ele, o desejo era a única coisa que contava. Percebeu que os seus sentimentos não coincidiam com os seus pensamentos. Teve vontade de chorar e de se abraçar a ela, pedir-lhe que não o deixasse sozinho, que o ajudasse a encontrar um rumo na sua conturbada vida amorosa. Uma onda de ternura percorreu-o. Abraçou Sandra e chorou. Ela fez-lhe festas na cabeça e nada disse. Ambos ficaram naquela posição durante um bocado. Sandra sentia que o seu corpo se eriçava ao mínimo contacto com o corpo de Pedro. O seu hálito roçava-lhe o pescoço e teve de reprimir a vontade de o beijar. Entretanto, ele foi-se acalmando. Lentamente, aproximou os lábios dos dela e beijou-a ternamente, como nunca beijara uma mulher. Depois rodeou-a com os seus braços fortes e morenos, voltando a beijá-la na testa, nas faces, nos olhos e na boca.

Sandra deixava-se beijar. Poderia tê-lo afastado, mas cada minuto ao lado de Pedro era como um presente do céu. Naquele momento, não pensava na sua amiga Joana. Era um momento que queria viver a dois. Talvez ele a amasse, mas isso não importava. Ia ser a primeira vez que se entregava a um homem, ao seu homem, ao seu Pedro.

Pedro foi abrindo o roupão de banho de Sandra com tal suavidade que este deslizou para o chão, sem dar tempo à jovem para o apertar. O corpo esbelto e atlético de Sandra ficou a descoberto. Pedro levantou-a nos braços e pousou-a suavemente sobre a cama. Envergonhada, tentou cobrir-se com uma manta, mas ele afastou-a. Não queria que nada estivesse entre o seu corpo e o dela. Sandra estava cada vez mais excitada e não podia evitar gemer suavemente sempre que Pedro roçava os lábios nela.

O seu primeiro impulso foi deitar-lhe os braços ao pescoço e ele aproveitou para a beijar intensamente. Depois, apertou as coxas contra o corpo já nu para que pudesse sentir o crescendo da sua excitação. O desejo apoderara-se de ambos e o espaço que os rodeava desapareceu para eles durante alguns instantes. Pedro aproximou a boca de um dos seios dela e percorreu o diminuto e rosado bico com a língua húmida e quente. Isto fez com que ela sentisse todo o seu corpo vibrar e desejou com todas as suas forças que Pedro a possuísse.

Com os lábios, Pedro percorreu-a sem ignorar nenhum lugar do seu belo corpo. Fê-la rodar suavemente para poder acariciar-lhe as costas. Depois fê-la voltar-se e beijou-a na boca. Ao mesmo tempo, apoiou-se nela e começou a penetrá-la muito suavemente. Não sem uma certa dificuldade, conseguiu fazê-lo e percebeu que ela sentia um pouco de dor, pelo que suavizou ainda mais os seus movimentos.

- Amo-te, Pedro…

Naquele momento, Sandra não conseguiu reprimir os seus verdadeiros sentimentos. Contudo, Pedro tomou a frase como uma expressão de desejo e não reparou que ela estava a ser sincera. Suavemente, ambos se fundiram num abraço, e com paixão e ternura atingiram o orgasmo.

No níveo lençol, próximo do brasão castrense ali estampado, ficou uma mácula que fazia lembrar uma rosa escarlate.

Sandra aninhou-se ao lado de Pedro. Naquele momento estar junto dele era a única coisa que importava. Sabia que ele era o homem da sua vida e os intensos momentos passados juntos na academia tinham-no comprovado. Por um momento, ambos tinham estado fundidos um no outro como se fossem um só. E agora chegava o doloroso momento da despedida.

- Sandra, eu …

Sandra tapou a boca de Pedro com a mão.

- Não, Pedro. Não digas nada. Deixemos isto como se nada se tivesse passado.

- É que… quero que saibas que nunca me senti assim. Não foi simplesmente sexo. Senti-te com todo o meu ser. Não sei porquê, mas contigo foi diferente.

- Não tentes explicar nada, Pedro. Não é necessário. Promete-me que será o nosso segredo.

- E vamos esquecer isto?

- É precisamente o que eu desejo. Se assim não for, jamais poderei voltar a olhar-te nos olhos, nem conversar contigo sem me sentir culpada.

- Está bem, mas promete-me que continuaremos amigos como sempre.

- Claro. E, a propósito, são sete e meia, a messe já fechou… por isso… deves-me um jantar.

- Que tal te parece encontrarmo-nos às oito e meia? – propôs Pedro com um sorriso.

- Tencionas jantar tão cedo!?

- Não sejas materialista. Primeiro passearemos um pouco junto ao rio. Não te parece romântico? – sorriu Pedro com ar de troça, conseguindo, por uns instantes, esquecer-se do penoso transe em que se encontrava.

- Nada de romance, Pedro. Seremos apenas amigos.

Sandra estendeu a mão para apertar a de Pedro. Parecia-lhe ridículo dizer aquilo quando até há uns poucos instantes o amara com tanta intensidade. Contudo sabia que era a única forma de continuar a seu lado.

Pedro agarrou na mão de Sandra e beijou-a.

- Não sei o que sinto por ti, princesa, mas sei que és diferente das outras. Se quiseres, serei teu amigo e nada mais. Prometo-te. Sabes que sou um oficial e cavalheiro.

- Não tenho disso a menor dúvida.

Sandra despediu-se dele com um beijo na face.

Regressado ao seu quarto, Pedro olhou para o relógio e viu que passavam trinta e cinco minutos das sete horas. Pegou num álbum e colocou-o no leitor de cd´s. Seguidamente seleccionou a faixa número dois e refastelou-se na cama, ouvindo com prazer e sonhando com a letra da música que se seguiu.

Ontem as águas estavam serenas / Mantinham a distância certa / Éramos cúmplices apenas / Sem ter o coração alerta / Amiga era um sentimento / Sem fazer calor nem frio / Tudo entre nós era simples / Como as coisas em pousio / Foi qualquer gesto que fizeste / Qualquer coisa que disseste / Que mudou a situação / Amo-te sem dares por nada / Eu próprio não dou por isso / Cada olhar cada risada / É um terreno movediço / Dou passos de sapador / Tão assustado e confuso / Nesse campo minado do amor / Sou o mais vulgar intruso / Foi qualquer gesto que fizeste / Qualquer coisa que disseste / Que mudou a situação / Amiga é um termo dúbio / Desses que a língua contém / Vê-se a linha de fronteira / Dá-se um passo e está-se em terra de ninguém. (Amiga é um termo dúbio, Carlos Tê / Rui Veloso)


Pedro Fidalgo

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