PALAVRAS E OUTROS CONTOS!

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lecavo
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PALAVRAS E OUTROS CONTOS!

Mensagempor lecavo » 30 nov 2007, 22:05

Viva!



A FALSA TIA


por Miguel de Cervantes


Passando por certa rua de Salamanca dois jovens estudantes, da região central da Espanha, mais amigos da ociosidade e da patuscada que de Bartolo e Baldo, viram numa janela de uma casa, uma gelosia, e lhes parecendo coisa nova, porque a gente de tal casa não se exibia e apregoava não se vendia, quiseram informar-se do caso. Pesquisando informaram-se com um oficial, vizinho parede-meia, que lhes informou:
- Senhores, há oito dias que mora nesta casa uma senhora forasteira, meio beata e de muita austeridade; tem consigo uma donzela de extremado parecer e elegância, que dizem ser sua sobrinha; sai com um escudeiro e duas damas, e presumo ser gente graúda e de grande recato. Até agora não vi entrar pessoa alguma da cidade nem de fora a visitá-las, nem saberei dizer de onde vieram até Salamanca; o que sei é que a moça é formosa e honesta, segunda parece, e que o fausto e autoridade da tia não são de gente pobre.
O relatório feito pelo vizinho oficial aos estudantes deu-lhes vontade de levarem para frente aquela aventura; porque, sendo experimentados na cidade e vasculhadores de quantas janelas ostentassem manjericões, em toda ela não sabiam que houvesse quem hospedasse cursistas em universidade, e principalmente, que viessem morar neste tipo de rua, onde, por ser de boa peagem, sempre se vendera tinta, ainda que não da melhor; que há casas assim em Salamanca como noutras cidades, cujo ofício é albergar mulheres cortesãs ou, por outras palavras, trabalhadoras ou amantes.
Era já quase meio-dia, e a dita casa estava cerrada por fora, do que concluíram os brincalhões, ou que ali não comiam as suas moradoras, ou que em pouco chegariam. Frustração não lhes traiu a expectativa, porque daí a pouco viram chegar uma reverenda matrona, com uma touca branca como a neve, mais comprida que sobrepeliz de cônego português, a qual trazia ao pescoço um grande rosário de contas sonantes, tão grandes como as de Santinuflo, penduricalho que lhe chegava até à cintura, e manto de seda e lã, luvas brancas, novas em folha, segurando um báculo ou junco das Índias com remate de prata.
Pela mão esquerda a conduzia um escudeiro, como os do tempo de Fernán Gonzáles, com seu casaco de veludo, já sem lã, seu calção escarlate, seus borzeguins de Beja, capa de faixas, gorro de Milão, suas luvas peludas e seu talim com uma espada de Navarra.
Atrás vinha a sobrinha, moça de dezoito anos, de rosto circunspecto e grave, mais aquilino que redondo, rosado; os olhos negros, rasgados; sobrancelhas longas e bem feitas; cílios também longos; cabelos loiros e encaracolados, por artifício, como se via pelas raízes; saia, roupa justa e sapatos de veludo negro, com preguinhos e galões de prata escovada; luvas perfumadas, não com pó de arroz, mas com âmbar. A postura era grave; honesto o olhar; o passo gracioso. Olhada por partes, parecia muito bem, e no todo muito melhor; e sendo a condição e inclinação dos dois manchegos a mesma que a dos corvos novos que a qualquer carne se disputam, vista a da nova garça, se jogaram sobre ela com todos os cinco sentidos, ficando suspensos e enamorados de tal donaire e beleza; queriam o privilégio daquela formosura, ainda que coberta de burel.
Vinham atrás duas damas de honor, vestidas à laia do escudeiro. Com todo esse aparato chegou a boa senhora à sua casa, e abrindo o bom escudeiro a porta, entraram-na; é verdade que, ao vê-las entrar, os estudantes derrubaram seus bonés com infantil desazo e respeito mesclado de afeição, dobrando os joelhos e baixando os olhos, qual se fossem os mais benditos e corteses homens do mundo.
Tendo as senhoras entrado, quedaram-se os senhores na rua, pensativos e um tanto enamorados, hesitantes quanto a atitude que tomar, crendo sem dúvida que, sendo aquela gente forasteira, não teria vindo a Salamanca para aprender leis, senão para violá-las. Concordaram em fazer-lhes uma serenata na noite seguinte, pois este é o primeiro serviço que as damas esperam de estudantes pobres. Foram em seguida ajustar contas com a fome, e alimentados, convocaram seus amigos, juntaram guitarras e outros instrumentos, preveniram músicos e dirigiram-se a um poeta dos que sobram naquela cidade, ao qual rogaram que sobre o nome Esperança, que assim chama a de suas vidas, pois já por tal a tinham, fosse servido de compor-lhes alguma letra para cantar naquela noite; mas que incluísse na composição o nome de Esperança. Deste cuidado se encarregou o poeta, e com pouco, mordendo os lábios e as unhas, e rasgando as têmporas e a fronte, forjou um soneto, como pode achavascar um cardador. Deu-o aos jovens enamorados; contentou-os, e acordaram que o próprio autor fosse dizendo os versos aos músicos, porque não havia tempo para decorá-lo.
Nisto chegou a noite, e na hora aprazada para a solenidade apandilharam-se nove matadores da Mancha e quatro músicos de voz e guitarra, uma harpa, uma bandurra, doze chocalhos, trinta broquéis e mais; tudo repartido entre uma tropa de apaniguados. Com toda essa procissão e estrondo chegaram à rua e à casa da senhora. Entraram por ela os sons dos cruéis chocalhos com tal ruído que, embora já fosse noite e todos os vizinhos e moradores estarem já no segundo sono, que nem bichos de seda, não mais lhes foi possível dormir, nem houve pessoa em toda a vizinhança que não despertasse e não assomasse à janela. Em seguida entrou em função a gaita, já sob as janelas da dama. Depois, ao som da harpa, ditando-lhe o poeta seu artífice, cantou o soneto um músico dos que não se fazem rogar, em voz afinada e suave, que assim dizia:

