FILOSOFAR

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Re: FILOSOFAR

Mensagempor tiririca » 30 jan 2008, 16:28

A morte do Islão

Teremos de pedir desculpa pela queda de Granada em 1492? Teremos de pedir desculpa por termos feito a Revolução Francesa e a Declaração Universal dos Direitos do Homem? Teremos de regredir à Idade Média para que os guardiões do Islão deixem de nos querer ver mortos e aniquilados?


Nos jardins árabes do Palácio dos Reis Cristãos, em Córdoba, a água corre sem cessar, passando sucessivamente em cinco tanques de pedra, dispostos por patamares, e depois rega o ‘horto’ onde as roseiras hão-de florir na Primavera e as buganvílias de todas as cores hão-de cobrir os muros das escadarias. Ao lado das piscinas, duas alamedas de laranjeiras carregadas de frutos desenham o jogo de sombras e luz que é, a par da presença constante da água, o sinal distintivo dos jardins árabes. Ao fundo, e mais recuados, erguem-se os ciprestes majestosos por onde a luz penetra nas noites de luar e algumas palmeiras ondulam na suave brisa da manhã. O lugar é simplesmente mágico: não há nada a mais nem nada a menos, como se ali (ou nos jardins do Alhambra, em Granada) a perfeição estivesse para sempre reunida e toda a inquietação humana pudesse finalmente descansar para sempre. E não é por acaso: o Corão diz que o Paraíso é um jardim atravessado por um rio, e os arquitectos que desenharam os jardins do Al-Andaluz, como os que desenharam os jardins para o sultão de Marraquexe, quiseram dar aos seus senhores uma visão terrena do Paraíso que melhor os pudesse inspirar a serem justos e sábios na sua governação.

Ali próximo, naquela que outrora foi a mais esplendorosa mesquita de todo o mundo árabe, podemos testemunhar os efeitos culturais devastadores que a Reconquista cristã causou em toda a Península. Transformada pelos cristãos em mesquita-catedral, a fantástica beleza despojada da construção original, com as suas 988 colunas de mármore suportando as cúpulas de azulejos trabalhados em motivos geométricos, foi para sempre pervertida por essa ostentação oca das catedrais, com a sua profusão de altares, ouros, capelas laterais e estátuas de santos por todos os lados. E, pela enésima vez, penso nesse insondável mistério da história: porque é que uma derrota militar, e mesmo a retirada para o lado de lá do estreito, foi capaz de significar a morte de uma civilização tão brilhante quanto a civilização árabe da Península? Para onde foram os geógrafos, os cartógrafos, os físicos, os astrónomos, os matemáticos, os arquitectos, os construtores de jardins que fizeram o apogeu do Al-Andaluz? Que imensa nostalgia ou letargia pode justificar um tão grande sono de mais de quinhentos anos, durante os quais podemos contar pelos dedos de uma mão os árabes que deram um contributo notável ao avanço da ciência, da arte, da civilização humana?

A verdade é que, no mesmo ano da conquista de Granada, os Reis Católicos lançaram-se na aventura das Índias e, meia dúzia de anos depois, os portugueses lançaram-se à descoberta do Brasil e da rota marítima para a Índia. E esse foi apenas o começo de uma civilização que, desde então, não parou de avançar e de descobrir coisas novas, desde vacinas e tratamentos de doenças até à lua e ao espaço, da construção de cidades e países inventados no outro extremo do mundo até aos computadores e às telecomunicações instantâneas. E o que fez o mundo árabe durante todos esses séculos? Descobriu que tinha petróleo...

Penso nisso agora, também, ao ouvir as notícias de que, mais acima, em Barcelona, a polícia desmantelou uma rede terrorista da Al-Qaeda que se preparava para fazer atentados suicidas no metro de Barcelona. Uma dúzia de paquistaneses tinham atravessado meio mundo para virem matar inocentes, homens, mulheres, crianças, cujo crime é o de não se guiarem pelos mandamentos do Profeta. Que sentido faz isso, que legitimidade política pode haver no terrorismo islâmico? Como é que um livro sagrado, escrito há mil e quatrocentos anos, pode servir para legitimar a cobardia e a loucura terroristas? Como é que povos regra geral tão miseráveis, em estado de desenvolvimento económico e cultural tão lastimável, podem ter como desígnio primeiro bombardear as nossas cidades, fazer explodir os nossos transportes, ensinar às suas crianças nas madrassas o ódio e o resgate divino pelo terror, em lugar de se ocuparem em formar médicos, cientistas, poetas, dar às mulheres condições de dignidade humana, construírem cidades habitáveis com um mínimo de dignidade, dotarem-se de sistemas políticos em que o poder é escolhido pelos cidadãos e não usurpado por uma casta teocrática de barbudos que odeiam a vida e tudo o que representa o progresso e a harmonia que os seus antepassados celebraram no Al-Andaluz?

