A Estética do Massacre

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Fulano_de_tal
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A Estética do Massacre

Mensagempor Fulano_de_tal » 30 set 2010, 16:40

A Estética do Massacre. I. - O Horário


É do massacre que vos quero falar. 
Imaginemos que dispomos dos meios e autorizações necessárias: os helicópteros, os rocketes, as metralhadoras, um grupo de amigos, napalm qb, bebidas, cigarros, comunicações... e um alvará, claro. Essencial, o alvará. Dá muito jeito. Poupa-nos a muitas chatices, depois do serviço feito. Um ror de tempo perdido em tribunais, pelo menos. 
Pois bem, reunidos os agentes, passamos à acção. Saímos pela manhã, manhã cedo - de madrugada, como na pesca. A literatura especializada é unânime: a melhor altura do dia para o massacre é a aurora. Alguns entusiastas preferem o crepúsculo; outros, mais barrocos, sustentam que não há como a noite para disfrutar da beleza das chamas, do contraste feérico das labaredas recortadas no negrume cósmico; mas nós, tradicionalistas, preferimos aparecer ao nascer do sol, ainda ele, astro petiz, solta os primeiros vagidos. Isto, também, porque há que ter alguma consideração por aqueles que vamos massacrar. Os massacrados -a que chamaremos "eleitos"-, tanto quanto os massacrantes, são essenciais para um massacre. Indispensáveis, direi mesmo. Ora, alguns teóricos, aqueles que atrás referi, arrebatados por delírios cinematográficos, rendidos a encenações bizarras e embeiçados por efeitos especiais, parecem esquecê-lo. Mas não deveriam. 
Em primeiro lugar, porque é uma questão de educação e civismo: não se exterminam pessoas ao fim do dia, extenuadas, carcomidas, derrotadas por mais um dia de trabalho; nem a meio da noite, quando repousam duma vida árdua e sonham, quiçá, com um mundo melhor, de descanso eterno. Não é correcto. Que diabo, o massacre deve ter regras; ou mesuras protocolares, no mínimo. 
Em segundo lugar, porque é uma questão de eficácia: a tendência, por parte dos eleitos, para a debandada, para a fuga desordenada, para o desarvoramento espavorido, não é pormenor irrelevante. A noite, quer queiramos, quer não, favorece o eleito, protege a sempre contumaz e renitente vítima; dá-lhe cobertura nas suas escapadelas ao lugar da celebração. E quanto mais pequeno, pior. Dos infantis aos animais domésticos, mais de metade pisga-se ou esconde-se em parte incerta, em menos de nada. Nem há tempo para explicações: enchem-se de medo, dum terror palpitante, e fogem, escafedem-se a alta velocidade. Com a obscuridade por aliada, é garantido. Mesmo um bom cerco, decalque das melhores tácticas livrescas, não garante uma vedação perfeita do perímetro. Ora, um massacre caracteriza-se por não deixar sobreviventes, por ser definitivo e meticuloso. E, sobretudo, exemplar. Não é uma sórdida chacina, uma rusga trucidante ou morticínio avulso, improvisado. Não; requer método, planificação, sólido argumento. Evolui como um bom raciocínio, com a validade que só a completude permite. Não suja: limpa a paisagem. Devolve-a à Natureza primordial, ao silêncio dourado que só os passarinhos, tempos adiante, aos poucos, ousarão romper. Um massacre é assim, perfeito, total, sem excepções ou isenções de última hora. Por isso deve evoluir paralelo ao sol, porque, como este, quando acontece é para todos. 