Nesta rua está minha Esperança,
a quem com a alma e corpo adoro; Esperança de vida e de tesouro,
não tem aquele que a alcança.

Se eu a alcanço, será minha andança
que não convide o francês, o índio, o mouro; por isso, seu favor galante imploro,
Cupido, deus de doce folgança;

ainda que esta Esperança tão pequena,
que anos tem apenas dezenove,
será quem a alcançar, um belo gigante.

Aticem o incêndio, arda-se a lenha,
oh Esperança gentil! e quem se arroje
a não ser em serviços vigilante.


...continua
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Re: PALAVRAS E OUTROS CONTOS!

Mensagempor lecavo » 30 nov 2007, 22:08

...continuação...

Apenas se acabara de cantar esse excomungado soneto, quando um velhaco dos circunstantes, graduado em in untroque, disse a outro, com voz altissonante:
- Pela fé, que nunca ouvi melhor estrambote em toda a minha vida! Viste aquele concordar de versos, aquele jogar do vocábulo com o nome da dama, aquela invocação de Cupido, aquele "galante" tão bem encaixado, e os anos da menina tão bem inseridos, com aquela comparação tão bem contraposta entre "pequena" e "gigante"? Juro que se conhecesse o poeta, que tal soneto compôs, haveria de enviar-lhe amanhã meia dúzia de chouriços que me trouxe esta manhã o almocreve de minha terra!
Só pela alusão aos chouriços persuadiram-se os ouvintes ser o bajulador sem dúvida extremenho, e não se equivocaram; porque logo se soube ser de um lugar de Extremadura, próximo de Jaraicejo, e daí passou, na opinião de todos, por homem douto e versado na arte poética, só por terem-no ouvido esmiuçar o cantado e descomunal soneto.
Com tudo isso permaneciam as janelas da casa hermeticamente fechadas, pelo que se desesperavam os dois manchegos; mas, apesar dos pesares, ao som das guitarras secundaram as três vozes com a seguinte romança, também composta para a ocasião:

Desculpe, Esperança minha,
por favorecer a alma
que sem vos agonizar
quase o corpo desampara.
As nuvens do temor frio
não cubram vossa luz clara,
que as réstias de vossos sóis
não rendam quem lhes contrasta.
No mar das minhas cóleras
tenhas tranqüilas as águas,
se não quiseres que o desejo
se choque com a esperança.
Por vós espero a vida
quando a morte me mata,
e a glória no inferno,
e no desamor a graça.


