O Barão Trepador

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Fulano_de_tal
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O Barão Trepador

Mensagempor Fulano_de_tal » 01 mar 2011, 21:08

já que não tinham querido deixar-me só à hora das refeições.
Dizer que viera beneficiar é talvez uma força de expressão: na
realidade, tanto eu como Cosimo recordávamos com saudade as
refeições tomadas no nosso pequeno aposento, a sós com o abade
Fauchefleur. O abade era um velhinho seco e enrugado, que
tinha fama de jansenista e, na verdade, havia fugido do
Delfinado, seu torrão natal, para escapar a um processo da
Inquisição. Mas o carácter rigoroso que habitualmente todos
nós lhe louvávamos e a interior severidade que a si e aos
outros impunha cediam constantemente o lugar a uma sua vocação
peculiar para a indiferença, para o deixar correr, como se as
suas prolongadas meditações, de olhos fixos no vago, o
levassem apenas a um grande enfado e indolência, e em todas as
dificuldades, ainda que mínimas, descortinasse o sinal de uma
fatalidade a que não valia a pena opor-se. As nossas refeições
em companhia do abade principiavam após demoradas orações, com
movimentos da colher muito compostos, rituais, silenciosos, e
um "ai de vós!" a quem quer que erguesse os olhos do prato ou
fizesse o mínimo ruído enquanto sorvia a sopa; todavia, ainda
mal terminado o caldo, o abade encontrava-se já fatigado,
aborrecido, olhando o vago e estalando a língua a cada novo
gole de vinho, como se apenas as mais superficiais e caducas
sensações conseguissem atingi-lo; ao primeiro prato podíamos
já comer com as mãos e entretínhamo-nos a arrancar os caroços
das pêras, enquanto o abade deixava cair, de quando em quando,
um dos seus preguiçosos:... "Ooo bien!... Ooo alors!"
Agora, em lugar de tudo aquilo, sentados à mesa com a
família, sentíamos formularem-se os rancores familiares,
triste capítulo da infância. O pai e a mãe sempre ali
presentes, o ter de empregar talheres para comer galinha, o
"ponha-se direito!", e o "tire os cotovelos de cima da mesa!",


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continuamente, e, ainda por cima, a presença da antipática da
nossa irmã Battista. Foi o início de uma série de repreensões,
de castigos e de teimosias até ao dia em que Cosimo recusou o
prato de caracóis e decidiu separar do nosso o seu destino.
Só mais tarde vim a tomar consciência desta acumulação de
ressentimentos familiares: tinha, então, oito anos apenas e
tudo me parecia um jogo. A nossa guerra de crianças contra os
adultos era idêntica à de todas as outras crianças e não
compreendi, naquela altura, que a obstinação de que Cosimo
dera provas ocultava algo de mais profundo.
O barão nosso pai era um homem enfadonho, é certo, ainda que
não fosse mau: enfadonho porque toda a sua vida era dominada
por pensamentos e ideias confusas, como tão frequentemente
acontece nas épocas de transição. A agitação dos tempos imbui
em muitos uma necessidade de se agitarem também, mas
completamente ao contrário, em direcções totalmente diversas:
assim também o barão nosso pai, que se vangloriava das suas
pretensões ao título de duque de Ombrosa e pensava tão-somente
em genealogias, sucessões, rivalidades e até em alianças com
os potentados vizinhos e distantes.
Por isso também, vivia-se em nossa casa como se
ininterruptamente se estivesse a proceder ao ensaio geral do
que devíamos fazer se tivéssemos sido convidados para a corte,
não sei se a corte da imperatriz da Áustria, se a do rei Luís
ou até se a dos montanheses de Torino. Quando se servia o
peru, meu pai fitava-nos, para verificar se o sabíamos
trinchar e descarnar segundo todas as regras e preceitos
cortesãos, e o abade quase não provava, para não se arriscar a
ser apanhado em falta, ele que sempre devia manter a sua
cumplicidade com todos os ralhos e observações que o nosso pai
nos dirigia. Depois, tínhamos conseguido descobrir o fundo
falso da alma do cavaleiro-advogado Carrega:

fazia desaparecer, sob as largas abas da sua samarra turca,
coxinhas inteiras de peru, que depois ia comer com pequenas
dentadinhas, como lhe agradava, sentado a bom recato entre os
vinhedos; e teríamos jurado (conquanto nunca tivéssemos
conseguido surpreendê-lo em flagrante, a tal ponto era lesto
nos seus movimentos) que, ao vir para a mesa, trazia consigo
um saquinho cheio de ossos já descarnados, que colocava no
prato em lugar dos quartos de peru surripiados. Nossa mãe, a
generala, não contava para nós, porque até mesmo à mesa
conservava, ao servir-se, aqueles seus modos bruscos, quase
militares: - So! Noch ein zvenig! Gut(1)! -, que a ninguém
provocavam vontade de rir e troçar; connosco fazia questão, se
não já de etiqueta, pelo menos de disciplina, e auxiliava o
barão com as suas ordens, que dir-se-iam gritadas numa praça
de armas: - Sitzt, ruhig(2)! - Limpem a boca! - A única que se
sentia à vontade era Battista, a monja da casa, que descarnava
os frangos com um encarniçamento minucioso, fibra a fibra, com
certas faquinhas aguçadas, parecidas com lancetas de cirurgião
e que era a única a possuir. O barão, muito embora julgasse
também necessário chamá-la a exemplo, não ousava fazê-lo, nem
sequer olhá-la, porque, tal como nós, sentia também um certo
receio daqueles olhos retorcidos sob as abas da touca engomada
e dos dentes aguçados na carinha de rato. Compreende-se,
assim, por que motivo era a mesa o lugar onde vinham a lume
todos os antagonismos, todas as incompatibilidades que entre
nós existiam e até mesmo todas as nossas pequenas loucuras e
hipocrisias e também por que motivo fora à mesa que se
determinara a rebelião de Cosimo. Por isso me alongo a contar
tudo, já que mesas postas é algo que, com toda a certeza,
nunca mais iremos encontrar na vida do meu irmão.
Mas a mesa era também o único local onde nos encontrávamos
com os adultos.
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