Mas a noite, como a penumbra e, às vezes, até o nevoeiro cerrado, acarretam ainda outros incómodos. Dessas maçadas e contratempos sobressai a forma desembaraçada como prejudicam a contabilidade do caçador, tanto quanto a mirada. Quer dizer, não só os eleitos fogem, como o operador tem uma certa dificuldade em lhes acertar. A munição tracejante e os dispositivos de visão nocturna sempre dão uma ajuda, mas isso não chega. Há sempre algum que se agacha, que se arrasta ou rasteja, mesmo ferido, impossibilitando de todo o tiro eficiente. E há até tresloucados, de espírito endemoinhadao, frenético, que desatam a correr aos ziguezagues. Ora, se de dia, numa manhã radiosa, com um céu limpo, já é trabalhoso acertar num gajo aos ziguezagues, imagine-se à noite, ao anoitecer, ou no meio do nevoeiro. Dá-nos cabo da vista. Em meia dúzia de operações, começamos a marcar consultas na oftalmologia, e damos connosco a usar óculos para atirar ao perto. Isto, quanto à pontaria. 
Já no que refere à contabilidade, pior um pouco. Não é novidade nenhuma: Motivo de orgulho e ufania para qualquer profissional que se preze, o massacre convida-o à manutenção de registos actualizados, rigorosos, às marcas na coronha da arma, no cabo da faca, ou às cruzinhas ou decalcomanias macabras na fuselagem do helicóptero, do caça bombardeiro, do jeep, enfim. E ele não se faz rogado. Vive intensamente esse requinte aritmético. A cada nova marca é o seu curriculo que viceja, a sua carreira que avança. Com que volúpia o faz!...Todo o profissional tem os seus fetiches, pois claro. Mas ei-lo -espreitem agora com atenção, reparem bem nele - desvairado e enrodilhado nas trevas, a disparar quase às cegas sobre vultos fugazes que se esgueiram por entre sombras, ei-lo, coitado, mais os amigos dele, colegas de profissão, a torrar a eito tudo o que mexa -e que teima em mexer-se por mais orifícios e chumbo que carregue-, e, na hora do balanço, vá-se lá saber: quem matou quem? Foste tu, fui eu? Foi o Manel, foi o Francisco? Às tantas, zangas, amuos, discussões, querelas, litígio e, no meio dessa balbúrdia desnecessária, são mais dois ou três eleitos, daqueles que gemiam inacabados, que aproveitam a inusitada pausa nos trabalhos e, em rojos esforçados, pertinazes, lá se arrastam para fora do cenário. É mau para todos. Os que matam já nem reconhecem quem mataram; e os que morrem gastam um ror de tempo desnecessário para morrer e, para cúmulo, vão sujar de rastos e esqueletos as redondezas. 
Por isso mesmo, por tudo isso, não há discussão: Saímos de madrugada, e não se fala mais disso.
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Re: A Estética do Massacre