Chegavam os músicos a esta altura da romança, quando sentiram abrir a janela e assomar uma das damas, que naquele dia tinham visto, e que lhes disse com voz aflautada e polida:
- Senhores, minha senhora dona Cláudia de Astudillo y Quiñones suplica a vossas mercês que vades tocar essa música noutra parte, por causa do escândalo e mau exemplo que se dá à vizinhança, uma vez que temos em casa uma sobrinha donzela, que é minha senhora dona Esperança de Torralba Meneses y Pacheco. Não fica bem à sua posição que se façam semelhantes coisas à sua porta e a tais horas. De boa vontade ouvirá vossa música desde que lhe ofereçais de outra forma e de outro estilo e com menos escândalo.
Respondeu-lhe, então, um dos pretendentes:
- Fazei-me o regalo e a graça, senhora dona, de dizer a minha senhora dona Esperança de Torralba Meneses y Pacheco que chegue a essa janela, pois lhe quero dizer duas palavras, manifesto de sua utilidade e serviço.
- Hui! Hui! - disse a dama. - Vê lá se a isso há de anuir minha senhora dona Esperança! Saiba, meu senhor, que não é das que imagina; porque minha senhora é muito importante, muito honesta, muito recatada, muito discreta, muito instruída; e não faria o que lhe pede nem que a cobrisse de pérolas.
Estando nesta disputa e falação com a afetada dama do "hui" e das "pérolas", ouviram o tropel de gente que vinha pela rua e, vendo os músicos e acompanhantes que era a justiça da cidade, fizeram todos uma roda, recolhendo no meio do esquadrão a bagagem dos músicos; chegando a justiça, entraram a repicar os broquéis e ranger as malhas, a cujo som não quis a justiça dançar a dança de espadas dos hortelões da festa do Corpus de Sevilha, e seguiu adiante, por não parecer lucrativa aquela feira a seus ministros, meirinhos e aguazis. Então ficaram ufanos os valentes músicos e quiseram prosseguir a começada função; porém um dos donos dos instrumentos não quis que continuassem se a senhora dona Esperança não assomasse à janela, à qual não assomou nem a dama, por mais que a voltassem a chamar; do que, enfadados e expulsos todos, quiseram apedrejar-lhe a casa e quebrar-lhe a gelosia, e dar-lhe uma vaia ou matraca; proceder próprios de moços em casos semelhantes. Mas, ainda que irritados, voltaram à carga fazendo soar a gaita e o enfadonho e brutal som dos chocalhos, com o qual ruído puseram termo à serenata.
Os músicos se aborreceram quando se desfez o grupo, mas não tanto quanto o aborrecimento dos manchegos ao ver quão pouco se aproveitara com a seresta. Por isso foram ter à casa de certo cavalheiro, amigo deles, do tipo dos que chamam de generosos em Salamanca, que se sentam à cabeceira da mesa, ainda moço, rico, gastador, músico, apaixonado e, sobretudo, amigo de valentes. Falaram-lhe muito da beleza, donaire e graça da donzela, bem como da rigidez e fausto da tia e da pouco ou nenhuma possibilidade que tinham de usufruir de tal companhia; pois a música, o único regalo que podiam oferecer, não lhes serviu senão para indigná-la, graças ao descrédito da vizinhança. O cavalheiro, que era dos que encurtam caminho, não tardou em prometer-lhes que a conquistaria para eles, custasse o que custasse. E no mesmo dia enviou um recado, tão longo quanto comedido, à senhora dona Cláudia, oferecendo a seu serviço a sua pessoa, sua vida e sua fazenda. A astuta Cláudia informou-se, pelo pagem do cavalheiro, da qualidade e condições de seu senhor, de sua renda, inclinação, entretenimentos e exercícios, como se houvesse de tomá-lo por verdadeiro genro: e o pagem, dizendo a verdade, retratou-o de forma que ela ficou satisfeita, e enviou com ele a dama do "hui", com a resposta, não menos longa e comedida do que havia sido a embaixada.
Entrou a dama, recebeu-a o cavalheiro cortesmente, sentou-a junto a si numa cadeira e deu-lhe um lenço de rendas, com que enxugasse o suor, porque vinha um tanto cansada da caminhada; e antes que lhe dissesse ela palavra do recado que trazia, fez ele com que lhe trouxessem uma caixa de marmelada, e dela ele mesmo lhe cortou duas fatias, oferecendo-lhe ainda dois bons pares de tragos de vinho para enxaguar os dentes, e ela ficou como uma papoula e mais contente do que se lhe houvessem dado uma sinecura. Expôs logo sua embaixada com seus torcidos, afectados e costumeiros vocábulos, concluindo com uma deslavada mentira, a qual foi que sua senhora dona Esperança de Torralba Meneses y Pacheco era tão virgem como quando viera ao mundo; mas que, com tudo isso, não haveria para sua mercê porta de sua senhora fechada. Respondeu-lhe o cavalheiro que acreditava em tudo quanto lhe dissera do merecimento, valor, formosura, recato e qualificação de sua ama; mas que aquilo de virgindade era um tanto difícil de engolir; pelo que rogava que neste ponto lhe declarasse a verdade do que sabia, e que lhe jurava à fé de cavalheiro que se o desenganasse lhe daria um rico manto de seda. Não foi necessário, com esta promessa, dar outra volta ao cordel do rogo, nem apertar-lhe os garrotes, para que a melindrosa dama confessasse a verdade; que na verdade era que sua senhora dona Esperança Torralba Meneses y Pacheco estava de três mercados, ou por melhor dizer, de três vendas, acrescentando o como e o quando, o com quem e onde, com mil detalhes, ficando dom Félix, que assim se chamava o cavalheiro, satisfeito de tudo quanto queria saber; e combinou com ela que naquela mesma noite o introduzisse em casa de sua senhora, onde queria falar a sós com Esperança, sem que o soubesse a tia. Despediu-se com boas palavras e oferecimentos que transmitisse a suas amas, e deu-lhe em dinheiro quanto poderia custar o negro manto. Ajustou o que era mister para entrar na casa, com o quê se foi a dama louca de contente, e ele ficou pensando em sua idéia, aguardando a noite, que lhe pareceu tardar mil anos.

