Os/as policias não choram

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Fulano_de_tal
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Força ou serviço: Polícia de Segurança Pública

Os/as policias não choram

Mensagempor Fulano_de_tal » 17 nov 2017, 18:16

Espero que, caso necessite, me forneça uma resposta precoce e atempada à minha
solicitação, seja para interromper uma situação de violência ou de perigo; que me atenda com
profissionalismo, sensibilidade e empatia; que contribua para minimizar o trauma e previna a
vitimização secundária; que contribua para o aumento da sua segurança e dos seus familiares; que conduza as
investigações de forma eficaz para eventual acusação e condenação dos criminosos; que identifique e contenha os
comportamentos dos/as autores/as de crimes entre outras.
Gostava que imaginasse por breves segundos que assiste a um acidente de trânsito com feridos e/ou mortos; que
entra numa casa onde uma mulher, ensanguentada, está caída no solo e que num canto da casa se encontram duas
crianças encolhidas, choram; que entra numa casa em que um idoso se encontra negligenciado, subnutrido e/ou com
demência.Para além disto imagine que por vezes o ofendem, o/a tentam agredir ou que o/a agridem no quando está a trabalhar,
em Portugal morreram, desde 2009, no exercício das suas funções 9 profissionais da GNR e PSP, 4989 ficaram
feridos, destes 50 necessitaram de internamento e 2360 de tratamento hospitalar.
Some a isto a alteração do ritmo circadiano, com turnos, alimentação e sono fora de horas. Imagine que estas
situações ocorrem várias vezes durante um mês, um ano, dois anos até ao fim da sua vida profissional. Esta é a
realidade dos polícias.
Mas quem são afinal estes/as profissionais que têm como função esta tarefa dura e nobre?
Tal como eu e você, são homens e mulheres provenientes da sociedade portuguesa, casados/as, solteiros/as, com ou
sem filhos, com uma história de vida pessoal e profissional, eventualmente expostos/as a diversos cenários
potencialmente traumáticos na vida pessoal e profissional e que quando não são devidamente tratados podem
influenciar o seu desempenho. O contacto com o sofrimento, o desespero e a morte é assim uma das características
da função policial e da atividade operacional das mulheres e homens das Forças de Segurança.
A população em geral desconhece o contexto e as condicionantes sociais da atividade policial. Desta forma são por
vezes alvo de estereótipos, estigmas e julgamentos negativos.
Nesta atividade, distinta das restantes, os sujeitos deparam-se quase diariamente como uma quantidade destressores que são únicos do desempenho da sua profissão. Para além dos stressores presentes noutras, os polícias
são também expostos a situações críticas que os colocam em risco de vida tais como: intervenções em situações de
violência doméstica, a intervenção em incidentes críticos muitos deles com vítimas graves, lidar com pessoas
traumatizadas, a exposição por contacto direto ou indireto a doenças infectocontagiosas (intervenção com detidos ou
suspeitos).
Por outro lado, desempenham de forma contínua e sistemática tarefas e missões de elevada intensidade emocional,
muitas das quais envolvem ameaças diretas à sua integridade física e à própria vida que frequentemente são
localizadas no tempo e no espaço.
No caso das equipas especializadas em violência doméstica desenvolvem um trabalho longitudinal que se pode
arrastar por meses (com reavaliações de risco, planos de segurança etc..), envolvendo um contacto com maior número
de pessoas próximas da vítima e do agressor, maior possibilidade de atrito com vítimas, testemunhas e agressor/a,
maior probabilidade de envolvimento, maior probabilidade de reincidências (Agressões graves ou morte).
Têm também maior probabilidade de contacto continuo com crianças, pessoas com deficiência e idosos no agregado,
vítimas com quadros psicopatológicos. (Depressão, Ansiedade, Perturbação de Stress-pós-Traumático) e
consequentemente maior exposição ao trauma e ao trauma vicariante com possibilidade de projeção,
transferência/contransferência emocional.
Segundo McCraty (1999) os profissionais de polícia lidam com a violência numa base diária e são expostos a um nível
de stress muito acima do cidadão normal. Esta profissão, onde o que separa a vida da morte é por vezes apenas uma
linha ténue, caracteriza-se como poucas outras profissões por ser um permanente desafio às condições psicológicas e
físicas destes profissionais.
Os estudos indicam que os níveis de stress (agudo e crónico) sentidos pelos profissionais de polícia podem originar
efeitos físicos e psicológicos adversos e indesejáveis que podem afetar as suas vidas pessoais e profissionais. Assim
o Stress causado por todos estes fatores tem impacto nos sujeitos, nas suas famílias, nas instituições e na sociedade
em geral.
Estes episódios são sempre revestidos de grande intensidade emocional e configuram situações de Stress agudo e a
complexa teia de fatores de risco coloca estes sujeitos ao alcance de uma grande variedade de efeitos negativos, de
ordem fisiológica, saúde mental, comportamental e de relações interpessoais.
Embora os elementos policiais não vivam situações traumáticas, de medo ou de impotência num ritmo diário, estas
são sentidas e acumuladas ao longo de toda a carreira (Violanti, 1996, in Garcia, Gu & Nesbary, 2004). Esta exposição
contínua a acontecimentos traumáticos fragiliza emocional e psicologicamente os elementos policiais e limita
substancialmente as suas estratégias de coping conduzindo eventualmente a situações de Stress crónico. Em
comparação com soldados que experienciam situações de combate numa missão de seis meses a um ano, os
elementos policiais vivem in loco, combates de rua ao longo de muitos anos, em que o inimigo não é sempre
identificável (Sewell, 1998). Estes episódios, são muitas vezes remetidos para o esquecimento e considerados “ossos
do ofício”.
Em resultado desta pressão permanente estes profissionais são mais suscetíveis a desenvolver questões de ordem
psicológica onde sobressaem elevados níveis de depressão e ansiedade, perturbação de Stress pós-traumático,
ideações suicidas, tentativas de suicídio e suicídios consumados (Fisher, 2003). Segundo o estudo “Prevenção do
suicídio e comportamentos autolesivos nas forças de segurança”, encomendado pelo Ministério da Administração
Interna (MAI) suicidaram-se entre 2007 e 2015, 89 elementos da PSP e da GNR, ou seja, uma média de 11
profissionais por ano.
A forma como ocorrem e são processados os acontecimentos determinam as suas consequências em termos
individuais, quer sejam fisicamente quer psiquicamente variando desde: problemas diários de resolução imediata com
efeitos considerados benignos; situações pontuais indutoras de Stress as quais provocam um desgaste psicológico
delimitado até se resolver o problema; situações indutoras de Stress crónico cujo desgaste psicológico se prolonga no
tempo, até a situação ficar resolvida.
O stress profissional sentido por estes homens e mulheres não tem efeitos apenas individuais e reflete-se ao nível do
comportamento e das relações interpessoais essencialmente no isolamento social, conflitos interpessoais, relações
disfuncionais e divórcio. Ao nível institucional estes efeitos são notados essencialmente na taxa de absentismo e
faltas por doença.
Fisher, (2003) refere que estes efeitos, notados por vezes no ambiente laboral, refletem-se no baixo moral, baixo nível
de satisfação, baixa performance, aumento de queixas por questões de atendimento e problemas relacionais com
Segundo o mesmo autor, outros fatores causadores de Stress são, os relacionados com as relações
interpessoais e organizacionais dentro da Instituição sendo os stressores sistémicos mais comuns as horas
extraordinárias,
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Fulano_de_tal
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Re: Os/as policias não choram

