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Mensagempor lecavo » 23 ago 2007, 14:37

Viva!

O UM ANEL

Uma possível fonte de inspiração para história do livro de J. R. R. Tolkien O Hobbit (praticamente um prelúdio para a trilogia de O Senhor dos Anéis) pode ter sido Platão, no livro A República (Cap. II), onde Glauco tenta convencer Sócrates de que a injustiça é melhor que a justiça, com a história do Anel de Giges: É a história de um anel mágico, que um pastor encontra por acaso. Basta virar a pedra do anel para dentro da palma para se tornar totalmente invisível, e virá-la para fora para ficar novamente visível. Giges, que antes era tido como um homem honesto, não foi capaz de resistir às tentações a que esse anel o submetia: aproveitou seus poderes mágicos para entrar no palácio, seduzir a rainha, assassinar o rei, tomar o poder, exercê-lo em seu único e exclusivo benefício. Quem conta a história (Glauco) conclui que o bom e o mau, ou os assim considerados, só se distinguem pela prudência ou pela hipocrisia, em outras palavras, pela importância desigual que dão ao olhar alheio ou por sua habilidade maior ou menor para se esconder... Se ambos possuíssem o anel de Giges, nada mais os distinguiria: "ambos tenderiam para o mesmo fim". Isso equivale a sugerir que a moral não passa de uma ilusão, de uma mentira, de um medo maquiado de virtude. Bastaria poder ficar invisível para que toda proibição sumisse e que, para cada um, não houvesse mais que a busca do seu prazer ou do seu interesse egoísta. Interessante como Tolkien usa a mesma premissa, mas botando a "culpa" do mal no anel, e não só no portador do anel (embora Gandalf sugira que o anel não pode criar o mal em quem não tem o mal no coração).
Carlos Correa
«À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás.»
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 23 ago 2007, 16:10

Viva!

Coelho burro não aprende línguas

Um corvo está sentado numa árvore o dia inteiro sem fazer "nestum".
Um pequeno coelho vê o corvo e pergunta:
"Posso sentar-me ao pé de ti e não fazer nada o dia inteiro?
O corvo responde: "Claro, porque não?"
O coelho senta-se no chão debaixo da árvore e relaxa. De repente uma raposa aparece e come o coelho.


P.S-Moral da História.Para ficares sentado sem fazer nada, deves estar sentado bem no alto da "árvore"
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 26 ago 2007, 21:59

Viva!

Dom 26 Ago 2007
“Escuto e não entendo”

O padre Brian Kolodiejchnuk, da congregação de Madre Teresa de Calcutá, prepara, para o décimo aniversário da morte desta, um livro que recolhe 40 cartas por ela escritas ao longo de 66 anos, revelando uma vida a duvidar da existência de Deus. Comentando o facto, ele reconhece “nunca ter visto a vida de um santo onde este vivesse numa obscuridade espiritual tão intensa”, como no caso da madre entretanto beatificada e em processo de canonização.

As cartas percorrem a vida de uma mulher que decidiu dedicar-se à caridade numa das mais terríveis cidades da pobreza absoluta. Para lá das aparências, era uma mulher só e atormentada. “O meu sorriso é uma máscara”, confessa numa das cartas a um amigo. E noutra declara: “se um dia vier a ser uma santa, serei certamente a das “trevas”, ausente do Paraíso”. Perturbador? Seguramente. Não lhe deveria ser simples encontrar o Jesus que uma vez terá vindo ao seu encontro, no mundo onde escolheu viver.
Miguel Portas
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor matahary » 26 ago 2007, 22:06

Mais completo aqui ou aqui ou ainda aqui. Ou aqui.
"Satisfaça-se com o que lhe agrada, e deixe os outros falarem de si como lhes agrada." - Pitágoras

Uma por dia, tira a azia.

Matisyahu - One Day ^.^ Aurea - Busy for Me

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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 26 ago 2007, 22:11

Viva!

matahary Escreveu:Mais completo aqui ou aqui.


Muchas gracias carinho !
:LOL

Mira también aquí
:LOL :LOL
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 27 ago 2007, 22:40

Viva!

A Morte saiu à rua

A morte
Saiu à rua
Num dia assim
Naquele
Lugar sem nome
Pra qualquer fim

Uma
Gota rubra
sobre a calçada
Cai

E um rio
De sangue
Dum
Peito aberto
Sai

O vento
Que dá nas canas
Do canavial

E a foice
Duma ceifeira
De Portugal

E o som
Da bigorna
Como
Um clarim do céu

Vão dizendo
em toda a parte
O pintor morreu

Teu sangue,
Pintor, reclama
Outra morte
Igual

Só olho
Por olho e
Dente por dente
Vale

À lei assassina
À morte
Que te matou

Teu corpo
Pertence à terra
Que te abraçou

Aqui
Te afirmamos
Dente por dente
Assim

Que um dia
Rirá melhor
Quem rirá
Por fim

Na curva
Da estrada
Há covas
Feitas no chão

E em todas
Florirão rosas
Duma nação

Zeca Afonso

http://br.youtube.com/watch?v=2yZkC3YCU20
http://br.youtube.com/watch?v=YVvOqJ05V ... ed&search=

PS: Esta faz-me doer a memória, por ter visto alguém chorar todas as vezes que ouvia esta canção.
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 05 set 2007, 22:20

Ζωντανός! (Αποφάσισα να γράψω στα ελληνικά)

A "merda" no dia-a-dia

*Orientação Geográfica: Vá à merda!
* Adjectivo qualificativo: Você é um merda!
* Momento de cepticismo: Não acredito em merda nenhuma!
* Desejo de vingança: Vou fazê-lo virar merda!!!
* Acidente: Fez merda, né?!
* Efeito Visual: Não se vê merda nenhuma!
* Sensação olfactiva: Cheira a merda...
* Dúvida na despedida: Por que é que tu não vais à merda?
* Especulação de conhecimento: Que merda será isto?
* Momento de surpresa: MERDA!!!
* Atitude de ressentimento: Não me deu nem uma merda de um presente!
* Sensação degustativa: Isto tem um gosto de merda!
* Acto de impotência: Esta merda não fica dura!!
* Desejo de ânimo: Rápido com essa merda!
* Situação de desordem: Tudo está uma merda!
* Rejeição, despeito: o que que ele pensa, esse merda?
* Situação alquimista: Tudo o que ele toca vira merda!
* Crise das 17:00h: Ainda bem que me estou a ir embora desta MERDA!!!
* Situação perceptiva: Não vi merda nenhuma aqui
* Situação de sarjeta: A merda da minha fábrica faliu!
* Impaciência:Ainda não chegamos a essa merda de lugar?
* Sentimento de culpa: Eu sou um merda
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 05 set 2007, 22:37

Ζωντανός! (Αποφάσισα να γράψω στα ελληνικά)

A arte de escrever

DOUTORADO

O dissacarídeo de fórmula C12H22O11, obtido através da fervura e da evaporação de H2O do líquido resultante da prensagem do caule da gramínea Saccharus officinarum Linneu, 1758, isento de qualquer outro tipo de processamento suplementar que elimine as suas impurezas, quando apresentado sob a forma geométrica de sólidos de reduzidas dimensões e arestas rectilíneas, configurando pirâmides truncadas de base oblonga e pequena altura, uma vez submetido a um toque no órgão do paladar de quem se disponha a um teste organoléptico, impressiona favoravelmente as papilas gustativas, sugerindo impressão sensorial equivalente provocada pelo mesmo dissacarídeo em estado bruto, que ocorre no líquido nutritivo da alta viscosidade, produzindo nos órgãos especiais existentes na Apis mellifera, Linneu, 1758.
No entanto, é possível comprovar experimentalmente que esse dissacarídeo, no estado físico-químico descrito e apresentado sob aquela forma geométrica, apresenta considerável resistência a modificar apreciavelmente suas dimensões quando submetido a tensões mecânicas de compressão ao longo do seu eixo em consequência da pequena capacidade de deformação que lhe é peculiar.

MESTRADO

A sacarose extraída da cana de açúcar, que ainda não tenha passado pelo processo de purificação e refino, apresentando-se sob a forma de pequenos sólidos tronco-piramidais de base rectangular, impressiona agradavelmente o paladar, lembrando a sensação provocada pela mesma sacarose produzida pelas abelhas em um peculiar líquido espesso e nutritivo. Entretanto, não altera as suas dimensões lineares ou as suas proporções quando submetida a uma tensão axial em consequência da aplicação de compressões equivalentes e opostas.

LICENCIATURA

O açúcar, quando ainda não submetido à refinação e, apresentando-se em blocos sólidos de pequenas dimensões e forma tronco-piramidal, tem sabor deleitável da secreção alimentar das abelhas; todavia não muda as suas proporções quando sujeito à compressão.

ENSINO SECUNDÁRIO

Açúcar não refinado, sob a forma de pequenos blocos, tem o sabor agradável do mel, porém não muda de forma quando pressionado.

ENSINO BÁSICO

Açúcar mascavo em tijolinhos tem o sabor adocicado, mas não é macio ou flexível.

SABEDORIA POPULAR

Rapadura é doce, mas não é mole, não!!!
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 07 set 2007, 21:10

Ζωντανός! (Αποφάσισα να γράψω στα ελληνικά)

O PRIMEIRO DIA

A princípio é simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se come-se e alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se um descanso por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Sérgio Godinho
«À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás.»
M. de Montaigne

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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 07 set 2007, 22:13

Ζωντανός! (Αποφάσισα να γράψω στα ελληνικά)

Quanto vale uma pessoa?

Quanto vale uma pessoa? Para Marx, vale o preço da sua subsistência. Para os empresários portugueses, vale o salário mínimo, que é menos do que isso. Para os juristas, vale o preço de um automóvel de gama média. Para os vendedores, vale o dinheiro que tem. Para o Marketing, vale a importância das identificações que promove.

Algumas pessoas têm um preço negativo para os familiares, que pagam para que as levem. Estas são geralmente mais velhas, porque, quanto às mais novas, mesmo que dêem trabalho, eles pagam para as adquirirem.

Que me desculpem estas contas apressadas, mas preciso de uma resposta. O problema é que trabalho com pessoas, mas as decisões que tenho de tomar têm a ver com rendimentos, valores, produto interno bruto, défice e outras contabilidades.

São os economistas que me obrigam a isso, e parece que eles valem mais do que as outras pessoas. Não o contesto, mas respondam então à minha pergunta.

Já sei que me vão atirar com a qualidade do produto. E que me vão explicar que as pessoas, sobretudo as que valem mais, como os jogadores de futebol e eles próprios, também se compram, vendem e traficam. Têm um valor de mercado.

Mas então, como vou medir o valor da pessoa que tenho à minha frente? Se não me responderem, armo-me em terrorista e uso a bomba económica que Hipócrates me ensinou: a pessoa que tenho à minha frente vale mais do que tudo o resto.
Pio Abreu
«À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás.»
M. de Montaigne

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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 09 set 2007, 18:36

Ζωντανός! (Αποφάσισα να γράψω στα ελληνικά)

Vejam o que uma simples vírgula pode fazer:

"Se o homem soubesse o valor que tem, a mulher ficaria de joelhos à sua frente."

"Se o homem soubesse o valor que tem a mulher, ficaria de joelhos à sua frente."
«À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás.»
M. de Montaigne

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AlfaLima

Re: FILOSOFAR

Mensagempor AlfaLima » 22 set 2007, 22:20

O Sonho de Cipião (Livro VI da República) (54 a.C.) [1]

Cícero (106-43 a.C.)