continua...
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Re: PALAVRAS E OUTROS CONTOS!

Mensagempor lecavo » 30 nov 2007, 22:12

...continuação...

Chegada a hora aprazada, que nenhuma há que não chegue, e feito um São Jorge, sem amigo nem criado, dirigiu-se dom Félix aonde viu que a dama o esperava, a qual, abrindo a porta, introduziu-o em casa com muito cuidado e silêncio e levou-o ao aposento de sua senhora Esperança, atrás das cortinas de seu leito, recomendando-lhe que não fizesse nenhum ruído, porque se a senhora Esperança era sabedora de que ali se encontrava, de nada sabia a sua tia, e ela desejava por sua persuasão satisfazê-lo plenamente; e apertando-lhe a mão em sinal de palavra cumprida, retirou-se a dama, ficando dom Félix atrás da cama de sua Esperança, aguardando em que daria aquele embuste e enredo.
Seriam nove horas da noite quando entrou para esconder-se dom Félix, e, numa sala contígua ao aposento, estava a tia sentada numa cadeira baixa de espaldar, a sobrinha, num estrado fronteiro, e, no meio, um grande braseiro de lume. A casa, já em silêncio; o escudeiro deitado; a outra dama, recolhida e a dormir; só a sabedora do negócio estava de pé, solicitando à sua senhora, a velha, que se deitasse, afirmando que as nove batidas que o relógio havia dado eram as dez, desejosa de que seus acertos surtissem efeito, conforme sua senhora, a moça e ela tinham combinado: sem que a Cláudia soubesse, tudo aquilo que dom Félix desse seria exclusivamente delas, sem que isso tivesse a haver a velha, a qual era tão mesquinha e avara, e tão se apossava do que a sobrinha ganhava e conseguisse, que jamais lhe dava sequer um real para comprar o que de extraordinário quisesse; pensando larapiar este contribuinte e muitos outros que se esperava ter com o andar dos tempos. Mas, ainda que houvesse a dita Esperança que dom Félix estava em casa, não sabia a parte secreta onde estava escondido. Convidada, pois, do silêncio da noite e da comodidade, teve Cláudia vontade de falar e, em meio tom, começou a dizer deste modo:
- Muitas vezes tinha te dito, Esperança minha, que tenhas sempre em mente os conselhos, avisos e advertências que diariamente te dou, se os guardares como deves e me prometeste, te serão de tanta utilidade e proveito como a própria experiência e o tempo, que são o mestre de todas as coisas. Não penses que estamos em Plasencia, de onde és natural, nem Zamora, onde começaste a conhecer o mundo; também não estamos em Toro, onde deste o terceiro fruto de tua fertilidade, terras essas que são habitadas de gente boa e simples, sem malícia nem receio, suspeita, complicada ou versada em velhacarias e diabruras como a em que hoje estamos. Atente, filha minha, que estás em Salamanca, cidade chamada de mãe das ciências, caprichosa, arrojada, livre, acolhedora, alegre, discreta, diabólica mas de bom humor. Isso em geral, mas em particular, como a maior parte são forasteiros de diferentes regiões e províncias, nem todos tem a mesma formação. Porque os biscainhos, ainda que sejam jovens, são, na sua maioria, de idéias curtas, mas se enrabichados por uma mulher, são largos de bolsa. Os manchegos são metidos a valentes e levam o amor aos sopapos. Há aqui também muitos aragoneses, valencianos e catalães, gente polida, perfumada, enfeitada, bem criada, mas não lhes peça demais, e, se queres saber, filha, saiba que não são de brincadeiras e, quando se aborrecem com uma mulher, mal-humorados e até cruéis. Os castelhanos novos são nobres de pensamentos, e, se têm dão, ou, pelo menos, se não dão, não pedem. Os extremenhos têm de tudo, como boticários, e são como a alquimia, que se chega a prata, prata será e, se chega a cobre, cobre será. Com os andaluzes, filha, é preciso ter quinze sentidos e não apenas cinco; porque são mordazes e perspicazes, astutos e nada miseráveis. Os galegos não merecem ser considerados, pois não são gente. Os asturianos são bons para os sábados porque sempre abastecem a casa de gordura e sebo. Já os portugueses merecem ser muito bem analisados pelos seus rendimentos e propriedades; como são gente simples de pensamento, cada louco com a sua mania, levam o amor com frivolidades. Veja, Esperança, com que variedade de gente hás de tratar, e se será necessário , tendo de te envolveres num mar de tantos