Mensagempor Fulano_de_tal » 30 set 2010, 16:41

A Estética do Massacre. II.- A Missão

saímos de madrugada, já é certo, mas vamos para onde?
Esta velha questão -que já a Metafísica Ocidental colocava em tons preocupados-, reveste-se da maior importância. Antes de ser uma gratificante sensação de dever cumprido, o massacre começa por ser um pequeno pontinho no mapa, numa qualquer sala de operações. "Este mapa está sujo", reflecte um general, repugnado. "Uma mosca cagou aqui! é inadmissível." Todos se debruçam e persignam. Como pôde aquilo acontecer? Onde andavam as sentinelas, do exército e da civilização? Mas efectivamente ali está ela, a cagadela ofensiva, ostensiva, demoníaca. As moscas são insectos diabólicos. Há provas arqueológicas e etimológicas disso: "Belzebu" -do Babilónio "Baal-Zebud" -, quer dizer, em rigor, o "Baal das moscas". Não é por acaso que as moscas cagam nos mapas, não é ao calhas. Obedece a um plano tão antigo, complexo e indecifrável quanto o do próprio Deus Criador. Na verdade, é um anti-plano, sinistro, abominável, insidioso. A finalidade, essa, é clara, sendo não obstante tenebrosa: querem impedir as boas pessoas de ascenderem ao céu, de serem recompensadas como merecem. Obram para lhes impedir o treino condigno na terra, o ensaio do cerimonial apoteótico e do paraíso subsequente. A Terra, como no-lo explica a Civilização e abençoa a Igreja é, de acordo ao projecto divino, um ginásio, um ginásio amplo e totalitário onde se exercitam os futuros celestiais e os futuros danados. Cada qual na antecâmara que lhes compete. Uns experimentando e adaptando-se , desde já, às delícias; os outros, infames, malvados, aos horrores. Se não treinassem na Terra como se desembaraçariam, depois, no Céu? Ou no Inferno? Mas as moscas conspiram contra esta perfeição inefável, contra este Ensaio Geral. Depositam excrementos, como quem semeia minas, obstáculos, bombas armadilhadas. Querem corromper a urbanização divina, disseminar paraísos aleatórios, clandestinos, condóminos abertos, sem projecto nem alvará da Câmara Celeste. Trabalham para o caos, é evidente. Mas, graças a Deus, existem os generais e os políticos que programam os generais. Pelo que o antídoto é simples: os generais, enojados, apontam a cagadela no mapa aos coronéis. Os coronéis compreendem, apressam-se a corroborar: "Não é um lapso dos Serviços Cartográficos, meu general. É mesmo uma cagadela!" O general, de olhar perdido no infinito, através da janela, já não diz mais nada. Nem precisa. Chamam-nos lá dentro - a nós, os operadores -, um major qualquer. E diz-nos: "Limpem aquela hedionda cagadela, depressa! É essa a vossa missão". Encolhemos os ombros, como qualquer funcionário diante da rotina. Pegamos no equipamento, camuflamos o rosto e as mãos, subimos nos helicópteros, voamos sobre campos e rios, que decalcam na perfeição as linhas e cores no mapa, chegamos de manhã cedo, como já expliquei, a melhor altura do dia... E limpamos. Limpamos muito bem limpo. Sem deixar resíduos de qualquer espécie.
Nem sempre é tão fácil como soa; há manchas mais difíceis que outras, cagadelas mais ou menos entranhadas no mapa. Requerem várias passagens de tira-nódoas e esfregona. Não sabemos exactamente o que as moscas comem, um ror de porcarias, certamente. Apenas sabemos do custo que é limpar o que elas cagam. Todavia, é essa a nossa missão: manter os mapas limpos, desimpedir rotas e azimutes. É um serviço sujo, ao princípio enauseante. Mas alguém tem que fazê-lo.
Um tipo habitua-se a tudo.
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Re: A Estética do Massacre