IX.1.9. Após chegar à África, no tempo do cônsul Manílio, destinado à quarta legião como tribuno militar, como sabeis [2], eu desejava apenas fazer uma visita ao rei Massinissa [3], grande amigo de minha família, por fortes razões. [4]

Quando cheguei à sua presença, o velho me abraçou com lágrimas nos olhos e, pouco depois, dirigiu-os ao céu e disse: “Dou graças a ti, Sol supremo [5], e a vós, demais deuses, pois antes de migrar dessa vida posso ver, em meu reino e nessa morada, a Públio Cornélio Cipião, nome com o qual me reconforto, e assim nunca me aparta do pensamento a memória daquele herói excelso e invicto.” [6]

A seguir, perguntei-lhe pelos assuntos de seu reino, e ele, pelas coisas de nossa República. Então, passamos um bom tempo trocando um monte de palavras, de um lado e de outro.

X.10. No dia seguinte, fui recebido com a suntuosidade própria de um rei, quando alargamos a nossa conversa até o início da noite. [7] O ancião-rei não falava de outra coisa a não ser do Africano, quando recordou todas as suas gestas e até suas palavras. [8]

Após interromper a reunião para ir dormir, um sono mais pesado que o de costume me amparou, cansado que estava da viagem, e por ter ficado desperto durante uma boa parte da noite. [9]

Foi quando me apresentou, creio, talvez, pelo que conversamos – pois geralmente costuma ocorrer que nossos pensamentos e nossas conversas gerem, nos sonhos, algo semelhante ao que Ênio escreveu a propósito de Homero que, sem dúvida, durante o dia, costumava pensar e falar muito freqüentemente – o Africano, com aquela mesma fisionomia que me era bem conhecida mais por sua máscara [de cera] que por tê-lo visto pessoalmente. [10]

Logo que o reconheci, estremeci, mas ele me disse: “Recobra o ânimo e não temas, Cipião, e entregue minhas palavras à vossa memória!”

XI.2.11. “Vós vedes aquela cidade que, coagida por mim a submeter-se ao povo de Roma, renovou as prístinas guerras e não pôde permanecer tranqüila?” Ele assinalava Cartago, a partir de um lugar excelso, cheio de estrelas e totalmente iluminado e sonoro. [11]

“Agora, vós viestes atacá-la quase como um soldado; passados dois anos, a destruirás como cônsul [12], e obterás este cognome [13] forjado por ti mesmo e que até agora tens por herança minha. Mas quando tiverdes destruído Cartago, terás celebrado o triunfo [14], e terás sido censor, e, depois de ir como legado ao Egito, à Síria, à Ásia e Grécia, vós sereis eleito cônsul pela segunda vez, em vossa ausência, e levarás a cabo a maior guerra de todas [15]: devastarás a Numância. Agora, depois que tiverdes sido conduzido até o Capitólio com o carro triunfal [16], encontrarás uma República perturbada pelas maquinações de meu neto.” [17]

XII.12. “Então, Africano, faltará oferecer à pátria o lume de vossa mente [18], do teu talento e do teu engenho. Contudo, a partir desse momento eu vejo um duplo caminho marcado pelos fatos. Quando vossa vida tiver completado oito vezes sete translações do Sol e seus retornos [19], e quando esses dois números – cada um considerado perfeito, por diferentes razões [20] – seguindo o seu curso natural, tiverem completado a totalidade dos anos que os fatos te marcaram, a cidade inteira se dirigirá somente a vós ao vosso renome: o Senado, a gente de bem, os aliados e os povos latinos terão os olhos fitados em vós; sereis o único no qual repousará a salvação da nação e, para abreviar, tereis que colocar a República em ordem com os poderes de ditador, se é que podereis escapar das mãos ímpias dos teus parentes.” [21]

Aqui, como Lélio se lamentasse [22] e os outros sensivelmente se condoessem, Cipião, com um sorriso indulgente, lhes disse: “Silêncio, por favor, não me despertem do meu sonho, e escutem, um pouco mais, o que se segue!”

XIII.3.13. “Muito bem, Africano, como estivestes mais impulsionado em defender a República, tenha sempre em mente que todos aqueles que conservam, ajudam e engrandecem a pátria, têm um lugar determinado marcado no céu, onde fruem, felizes, uma vida sempiterna. De fato, não há nada mais satisfatório que aconteça na Terra àquele príncipe-deus [23], que rege todo o universo, que os concílios [24] e as associações humanas que se constituem em virtude de um acordo legal, e que são chamadas de ‘cidades’: seus reitores [25] e salvadores retornam ao lugar de onde vieram.” [26]

XIV.14. Então eu, por mais que estivesse atemorizado – não tanto pelo pavor de morrer, mas pelas insídias dos meus – perguntei-lhe, malgrado tudo, se ele ainda tinha vida, e também Paulo, meu pai, e outros, que nós pensávamos terem se extinguido.

Ele respondeu: “Pelo contrário, estes são os que vivem realmente, os que saíram dos cárceres dos corpos como de uma prisão. [27] Por outro lado, vossa vida, como denominam, é a morte! Vós não vedes Paulo, teu pai, que vem a vós?”

Quando ele veio, irrompi em uma torrente de lágrimas, mas ele me abraçou e não me deixou chorar mais, dando-me beijos.

XV.15. E eu, tão rápido quando pude, refreei o pranto e comecei a falar: “Te pergunto, pai santíssimo e o melhor de todos, como a vida é essa a daqui, como ouvi dizer o Africano, porque eu continuo na Terra? Por que não venho para cá, ao seu lado?”

Ele respondeu: “Isso não é assim, porque até que aquele deus, de quem é esse templo inteiro que vês, não tenha te libertado da custódia corporal, o acesso até aqui não está aberto.” [28]

“Os homens foram gerados sob essa lei para guardarem esse globo chamado Terra, que vós vedes, colocado no centro desse templo, e lhes foi dada uma alma, que provêm dessas fogueiras sempiternas que vós denominais constelações e planetas, que, redondos, esféricos e animados de espíritos divinos [29], descrevem suas órbitas circulares a uma velocidade maravilhosa. Por isso, não somente vós, Públio, mas também todos os homens piedosos [30], devem reter a alma dentro da custódia do corpo [31], e sem a permissão daquele que vos deu, não podem migrar da vida humana e se esquivarem da tarefa própria dos humanos determinada pelo deus.”

XVI.16. “Vós, Cipião, não obstante, sirva à justiça e à piedade, assim como o teu avô [32] aqui presente e eu que te engendrei, pois se essa piedade é importante quando acontece entre os pais e os familiares, ela o é muito mais em relação à pátria. Uma vida assim é o caminho que conduz ao céu e para dentro dessa assembléia dos homens que já viveram a vida e que, livres dos laços do corpo, habitam esse lugar que vós vedes – esse lugar era um círculo brilhante com um luminosíssimo resplendor, inimigo dos fogos estelares – que vós, tal como recebido dos gregos, denominamos Orbe Láctea.” [33]

“Ao contemplar o universo a partir desse lugar, todos os outros corpos celestes pareciam extraordinários e de uma beleza maravilhosa. [34] Ali, por outro lado, havia algumas estrelas de tal natureza que nós nunca a víamos; as magnitudes de todas elas eram tão grandes que nós nunca poderíamos imaginar, e a menor delas era aquela que, sendo a mais distante do céu, brilhava mais próxima à Terra [35], com uma luz emprestada.” [36]

“As esferas das estrelas superavam facilmente a magnitude da Terra. Ademais, a Terra parecia tão pequena que me envergonharia de nosso Império, que é apenas um ponto dela.” [37]

...continua

AlfaLima

Re: FILOSOFAR

Mensagempor AlfaLima » 22 set 2007, 22:21

...Continuação

XVII.4.17. Como eu olhava a Terra muito atentamente, disse o Africano: “Por favor, até quando vossa mente estará cravada na terra? [38] Vós não vedes para qual templo viestes? [39] O universo inteiro está estruturado em nove círculos, ou melhor, esferas, a primeira das quais é a celestial, externa, que abraça todas as demais esferas. [40] Ela é o próprio deus supremo, que contém e mantêm todas as outras unidas. [41] Nela estão fixados os cursos das constelações que giram eternamente.”

“Sob essa esfera há mais sete que giram mais lentamente, com um movimento contrário ao da celestial. [42] Uma dessas esferas é ocupada por aquela estrela que na Terra é denominada Saturno. Depois, vem aquele fulgor propício e saudável ao gênero humano que se chama Júpiter. A seguir, aquela luz avermelhada e horrível para a Terra chamada Marte. Abaixo, o Sol ocupa a região quase ao centro, guia, príncipe e moderador das outras luzes, mente e princípio estruturador do mundo, tão imensamente grande que, com sua luminosidade, ilumina e penetra todo o universo. [43] Seguem-no, como satélites, a órbita de Vênus e a órbita de Mercúrio e, pela órbita inferior, a Lua é trasladada e inflamada pelos raios do Sol. Sob ela só há o que é mortal e caduco, exceto as almas dadas ao gênero humano como presente dos deuses. Acima da Lua, tudo é eterno. Por outro lado, aquela esfera que está no belo meio [44] e em nona posição, a Terra, não se move, e está situada na parte mais baixa, e todas as massas são arrastadas para ela por sua própria força de atração.”

XVIII.5.18. Eu contemplava estupefato aquelas maravilhas e, um pouco recuperado, disse: “Que som é esse, tão potente e ao mesmo tempo tão doce, que preenche meu ouvido?”

Ele respondeu: “Este som é aquele que, composto por intervalos desiguais, mas diferenciados, conforme uma proporção determinada por uma razão [45], nasce de um impulso e do movimento das próprias esferas, e ele, equilibrando os tons agudos com os graves [46], produz acordes uniformemente harmônicos. De fato, movimentos tão grandes não podem ser impulsionados com o silêncio, e a natureza faz com que um extremo de um lado soe grave, e do outro lado, agudo. É por isso que a órbita mais elevada do céu, a estelífera, rotação que é mais veloz, se move com um som mais agudo e penetrante, mas essa órbita que é a da Lua e que é a mais baixa, com um som mais grave. A Terra, por sua vez, que é a nona órbita, permanece imóvel e se mantém para sempre em seu único lugar, ocupando o espaço central do universo.” [47]

“Esses oito círculos, dois dos quais têm o mesmo impulso [48], produzem sete tons por seus intervalos desiguais, número que é o laço do universo. [49] Os homens doutos, que imitam esses sons com as cordas da lira e com seus cantos, são colocados ao redor desse lugar [50], assim como aqueles outros de inteligência superior que, em suas vidas humanas, cultivaram a ciência das coisas divinas.”