baixios, que eu te norteie para que não se desgarre o barco do nosso intuito e pretensão e deitemos à água a mercadoria, que é o teu gentil e galhardo corpo, dotado de graça, donaire e garbo para quantos o apetecem. Atente, menina, que não há mestre em toda esta universidade que saiba ler tão bem como eu sei e possa ensinar-te esta arte mundanal que professamos; eis que pelos muitos anos que nela convivi, e pela experiência que adquiri, posso ser jubilada. E embora o que te quero dizer seja parte do todo que outras vezes já te disse, quero que estejas atenta e grata. Nem todas as vezes o marinheiro traz desfraldadas as velas do seu navio, nem todas, recolhidas, pois conforme o vento se lavra um tento.
Entrementes tinha Esperança baixos os olhos e espevitava o braseiro com uma faca, inclinada a cabeça e, pelo que parecia, satisfeita e obediente ao que se lhe dizia; mas não contente com isso, Cláudia lhe disse:
- Levanta a cabeça, menina, e deixa de remexer o fogo; crava e fixa em mim os olhos, não durmas; para o que te quero dizer terás de usar outros cinco sentidos, além dos que tens.
Ao que replicou Esperança:
- Senhora minha tia, não se canse em alongar o seu discurso, que já me tem esquentado a cabeça com as muitas vezes que me advertiu do que me convém e devo fazer. Não queira esquentá-la novamente. Ora, que mais têm os homens de Salamanca que os das outras terras? Não são todos de carne e osso? Todos não têm alma, com três potências, e cinco sentidos? Que importa que tenham alguns mais letras e estudos que os outros? Antes imagino eu que os estudados se cegam e caem mais rápido do que os outros porque têm mais conhecimento e podem melhor valorizar a formosura. Há mais que fazer do que incitar o tíbio, provocar o casto, negar-se ao carnal, animar o medroso, tentar o tímido, refrear o presumido, despertar o adormecido, convidar o desinteressado, escrever ao alienado, louvar o ignorante, celebrar o discreto, adular o rico, desenganar o pobre, ser anjo na rua, santa na igreja, formosa à janela, honesta em casa e demônio na cama? Tudo isso, senhora minha tia, eu já sei de cor. Traga-me outras novas além de me avisar e me advertir e deixe estas para outra ocasião, porque estou morrendo de sono e não vou conseguir ficar a escutá-la. Uma coisa, porém, lhe quero dizer e lhe asseguro, para que fique bem claro e bem a par: não me deixarei mais sofrer por sua mão nem por todo ouro que me possam oferecer. A flor do meu corpo já lhe dei três vezes e outras tantas a senhora vendeu, e três vezes padeci terrível martírio. Porventura sou de bronze? Não têm sensibilidade as minhas carnes? Então, é só dar-lhes pontos como se fosse roupa rasgada? Pelo século de minha mãe, que não conheci, jamais hei de consentir! Deixe, senhora minha tia, rebuscar a minha vinha, que às vezes é mais saboroso o rebusco que o fruto principal; e se ainda pretende vender o meu jardim por inteiro e intacto, arranje outro modo mais suave de fechamento do meu postigo, porque o da linha e agulha não mais me chegará às carnes.
- Ora, boba, boba - replicou a velha Cláudia - e que pouco sabes destes assuntos! Para este mister nada se iguala à agulha e a linha encarnada, e tudo mais é andar às escuras. De nada vale o sumagre triturado; pior ainda a sanguessuga; a mirra não é de nenhum proveito, nem o albarrão nem o papo de borracha, nem outras medicinas caseiras, que tudo é inútil, porque não há bronco que, se abre o olho, não caia no conto da falsa moeda. Valha-me o meu dedal e a minha agulha e valha-me ainda a tua paciência e submissão, e venha contra mim todo o gênero humano pois serão enganados, tu com a honra e eu com os bens e mais proveito que o normal.
- Confesso, senhora, ser verdade o que diz - retorquiu Esperança - mas persisto em minha determinação, ainda que me reduza os ganhos. Tanto mais se tarda a venda mais se perde o lucro, que se pode obter abrindo uma loja sem mais demora. Se, como diz, temos que ir à Sevilha para aguardar a frota, não é razão para passarmos o tempo com as flores do meu corpo, esperando me vender a quarta vez, porque já está preta e murcha. Vá dormir, senhora, por minha vida e pense nisto. Amanhã tomarás a resolução que melhor lhe aprouver pois no final das contas terei de seguir seus conselhos, pois a tenho por mãe e até mais que mãe.

