MARIE DE HENNEZEL

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matahary
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MARIE DE HENNEZEL

Mensagempor matahary » 06 ago 2007, 23:06

PREFÁCIO
de François Mitterrand


Como morrer?
Vivemos num mundo aterrado por esta interrogação, e que lhe vira as costas. Houve, antes da nossa, civilizações que encararam a morte de frente. Traçavam para a comunidade e para cada um o caminho de passagem. Conferiram à conclusão do destino a sua riqueza e o seu sentido. Talvez que nunca a relação coma morte tenha sido tão pobre como nestes tempos de aridez espiritual em que os homens, na pressa de existir, parecem sofismar o mistério. Ignoram que, desse modo, secam uma fonte essencial do gosto de viver.

Este livro é uma lição de vida. A luz que dele emana é mais intensa que muitos tratados de sabedoria. Pois, mais do que uma reflexão, apresenta um testemunho da mais profunda das experiências humanas. O seu poder nasce dos factos e da simplicidade da sua representação. “Representação”, é, neste caso, a palavra certa. “Tornar presente” oq eu escapa insistentemente à consciência: o além das coisas e do tempo, o âmago das angustias e das esperanças, o sofrimento do outro, o diálogo eterno entre a vida e a morte.

É decerto esse diálogo que é “representado” nestas páginas, aquele que Marie de Hennezel prossegue sem descanso com os seus doentes à beira do fim.

Jamais se apagará a memória da visita que fiz à unidade de cuidados paliativos onde ela despendia na altura a sua generosa energia. Eu conhecia o seu trabalho e dele falava, de quando em vez, com ela. Impressionaram-me, desde o primeiro momento, a força, a suavidade, que emanavam das suas palavras. Reencontrava-as nos médicos e nas enfermeiras que receberam no seu serviço. Contaram-me a sua paixão, os seus esforços, os atrasos de França, as resistências a vencer. Depois, acompanharam-me à cabeceira dos moribundos. Qual era o segredo da sua serenidade? Onde iam buscar a paz dos seus olhares? Cada rosto marcou a minha memória com o seu cunho, como se fosse o próprio rosto da eternidade.

Vem-me à memória o de Danièle, talvez pela sua juventude e pelo seu silêncio. Paralisada, privada da palavra, já só se exprimia pelo bater das pálpebras ou através do ecrã de um computador que obedecia ao seu último dedo móvel. E no entanto, que vivacidade de espírito neste ser despojado de tudo, que curiosidade pelo além, que ela abordava sem o apoio de uma crença religiosa!

Marie de Hennezel fala-nos da dignidade dos derradeiros momentos de Danièle e dos seus companheiros de infortúnio. Fala-nos ainda, com modéstia que nos emociona, da vontade das equipas de cuidados que os acompanham no caminho final. Faz-nos entender a aventura quotidiana da descoberta do outro, o compromisso do amor e da compaixão, a coragem dos gestos de ternura para com aqueles corpos alterados. Ela mostra-nos como, longe de qualquer morbidez, é a alegria de viver que alimenta as suas escolhas e os seus actos.

Falámos muitas vezes de tudo isso. Interrogava-a sobre as origens desse poder de eliminar a angústia, de instaurar a paz, sobre a transformação profunda que ela observava em certos seres à beira da morte.

No momento de maior solidão, o corpo debruçado à beira do infinito, estabelece-se um outro tempo fora das medidas habituais. Por vezes, no espaço de dias, graças à ajuda de uma presença que permite que o desespero e a dor se exprimem, os doentes entendem a sua própria vida, apropriam-se dela, manifestam a sua verdade. Descobrem a liberdade de aderir a si próprios. É como se, na altura em que tudo finda, tudo se libertasse, por fim, do amálgama das penas e das ilusões que impedem de nos pertencermos. O mistério de existir e de morrer não fica de modo algum esclarecido, mas é plenamente vivido.

Tal será, possivelmente, o mais belo ensinamento deste livro: a morte pode fazer que uma pessoa se torne naquilo para que foi chamada a ser; ela é, talvez, no plano sentido da palavra, uma realização.

Aliás, não há no homem uma parte de eternidade, algo que a morte gera, faz nascer algures? No seu leito de paralítica, Danièle transmite-nos uma última mensagem: “Não creio nem num deus de justiça, nem num Deus de amor. É demasiado humano para ser verdadeiro. Que falta de imaginação! Mas isso não me leva a crer que sejamos apenas reduzíveis a um feixe de átomos. O que implica que existe algo além da matéria, chamemos-lhe alma ou espírito, o que se quiser. Eu creio nessa eternidade. Reincarnação ou acesso a um outro nível totalmente diferente … Quem morrer verá!”

Estas poucas palavras dizem tudo: o corpo dominado pelo espírito, a angústia vencida pela confiança, a plenitude do destino cumprido.

À imagem de Danièle, a obra de Marie Hennezel possui uma fortíssima densidade humana.

Como morrer?
Se existe uma resposta, poucos testemunhos a podem inspirar com tanta energia como este.

François Mitterrand


DIÁLOGO COM A MORTE
Os que vão morrer ensinam-nos a viver
De Marie Hennezel

Título Original: La Mort Intime
Editorial Notícias
1997
"Satisfaça-se com o que lhe agrada, e deixe os outros falarem de si como lhes agrada." - Pitágoras

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