19. O ouvido dos homens, inundado por esse som, tornou-se insensível, e não há em vós outro sentido mais embotado. Como ali onde o Nilo se precipita de montanhas altíssimas naquelas célebres Catadupas [51], como são chamadas, as gentes que habitam perto daquele lugar não têm consciência de sentir o som, por causa da intensidade do ruído. Bem, o ruído daqui do alto é tão grande, por causa da velocíssima rotação do universo inteiro, que o ouvido humano não pode acolhê-lo, da mesma maneira que não pode olhar o Sol de frente, e a vossa agudeza visual e o sentido são vencidos por seus raios. [52]

XIX.6.20. Apesar de estar maravilhado diante de tudo isso, algumas vezes eu dirigia meus olhos para a Terra. Então disse o Africano: “Dou-me conta que vós ainda contemplais a mansão e morada dos humanos. Contudo, se a Terra te parece pequena, como é, dirija sempre os olhos para essas regiões celestes, e desdenha as coisas humanas. [53] Pois qual celebridade vós podeis conseguir do que digam os humanos, ou qual glória mereça ser desejada? [54] Vós vedes que os humanos habitam a Terra em lugares escassos e em franjas estreitas; nos próprios lugares onde habitam, existem vastas solidões esparsas no meio, e os que habitam a Terra estão tão distanciados entre si que não é possível propagar nada de um lado ao outro, pois uma parte está no hemisfério ocidental, outra no oriental, e a outra em vossas antípodas. Desses, certamente não podemos esperar qualquer glória.”

XX.21. “Esta Terra está como que cingida e envolta por zonas [55]: duas delas, totalmente opostas entre si, e descansando por um e por outro lado nos próprios pólos do céu, estão endurecidas pela neve, e aquela zona do meio, mais ampla, está queimada pelo ardor do Sol. Duas delas são habitadas: a austral, na qual seus habitantes imprimem suas pegadas opostas a vós, e não têm nada a ver com o vosso povo; a outra, exposta no Aquiloni que vós habitais, observa a tão pequena extensão que vos pertence, pois toda a terra que vós ocupais estreita em direção aos pólos, mas ampla nas laterais, é como uma pequena ilha voltada para aquele mar que vós, na Terra, denominais Atlântico, Grande Oceano, mas que vós vedes como é pequeno, a despeito de um nome tão grande.” [56]

22. “Dessas terras habitadas e conhecidas, o vosso nome ou o de algum de vós conseguiu transpor este Caucas que estais vendo ou atravessar as águas daquele Ganges? No extremo oriente, ou nos confins do Sol nascente, ou nos limites do Sol poente, ou ainda do Aquiloni austral, quem ouvirá o vosso nome? [57] Amputadas essas partes, vós vedes em quais angustiantes espaços vossa glória deseja dilatar-se. Contudo, até os que falam de vós, por quanto tempo falarão?”

XXI.7.23. “Ademais, por mais que a distante descendência dos homens que hão de vir deseje transmitir, sucessivamente, à sua posteridade, os louvores de cada um de nós, escutados de seus pais, isso, não obstante, por causa das inundações e incêndios de territórios [58], que inevitavelmente se produzem em determinados períodos, não podem alcançar uma glória eterna, somente uma duradoura. Assim, qual importância tem que aqueles que nasceram depois falem de vós, quando não existirá ninguém que tenha sido por aqueles que nasceram antes de vós?”

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AlfaLima

Re: FILOSOFAR

Mensagempor AlfaLima » 22 set 2007, 22:23

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XXII.24. “Aqueles não foram menos numerosos, e certamente foram homens mais virtuosos, sobretudo quando nenhum de nós pode conseguir uma memória que tenha uma duração de um só ano entre os mesmos que podem ouvir falar da nossa glória. [59] Os homens calculam corretamente a duração do ano somente por uma volta do Sol, isto é, de um só planeta, mas, na realidade, deveriam denominar um ano somente quando todos os planetas tivessem retornado ao mesmo ponto de onde uma vez saíram e tivessem feito retornar a configuração primeira do universo inteiro, depois de passar um largo período. Atrevo-me a dizer que, para isso, serão necessárias a contagem de muitíssimas gerações humanas.” [60]

“Como então pareceu aos olhos das gentes que o Sol se eclipsava e se extinguia quando a alma de Rômulo entrou nesses mesmos templos, sempre que o Sol novamente se eclipsar no mesmo ponto do céu e no mesmo momento, considereis que todas as constelações e planetas terão retornado à mesma posição de partida, e assim terá completado um ano. Saibas que, deste ano astronômico, ainda não transcorreu a vigésima parte.”

XXIII.25. “Por isso, no caso de que vós tenhais perdido a esperança de retornar a este lugar no qual esses grandes e extraordinários homens colocaram toda a sua aspiração [61], pense: de que vale realmente a citada glória humana que apenas pode se propagar a uma parte minúscula de um só ano?”

“Portanto, se desejais dirigir vosso olhar para cima [62] e contemplar este lugar de permanência eterna, desdenha o que diz o povo, e não coloque a esperança de vossas ações nas recompensas humanas: o que importa é que só a virtude, por seus próprios atrativos, vos conduza à verdadeira honra.”

“Do que os outros possam falar de vós, que eles próprios se ocupem, e eles falarão! Mas veja, toda aquela tagarelice não chegará além desses poços das regiões que estais vendo, e não será perenizada por mais ninguém, pois ficará soterrada com a morte dos indivíduos que a fizeram, e se extinguirá no esquecimento da posteridade.”

XXIV.8.26. Depois de falar assim, ele ainda disse: “Realmente, Africano, se aos beneméritos da pátria está aberta o que denominaríamos de senda que conduz à entrada do céu, eu, por mais que tenha seguido as pegadas do meu pai e as tuas desde a infância, e não faltei à vossa glória, agora, não obstante, à vista do acesso a uma recompensa tão superior, esforçar-me-ei com muito mais diligência.”

E ele respondeu-me: “Sim, esforçai-vos e relembrai isso: que o que é mortal não sois vós, mas vosso corpo e, certamente, vós não sois aquele que essa atual aparência manifesta, mas a alma de cada um é aquele cada um, não essa figura que se pode mostrar com o dedo.”

“Saibas, portanto, que sois um deus [63], se realmente é deus aquele que é cheio de vigor, que sente, que relembra, que prevê, que rege, modera e move o corpo que preside como aquele príncipe-deus em relação ao universo, e assim como o citado deus eterno move o universo, que em parte é mortal, a alma sempiterna move um corpo efêmero.” [64]

XXV.27. [65] “Portanto, aquilo que sempre se move é eterno, mas aquilo que transmite a outro o movimento e ele próprio é movido do exterior, quando seu movimento chegar ao fim, terá de ser, pela lei da necessidade, o fim da sua existência. [66] Somente existe aquilo que move a si mesmo, pois nunca é abandonado, nem deixa de mover-se. E mais: isso é a fonte, isso é a causa primeira do movimento dos outros seres que se movem.”

“A causa primeira não tem origem, já que da causa primeira nasce a totalidade da natureza [67], e ela, não obstante, não pode nascer de outra coisa, pois não seria a causa primeira, já que se originaria de uma coisa exterior. E se não nasce nunca, tampouco morre. Por outro lado, uma causa primeira extinta não poderá fazer renascer outra coisa, nem criará qualquer outra coisa de si mesma, pois, pela lei da necessidade, todas as coisas se originam a partir de uma causa primeira.”

“Assim, a causa primeira do movimento provém daquilo que se move por si. E este não pode nascer, nem morrer sem que a lei da necessidade fizesse a volta celeste ruir inteiramente, além de toda a natureza, que se paralisaria e não obteria nenhuma outra força pela qual se movesse e fosse impulsionada a partir de seu impulso inicial.”

...continua

AlfaLima

Re: FILOSOFAR

Mensagempor AlfaLima » 22 set 2007, 22:25

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XXVI.9.28. “Portanto, como é evidente que o que se move por si é eterno, quem não pode assegurar que esta faculdade não tenha sido atribuída às almas? Pois tudo aquilo que se move por um impulso exterior é inanimado, mas aquilo que é dotado de alma, se move por um movimento interior e que lhe é próprio. Esta é a natureza própria da alma, e também sua essência: se a alma é única coisa que se move por si, é verdade que não nasceu e que é eterna.”

29. “Assim, exercita esta alma nas atividades mais elevadas! As melhores são os trabalhos para a saúde da pátria; a alma, estimulada e exercitada por eles, mais rapidamente alçará vôo a esta casa, que também é a sua casa, e o será mais rapidamente se, quando ainda estiver trancada no corpo, se projetar na luz pública e, contemplando as coisas externas, se desembaraçar o máximo possível do corpo.”

“As almas daqueles que se entregarem às voluptuosidades corporais e se tornarem escravas delas e, também impedidas pelas paixões escravas das voluptuosidades, violarem as leis divinas e humanas, vagarão ao redor da mesma Terra, uma vez saídas dos corpos, e não retornarão para este lugar [68], a não ser depois de vagarem muitos séculos.” [69]

O Africano partiu, e eu despertei do sono. [70]

*


Notas

[1] Tradução de Ricardo da Costa (Ufes), a partir da edição MARC TUL.LI CICERÓ, L’art de governar [DE RE PVBLICA], edició a cura de Pere Villalba Varneda (latim-catalão), Barcelona, Prohom Edicions, 2006, p. 522-575. Aproveitamos as excelentes notas explicativas do querido mestre, o Prof. Villalba Varneda, embora as tenhamos diminuído sensivelmente, o que me obriga a lhe pedir perdão por apresentar sua inacreditável erudição mutilada aos leitores de língua portuguesa.

[2] Isto é, no ano 149 a.C., vinte anos antes da suposta data deste diálogo – e primeiro ano da Terceira Guerra Púnica. Cipião Emiliano, com trinta e cinco anos, havia estado com Massinissa no inverno de 151-150 a.C., para obter elefantes para a guerra contra os celtiberos.

[3] Rei da Numídia (norte da África), nascido em 240 a.C., e morto em 148 a.C.

[4] Cipião Africano, o Velho, um dos protagonistas do sonho a seguir, fez um neto seu de nome Massiva ficar com Massinissa, pois ele lutou ao lado dos cartagineses contra os romanos nas Guerras Púnicas na Hispânia.

[5] Invocação ritual: o Sol era para os númidas o deus mais excelso, objeto de culto (heliolatria, com sacrifícios – Heródoto IV, 188).

[6] Massinissa se recorda de Públio Cornélio Cipião, o Africano Maior, com o qual colaborou em diversas ações militares.

[7] Passagem que mostra a advertência do autor contra a ostentação e o luxo inerente ao sistema monárquico.

[8] Trata-se de Públio Cornélio Cipião, o Africano Maior, avô de Cipião e morto dois anos depois de seu nascimento.

[9] Um sono profundo pressagiava alguma profecia. Veja, por exemplo, Homero, Odisséia, IV, 839-842 (o sonho de Penélope).

[10] A fisionomia das máscaras modeladas sobre o rosto do defunto são as imagens de cera dos antepassados que as famílias nobres romanas costumavam expor em vitrines no átrio da casa.

...Continua

[11] A visão do universo de Cipião é geométrica. O protagonista se encontra em um ponto não-localizado dentro de uma geometria não precisamente euclidiana, lugar de onde é possível contemplar o todo, em seu conjunto e em seu detalhe: é o estágio próprio do contemplativo da região imaterial, traspassado a região da divindade e das almas.

[12] Inexatidão do autor: Cipião foi cônsul em 147 contra as disposições da lex Villia (181 a.C.), com a idade de 38 anos, para dirigir as hostilidades contra Cartago, mas não a destruiu a não ser em 146 a.C., como procônsul.

[13] Isto é, o de Africano, o Jovem, pois era filho de Emílio Paulo e tinha sido adotado pelo filho do primeiro Públio Cornélio Cipião, o Africano Maior, que agora conversa com ele em sonho, de maneira que era neto segundo a lei, e dele havia recebido o nome por herança.