Mensagempor Fulano_de_tal » 30 set 2010, 16:42

A Estética do Massacre. IV - Impressões


Matar é um crime, dos mais hediondos, e até moralmente condenável. Ainda mais em se tratando de pessoas, ou até seres humanos. Mas exterminar, não. Na pior das hipóteses, é uma obrigação histórica, um requisito civilizacional. De resto,  a matar,  aprendemos com Caim, ou com qualquer dos seus epígonos,  por irradiação ou contágio transversal; a exterminar, bebemos o exemplo directamente de Deus e da Natureza, recebemos a inspiração do Alto. E do Fundo, desse ímpeto visceral que nos incendeia desde os primórdios.  Resumindo: para matar, arcamos com o "livre arbítrio" -e, claro está, com as consequências; para exterminar,  cingimo-nos ao "imperativo categórico" e, terminada a comissão de serviço, recebemos -alguns, os mais virtuosos- louvores e medalhas.
Filósofos também há que chamam à guerra a higiene dos povos. Devem estar cobertos de razão. Na certeza, porém, que o massacre é a higiene íntima das civilizações, a ablução perfumada das miudezas demográficas. A guerra sem o massacre seria o imperador sem a coroa, ou o trono sem as nádegas do imperador. No fundo, a guerra não é essência nem finalidade: é apenas  pretexto.  E a diplomacia, como dizia o outro, é igual à guerra. Só que mais elitista: aí, regra geral, não deixam brincar os generais.
O Homem, já dizia Aristóteles, é o mais imitador de todos os animais. Mas isso não significa que o homem se restrinja à imitação de outros animais que, distituídos de racionalidade, inteligência e regulamentos económicos, são claramente seus subalternos.  Os outros animais, autênticas bestas, também matam, mas exercem-no por razões meramente instintivas, egoístas e venais: matam para comer, sobretudo; matam para defender a prole ou para dar cabo das proles rivais, matam para se poderem procriar, enfim: matam alarvemente, à dentada, à patada - uma sensaboria! O homem é o único que mata duma forma artística,  quer dizer, extermina.  Desenvolveu meios e técnicas, inventou ferramentas, aguçou instrumentos e ganas. Mata livremente. Mata para redecorar a paisagem, para remobilar o habitat.  Mata por premente vocação estética.  "Esta cultura está démodé,  aquela aldeia fica ali mal,  e se pintássemos este vale de outra cor?" Difícil, mesmo, é ficar quieto. Impossível (há que reconhecê-lo)! Às vezes,  por via daquele tédio insuportável que só os artistas experimentam, cansa-se do louro das searas, a panorâmica parece-lhe estúpida com todo aquele amarelo a ondular, e que faz ele? A monotonia irrita-o? Nada que um simples fósforo, com aragem de feição, não resolva.  Num ápice, converte aquela marmelada toda, de espigas imbecis e monocórdicas, num pente zero moreno,  cor de cinza escuro.  Como resistir ao apelo cosmético? Basta-lhe a inspiração súbita e a obra acontece. Quem diz espigas, diz pessoas.  Um artista menor -um Van Gogh, um Da Vinci, um Picasso -, contenta-se com a tela, com o simulacro sublimado da coisa; um artista a sério não: tem que ir no próprio mundo, atira-se à cara, ao corpo, à pele, cabelo e unhas deste, e não descansa enquanto não o submete a uma plástica completa, a mises e manicures de raíz, a quadros impressionistas duma autenticidade arrepiante. Mas ainda vai a meio de um e já outro lhe ocorre, ou já outro da mesma igualha lhe propõe outro ou lhe disputa a mesmo, só que visto de outro ângulo.
O verdadeiro génio pinta Guernicas no próprio mundo e pinta-as não para as exibir numa galeria a meia dúzia de burgueses endinheirados, que olham para aquilo como olhariam para qualquer calhau brilhante e extra-duro,  mas para que Deus veja. Para que Deus contemple e reconheça o seu aprendiz pródigo, e se surpreenda com os seus progressos mirabolantes, com a sua  infatigável dedicação. Nós, operadores de massacre, iletrados e rudes,  sabemos, não obstante, isso - esse essencial, esse rudimento bastante de sabedoria. Daí trabalharmos com tanta alacridade. Daí a nossa presteza e gatilho pronto. Não temos dúvidas que somos nós a ponta fulgurante do pincel desses discípulos felízes, desses catecúmenos geniais da excelência transcendente. Por isso, sempre que entramos em acção, que a missão superiormente determinada nos convoca, temos a certeza de algures, da grande paleta do universo, estarmos a levar óleos e cores à grande tela que é o mundo, em prol dessa Obra-Prima que uma qualquer "Mão Invisível" (de que já falava Smith), por intermédio de nós,  patenteia.
E terminada cada pincelada, a sensação que fica, mais que de gozo, é de indescritível reconciliação cósmica. Em vez de "Satisfaction", trepidante, num qualquer tombadilho duma lancha rio acima, ocorre-nos "Wath a wonderful world", suave,  na voz gutural de Armstrong, sob um céu deslumbrante...E, intimamente, de olhos húmidos, trauteamos com ele:
 
I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself, what a wonderful world
 
 I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
 And I think to myself, what a wonderful world
 
 The colours of the rainbow, so pretty in the sky
 Are also on the faces of people going by
I see friends shakin' hands, sayin' "How do you do?"
They're really saying "I love you"
 
I hear babies cryin', I watch them grow
They'll learn much more than I'll ever know
And I think to myself, what a wonderful world
Yes, I think to myself, what a wonderful world
Oh yeah
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