Conto "A Missao"

Avatar do Utilizador
Nautilus
Mensagens: 119
Registado: 06 mai 2008, 10:13
Força ou serviço: Polícia de Segurança Pública

Conto "A Missao"

Mensagempor Nautilus » 14 mai 2008, 20:35

A Missão

Havia uma tribo de canibais irredutíveis, imunes a toda e qualquer tentativa de civilização, que reinavam, tenebrosos e vorazes, lá nos esconsos da selva.
Um dia um jovem presbítero, ao saber desses lendários seres, sentiu-se inundado de ardores missionários e, avassalado por irresistível ímpeto, arrombou matas afora, decidido a resgatar às trevas hediondas tão pobres e tresmalhadas almas.
Andarilhou esgazeado noites e dias, palmilhou pauis e montanhas, escapou miraculosamente a mil perigos e paludismos. Gastou anos, mas, com uma certeza, perseverança e azimute que só a mão imperscrutável de Deus pode explicar, lá deu, numa bela manhã, com a aldeia dos ferozes devoradores de carne humana.
Antes de iniciar tão épica aventura, garantira aos seus superiores que, com a graça de Deus, havia de convertê-los à Verdadeira Fé e ao vegetarianismo. Pois era isso mesmo que, uma vez ali chegado, ia encetar. Com todas as suas forças e sem trégua nem descanso.
Os canibais eram gente curiosa, bem nutrida, descontraída e luzidia. Tinham a despensa abastecida duma depredação recente pelas redondezas e, entre piqueniques e folguedos,, condescenderam em escutá-lo. Como não lhe entendiam a língua, faziam por tresler na mímica.
Ele, com a paciência própria dos justos, perorou-lhes durante trinta dias ininterruptos. De manhã, tentando industriá-los com as luzes do alfabeto e do evangelho; à tarde, procurando adestrá-los nos prazeres e virtudes do herbívorismo. Começou até por plantar umas alfaces e uns tomateiros, em canteiros geométricos, os quais, por via do clima húmido e quente da região, não tardaram a resplandecer de viço e verdura. Estavam mesmo um mimo de se ver, um bálsamo para a vista. Ante tal maravilha, o extravagante missionário exultou. Em triunfo, coadjuvado do sal e vinagre que trouxera consigo, dispôs-se a confeccionar um prato que, tal qual o evangelho em relação à alma, havia de redimir-lhes duma vez por todas o estômago.
Os canibais, enquanto lhes durara a despensa, haviam estado sossegados. Ao longo dos dias, ou mesmo à noite, de roda da fogueira, haviam-no observado e escutado com uma certa displicência. Mais até as mulheres, palradoras e coscuvilheiras por natureza, porque os homens, como é hábito, preferiam invariavelmente a sorna, e as crianças, como de costume, ensaiavam brincadeiras com a comida. Mas à medida que esta se sumia, todos eles começaram a manifestar um crescente nervosismo. O homem de Deus vira-os até murmurar claramente a seu respeito e congratulara-se: aquilo decerto significava que, por via da porfiada catequese, começavam a questionar-se, a macerar na crosta selvaginosa. Nem duvidava: Era a semente da Palavra, tal qual a das alfaces, a germinar e a formar repolhuda planta.
E, com efeito, esgotados os trinta dias e esgotadas as vitualhas da última safra, também os homens e as crianças, de olhar iluminado por um súbito e generalizado interesse, convergiram em redor do apóstolo. Foi, pois, com grande júbilo, ufano de tal congregação, que este preparou as alfaces e os tomates, temperou como convém e, por fim, com desculpável enlevo de “chef”, proclamou, numa mescla de alfabeto e mímica indubitável: “Vinde, provai! Comei e vede se não é uma delícia!...”
Os antropófagos entenderam-no na perfeição, o gesto sobretudo, e avançaram ao repasto, cheios de apetite. Expedições posteriores confirmaram-no: É duvidoso que, nesse bendito dia, tenham descoberto a Verdadeira Fé; mas, em contrapartida, descobriram a salada. Foi, pelo menos, acompanhado dela que o comeram.
E cagaram, acho eu.

VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
"Contos Morais"
"Parem com o terrorismo, Acabaram se a virgens."

Voltar para “Literatura”

Quem está ligado:

Utilizadores neste fórum: CommonCrawl e 0 visitante