[14] Em 146 a.C. Cipião foi censor e eleito cônsul por unanimidade pela segunda vez no ano 134 a.C. para dirigir a conquista da Numância (133 a.C.), no mesmo ano da revolução social de seu primo e cunhado Tibério Semprônio Graco.

[15] Maior porque, de acordo com a geografia de então, foi a mais longa e a resistência dos defensores numantinos mais forte.

[16] Metonímia, pois o general vencedor percorria as ruas de Roma em um carro triunfal saindo do Capitólio, para o qual regressava.

[17] Isto é, Tibério Semprônio Graco, filho de Cornélia (por sua vez, filha de Cipião, o Africano Maior – ou, o Velho) e irmão de Semprônia (mulher de Cipião Emiliano, o Africano Numâncio).

[18] Metáfora que anuncia a descrição posterior do Sol como regente do universo e o perfil do bom político. Três palavras dessa passagem – alma, engenho e concílio – constituem os três lados de uma pirâmide isósceles, irremovível: alma (palavra masculina – animus), qualidade expansiva de Cipião, alude às coordenadas de sua alma com sua inteligência; engenho (palavra neutra – ingenium), aponta suas qualidades congênitas, e representa as coordenadas de sua natureza com sua capacidade discursiva; concílio (palavra neutra – consilium), ação sobre a base da previsão, representa as coordenadas de sua faculdade de decisão com seu autodomínio. Essas três palavras dizem respeito à divisão tripartida da alma de acordo com Platão (alma – parte racional, princípio vital; engenho – parte irracional, princípio gerador; concílio – parte concupiscível, princípio ativo; correspondem também às três potências da alma e aos correlativos ativo-causativo-receptivo), e recordam as virtudes cardeais (prudência, fortaleza, temperança) com a justiça como base do triângulo (a virtude das virtudes). Por sua vez, a vida concebida como um caminho tem origem no misticismo oriental (ou bíblico); Pitágoras a representava como um Y grega (direção ao bem e ao mal) e o cristianismo incorporou a idéia. O caminho destinado a Cipião o leva a uma vida de risco, sem possibilidade de escolha.

[19] Isto é, cinquenta e seis anos, resultado de um número par (oito), denominado mãe das coisas, e a justiça, por sua divisão em partes iguais. O sete (denominado pai nas coisas), capaz de produzir a alma do mundo, a coisa mais perfeita depois de seu criador, número que corresponde aos sete planetas, à divisão dos meses em quatro partes. Sólon havia escrito uma elegia sobre as etapas da vida humana, distribuídas em período de sete anos, especificando os valores e defeitos de cada etapa hebdomadária. Este ciclo biológico setenário também se encontra nos médicos gregos (Hipócrates, De Hebdomadis, 5L), e os pitagóricos o transferiram da esfera física para o plano místico por influência dos egípcios (Diodoro de Cicília, Bibl., 1, 98, 2). Assim se compreende porque o Africano fala de sete translações, sete períodos vitais.

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AlfaLima

Re: FILOSOFAR

Mensagempor AlfaLima » 22 set 2007, 22:28

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[20] Nos números 7 e 8 há uma forte concepção pitagórica, defendida em Roma por Nigílio Fígul, amigo de Cícero: o número 7 é perfeito, imóvel e venerável, porque é a soma do ímpar 3 (que contém o princípio, o meio e o fim e representa o espírito, tem um lado feminino e é a primeira superfície geométrica ímpar, o triângulo) e do par 4 (que representa a matéria ou os quatro elementos constitutivos do mundo, recordam as quatro virtudes cardeais, fundamento da ordem individual, social e cósmica, e tem um aspecto masculino; figura geométrica – o quadrado – que delimita o cubo no espaço): 1+6; 2+5; 3+4. O número 8 também é perfeito porque é o primeiro número cúbico (2x2x2 = 8; 8:2 = 4; 4:2 = 2; 2:2 = 1) tudo delimitando com oito pontos o cubo no espaço, e é o símbolo da justiça para os pitagóricos.

[21] Cipião se opôs às reformas agrárias de seus cunhados (os Gracos) a favor dos romanos com os aliados itálicos, mas sobretudo os povos latinos, que possuíam uma grande parte do campo público, mas eram excluídos das novas distribuições. Dias depois da suposta data desse diálogo, após ter exposto ao Senado a sua atuação e as condições dos latinos e de ter conseguido diferir a aplicação de lei dos reformistas, Cipião foi encontrado morto em seu leito (129 a.C.), sem que se pudesse saber se foi assassinado ou morreu de morte natural.

[22] Lélio, grande amigo de Cipião Emiliano, manifesta sua dor, sentado ao seu lado. O restante protesta mais contidamente. Não obstante, Cipião, impõe sua serenidade estóica diante da morte, dirigindo-se com humor a todo o grupo.

[23] Trata-se do demiurgo de Platão (Timeu, 32 a-c), “aquele que ocupa o primeiro lugar”. Cícero professa sua crença monoteísta em uma divindade primordial e única, à margem da crença politeísta expressa pelos mitos: é o deus único e metafísico que fala Platão (Timeu, 41a) que se identifica com a alma do mundo, ou com aquela sociedade cósmica de acordo com a doutrina panteísta dos estóicos. Assim como existe um príncipe-deus do universo, o governante terá de ser como esse deus entre os homens: paralelismo entre o macro e o microcosmos.

[24] A palavra concílio alude ao fato inato do homem de viver em sociedade.

[25] Metáfora hípica, porque têm de fazer o caminho de retorno, não sem antes ter feito obras práticas que os farão merecer o prêmio reservado aos justos.

[26] Portanto, os políticos e os homens públicos recebem o poder do alto, da divindade e, por isso, o poder está acompanhado de uma incumbência superior ou, dito de outra maneira, para Cícero, o poder em si mesmo é bom, pois os homens o recebem de deus: é uma teoria de forte raiz estóica. A passagem diz que somente os bons políticos terão o retorno ao umbral celeste, prêmio para a sua justiça. Por fim, a doutrina segundo a qual a substância da alma é ígnea, e assim pode retornar ao astro que lhe é congênere, está exposta por Platão no Timeu (39b e ss.; 90a e ss.), e os pitagóricos a identificam com a mente divina universal, o que é ratificado pelos estóicos.

[27] Cícero se apropria das idéias dos pitagóricos; a consideração da vida terrena como morte tem uma larga tradição filosófica e órfica.

[28] Passagem que nega a licitude do suicídio, mesmo que seja para chegar à vida verdadeira, porque o homem pertence ao deus, segundo a doutrina órfica e pitagórica. Os epicuristas e estóicos não entendiam assim, pois admitiam o suicídio em certos casos. Assim se entenderá melhor o uso da palavra templo, isto é, o universo, casa sagrada da divindade e das almas, espaço sagrado do qual participam as pequenas parcelas dedicadas à realização das ações sagradas na Terra (os templos religiosos, as cidades – estruturadas de acordo com a projeção geométrica sobre a Terra do triângulo marcado no ar com o bastão inaugural (origem etrusca ou proto-itálica). Portanto, a vida dos humanos na terra deve ser uma prefiguração da vida eterna futura.

[29] Os mundos estelíferos estão dotados de uma alma como a dos homens e que são habitados por almas que ali chegaram e se uniram à divindade, isto é, tornaram-se definitivamente eternas e, portanto, os astros são seres vivos (Platão, Timeu, 40) e emanam da alma do universo, de substância ígnea (Cícero, Tusc., I, 42).

[30] Os homens piedosos eram os homens que haviam completado o programa ético da pietas, que prescrevia uma observância acurada dos deveres para com os outros, isto é, para com deus (através de atos de piedade religiosa), com os homens (os pais, a família e a sociedade mais próxima) e a pátria (o cumprimento exemplar das leis e dos deveres para com a sociedade civil): tudo isso é sumamente esperado do homem político.

[31] Entendida no sentido pitagórico. O suicídio não é admitido por Cícero, pois significa a não aceitação da responsabilidade que o homem tem de conservar e melhorar a vida que recebeu da divindade, e seria concebido como um gesto ofensivo à capacidade reflexiva do homem e, portanto, um desvencilhar-se das obrigações determinadas por deus para com a dimensão social da própria existência. Por fim, é um ato de injustiça.

[32] Isto é, Cipião Africano, o Velho, seu avô adotivo.

[33] É a Via Láctea, concebida como um círculo (refração dos raios solares com as estrelas dotadas de luz própria – flammas – de onde lhe vem o nome: Aristóteles, Meteor., 1, 339b, 21 e ss., De caelo, 1, 4, 6) e casa das almas imortais, segundo Pitágoras (Platão, Fedro, 247b; Proclo, De antro nymph., 28); também era a casa dos heróis e gênios benfeitores (Manílio, Astr., 1, 760 e ss.). De qualquer maneira, a noção que os políticos teriam um lugar especial na Via Láctea é de Cícero, e o sonho como sonho poético também é dele. Aqui termina o diálogo com Lúcio Emílio Paulus – pai biológico de Cipião.

[34] Cipião se encontra em um lugar maravilhoso, de onde se contempla o todo (a partir de uma concepção filosófica). Esta contemplação por parte de Cipião não é somente física, mas também religiosa, pois o ato de contemplar pertence à linguagem dos augúrios que, relacionada com o templo, fundamenta o caráter espiritual ou divino do mundo estelar.

[35] No original “Terras”, um plural poético pois concebe a Terra como um conjunto de territórios.

[36] Deve-se entender o céu como a volta celeste e a esfera primeira, mais externa. Assim se compreende melhor que Cícero diga que a Lua é a mais distante (ou última) a partir da esfera primeira.

[37] O termo “ponto” alude ao Fédon de Platão (110b), que se refere à Terra vista do céu, onde o homem ocupa uma mínima parte. O autor antecipa aqui a idéia da caducidade da glória humana que tratará adiante.

[38] Aqui inicia uma digressão sobre a grandeza do universo a partir da obsessão de Cipião de fixar seu olhar na Terra. Cícero aqui utiliza o termo húmus, para estabelecer uma diferença com Terra, que aparece em outros locais: o escritor não está se referindo à Terra como planeta, mas ao solo, à terra, ao terreno, em contraposição com caelum (“esfera primeira”), algo permanente e inalterável, certamente para introduzir seus leitores no jogo do mistério.

[39] Cipião contempla a esfericidade do universo de fora da própria esfericidade, e assim pode formar uma idéia de sua estrutura geométrica interna. A palavra “templo” não deixa de evocar o caráter sagrado e auspicioso do cosmo, por estar habitado por deus e assim, ser, em parte, eterno.

[40] As esferas móveis são oito, além da Terra. Caelestis tem significados ambíguos: “estágio dos astros”, mas também “estágio de deus”.

[41] Concepção divina da esfera celeste (doutrina estóica), que abraça as outras esferas e é o céu das estrelas fixas, identificado com o éter (Cícero, De nat. deor., 2, 101). Por sua vez, o éter é identificado com deus, conforme o panteísmo estóico (ibidem, 1, 36; Acad. pr., 2, 126). Para Ptolomeu ainda existia outra esfera mais externa, o Cristalino.