Podemos, se isso ainda fizer algum sentido para eles, pedir desculpa pelas Cruzadas - que foi um momento de barbárie e estupidez, como são sempre todos os actos ditados pelo extremismo religioso. Podemos pedir desculpa pela Palestina, pelos campos de refugiados de Gaza, por essa absurda invenção política que foi a criação do Estado de Israel nos territórios há séculos habitados pelos palestinianos. Podemos e devemos pedir desculpa por coisas tão idiotas e injustificadas como a invasão e a ocupação do Iraque, decidida por meia dúzia de políticos mentirosos e ignorantes. Podemos pedir desculpa por este capitalismo globalizado que transforma uma crise financeira causada pela ganância de alguns banqueiros americanos numa crise económica mundial que vai sobretudo atingir povos que tentam sair do subdesenvolvimento à custa de imenso trabalho e sacrifícios. Mas teremos de pedir desculpa também pela queda de Granada em 1492? Teremos de pedir desculpa por termos feito a Revolução Francesa e a Declaração Universal dos Direitos do Homem? Por termos separado o Estado e a Igreja, por há muito termos abandonado o espírito das Cruzadas e da luta contra o ‘infiel’, por tratarmos as nossas mulheres em igualdade com os homens, ou por termos padrões de comportamento sociais e culturais que são diferentes mas que respeitam também a diferença do outro? Teremos de regredir à Idade Média para que os guardiões do Islão deixem de nos querer ver mortos e aniquilados?

Nos jardins árabes de Córdoba, nos pátios e muros do Alhambra, há uma promessa de eternidade que não foi cumprida pelos descendentes dos seus construtores. Onde estão hoje os jardins suspensos da Babilónia? Onde está a harmonia, o equilíbrio, a homenagem à vida que o Islão espalhou por toda a Andaluzia? Como é que deixaram que o Corão se transformasse num código penal irracional e num catálogo para terroristas? “Tu não verás nenhuma imperfeição na obra do Senhor” - qual é a obra do Senhor no 11 de Setembro, em Manhattan, ou no 11 de Fevereiro, em Madrid, na estação de Atocha?

E tudo isto para quê? Para reclamar uma pífia vitória: trazerem-nos cativos das suas ameaças, transtornar a nossa vida quotidiana à escala global, fazer do mundo outrora livre um mundo cada vez mais vigiado e policiado e fazer com que cada vez mais pessoas em todo o mundo associem o Islão à ideia de terrorismo e fanatismo? Não haverá ninguém, nenhuma voz autorizada e lúcida, no mundo islâmico que se dê conta de que o Islão se vem destruindo a si mesmo?

Miguel Sousa Tavares in Expresso (26.01.2008)
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor tiririca » 10 mar 2008, 13:28

Acordo Ortográfico - um objeto abjeto

Estávamos todos ocupados a ver os professores a desfilar pela avenida abaixo, quais marchas populares (eu até ouvi aquela do José Mário Branco e do GAC - “Ó ministra, vai-te embora/ que nós não te queremos cá/ os professores estão em luta/ o fascismo não passará”)…
Perdão… deixem-me respirar um pouco que já me dói a barriga de tanto rir…
Bom… então, estávamos nós tão ocupados com a manif dos prof que nem demos pela aprovação do Acordo Ortográfico. Aproveitando o fato de Cavaco Silva ir de visita ao Brasil, o Governo aprovou o Acordo. Temos, agora, 6 anos para nos habituarmos a escrever como os brasileiros - alguém tem alguma objeção?

Claro que o meu processador de texto ainda não se habituou ao fato, mas este texto está cheio de sublinhados a vermelho - tudo palavras que ele não conhece, o que dá mau aspeto à coisa. Vai ser difícil adotar estas palavras como sendo portuguesas. Um tipo olha para ótimo, batizar, coleção, cetro, afetivo, diretor, exato, Egito, e não consegue deixar de pensar que fizemos um mau negócio com este acordo.