...continua...
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Re: PALAVRAS E OUTROS CONTOS!

Mensagempor lecavo » 30 nov 2007, 22:14

...continuação...

Estava nesse ponto a conversa entre tia e sobrinha, ouvida integralmente por dom Félix, bastante surpreso, que de repente, não teve forças para conter, começou a espirrar com tanto ruído que da rua se poderia ouvir. Ato contínuo se levantou dona Cláudia, alvoroçada e confusa, que empunhando a vela entrou no aposento de Esperança, e como se lhe tivessem informado, caminhou diretamente à cama, e, suspendendo as cortinas, deu com o cavalheiro, de espada em punho, o chapéu enterrado na cabeça, o semblante alterado, em posição de combate. Assim que a velha o viu começou a se benzer, dizendo:
- Jesus me valha! Que grande desventura e desdita é essa? Homens em minha casa, e em tal lugar e nestas horas? Estou desgraçada! Desventurada de mim! O que dirá quem o souber?
- Sossegue, minha senhora dona Cláudia, - disse dom Félix - que aqui não vim para sua desonra ou e menosprezo, senão por sua honra e benefício. Sou cavalheiro rico e discreto, e sobretudo enamorado de minha senhora dona Esperança. E para satisfazer os meus desejos e minha afeição empenhei-me em transportar-me a este lugar, negociando secretamente com uma senhora, que algum dia saberá, com a intenção de ver e desfrutar aquela que de longe me fez emocionar. E se alguma pena merece esta culpa, aqui e agora me pode aplicá-la, pois nenhuma receberei de suas mãos que não me enleve de glória, nem poderá ser mais rigorosa do que a que padeço de meus desejos.
- Ai, desventurada de mim! - voltou a replicar Cláudia - e a quantos perigos nós mulheres estamos expostas vivendo sem marido ou seus homens, que nos defendam e amparem! Agora é que sinto o quanto me fazes falta, malogrado de ti, dom João de Bragamonte, meu desventurado consorte! que se vivo foras, nem eu viria a esta cidade, nem estaria nesta confusão e vergonha em que me encontro. Cavalheiro, queira retirar-se imediatamente por onde entrou! E se algo quiser nesta casa, de mim ou de minha sobrinha, de fora se poderá negociar com mais vagar, mais honra e mais proveito e gosto.
- Para o que quero nesta casa, senhora minha - retrucou dom Félix - o melhor é estar dentro dela, que a honra por mim não se perderá; na mão está o lucro, que é o proveito; e pelo que tange ao gosto, digo que não pode faltar. E para que não seja tudo palavras, em penhor das minhas, dou esta corrente de ouro.
Tirando do pescoço uma pesada corrente de ouro, colocou-a no da matrona. Neste ponto, logo que a dama da tramóia viu tal oferta e tão generosa parte oferecida, antes que sua ama respondesse ou aceitasse, disse:
- Haverá na terra príncipe como este? Qual imperador, caixeiro de negócios, peruano ou cónego seria capaz de tamanha generosidade e desprendimento? Senhora Cláudia, por minha vida não se trate mais deste negócio: deite-se por terra e faça logo tudo o que este senhor quiser.
- Estás em teu juízo, Grijalva - assim se chamava a dama - estás em teu juízo, louca, desatinada? - disse dona Cláudia. - É a castidade de Esperança, sua flor cândida, sua pureza, sua virgindade intacta, havia eu de aventurá-la e vendê-la sem mais nem menos, por causa dessa correntinha? Estarei eu tão alienada para me deslumbrar com seu brilho, de me atar aos seus elos e me prender com seus ligamentos? Pelo sangue de Cristo, que tal não será? Retome sua corrente, senhor cavalheiro, e olhe-nos com melhores olhos; e saiba que, ainda que mulheres sós, somos respeitáveis e que esta menina está como veio ao mundo, sem que ninguém possa dizer o contrário. E se contra esta verdade lhe disseram alguma mentira, qualquer um se engana, dou-lhe por testemunhas o tempo e a experiência.
- Cale-se, senhora, - disse a esta altura Grijalva - porque, ou sei pouco, ou me matem se este senhor aqui não sabe toda a verdade sobre minha senhora moça.
- Que há para saber, desavergonhada, que há de saber? - replicou Cláudia. - Ignoras a pureza da minha sobrinha?
- Por certo, bem pura estou - disse então Esperança, que estava no meio do aposento, meio embevecida e indecisa, assistindo a pendência em torno do seu corpo - e tão pura, que não faz uma hora que, com todo este frio, vesti uma blusa limpa.