[42] Os planetas – Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua – segundo a ordem caldéia; a ordem egípcia colocava o Sol depois de Mercúrio (seguido por Pitágoras, Filolau, Eudóxio, Platão). Marte era concebido como algo funesto e era relacionado com o fogo destruidor, tradição que Cícero abraça. O Sol é o centro do universo planetário, entre o Céu e a Terra, porque as distâncias entre as esferas não eram iguais. Vênus e Mercúrio são satélites do príncipe Sol, não da Terra. A Lua é a parte mais baixa do céu; sob a Lua, nada se move. Há, portanto, a mortalidade, exceto as almas que têm movimento eterno.

[43] O Sol é concebido com virtudes humanas (prudência, justiça, fortaleza, temperança). O Sol era considerado deus pelos pitagóricos e estóicos, e na doutrina órfica/pitagórica, era o pai dos deuses e do cosmos.

[44] Isto é, no centro e no fundo de todo o sistema das esferas, pois no centro está o fundo interno da esfera celeste (na concepção geocêntrica); aí os corpos tendem conforme sua densidade: o éter, para cima, o ar, próximo da Terra, etc. O limite marcado pela Lua que separa as coisas mortais das imortais é de concepção pitagórica.

[45] Isto é, de acordo com uma proporção conseguida por uma relação pensada e que corresponde a um acordo. As distâncias entre as esferas são desiguais e racionais, compostas de semitons, tons e meio: uma quarta parte da Lua ao Sol, uma quinta do Sol ao céu das constelações, uma oitava pela totalidade dos sons.


...continua

AlfaLima

Re: FILOSOFAR

Mensagempor AlfaLima » 22 set 2007, 22:29

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[46] A teoria dos intervalos é pitagórica, e se baseia nas matemáticas, na física e na geometria que, juntamente com a música, constituíram o quadrivium educativo desde a antiga formação clássica até os nossos dias, passando, naturalmente, pelo mundo medieval. Tanto Platão (Polit. X, 617b) quanto Aristóteles (De caelo, 2, 9, 290b) aceitam a teoria da harmonia celeste.

[47] Portanto, a Terra não produz qualquer tom, embora ocupe uma posição privilegiada central e extrema. Na concepção geocêntrica do universo, o deus de natureza ígnea (Vitrúvio, IX, 1, 12; Cícero, De nat. deor., II, 39-40, 42-44) eram os planetas Saturno, Júpiter, Marte, Mercúrio e Vênus, além do Sol, entre os quais o deus Júpiter estabeleceria um equilíbrio com intervalos apropriados dentro das órbitas concêntricas.

[48] A teoria que Vênus e Mercúrio vão em uníssono é falsa, pois não têm nem a mesma órbita, nem a mesma velocidade, e entre eles há um semitom.

[49] Consideração mística do número 7, de raiz pitagórica, formada pelos números mais elementais e plenos de virtudes.

[50] Isto é, a Via Láctea, onde se reunirão finalmente todos os grandes homens citados aqui – tanto artistas e filósofos como políticos. O músico Terpandro de Lesbos (s. VII a.C.) foi o primeiro a utilizar uma lira de sete cordas (antes a lira só tinha quatro), para recitar os textos homéricos e seus próprios. O instrumento vocal do homem é igualmente uma semelhança do instrumento musical cósmico. Ao dizer diuina studia Cícero pensa nos estudos metafísicos.

[51] Isto é, as primeiras cascatas do Nilo, entre as ilhas Elefantina e Filé (Heródoto, II, 17). Sêneca (Nat. quaest., IV, 2) e Plínio (Nat. Hist., VI, 181) falam da surdez de seus habitantes por causa do ruído da queda d’água.


[52] A frase toda tem um caráter militar: olhar diretamente o Sol é um desafio, embora a priori frustrado, feito contra as forças da natureza.

[53] O Africano aconselha o ideal de vida contemplativa, formulado anteriormente por Anaxágoras de Clazômenas (c. 500-428 a.C.), segundo o qual o homem nasceu para a contemplação do Sol, da Lua e do céu, não para os afazeres políticos – teoria não compartilhada por Cícero. Platão foi o primeiro a transfigurar a vida do homem contemplativo em uma compreensiva dedicação à vida prática e política, de maneira que esse homem, com o menosprezo pelas coisas terrenas, se torne um místico que busca a felicidade dos concidadãos a partir da contemplação do Bem, fazendo-o partícipe da justiça divina.

[54] O menosprezo pela glória humana é algo muito vivo em Cícero (Tusc., 1, 109 e ss.).

[55] Cícero descreve duas zonas glaciais, extremas, e uma terceira, central, subdividida em subtropical e setentrional, dentro dos paralelos em que a Europa se estende, seguindo assim as teorias pitagóricas (Cícero, Tusc., 1, 68 e ss.).

[56] Isto é, o Oceano Atlântico, reverenciado por Erastóstenes de Cirene, por Aristóteles (De mundo, 393a) e Aviano (Ora maritima, 402-406). Denominado mar Atlântico em homenagem ao gigante Atlas, que residia no país das Hespérides, a ilha Atlântica, desaparecida por um cataclismo segundo Platão (Timeu, 21 e ss.; Crit., 108e e ss.). O Oceano, entendido como um grande rio que envolvia a Terra, foi concebido a partir do século VII a.C. como um mar, o mar Atlântico (Estesícor, fr. 6).

[57] Isto é, ninguém ouvirá falar de ti em qualquer dos pontos cardeais.

[58] O fogo era, para os estóicos e neoplatônicos, destruidor e criador de todas as coisas. Essa passagem é uma alusão a Heráclio de Éfeso (morto em 504/501 a.C.), que defendia que o fogo era a substância criadora do mundo e das coisas. Em períodos concretos, todas as coisas e os elementos retornavam ao fogo primitivo por meio de um incêndio universal, para depois retornar à vida. A partir da doutrina do dilúvio universal (de tradição babilônica e bíblica) alguns filósofos estóicos adotaram os períodos intermediários de transformação dos elementos como medida cronológica, isto é, como ano cósmico, e seu dogma catastrófico justificava sua vida alheia às atividades políticas. Portanto, os homens que viveram em um novo ciclo desconheceram o que ocorreu no ciclo anterior; na melhor das hipóteses, estes cataclismos marcariam o limite da fama humana.

[59] Cícero se refere ao magnus annus do Sol (annus communis), não ao grande ano do retorno do cosmos ao seu ponto de partida.

[60] Trata-se, portanto, do magnus annus, ou recomeço cíclico das revoluções planetárias (Platão, Timeu, 39), a quem os homens atribuíam uma duração de 25.800 anos, 12.954 anos para Cícero (Servi, ad Aen., I, 269), 15.000 anos para Macróbio, que segue Platão (In Som. Scip., II, 11, 15).

[61] De uma perspectiva filosófica, a aspiração se refere a todo o desejo e esperança de alcançar a plena felicidade, a virtude da sabedoria, o conhecimento da realidade tal qual ela é.

[62] Aspirar ao que é mais elevado, ou desejar ter uma visão por cima do que é comum, ou ainda, observar uma conduta mais elevada que o restante dos mortais: a virtude será a chave e a própria convicção dessa aspiração superior.

[63] Hipérbole, pois Cícero concebe Cipião como um ser divino ou superior, ou como uma imagem da divindade por ter sido alçado à ação no governo, e adornado com as três potências da alma e as quatro virtudes cardeais. Portanto, o indivíduo é alma, não corpo: conceito místico de Platão, mas de origem órfico-pitagórica.

[64] Analogia perfeita entre o macrocosmos, com deus regendo o universo, e o microcosmos, com a alma regendo o corpo mortal.

...continua

AlfaLima

Re: FILOSOFAR

Mensagempor AlfaLima » 22 set 2007, 22:31

...Continuação

[65] Os parágrafos seguintes são uma adaptação do Fedro de Platão (245e, 246a). Contudo, o fato de existirem algumas variantes nos faz pensar que o tradução poderia vir da mão de Possidônio (escravo de Cícero). Cícero, a partir deste ponto, inicia uma série de silogismos encadeados para demonstrar a existência de uma divindade e a imortalidade da alma a partir do movimento sem início.

[66] Isto é, não cessa.

[67] Omnia, no sentido filosófico, significa “abraça toda a natureza”.

[68] Essa passagem indica a crença na imortalidade das almas em geral, e não somente dos homens públicos, pois todas as almas, sem exceção, têm de sair do mundo das esferas.

[69] Segundo Platão (Fedro, 248e), o castigo durará 10.000 anos, mas 3.000 para os que professaram honestamente a filosofia (Fedro, 248e-249a). Sobre o destino das almas, ver também Platão (Fédon, 81c e ss.) e Virgílio (Aen., VI, 730-747).

[70] A obra termina assim, de forma um tanto abrupta, mas certamente com um objetivo em mente: deixar o leitor perplexo, e fazê-lo retornar à Terra, recurso muito mais pungente do que se Cícero tivesse escrito uma despedida.

Trad.: Prof. Dr. Ricardo da Costa
Notas: Prof. Dr. Pere Villalba Varneda, Àrea de Filologia Llatina
Univ. Autònoma de Barcelona

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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 03 out 2007, 09:23

Viva!

Virgínia Trigo
O bolo lunar

“Missy, missy”, ouvi gritar atrás de mim. Era o Outono de 2002, dirigia-me para as aulas gozando a melhor temperatura do ano que Cantão tem para dar e, ali mesmo ao virar da esquina, olhei para trás e vi um aluno, Zhang Dong, na sua bicicleta, uma mão esticada e o vento dentro da camisa.

Hoje é o Festival de Outono, informou-me num inglês entrecortado, e “eu queria dar-lhe isto”. Elegantemente embrulhada apresentou-me uma caixa de bolos lunares. Pousei os livros no chão e, agradecendo, agarrei na caixa com as duas mãos como manda o preceito. Mentalmente pensei que destino haveria de dar àquela caixa. O bolo lunar é uma massa consistente, difícil de mastigar e de engolir, recheado com uma pasta de semente de lótus ou com gema de ovo, mas representa uma tradição milenar de extrema importância na cultura chinesa e, além disso, não é nada barato.

Zhang acompanhou-me a pé até à sala de aulas onde novos bolos me esperavam. Um até tinha sido cortado em pequenos pedaços que tive de saborear ali mesmo no local. Todos os anos milhões de chineses compram e mutuamente se oferecem estes bolos como parte de uma economia de presentes para alimentar uma complexa rede de relacionamentos, base da ordem económica e social. Só no ano passado, segundo o jornal estatal China Daily, foram produzidos na China 250.000 toneladas de bolos lunares correspondendo a um volume de negócios de cerca de um milhão de euros. Eu já os conhecia dos meus doze anos de Macau mas é precisamente o Festival de Outono daquele ano de 2002 que hoje recordo enquanto vejo a lua na minha casa em Lisboa neste décimo quinto dia do oitavo mês do calendário lunar chinês, quando ela atinge o seu ponto mais brilhante e os chineses em todo o mundo se juntam para contar histórias, celebrar a família e o fim das colheitas. Depois da aula e de muitas escusas para não acompanhar este ou aquele num jantar em família, corri para o computador para a minha hora de Internet. Os meus alunos tinham acabado de descobrir as delícias da comunicação por email, o hotmail era muito hot na China e Zhang tinha-me enviado um email delicioso:

“Missy, hoje é o dia do Festival de Outono, uma festa muito importante para os chineses. Toda a família se reunirá para admirar o brilho da lua e sentir o calor da família. Todos nós queremos desejar-lhe o melhor e que seja muito feliz aqui em Cantão na China. Desculpe, ainda não disse quem sou. O meu nome é Zhang Dong (Zhang é o meu nome de família) e estou muito feliz por ser um dos seus alunos na nossa universidade. Queria agradecer-lhe por nos ensinar os Recursos Humanos modernos, o que é um pouco diferente do que aprendemos até aqui. Penso que tivemos alguns problemas de comunicação porque nós, alunos chineses, sabemos escrever e ler em inglês mas temos dificuldades em entender o que ouvimos e falar então, incluindo eu, é o pior de tudo. Mas vamos todos estudar muito, prometemos, para quebrar esta barreira. Depois de a vermos compreendemos melhor a palavra “globalização” que está muito em moda na China. Você é magra, tem a pele branca e o cabelo branco, por isso não pode ser ibérica; além disso o seu nome é americano e o seu inglês muito latino.”