E a desculpa de que não pronunciávamos as letras que agora deixam de existir, não é uma desculpa. Na palavra “ceptro”, por exemplo, o pê é pronunciado; por outro lado, na palavra horta, por exemplo, o agá não se pronuncia e não é por isso que deixa de existir.

O que eu penso é que este Acordo é uma grande merrda - com dois erres, que é como os brasileiros pronunciam!

http://www.coiso.net/?p=945
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor tiririca » 14 mar 2008, 00:47

O texto que segue tem dois fatos curiosos, que me levaram a transcrevê-lo: As ideias sobre a questão em epígrafe e a observação prática de como funciona o tal acordo ortográfico.

A opinião intocável

Richard Dawkins, biólogo evolucionista e notável divulgador da ciência da Universidade de Oxford, tem criticado o excessivo respeito à religião. Ele quer chamar a atenção para como a sociedade deposita uma imensa confiança nas opiniões dos religiosos, como se apenas a sua posição de liderança espiritual os tornassem dotados de uma inquestionável sapiência.

Dawkins parece especialmente incomodado com dois pontos. Primeiro, com a onipresença da opinião religiosa na mídia. De fato, forme-se na TV uma turma para debater a questão, digamos, do aborto, e certamente ela contará com um padre, ou um pastor, ou um rabino.

Segundo, com a impossibilidade de se criticar as opiniões religiosas. Você pode discordar politicamente de alguém e dizer: "Fulano, seu partido é uma porcaria". Em boa parte do mundo, não haverá problema algum com isto. Então por que você não pode dizer "Fulano, sua religião é uma porcaria", sem que isto soe agressivo? Existe - aponta Dawkins - um tabu que limita a possibilidade de criticar as religiões, como se elas fossem intocáveis. Como se apenas o esboço de uma crítica já se constituísse na intenção de um apartheid de fés, e não apenas na expressão da liberdade democrática de opinião.

Tendo a concordar com Dawkins: por que a opinião religiosa deve ser intocável? Por que suas verdades devem permanecer sem questionamentos? Deveria ser perfeitamente natural, dentro de um ambiente democrático, dizer que a política do Vaticano, quanto ao uso de preservativos na África, não só é um engano, como é irresponsável. Deveria ser natural dizer que os mitos de criação defendidos pelos fundamentalistas cristãos e islâmicos são patentemente falsos e não guardam absolutamente nenhuma analogia ou correlação com as verdades cientificamente estabelecidas. O mesmo se esperaria para com conceitos completamente sem sentido como o de "vida-após-a-morte". Deveria ser natural dizer que a defesa de um estado judeu em terras palestinas como um legado de patriarcas bíblicos, que expulsaram os cananitas guiados por Deus, é um monte de besteiras sem fundamentação histórica.

E nada disto deveria ser encarado como discriminação religiosa, anticristianismo, ou antiislamismo, ou anti-semitismo, ou restrição à liberdade de culto de ninguém. Seria apenas liberdade de expressão.

Mas pelo contrário, a tendência é se evitar este tipo de crítica direta, percorrendo desvios eufemísticos para guardar respeito para com as crenças dos outros. E aí abre-se espaço para a criação de monstruosas analogias entre os mitos religiosos e verdades científicas, ou mesmo entre mitos de religiões diferentes.

Quanta besteira não ouvimos em comparações entre a narrativa do livro do Gênesis e a cosmologia moderna? Este, por sinal, é um exemplo curioso. Na tradução da cosmologia, construída em uma hermética linguagem matemática, para a linguagem corrente do cotidiano, só o que sobram são afirmações genéricas como "o universo teve um início numa grande explosão". Às vezes (mas nem sempre) de boa-fé, traça-se a analogia "explosão = ação de Deus". Ou seja, tende-se a ver a ciência corroborando o mito judaico-cristão da criação. Mas o interessante é que a cosmologia é ainda muito imatura, suas teorias ainda estão em nascedouros e as evidências experimentais ainda são muito deficientes. Como conseqüência, assim que um cosmólogo mais afoito divulga sua nova hipótese de que o universo sempre existiu e passa por períodos de expansões e contrações, imediatamente há um palpiteiro para divulgar que eram os brâmanes que estavam certos.

