AS PALAVRAS

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Pedro Bala
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AS PALAVRAS

Mensagempor Pedro Bala » 16 ago 2007, 11:12

As PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade
Deus te dê o dobro daquilo que me desejas.

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Pedro Bala
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Re: AS PALAVRAS

Mensagempor Pedro Bala » 16 ago 2007, 11:53

A PALAVRA

… Tudo o que você quiser, sim senhor, mas são as palavras que cantam, que sobem e descem…Prosterno-me diante delas… Amo-as, abraço-as, persigo-as, mordo-as, derreto-as… Amo tanto as palavras… As inesperadas… As que glutonamente se amontoam, se espreitam, até que de súbito caem…Vocábulos amados…Brilham como pedras de cores, saltam como irisados peixes, são espuma, fio, metal, orvalho… Persigo algumas palavras… São tão belas que quero pô-las a todas mo meu poema… Agarro-as em voo, quando andam a adejar, e caço-as, limpo-as, descasco-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas… E então revolvo-as, agito-as, bebo-as, trituro-as, alindo-as, liberto-as… Deixo-as como estalactites no meu poema, como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes das ondas… Tudo está na palavra… Uma ideia inteira altera-se porque uma palavra mudou de lugar, ou porque outra se sentou como um reizinho dentro de uma frase que não a esperavam, nas que lhe obedeceu… Elas têm sombra, transparência, peso, penas, pêlos, têm tudo quanto se lhes foi agregando de tanto rolar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto serem raízes… São antiquíssimas e recentíssimas… Vivem no féretro escondido e na flor que desponta… Que bom idioma o meu, que boa língua herdámos dos torvos conquistadores… Andavam a passo largo pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, em busca de batatas, chouriços, feijões, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele voraz apetite que nunca mais se viu no mundo… Tudo engoliram, juntamente com as religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que traziam nas grandes bolsas… Porque onde passavam ficava arrasada a terra… Mas aos bárbaros caíam das botas, das barbas, dos elmos, das ferraduras, como pedrinhas, as palavras luminosas que ficaram aqui, resplandecentes… o idioma. Ficámos a perder… Ficámos a ganhar… Levaram o ouro e deixaram-nos o ouro… Levaram tudo e deixaram-nos tudo… Deixaram-nos as palavras…

Pablo Neruda
Poeta chileno
In Confesso Que Vivi
Deus te dê o dobro daquilo que me desejas.

arnaldo anastácio_

Re: AS PALAVRAS

Mensagempor arnaldo anastácio_ » 16 ago 2007, 14:53

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança.
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijam
Quando a noite perde o rosto.
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor.
Espetadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído.
No papel abandonado).

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte.
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


ALEXANDRE O´NEIL, No Reino da Dinamarca (1958)

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Re: AS PALAVRAS

Mensagempor matahary » 16 ago 2007, 19:23

Esse é um dos poemas da minha preferência.
Obrigada.

http://www.youtube.com/watch?v=GBKnJEcFYBY
"Satisfaça-se com o que lhe agrada, e deixe os outros falarem de si como lhes agrada." - Pitágoras

Uma por dia, tira a azia.

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Re: AS PALAVRAS

Mensagempor alma » 25 abr 2008, 22:26

AS PORTAS QUE ABRIL ABRIU
Ora passou-se porém

que dentro de um povo escravo

alguém que lhe queria bem

um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança

feita de força e vontade

era ainda uma criança

mas já era a liberdade.

Era já uma promessa

era a força da razão

do coração à cabeça

da cabeça ao coração.

Quem o fez era soldado

homem novo capitão

mas também tinha a seu lado

muitos homens na prisão.

Esses que tinham lutado

a defender um irmão

esses que tinham passado

o horror da solidão

esses que tinham jurado

sobre uma côdea de pão

ver o povo libertado

do terror da opressão.

Não tinham armas é certo

mas tinham toda a razão

quando um homem morre perto

tem de haver distanciação

uma pistola guardada

nas dobras da sua opção

uma bala disparada

contra a sua própria mão

e uma força perseguida

que na escolha do mais forte

faz com que a força da vida

seja maior do que a morte.

Quem o fez era soldado

homem novo capitão

mas também tinha a seu lado

muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo

começou a floração

do capitão ao soldado

do soldado ao capitão.


Foi então que o povo armado

percebeu qual a razão

porque o povo despojado

lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado

em sua própria grandeza

era soldado forçado

contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado

e no seu próprio país

muitas vezes estrangulado

pelos generais senis.

Capitão que não comanda

não pode ficar calado

é o povo que lhe manda

ser capitão revoltado

é o povo que lhe diz

que não ceda e não hesite

- pode nascer um país

do ventre duma chaimite.

Poema de José Carlos Ary dos Santos


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