Reconfortada com este email de Zhang, sem uma ponta de humor ou ironia, fui para casa abrindo a porta de mansinho para, mesmo ao lado, passar despercebida da minha senhoria. Mas eis que toda a família me esperava: num dia destes como poderia eu recusar-me a jantar com eles e, pela estreita janela no topo da parede, olhar a Lua? E foi por entre pratos sucessivos que eu ouvi as histórias sempre novas que fazem este dia. Há mais de quatro mil anos, no tempo em que a terra tinha dez sóis, todos eles se revezavam por turnos para a manter sempre iluminada, mas um dia resolveram aparecer em conjunto queimando tudo com o seu calor. Felizmente a Terra foi salva por um hábil archeiro, Hou Yi, que destruiu com as suas flechas nove dos dez sóis. Hou Yi era porém tirano e arrogante e conseguiu roubar de uma deusa o elixir da vida que, inadvertidamente, a sua mulher amada acabou por beber, de imediato se transformando numa figura etérea que flutuou e se alojou na Lua. É essa figura, particularmente visível nas noites de Lua cheia, que Hou Yi passou a adorar e agora nós também.

Uma outra história remonta à dinastia Yuan (1280-1368) quando a China era governada pelos mongóis. Infelizes por terem de se submeter a um governo estrangeiro, alguns líderes da dinastia anterior decidiram revoltar-se desenhando uma estratégia para não serem descobertos. Sabendo que o Festival Lunar se aproximava, ordenaram a confecção de bolos especiais dentro dos quais inseriram mensagens com instruções sobre o ataque. Este foi bem sucedido e é para celebrar esta lenda que o bolo lunar se confecciona e que eu me sento com esta família, engolindo-o a custo por entre golos de chá até ao momento em que, num breve clarão, a noite se lançará sobre a manhã. Dizem-me que o bolo lunar adquiriu novas formas, que este ano em Pequim o mais in é recheá-lo com gelado, em especial se for Haagen-Daz. Os jovens chineses confessam-se fartos do bolo lunar com que cresceram e experimentam com avidez novas variedades. O novo estilo de bolos, dizem, é mais romântico e adequado ao gosto da nova geração.

Por mim, não lamento o esforço de engolir os bolos tradicionais, sobretudo quando nos agradecem por aquilo que ensinamos na convicção de que o ensino transcende o dever de uma mera obrigação.
«À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás.»
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 04 out 2007, 15:32

Viva!

O livro que me marcou: ‘Descobrimentos Portugueses’

Joaquim Ferreira do Amaral
Presidente da administração da Lusoponte

“Existe um livro que influenciou o meu modo de vida e sobretudo o meu gosto pela literatura e pela vida. Esse livro, com vários volumes, chama-se ‘Descobrimentos Portugueses’ e é do historiador Jaime Cortesão”, diz Joaquim Martins Ferreira do Amaral sobre o livro da sua vida. Para Ferreira do Amaral, engenheiro mecânico pelo Instituto Superior Técnico (1968), esta obra escrita por Cortesão dois anos antes do historiador morrer (1884-1960) tem um valor inestimável. “O meu pai comprou toda essa obra aos fascículos”, relembra o ex-ministro das Obras Públicas de Cavaco Silva, enquanto recorda: “Li esses volumes com 15 anos e esses mesmos desencadearam em mim uma enorme paixão pelos Descobrimentos”. Não escondendo essa paixão por um tema que considera “extraordinário”, o político que já foi candidato à presidência da República para as eleições de 2001 e também candidato à presidência da Câmara de Lisboa em 1997, afirma: esta obra “ensinou-me a medir a dimensão das coisas, ajudou-me no equilíbrio do dia-a-dia e até na vida politica”. Para o actual presidente do conselho de administração da Lusoponte, existem também outros livros sobre o assunto, mas este é “brilhante” e “apelativo”. É um livro que está na origem do “meu descobrimento pelos Descobrimentos”. Uma obra cujo tema principal é a “aventura” e que tem a assinatura de um autor, que não sendo dos que se dedica mais às questões económicas, toca bastante na esfera económica.

Mafalda Avelar(Expresso)
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 05 out 2007, 21:20

Viva!

"Fantasmas"

Es costumbre bien establecida en el mercado francés que los autores de historieta de prestigio deben hacer “cuadernos de viaje”. Diarios y anotaciones gráficas de periplos y travesías por esos lugares del mundo que, a modo de preciosas postales, despiertan la envidia del lector - por aquello de haber pisado exóticos lugares y, además, por la patilla -, a la par que la admiración por las habilidades lapicísticas del artista. Sfar, Goetzinger, Juillard, Dupuy y Berberian, Blain, Mézières, Loustal, Mattotti, Baudoin… la lista de autores es inacabable. Una tradición que, lógicamente, ha llegado a Nicolas de Crécy… aunque con ciertos matices, claro, ya que desde sus primeras obras (con la perturbadora trilogía de Le Bibendum Celeste al frente) este lionés, cuarentón estrenado, ha demostrado ser uno de esos autores que obligan un redoblado esfuerzo a la hora de buscar algún tipo de clasificación. Poseedor de un estilo sucio y agresivo pero académicamente impoluto, las obras de Crécy suponen siempre una sorpresa continuada, rupturistas, deudoras tanto de la escuela del simbolismo surrealista como del absurdo más dadá, con puntitos de ingenuidad naif y sin renunciar a una omnipresente componente costumbrista. Mezcla antinatural, atípica y disonante, pero ingrediente perfecto para la batería de provocaciones calculadas con las que ataca al lector en sus obras, dinamitando el sentido común y obligando a sanísimos ejercicios de “reset” mental.
Imagem
Crecy Un currículum en el que, a priori, parece encontrar difícil acomodo la, me atrevería a decir, burguesa práctica de los cuadernos de viaje. Pero mire usted por donde, de Crécy agarró su mochila, sus lápices y sus rotuladores y se dio un garbeo por tierras japonesas y brasileñas. Y como era de esperar, el resultado es cualquier cosa menos un fetichista conjunto de postalitas, los miles de kilómetros viajados se condensan en Diario de un fantasma como una especie de apócrifa memoria, en la que dibujo y dibujante se mezclan sin solución de continuidad. Un comienzo en visión subjetiva (que no me resisto a ver como un claro homenaje a la maravillosa Senda tenebrosa que protagonizara Bogart) nos va introduciendo en su particularísima visión, donde el dibujante desaparece inicialmente para dar entrada tan sólo a su trazo y estudiar cómo afecta el entorno a su estilo. Enfrenta su dibujo bien afianzado en el arte europeo con una civilización distinta, el manga, la agresiva publicidad. Y aquél, transformado en forma viviente fantasmal, comienza a evolucionar y mutar, influido y alimentado por lo que ve. Poco importa la mano que dibuja, sólo tiene sentido el arte, el dibujo. De Crecy hace testimonio de lo que ve, pero también acerado y mordaz análisis, jugando a la doble baraja de la reflexión y el documental. Un camino que sólo tiene un final: el enfrentamiento del propio dibujante con su obra. Primero, amablemente, nos ha dejado ver sus argumentos y experiencias, pero es de lógica que al final deba ser el propio autor el que defina dónde va su dibujo. Y en un delirante diálogo entre obra y autor, asistimos fascinados a uno de los enfrentamientos más alucinantes que el tebeo ha dado. Un combate entre gigantes donde debe decidirse si es el autor el que crea la obra o si, finalmente, es la obra la que elige a su autor.
Un tebeo distinto, que basa su enorme atractivo en ese juego continuo entre creación y creador que, paradójicamente, no renuncia a mostrarnos esas postales (en algunos casos, literales, en una muestra de la ironía que se gasta este hombre) que eran el objetivo inicial del álbum.
Recomendabilísimo, más en la excelente edición de Ponent Mon.

FICHA TÉCNICA

Diario de un fantasma, de Nicolas de Crécy. Ponent Mon. Bitono. Rústica. 228pags. PVP:18€

Podéis ver un avance en la web de Ponent Mon.
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 06 out 2007, 17:50

Viva!

O inferno são os outros

da Folha Online

Não uso relógio. Nem sequer para despertar. Despesa inútil. Os meus vizinhos tratam do assunto por mim, todos os dias, nos sete dias da semana. Mudei de casa uns meses atrás e fiquei abismado com a pontualidade dos bichos. Comecei por tirar apontamentos. Interesse científico, não mais. Hoje, conheço a rotina deles, e a minha, que recito de memória como os Gregos Antigos recitavam as canções de Homero.

Durante a semana, tudo começa com o vizinho de cima que usa o banheiro às seis da manhã. A mulher usa às seis e quinze. Sei distinguir os géneros pelo fluxo urológico: intermitente, o dele; contínuo, o dela. Problemas de próstata, aposto. Depois, a água do lavatório corre, ele provavelmente faz a barba. Não sei quem usa o secador. Pela expressão industrial do som, é ela. A julgar pela dimensão do penteado, que me assaltou certo dia no elevador, é definitivamente ela. Às sete, abrem a porta do apartamento. Usam as escadas (de manhã), porque é mais rápido. Ela fala muito. Ele não fala nada. The end?

Longe disso. É pelas sete que os vizinhos do lado continuam a sinfonia inacabada. Confesso que não são tão pontuais como os vizinhos de cima. Às vezes, com indisfarçável preguiça, acordam às sete e dez, sete e quinze; depois acordam as crianças, dois anjos que começam imediatamente a destruir a casa e as minhas últimas réstias de sanidade. Das sete e vinte às oito e pouco, os pais tomam banho; os filhos já tomaram na noite anterior e aproveitam a ausência dos pais para deitar fogo à casa.

Brinco. Ou quase. Os desenhos animados passam agora na TV com potência sonora que daria para alimentar um estádio. O prédio treme. Perante o excesso, a mãe grita com os filhos. Os filhos, num belo retrato da educação moderna, gritam com a mãe. Aposto que batem na mãe. E eu, como qualquer cinéfilo amador perante as torpezas do vilão, pergunto com unhas roídas: "E o pai? Onde está o pai, meu Deus?"

O pai entra em cena, acaba com a discussão e, pela violência dos tapas, acaba com os filhos. São segundos de silêncio, segundos de suspense, quebrados finalmente pelo choro das crianças, que começa em crescendo, como nas aberturas de Wagner. Fenómeno fascinante: elas nunca choram ao mesmo tempo. A orquestra está suficientemente afinada para que uma avance quando a outra se cansa. Às oito e meia, a família abandona o lar. Aplausos, aplausos.

