Estrela da Tarde

arnaldo anastácio_

Estrela da Tarde

Mensagempor arnaldo anastácio_ » 18 ago 2007, 00:12

Estrela da Tarde

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

José Carlos Ary dos Santos
……………………………………………………..

É um dos meus poemas preferidos.
Os cotas, como eu, recordam certamente que foi musicado e interpretado em 1976 pelo Carlos do Carmo. E quase foi escolhido para representar Portugal no Festival da Eurovisão desse ano.

Mas, para mim, significa muito mais, dado que me traz à lembrança o meu primeiro e doce amor.

Tinha eu 14 anos e chamava-se Fernanda. Frequentávamos liceus diferentes, pois, nesse tempo, não havia estabelecimentos de ensino mistos. Por isso esperava-a todos os dias no Jardim de Arca D´Água, no Porto, onde marcávamos previamente encontro.
Ali, dávamos as mãos e caminhávamos apaixonados até ao entroncamento da Rua de Silva Porto com a Rua de Monsanto. Eu morava na primeira artéria e ela na segunda. Tão perto e tão longe ao mesmo tempo.

Aí chegados, fugazmente, e sempre atentos a quem passava, trocávamos um inocente beijo de despedida e um triste “até amanhã meu amor”. Depois cada um seguia para sua casa, e eu desejava que o dia seguinte passasse breve para a voltar a ver.

Mas, nesse mesmo ano, ela partiu para a Bélgica, onde seu pai se encontrava a trabalhar há já três anos.

Foi o dia mais amargurado da minha então curta vida.

Nesse dia... nesse desgraçado dia... perdi para sempre a minha querida “estrela da tarde”.


Arnaldo Anastácio

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Re: Estrela da Tarde

Mensagempor lecavo » 20 ago 2007, 17:58

Viva!

Amigo Arnaldo Anastácio, para lhe ajudar a apaziguar as mágoas de amores antigos (ou recentes!), aqui vai mais uma do Torga....

Súplica


Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga
«À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás.»
M. de Montaigne

-- Um abraço - Lecavo

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Re: Estrela da Tarde

Mensagempor Pedro Bala » 20 ago 2007, 19:06

Oh!
Amigo, lecavo, tens andado pouco atento. O arnaldo anastácio deixou esse poema aqui no fórum há uns tempos atrás:

viewtopic.php?f=18&t=1634

Mas o poema é bonito e a intenção também....
Deus te dê o dobro daquilo que me desejas.

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Re: Estrela da Tarde

Mensagempor lecavo » 20 ago 2007, 19:42

Viva!

Sultão Escreveu:Oh!
Amigo, lecavo, tens andado pouco atento. O arnaldo anastácio deixou esse poema aqui no fórum há uns tempos atrás:

viewtopic.php?f=18&t=1634

Mas o poema é bonito e a intenção também....


Não é só desatento, mas também alheado destas coisas da poesia. Não sou um apreciador.

Gosto muito de boa prosa, agora poesia.... nã, não é para mim. Não sou nada dado a esses humores, sou mais para o pragmático, daí que me tenha escapado esse facto. E como contra factos e artefactos não há como infelizmente, tenho a dizer-te, que numa terra não sei a onde, apareceu não sei que santo e, disse a não sei quem, para rezar não sei quanto! :LOL

Percebeste!? Não! Eu também não! :LOL
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arnaldo anastácio_

Re: Estrela da Tarde

Mensagempor arnaldo anastácio_ » 20 ago 2007, 19:46

Não faz mal.
O poema é bonito e sabe sempre bem a sua leitura.
Ao amigo Lecavo deixo este belo soneto e que ainda hoje recitei a uma querida amiga.

Um abraço fraternal para os dois.

Arnaldo Anastácio


Soneto do cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David Mourão-Ferreira, Os quatro cantos do tempo

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Re: Estrela da Tarde

Mensagempor lecavo » 20 ago 2007, 20:17

Viva!

Para os apreciadores não há fronteiras (creio eu!). Nestes tempos conturbados, em que a confusão e a falta de princípios impera...deixo-vos com o poema na versão original

Balada para los Poetas Andaluces de ahora

Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
Qué miran los poetas andaluces de ahora?
Qué sienten los poetas andaluces de ahora?

Cantan con voz de hombre
pero, dónde los hombres?
Con ojos de hombre miran
pero, dónde los hombres?
Con pecho de hombre sienten
pero, dónde los hombres?

Cantan, y cuando cantan parece que están solos
Miran, y cuando miran parece que están solos
Sienten, y cuando sienten parece que están solos

Qué cantan los poetas, poetas andaluces de ahora?
Qué miran los poetas, poetas andaluces de ahora?
Qué sienten los poetas, poetas andaluces de ahora?

Y cuando cantan, parece que están solos
Y cuando miran , parece que están solos
Y cuando sienten, parece que están solos

Y cuando cantan, parece que están solos
Y cuando miran , parece que están solos
Y cuando sienten, parece que están solos
Pero, dónde los hombres?

Es que ya Andalucía se ha quedado sin nadie?
Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
Que en los campos y mares andaluces no hay nadie?

No habrá ya quien responda a la voz del poeta,
Quien mire al corazón sin muro del poeta?
Tantas cosas han muerto, que no hay más que el poeta

Cantad alto, oireis que oyen otros oidos
Mirad alto, vereis que miran otros ojos
Latid alto, sabreis que palpita otra sangre

No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo encerrado
Su canto asciende a más profundo, cuando abierto en el aire
ya es de todos los hombres

Y ya tu canto es de todos los hombres
Y ya tu canto es de todos los hombres
Y ya tu canto es de todos los hombres
Y ya tu canto es de todos los hombres

Rafael Alberti
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Re: Estrela da Tarde

Mensagempor Pedro Bala » 21 ago 2007, 00:32

Caramba, lecavo, desta vez excedeste-te.

Adoro o poema. E, então, musicado até me "arrepia" ouvi-lo.

Estiveste bem na escolha.

Nota: 20.
Deus te dê o dobro daquilo que me desejas.

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Re: Estrela da Tarde

Mensagempor lecavo » 24 ago 2007, 19:56

Viva!

Dizem?

Dizem?
Esquecem.
Não dizem?
Dissessem.

Fazem?
Fatal.
Não fazem?
Igual.

Por quê
Esperar?
- Tudo é
Sonhar

Fernando Pessoa
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