Mensagempor Fulano_de_tal » 17 nov 2017, 18:17

o excesso de trabalho, os turnos de serviço, os meios humanos e materiais escassos.
Em Portugal ainda se cultiva a vergonha do homem que chora e nas policias este rótulo soma-se com um ainda mais
forte a dicotomia homem ou mulher/polícia, que condiciona sobremaneira o comportamento dos sujeitos conferindolhes
uma aura imaginária de falsos heróis sem sentimentos e supostamente inquebráveis perante qualquer
adversidade. O uso do uniforme em alguns destes profissionais, projeta nestes uma grande carga por parte de franjas
da população, que reagem com hostilidade à farda, alheando-se do indivíduo que a enverga.
Em resultado de todos estes fatores esta classe profissional forma uma subcultura muito própria em que apenas
algumas das experiências vividas pelos elementos, são partilhadas com os seus colegas e apenas com estes pois
mais ninguém domina o “código emocional”.
Nalguns países, as Instituições Policiais têm desenvolvido, programas de intervenção e de aconselhamento
psicológico para que os efeitos destes stressores sejam manuseados pelos profissionais com clareza e objectividade,
de forma a minorar o seu impacto.
Um exemplo claro é a intervenção precoce após uma situação traumática com recurso a terapias recomendadas nas
Guidelines da Organização Mundial de Saúde (2013) para o tratamento do trauma com recurso à terapia cognitivocomportamental
e a terapia EMDR. Ver [url]https://www.policeone.com/health-fitness/articles/220251006-How-EMDRcan-
help-police-officers-exposed-to-graphic-images-and-incidents[/url]
Volto ao principio e coloco a seguinte questão – É exigível a um profissional com níveis de pressão desta natureza que
desempenhe a sua profissão sem falhar? Que tenha sensibilidade e empatia? Que se dedique sem reservas? Claro
que sim! Mas têm de lhe ser dadas condições para o fazer!
Se os/as profissionais não se sentirem confiantes no desempenho da sua atividade e não existir um sentimento do
controlo da situação podem percecionar muitas das ocorrências como ameaçadoras da sua segurança e da própria
vida. Isto pode significar também o aumento da ansiedade e o desenvolvimento de sintomas associados ao Stress
patológico.
Para os/as profissionais de polícia a perceção de controlo é um elemento necessário e indispensável para lidar com os
acontecimentos do dia-a-dia no decorrer da atividade.
Se existir a perceção de que a formação para o desempenho da função é a apropriada, de que o equipamento
disponibilizado é o adequado, de que existe apoio por parte da estrutura hierárquica e intervenção psicológica
adequada e atempada, provavelmente a perceção de Stress relativamente a situações ameaçadoras tenderá a
diminuir e diminuirão com toda a certeza os fatores de Stress.
Termino dizendo que os/as polícias têm, entre muitas outras, a nobre função de se assegurar que nos desloquemos
para o trabalho em segurança enquanto os seus filhos estão na escola também em segurança.
Se não lhes fornecermos as condições ótimas para o desempenho da sua profissão nunca poderemos exigir um
serviço da melhor qualidade a que todos temos direito enquanto cidadãos e que eles e elas nos têm disponibilizado
com muito pouco em troca!
Os/As Polícias choram e devem poder chorar com conforto e em segurança!

António Castanho
Técnico Superior
Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde.
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