Tenho duas horas de descanso. Até as dez e meia, altura em que o vizinho de baixo entende ser seu dever moral contribuir para a minha educação nas áreas do metal, trash, black metal, doom metal e manicómio metal. Em matéria de radioactividade, não há diferenças entre Lisboa e Chernobyl. Pelas onze, avançam os Sepultura. Pelas onze e dez, eu peço para ser sepultado. E começo a redigir o meu testamento para o caso de me encontrarem na banheira, o único sítio da casa onde posso dormir e até escrever sossegado. Como Vinicius de Moraes, sim, que seguramente tinha vizinhança igual.

Pena que a banheira nem sempre resulte: aos fins-de-semana, por exemplo, os meus vizinhos aproveitam as manhãs livres para fazerem o que Adão e Eva começaram depois do episódio da maçã. O meu banheiro, não perguntem por que, amplifica as intimidades.

Os de cima são silenciosos e rápidos. Em dez minutos, e como diria Glauber Rocha, é a terra a transar. Das onze às onze e dez, existe uma cama e existe o triste ranger da cama. Não trocam palavra. Ou trocam - mas eu não consigo ouvir. Pena. Quando a água chapinha no bidé, sabemos que a paixão também corre pelo cano. Até ao sábado seguinte.

Mas estranho são os vizinhos do lado. Com duas crianças, eles conseguem repetir a dose e a senhora leva o prémio Meg Ryan da Semana. Com a diferença de que Meg Ryan fingia o orgasmo. Aqui, não, violão. É impossível, humanamente impossível, fingir uma coisa destas: gritos sincopados, como a sirene de uma ambulância, que termina com um vigoroso rugido selvático, na melhor tradição Metro-Goldwyn-Mayer.

Felizmente, o amor do vizinho de baixo pelo rock metálico já o deixou surdo há muito para os chamamentos de Cupido. Nenhum sexo por aquelas bandas. Excepto se o ladrar do cão, que se prolonga por 24 horas, for a cobertura perfeita para um verdadeiro Casanova dos infernos. Prometo investigar.

A dúvida é inevitável: chegou o momento de eu trocar de casa? Não creio. Não apenas porque o cenário seria provavelmente pior, ou igual. Mas porque existe em toda esta sinfonia um fundo familiar, e até teatral, que simplesmente me encanta. Teatral? Nem mais. Deitado na escuridão da cama e com o sono desfeito em farrapos, eu sou uma espécie de encenador por antecipação, que dá ordens mentais aos meus actores privados.

"Correr a água."

Eles correm a água.

"Bater nas crianças."

Eles batem nas crianças.

"Rugir como um leão."

Rrrrrrrrrrrrrrr...

Além disso, seria duvidoso que eu encontrasse em qualquer outro bairro da cidade leitores desta "Folha" tão fiéis como os vizinhos de cima, de baixo e do lado.

João Pereira Coutinho
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 06 out 2007, 18:00

Viva!

Filmes pornográficos


Sinais dos tempos: a Universidade de Columbia, em Nova Iorque, já foi a casa de Lionel Trilling e Jacques Barzun, duas almas civilizadas que atravessaram o século XX. Trilling morreu em 1975. Barzun, creio, não morreu mas para lá caminha. E, se não caminha, os acontecimentos recentes só podem imprimir no espírito de qualquer cavalheiro uma vontade assaz saudável de morrer. Segundo parece, Columbia entendeu convidar para um "rendez-vous" cultural o Presidente do Irão. Escusado será dizer que Mahmoud Ahmadinejad compareceu à chamada e, depois de uma apresentação pouco simpática, onde foi definido como 'um ditador insignificante e cruel' (a alegada 'insignificância' do homem mostra bem a ignorância dos anfitriões), o nosso Mahmoud aproveitou o momento para partilhar com o mundo as suas respeitáveis ficções: o Irão não deseja destruir Israel; o Irão não procura armamento nuclear; o Irão não tem homossexuais dentro de portas. Curiosamente, só a última frase, que em termos de veracidade não se distingue das anteriores, provocou certo prurido entre o auditório académico. Entende-se. Uma coisa é defender a destruição de Israel e a procura de armas para o conseguir; outra, bem mais grave, é afirmar que Barbra Streisand não faz sucesso nas discotecas de Teerão.

E a universidade? Que nos disse Columbia deste filme pornográfico? De acordo com o reitor, o encontro serviu para mostrar a loucura de Ahmadinejad e a liberdade de opinião que reina nos Estados Unidos, duas novidades que o mundo recebeu de boca aberta. Infelizmente, não passou pela cabeça do senhor que este não foi um encontro cultural. Na verdade, a Universidade de Columbia ofereceu palco a um terrorista, responsável pela matança de americanos no Iraque e que, num mundo normal, já estaria a ser julgado, ou preso, por simpatias genocidas. Convidá-lo não foi um gesto de superioridade; foi um empréstimo de propaganda e respeitabilidade. A falência do liberalismo não começa quando toleramos a opinião contrária dos outros. Começa quando toleramos a opinião daqueles que de bom grado acabariam com a nossa.

Terra queimada

Tempos houve em que a mulher feminista queimava sutiãs em público. Não mais. Para o feminismo do século XXI, que Anne Kreamer explica em 'Going Grey' (nº 1 nas tabelas da praxe), a nova forma de luta passa por não pintar o cabelo. A ditadura falocêntrica humilha as mulheres com paradigmas totalitários de beleza irreal? As mulheres não devem submeter-se aos caprichos dos machos: os cabelos que embranqueçam sem a tirania das tintas (mas não, espero, do sabão).

Eu, modestamente, não me oponho à guerrilha capilar que se avizinha. Mas, a título meramente nostálgico, pergunto se não seria mais eficaz aprender as tácticas dos sutiãs passados - e, mesmo em público, atear lume à própria cabeleira feminista. O gesto, além das vantagens higiénicas (da mera caspa ao difícil piolho), seria um sucesso mediático pelas qualidades cénicas evidentes. E, se a ideia é punir os machos, só existe uma coisa melhor do que cabelos desleixados; é não haver cabelo algum para mostrar.

João Pereira Coutinho
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 11 out 2007, 21:34

Viva!

Outra vez.....

- É de casa do Srº Luis? - perguntam ao telefone

- É o próprio. - respondo.

- Srº Luis, chamo-me.... e estou-lhe a telefonar para o convidar a assistir a..blá blá blaá...hoje às 18 horas.

- Com certeza. Posso levar um doce?

- Srº Luis. Não é necessário trazer nada. Basta o Sr. vir e trazer a sua esposa.

- Mas eu não gosto de ser convidado e não levar nada. Não fui assim educado. E ainda por cima a minha mulher acabou de fazer um doce excelente, e olhe que isto é coisa rara. - disse eu, com uma estranha sinceridade- Por isso, se não se importa nós levamos uns frasquinhos com doce. Têm pão, ou é preciso levar?

- Sr. Luis (pausa para suspiro) Trata-se de uma apresentação de um produto, para o qual estamos a convidar apenas pessoas seleccionadas e o Sr. e a sua esposa tiveram a felicidade de serem escolhidos.

- Bom, já percebi. É uma coisa assim mais formal, certo?

- Sim.- responde, com um suspiro de alívio.

- Nesse caso, o melhor é então levar uma garrafinha de vinho do Porto. E têm pão?

- Está a gozar comigo? - pergunta ela, irritada.

- Peço muitas desculpas se a ofendi, garanto-lhe que não foi essa a minha intenção. E se for uma garrafa de Champanhe, do verdadeiro? Sou também capaz de arranjar uma latinha de caviar, mas acho que é falsificado. Assim já serve? E têm pão?

- Se não quer vir bastava dizer, não precisava deste teatro todo. - reage a moça, irritada.

- Agora é vossemecê que me está a ofender!! Se acha que nós não temos condições para ir à sua festa fina, podia ter dito logo! Eu e a minha mulher somos pessoas simples! (fungadela) Era com muito sacrifício que estávamos a oferecer o que de melhor cá temos em casa! (fungadela) E a senhora aparentemente acha pouco! (fungadela) Assim sendo, tenha uma muito boa tarde e espero sinceramente que tenha pessoas na sua festa, porque com esses seus critérios de selecção não sei se tal vai acontecer! (fungadela) ADEUS!

- Sr. Luis. Talvez eu não me tenha feito entender correctamente. Vamos começar do inicio. Pode ser?

- Sim...(fungadela)

- Apenas queremos que o Sr. e a sua esposa venham conhecer o nosso produto hoje. Nada mais. Podemos então encontrarmo-nos às 18 horas?

- Ok...... Têm pão?


E pronto. Assim terminou mais um episódio da série “Como lidar com o telemarketing e tornar a sua mulher mais susceptível a propostas de nível sexual".

in vida de casado
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 23 out 2007, 23:52

Viva!

Texto escrito por uma aluna de Letras, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa.

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.
Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.
O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.
De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.
Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo.
Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento.
Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.
Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.
Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.
Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.
Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.
Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.
Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.
Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
Nisto a porta abriu-se repentinamente.
Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.
Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.
Que loucura, meu Deus!
Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.
Só que, as condições eram estas:
Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

Fernanda Braga da Cruz
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 28 out 2007, 22:39

Viva!

A Morte - A Dor de uma Perda


Aconteceu numa praça, no Japão. Não se sabe como o pássaro morreu. Ele estava ali no asfalto, inerte, sem vida. Seria um facto corriqueiro, mas o fotógrafo fez a grande diferença.

Imagem

A Solidariedade
Segundo o relato do fotógrafo, uma outra ave permanecia próxima àquele corpo sem vida e ficara ali durante horas. Chamando pelo companheiro, ela pulava de galho em galho, sem temer os que se aproximavam, inclusive sem temer o fotógrafo que se colocava bem próximo.

Imagem

A Solicitação
Ela cantou num tom triste. Ela voou até o corpinho inerte, pousou como querendo levantá-lo e alçou vôo até um jardim próximo. O fotógrafo entendeu o que ela pedia e, assim, foi até o meio da rua, retirou a ave morta e a colocou no canteiro indicado. Só então a ave solidária levantou vôo e, atrás dela, todo o bando.

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A Despedida.
As fotos traduzem a sequência dos fatos e a beleza de sentimentos no reino animal.

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Uma Questão de Amor e Carinho.
Segundo o relato de testemunhas, dezenas de aves, antes de partirem, sobrevoaram o corpinho do companheiro morto. As fotos mostram quanta verdade existiu naquele momento de dor e respeito.

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Um grito de dor e lamento
Aquela ave que fez toda a cerimónia de despedida, quando o bando já ia alto, inesperadamente voltou ao corpo inerte no chão e, num grito de não aceitação da morte, tenta novamente chamar o companheiro à vida. Desesperada, mas com amor e carinho, ela se despede do companheiro, revelando o seu sentimento de dor.

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«À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás.»
M. de Montaigne

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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 29 nov 2007, 23:56

Viva!