- Esteja a senhorita como estiver, - disse Félix - só pela amostra do pano que vi não sairei da loja sem comprar toda a peça. E para que não me deixe de vender, por melindre ou ignorância, saibas, senhora Cláudia, que ouvi toda a prática ou sermão que acabas de fazer à menina, e quisera ser eu pego na armadilha, enganado pela agulha e pela linha púrpura, ainda que se acrescentassem à corrente uns brincos de ouro e umas pulseiras de diamantes. E estando eu a par desse segredo e mesmo tendo tão bom penhor, já que não se estima a minha pessoa nem o que doei, que se tenha comigo boa vontade pois juro e protesto que por mim ninguém saberá no mundo o rompimento desta muralha. Ao contrário, serei o pregador de sua virgindade e bondade.
- Eia! - disse então Grijalva - bom proveito, bom proveito, que num só os junto e bendigo.
E tomando a mão da menina a entregava a dom Félix, encolerizando a velha a tal modo que esta, empunhando um dos seus sapatos, passou a espancar Grijalva, violentamente. Esta, vendo-se maltratada, agarrou a touca de Cláudia deixando a ostentar apenas uma calva mais luzidia que a de um frade, ficando parte da cabeleira postiça pendendo-lhe de um lado, transformando-a na mais abominável carranca do mundo. Percebendo seu estado desandou a dar gritos, fazendo uma grande celeuma, apelando para a justiça. Logo, como se fora coisa de encantamento, entrou pela sala corregedor da cidade com mais de vinte pessoas, entre escrivães e meirinhos. É que tendo o corregedor recebido denúncia contra as moradoras daquela casa, determinou visitá-las naquela noite e, tendo batido à porta, não ouviram por estarem envolvidas em suas práticas, e então os meirinhos, com uma estaca, que à noite andavam carregados para esse mister, arrebentaram a porta e subiram sem serem percebidos. E desde o princípio dos conselhos da tia até a pendência de Grisjalva esteve ouvindo o corregedor sem perder uma fala, entrou dizendo:
- Desmedida sois vós com vossa ama, senhora criada.
- Oh! como é desmedida esta velhaca, senhor corregedor, - disse Cláudia - atreveu-se a pôr as mãos onde jamais chegaram outras, desde que Deus me arrojou a este mundo!
- Bem dizeis que vos arrojou, - respondeu o corregedor - porque não servis senão para ser arrojada. Cobri-vos, honrada senhora, cobri-vos todas e vinde para o xadrez.
- Para o xadrez, senhor! Por quê? - disse Cláudia. - Às pessoas de minha qualidade e jaez usa-se nesta terra tratá-las desta maneira?
- Não griteis mais, senhora, que haveis de vir sem dúvida, por mal que vos pese, e convosco esta senhora colegial triglota no desfrute de suas propriedades.
Nisto se aproximou dom Félix e sigilosamente suplicou ao corregedor que não as levasse e que as tomaria sob fiança, mas de nada valeram os rogos e promessas.
Quis a sorte, porém, que entre o pessoal que acompanhava o corregedor viessem, por mera coincidência, os dois estudantes manchegos que haviam cantado sob a janela de Esperança, e que presenciaram toda a cena. Vendo que de qualquer maneira Esperança, Cláudia e Grijalva iriam parar no xadrez, combinaram entre si, num instante, o que deveriam fazer. Furtivamente deixaram a casa e se postaram na esquina de uma rua por onde haviam de passar as presas.
Ali ficaram de tocaia, com seis amigos da mesma laia, aos quais pediram ajuda para uma escaramuça contra a justiça do lugar e para tal se mostraram mais dispostos do que se fosse para irem a algum solene banquete. Em pouco assomou a justiça com suas prisioneiras e antes que chegassem se puseram os estudantes com tal entusiasmo e denodo, que num piscar de olhos não havia mais nenhum meirinho na rua, se bem que só puderam libertar Esperança, pois, assim que avistada a peleja, os meirinhos que levavam Cláudia e Grijalva se foram com elas por outra rua enfiá-las no cárcere. O corregedor, frustrado e envergonhado, foi-se para sua casa; dom Félix tornou para a dele e os estudantes para sua pousada. E querendo, um dos que arrebatara Esperança da justiça, amá-la naquela noite, não quis o outro consenti-lo, chegando a ameaçá-lo de morte se o fizesse.

