ROSA LOBATO FARIA

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matahary
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ROSA LOBATO FARIA

Mensagempor matahary » 27 mar 2008, 00:41

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Rosa Lobato Faria

SPA

Não me disseste amante madrugada
Pedra-de-lua pássaro viagem.
No meu corpo de Agosto feito à estrada
Não descobriste a sombra da folhagem.

Não murmuraste ao menos solidão.
Amora mel morango não disseste.
Não te pedi nem mar nem coração.
Não tens perdão.

Fui água e não bebeste.

««««««««««««««««««««««««««««««««««

Marcou-me o polegar da poesia
no dorso das palavras inconclusas
Devoram o meu pão de cada dia
musas medos marés mitos medusas

Impressão digital de um deus secreto
no reverso de mim que desconheço
sinete e lacre no pulsar incerto
dum coração lunar que não mereço

Por ti diria uvas caravelas
Por ti diria cântaro granito
Por ti diria tâmaras janelas
sede porto gaivota barco grito

Por ti diria tudo ou quase nada
se não fosse esta fome esta saudade
de ser eternamente madrugada
ou ser precariamente eternidade.

«««««««««««««««««««««««««««««««««««

Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé - o meu - sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala.
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
Somos a maré alta de quem ama.

Por fim o sono calmo, que não é
senão ternura, intimidade, enleio:
o meu pé descansando no teu pé,
a tua mão dormindo no meu seio.

«««««««««««««««««««««««««««««««««

Pelo rio do meu corpo
o barco à vela dos teus olhos.

O beijo amadurece.

Que fazer
das palavras que sobram?

««««««««««««««««««««««««««««««««««

Nas tuas mãos abertas cresce o trigo
Nos meus seios fechados coze o pão
O teu pássaro azul voou comigo
e uma pena ficou na minha mão

Não há amores perfeitos. Só contigo
é que as gardénias cheiram a limão
a repetir um ritual antigo
lá onde cresce o trigo e coze o pão

Dizes-me adeus com preces de mendigo
Na hora da partida é que eu te digo
- Tenho uma pena azul na minha mão

Calou o vento seus cantares de amigo
Invadiu o luar o meu postigo
Lá. Onde cresce o trigo e coze o pão.
"Satisfaça-se com o que lhe agrada, e deixe os outros falarem de si como lhes agrada." - Pitágoras

Uma por dia, tira a azia.

Matisyahu - One Day ^.^ Aurea - Busy for Me

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Diana
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Re: ROSA LOBATO FARIA

Mensagempor Diana » 27 mar 2008, 07:46

Por ti diria tudo ou quase nada
se não fosse esta fome esta saudade
de ser eternamente madrugada
ou ser precariamente eternidade.


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Pelo rio do meu corpo
o barco à vela dos teus olhos.

O beijo amadurece.

Que fazer
das palavras que sobram?


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Só contigo
é que as gardénias cheiram a limão


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Lindoooooooooo ......

Gostei, Matahary ... !!!!!!

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Pelo rei às vezes, pela Pátria sempre
(pro rege saepe; pro patria semper)


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