Também nem é necessário muito esforço para ouvir alguém defendendo que todas as religiões são manifestações de um só Deus. Os atributos são distinto, os poderes distintos, a atuação no mundo, distinta, mas não importa: é o mesmo Deus! Isto não faz o menor sentido, mas cumpre bem a função de evitar que eventos ecumênicos se transformem em curiosos debates políticos.

De qualquer modo, esta atitude respeitosa, de cabeça baixa, para com a religião é ótima para aqueles que detêm o poder religioso. O sacerdote com sua sapiência mística se embrenha por todos os meios sociais, conquistando e exercendo seu papel político, sem precisar explicar os porquês de suas opiniões, a não ser por referências tão vazias quanto genéricas a princípios morais absolutos.

João Paulo II, em sua encíclica sobre a relação entre filosofia e fé, dirige-se aos cientistas dizendo que "a busca da verdade, mesmo quando se refere a uma realidade limitada do mundo ou do homem, jamais termina; remete sempre para alguma coisa que está acima do objeto imediato dos estudos, para os interrogativos que abrem o acesso ao Mistério" (João Paulo II, Fides et Ratio, 1998.)

Ou seja, Paulo II delimita um espaço no qual a ciência tem competência para construir verdades, mas cuidadosamente reservando um perímetro para a fé, o espaço do Mistério que só é conhecido pela verdade revelada. Como a ciência não é - nem se pretende que seja - absoluta, esta divisão cria uma relação tautológica na qual a fé sempre está correta, pois mesmo quando a ciência invadir o seu perímetro, este não deixa de existir, apenas recua no horizonte do que se desconhece secularmente.

Isto dá à igreja possibilidade de manobra, principalmente se for politicamente bem planejada, como é o caso da Católica. Ao mesmo tempo que recua em questões relativamente irrelevantes para o cotidiano público, como reconhecer erros no caso Galileu, aceitar a possibilidade de vida em outros planetas, ou aceitar a evolução das espécies como "mais do que uma hipótese", investe ampliando seu território em questões importantes na área de direitos civis e biotecnologia, atingindo mesmo aqueles que não são praticantes de sua fé.

Não sou radical como Dawkins. À mesa de debates deve estar sempre reservado o lugar não só para o religioso, mas para todos aqueles que de alguma maneira expressem os sentimento de algum setor da sociedade sobre o assunto em questão, mesmo que sua opinião não seja cientificamente avalizada.

É fundamental para a democracia que a verdade social, ou seja, aquela que dita os padrões éticos e legais, se estabeleça mais por um debate, digamos, tribal, que por pura e exclusiva análise científica dos dados.

A ciência é parcela importante para subsidiar e orientar as decisões, mas nem seus conhecimentos são absolutos, nem os cientistas são infalíveis e isentos. Uma sociedade onde decisões fundamentais sobre, por exemplo, clonagem humana, fossem orientadas apenas pelas opiniões dos conselhos científicos, não seria o melhor dos mundos que posso imaginar. Por outro lado, se o religioso quer ter sua opinião levada em conta nas decisões políticas de uma sociedade, ele tem que aceitar a crítica sem condescendência à sua fé, como parte legítima do jogo da democracia.

Mário Barbatti
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor tiririca » 07 abr 2008, 12:28

Aos amigos!!!

Conheces o relacionamento entre os teus dois olhos?
Eles piscam juntos, movem-se juntos, riem juntos, choram juntos, vêem coisas juntos e dormem juntos... Embora eles nunca se vejam um ao outro...

A amizade deveria ser exactamente assim!

A vida é horrível, sem amigos.
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor tiririca » 12 jul 2008, 01:16

Operário em construção

VINÍCIUS DE MORAES


Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.


De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento

Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia "sim"
Começou a dizer "não"
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
- "Convençam-no" do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.

Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e reflectia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objectos
Produtos, manufacturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fracturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção
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Re: FILOSOFAR

Mensagempor tiririca » 26 jul 2008, 21:08

Serenidad

No me tacheis de inconsequente porque mi corazon
haya sido apresado por una voz que canta:
Hay que estar serio unas veces y otras dejarse emocionar;
como la madera, de que sale do mismo
el arco del guerrero que el laúd del cantor


Ibrahim ibn Utamn
Alfaqui Cordobés (Século XII)
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