...continua...
«À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás.»
M. de Montaigne

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Re: PALAVRAS E OUTROS CONTOS!

Mensagempor lecavo » 30 nov 2007, 22:15

...continuação...

Oh milagres do amor! Oh forças poderosas de desejo! Isto porque vendo o estudante que retinha a presa que seu companheiro com tanto afinco lhe proibia amá-la, sem mais palavras e sem pensar no que fazia, disse:
- Já que não consentis que eu goze aquela que tanto me custou, e não quereis que por amiga a tome, não podereis negar que como esposa legítima não a podeis nem deveis tomar-me. E virando para a moça, a quem mantinha segura pela mão, disse-lhe:
- Esta mão, que até aqui vos dei, senhora de minha alma, como vosso defensor, agora, se assim quiserdes, vo-la dou como legítimo esposo.
Esperança, que com menos se contentara, assim que viu o que lhe era oferecido disse que sim e queria sim, não uma, senão muitas vezes e abraçou-o como seu senhor e marido. O companheiro, admirado de ver tão estranha resolução, sem nada lhes dizer afastou-se e recolheu-se ao seu aposento. O desposado, temeroso de que seus amigos e conhecidos lhe estorvassem a realização de seu desejo e lhe impedissem o casamento, que ainda não estava efectivado com as devidas formalidades, foi naquela mesma noite para a estalagem onde pousava o arrieiro de sua terra.
Quis a boa sorte de Esperança que o tal arrieiro partisse na manhã seguinte e se foram com ele. Conforme chegou o estudante à casa de seu pai, onde lhe deu a entender que aquela senhora que ali trazia era filha de ilustre cavalheiro, logo acrescentou que a havia raptado do lar paterno com a palavra de casamento. Era o pai velho e acreditou piamente no que lhe dizia o filho. Vendo a boa cara da nora, deu-se por mais que satisfeito e louvou o melhor que pôde a determinação de seu filho.
Assim não sucedeu a Cláudia, porque se averiguou por sua própria confissão que Esperança não era sua sobrinha nem parente, senão uma menina que havia recolhido na porta de uma igreja. Além dela tivera outras em seu poder, tendo-as vendido como donzelas, a diferentes pessoas, confessando ainda que disto se mantinha, exercendo por ofício. Apurou-se ainda ter ela ligações com a feitiçaria, actividades pelas quais a sentenciou o corregedor a quatrocentos açoites e a ser exibida numa praça pública, no topo de uma escada, metida numa jaula com uma carocha na cabeça. Foi o de melhor que teve naquele ano a rapaziada de Salamanca.
Soube-se logo do casamento do estudante e apesar de alguns terem escrito ao pai a verdade do caso e a qualidade da nora, esta soube, com sua astúcia e discrição, contentar e servir o velho sogro que, pelos maiores males que disseram dela, não quis deixar de tomá-la por filha, tamanha importância tem a discrição e a formosura.
E tal fim e paradeiro teve a senhora Cláudia de Astudillo y Quiñones, tal o tenham todas quantas sua vida e proceder tiverem.
«À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás.»
M. de Montaigne

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