POESIAS SOLTAS

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tiririca
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POESIAS SOLTAS

Mensagempor tiririca » 17 ago 2008, 22:58

Não sendo eu um grande apreciador do género poético, não deixo contudo de apreciar um ou outro poema e um ou outro poeta ou poetiza. Preferindo a prosa, não posso deixar de amar os poemas de Fernando Pessoa, especialmente um, com o qual me identifico muitíssimo.

Estranho o facto de não haver um tópico específico! Eu próprio já espalhei por aí algumas rimas. Decidi abrir um, para que não tenhamos de andar aos saltos de tópico em tópico à procura. Aqui, espero, que todos possamos partilhar as quadras soltas que mais nos agradam.

Começo por duas... a primeira diz-me muito e sei que o meu amigo Sultão vai perceber porquê!

Deus

Às vezes sou o Deus que trago em mim
E então eu sou o Deus e o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse deus se esquece.

Às vezes não sou mais do que um ateu
Desse deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto.


Fernando Pessoa

Esta que se segue, ouvia há pouco na TV memória. Vim à procura dela na net. Li, reli e voltei a ler... acho que é uma boa lição de vida... de vida prática.

" O BAILADO DAS FOLHAS "
Poema dito por Alfredo Marceneiro
Letra de: Henrique Rêgo
Música de: Alfredo Marceneiro


Foi numa pálida manhã de Outono
Soturna como a cela dum convento
Que num vetusto parque ao abandono
Dei largas ao meu louco pensamento

Cortava o espaço a lamina de frio
Que impunemente as nossas carnes corta
E o vento num constante desvario
Despia as árvores da folhagem morta

Folhas mirradas como pergaminhos
Soltas ao vento como os versos meus
Bailavam loucamente p´los caminhos
Como farrapos a dizer adeus

Das débeis folhas lamentei a sorte
Mas reflecti depois de estar sereno
Que bailar à mercê de quem é forte
É sempre a sina de quem é pequeno

Desde então, o meu pobre pensamento
Fugiu para não bailar ao abandono
Como a folhagem que bailava ao vento
Naquela pálida manhã de Outono


http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/71106.html

Bem... e agora, vou voltar à minha prosa!
O pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas.
(Willian George Ward)

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Pedro Bala
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Re: POESIAS SOLTAS

Mensagempor Pedro Bala » 17 ago 2008, 23:22

A CASA DE DEUS

A casa de Deus está assente no chão
Os seus alicerces mergulham na terra
A casa de Deus está na terra onde os homens estão
Sujeita como os homens à lei da gravidade
Porém como a alma dos homens trespassada
Pelo mistério e a palavra da leveza

Os homens a constroem com materiais
Que vão buscar à terra
Pedra vidro metal cimento cal
Com suas mãos e pensamento a constroem
Mãos certeiras de pedreiro
Mãos hábeis de carpinteiro
Mão exacta do pintor
Cálculo do engenheiro
Desenho e cálculo do arquitecto
Com matéria e luz e espaço a constroem
Com atenção e engenho e esforço e paixão a constroem

Esta casa é feita de matéria para habitação do espírito
Como o corpo do homem é feito de matéria e manifesta o espírito

A casa é construída no tempo
Mas aqui os homens se reúnem em nome do Eterno
Em nome da promessa antiquíssima feita por Deus a Abraão
A Moisés a David e a todos os profetas
Em nome da vida que dada por nós nos é dada

É uma casa que se situa na imanência
Atenta à beleza e à diversidade da imanência
Erguida no mundo que nos foi dado
Para nossa habitação nossa invenção nosso conhecimento
Os homens constroem na terra

Situada no tempo
Para habitação da eternidade

Aqui procuramos pensar reconhecer
Sem máscara ilusão ou disfarce
E procuramos manter nosso espírito atento
Liso como a página em branco

Aqui para além da morte da lacuna da perca e do desastre
Celebramos a Páscoa

Aqui celebramos a claridade
Porque Deus nos criou para a alegria

(Sophia de Mello Breyner Andresen )
Deus te dê o dobro daquilo que me desejas.


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