Os Demónios de Alcácer-Quibir


O D. Sebastião foi para Alcácer-Quibir
de lança na mão a investir a investir
com o cavalo atulhado de livros de história
e guitarras de fado para cantar vitória

O D. Sebastião já tinha hipotecado
toda a nação por dez réis de mel coado
para comprar soldados lanças armaduras
para comprar o V das vitórias futuras

O D. Sebastião era um belo pedante
foi mandar vir para uma terra distante
pôs-se a discursar isto aqui é só meu
vamos lá trabalhar que quem manda sou eu

Mas o mouro é que conhecia o deserto
de trás para diante e de longe e de perto
o mouro é que sabia que o deserto queima e abrasa
o mouro é que jogava em casa

E o D. Sebastião levou tantas na pinha
que ao voltar cá encontrou a vizinha
espanhola sentada na cama deitada no trono
e o país mudado de dono

E o D. Sebastião acabou na moirama
um bebé chorão sem regaço nem mama
a beber a contar tim tim por tim tim
a explicar a morrer sim mas devagar

E apanhou tal dose do tal nevoeiro
que a tuberculose o mandou para o galheiro
fez-se um funeral com princesas e reis
e etcetera e tal viva Portugal

Sérgio Godinho
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor lecavo » 06 dez 2007, 11:42

Viva!

O Processo....

- O que tens? - pergunto-lhe, preocupado.

- Quero ter outro filho. - diz-me ela.

- Ok. – digo, enquanto me ponho nu.

- Deixa de ser parvo. – diz ela, num tom capaz de acabar com o aquecimento global e levar o Al Gore à banca rota. – Percebeste muito bem o que eu queria dizer. Isto não te preocupa?

- Pá! Isso é stress a mais. – digo, enquanto lhe dou um beijo e a abraço, que eu sei ver quando ela precisa destas coisas.

- Talvez tenhas razão. Mas e se não for? Já estamos a ficar velhos. Daqui a pouco tens 40 anos, eu para lá caminho. Os testes não detectam nada, e entretanto os meses passam a anos, e começa a parecer-me algo cada vez mais distante. E isso deixa-me triste. – diz, enquanto olha para mim. – Estás com os olhos um pouco húmidos! Estás a chorar? – pergunta-me.

- A forma como recordaste os meus quase 40 anos, emocionou-me.

- Pois... – diz ela, enquanto me abraça e me dá um beijo, o que eu deixei pois, mais uma vez via-se que estava a precisar de dar um abraço forte e um beijo a alguém.

- Mas tens razão. – digo eu - Uns gajos bonitos e inteligentes como nós não podem deixar apenas um descendente. Temos que resolver isto, pois temos que garantir que a nossa filha tem ajuda, quando chegar a altura dela compensar o valor das nossas reformas.

- Não vou fazer mais testes nem quero andar em mais consultas. Chega!

- Concordo! Também já estou farto de ter orgasmos para copos. Embora pelo menos eles, nunca se tenham queixado da minha performance...e vou ter saudades dos filmes que passavam para me entusiasmar.... – digo, enquanto suspiro.

- Adoro-te! – diz, enquanto, paradoxalmente, me dá um forte beliscão. – Então vamos avançar de vez com a adopção?

- Claro! Porque razão a nossa filha há-de ser a única a ter o grande privilégio de ser educada por nós?

- Então agora temos que saber o que há que fazer. – diz-me ela.

- É preencher estes inquéritos, que tirei da Net, e depois ir entregá-los à segurança social, com mais uma série de papelada. – digo, enquanto lhe mostro um folheto sobre adopção, e as impressões dos questionários.

- Mas….já tens esses inquéritos? – diz ela, admirada.

- Claro. Entregamos isto, somos depois investigados de alto a baixo, durante seis meses e depois é esperar sei lá quanto tempo pela criança. Por isso, o que temos a perder?

- Investigados?

- Sim. Mas não te preocupes, aquilo é tudo confidencial e as finanças nunca vão saber que pomos no IRS os teus cremes de beleza, como despesas de saúde.

- És doido! – diz ela, enquanto me dava, paradoxalmente, mais um beijo. – E quando é que vamos tratar disto?

- Bom. Eu aproveitei e como para processos de adopção é quase tudo de borla já pedi toda a documentação exigida, pelo que é só esperar que nos chegue no correio. Depois é só ir entregar à Segurança Social.

- A sério? Mas e não me disseste nada porquê?

- São coisas destas que me dão garantias de sexo, pá!

- Ok. Despe-te. – ordenou ela. Coisa que fiz rapidamente, porque sei sempre ver quando ela está a falar a sério, e aí convém sempre obedecer.

- Espero que a rapidez com que te despiste, não seja um mau pronuncio para o que se vai passar. – termina ela, ao mesmo tempo que me abraça.

Esta última frase fez-me pensar (passados 10 minutos e enquanto acabava de me enxugar depois do banho tomado): O que raio tem a ver a rapidez com que me dispo, com um processo de adopção?

Luís
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor tiririca » 13 jan 2008, 21:59

Opinião
Eu, às vezes

Dá-me uma paz de eternidade ver uma mulher numa casa, o modo como o seu corpo habita o espaço, a forma como vestem, de si mesmas, os compartimentos, com um simples passo, um simples olhar



E agora começa a anoitecer tão cedo. A minha mãe conta que quando era pequeno, três anos, quatro, cinco, sei lá, me tornava melancólico ao crepúsculo. Não me lembro disso mas é capaz de ser verdade porque o fim do dia sempre me trouxe, sei lá porquê, uma espécie de tristeza mansa, um desejo vago de coisas mais vagas ainda, uma inquietação doce, um estado de alma impossível de exprimir, não inteiramente agradável, não inteiramente desagradável, estranho apenas, um

(como dizer?)

sorriso com uma lágrima tranquila dentro, percebem? Tão difícil traduzir as emoções em palavras, é tão pobre o vocabulário que temos e vou-me consumindo nos livros a procurar exprimir isto. Bom, voltando ao princípio dizia que começa a anoitecer tão cedo, as árvores do dia que nada têm a ver com as árvores da noite, misteriosas, densas, falando, falando, a engordarem de pássaros. Janelas iluminadas e eu a imaginar as vidas atrás das cortinas, por vezes, num intervalo, um relógio, uma pagela, um lustre que me assusta, vultos. Gestos femininos bonitos sempre, a delicadeza com que as mulheres tocam nos objectos, a harmonia dos dedos: somos pesados e sem graça, nós os homens, ao pé delas. Pesados, brutos, canhestros: não possuímos seja o que for de ave ou de nuvem, a nossa carne é densa e gaguejante. Dá-me uma paz de eternidade ver uma mulher numa casa, o modo como o seu corpo habita o espaço, a forma como vestem, de si mesmas, os compartimentos, com um simples passo, um simples olhar. E depois uma espécie de inocência primordial, de leveza habitável: devo ter sido muito feliz na barriga da minha mãe, por dentro da sua voz, do seu sangue. Faz noventa anos agora e continua com dezoito. Conta a história da família que foram obrigados a puxar-me com ferros, não queria sair: como eu me compreendo. E as árvores da noite a murmurarem sem fim, os prédios muito mais altos, os sons de uma nitidez de cristal. Um velhote a subir a rua com um saco de plástico, a horrível solidão dos seus olhos, o abandono da roupa. A solidão tem um cheiro próprio que se sente à distância. Vivem em bicos de pés, como que a pedir desculpa. Este passa o tempo a beber cerveja no cafezito e percebe-se o nível da espuma pela cor das pálpebras. Senhor João. Mora com um bicho qualquer num buraco qualquer, não se lamenta, não se queixa: dura. Uma destas semanas vem a morte

- Tenha paciência senhor João e mete-o numa caixa, o pobre. Fica o saco de plástico no passeio: não fica nada, enquanto os gestos das mulheres vão colorindo o silêncio. Sorrio-lhe sempre

- Boa tarde senhor João a espuma das pálpebras procura-me, descobre-me, põe a custo sílabas umas atrás das outras

- Boa tarde senhor doutor e lá vai ele curvado, a arrastar os sapatos, metido no seu blusão sujo. Foi ajudante de pedreiro: o que é agora? Como dorme, como acorda? Noventa anos, a minha mãe, que número impossível. Porque diabo consentiu que o tempo passasse, diga lá? Pequenina, frágil, indefesa. Quase cega. O sorriso mudou, transformou-se num clima resignado, com uma chuvinha perpétua. A minha tradutora romena

- Estou em Lisboa

e sempre que ela está em Lisboa lembro--me de Bucareste, da estrada para Constança, no Mar Negro, dos corvos. O riso nunca alegre do poeta Dinu Flamand, que tive em casa no tempo de Alcoitão. Somos amigos, conhecemo-nos na Finlândia. Meu Deus, tão grande o mundo. Intermináveis florestas de abetos, ramos prateados. Um escritor para outro

- Não batas a portas abertas

eu que tenho passado o tempo a bater a portas abertas por timidez, por vergonha. A porta aberta e eu à entrada, com os nós dos dedos, tac tac. Gosto da expressão nós dos dedos, eles que não possuem nós. Gosto da expressão trinta por uma linha, que não sei de onde vem. Os corvos da estrada de Constança subiam verticalmente do trigo. Garotos miseráveis, ciganos. As cicatrizes da ditadura por todo o lado. E começa a anoitecer tão cedo? O que fará o senhor João depois de meter a chave na fechadura? O que faremos nós se a noite não acabar nunca? Convoco os meus mortos, os meus vivos, aqueço as mãos na saudade de ti, e aquecer as mãos na saudade de ti há-de chegar para eu ser feliz. As vidas além das cortinas iguais à minha? Diferentes? Compro um lustre assustador? Não compro? Cheio de pingentes de plástico, de vidro? Qual o meu nome verdadeiro por trás do António que as pessoas conhecem? Não tenho nome: sou estas mãos, este corpo, esta caneta que escreve. Agora veio-me à cabeça o cemitério em Abriga, a casinha, uma menina a brincar: fico a vê-la brincar, encantado. O que haverá de mais eterno que uma menina a brincar? Em todas as mulheres, até na minha mãe, vejo uma menina a brincar. Nunca brincou comigo, apetece-lhe brincar comigo, mãe? Não calcula os jogos que sei. Quero viver. Não faço ideia como isto apareceu na página mas quero viver. Sou tanta gente às vezes. As árvores à noite que não cessam, não cessam. Não morro nunca, pois não? Não morro nunca. Prometo. Não se preocupem comigo, já prometi. Num intervalo de cortinas um relógio, uma pagela, a fotografia emoldurada de um bombeiro. O avô da Mãe Clara era oficial de Marinha. A empregada nova a pasmar para o retrato

- Quem é?

a Mãe Clara

- O meu avô

a empregada, apreciadora

- Um homem elegante

e depois, com respeito

- E um belo polícia

e a Mãe Clara furiosa. Dirão isto de mim? Um belo polícia? Recordaste-te de mim fardado, filhinha? Fui um belo polícia também. A delicadeza com que as mulheres tocam nos objectos, a harmonia dos dedos. Não tenho jeito. Estendo a palma para ti e não tenho jeito: sou apenas um homem. Não se importa de me dar um bocadinho da sua cerveja, senhor João? Só um gole?

- Boa tarde senhor doutor

e cada um de nós com um saco de plástico a subirmos a rua. Até onde?

Visão - António Lobo Antunes - Domingo 13 de Janeiro de 2008
O pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas.
(Willian George Ward)

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masahemba
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor masahemba » 15 jan 2008, 18:54

«eu penso, logo existo», disse Déscartes. Platão defendia a alegoria das cavernas,enquanto Aristóteles dizia que a geração era espontânea. Isto é filosofia do mais puro que há. E dinaussoresco também! Briosas saudações. Masahemba


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