UM PAÍS FICTÍCIO

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tiririca
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 12 set 2008, 13:56

O Ranço Salazarista

Cada vez mais nos afastamos uns dos outros. Trespassamo-nos sem nos ver. Caminhamos nas ruas com a apática indiferença de sequer sabermos quem somos. Nem interessados estamos em o saber. Os dias deixaram de ser a aventura do imprevisto e a magia do improviso para se transformarem na amarga rotina do viver português e do existir em Portugal.

Deixámos cair a cultura da revolta. Não falamos de nós. Enredamo-nos na futilidade das coisas inúteis, como se fossem o atordoamento ou o sedativo das nossas dores. E as nossas dores não são, apenas, d'alma: são, também, dores físicas.

Lemos os jornais e não acreditamos. Lemos, é como quem diz - os que lêem. As televisões são a vergonha do pensamento. Os comentadores tocam pela mesma pauta e sopram a mesma música. Há longos anos que a análise dos nossos problemas está entregue a pessoas que não suscitam inquietação em quem os ouve. Uma anestesia geral parece ter sido adicionada ao corpo da nação.

Um amigo meu, professor em Lille, envia-me um email. Há muitos anos, deixou Portugal. Esteve, agora, por aqui. Lança-me um apelo veemente e dorido: "Que se passa com a nossa terra? Parece um país morto. A garra portuguesa foi aparada ou cortada por uma clique, espalhada por todos os sectores da vida nacional e que de tudo tomou conta. Indignem-se em massa, como dizia o Soares."

Nunca é de mais repetir o drama que se abateu sobre a maioria. Enquanto dois milhões de miúdos vivem na miséria, os bancos obtiveram lucros de 7,9 milhões por dia. Há qualquer coisa de podre e de inquietantemente injustom nestes números. Dir-se-á que não há relação de causa e efeito. Há, claro que há. Qualquer economista sério encontrará associações entre os abismos da pobreza e da fome e os cumes ostensivos das riquezas adquiridas muitas vezes não se sabe como.

Prepara-se (preparam os 'socialistas modernos' de Sócrates) a privatização de quase tudo, especialmente da saúde, o mais rendível. E o primeiro-ministro, naquela despudorada 'entrevista' à SIC, declama que está a defender o SNS! O desemprego atinge picos elevadíssimos. Sócrates diz exactamente o contrário. A mentira constitui, hoje, um desporto
particularmente requintado. É impossível ver qualquer membro deste Governo sem ser assaltado por uma repugnância visceral. O carácter desta gente é inexistente. Nenhum deles vai aos jornais, às Televisões e às Rádios falar verdade, contar a evidência. E a evidência é a fome, a miséria, a tristeza do nosso amargo viver; os nossos velhos a morrer nos jardins, com reformas de não chegam para comer quanto mais para adquirir remédios; os nossos jovens a tentar a sorte no estrangeiro, ou a desafiar a morte nas drogas; a iliteracia, a ignorância, o túnel negro sem fim.

Diz-se que, nas próximas eleições, este agrupamento voltará a ganhar. Diz-se que a alternativa é pior. Diz-se que estamos desgraçados. Diz um general que recebe pressões constantes para encabeçar um movimento de indignação. Diz-se que, um dia destes, rebenta uma explosão social com imprevisíveis consequências. Diz a SEDES, com alguns anos de atraso, como, aliás, é seu timbre, que a crise é muito má. Diz-se, diz-se.

Bem gostaríamos de saber o que dizem Mário Soares, António Arnaut, Manuel Alegre, Ana Gomes, Ferro Rodrigues (não sei quem mais, porque socialistas, socialistas, poucos há) acerca deste descalabro. Não é só dizer: é fazer, é agir. O facto, meramente circunstancial, de este PS ter conquistado a maioria absoluta não legitima as atrocidades governamentais, que sobem em escalada. O paliativo da substituição do sinistro Correia de Campos pela dr.ª Ana Jorge não passa de isso mesmo: paliativo. Apenas para toldar os olhos de quem ainda deseja ver, porque há outros que não vêem porque não
querem.

A aceitação acrítica das decisões governamentais está coligada com a cumplicidade. Quando Vieira da Silva expõe um ar compungido, perante os relatórios internacionais sobre a miséria portuguesa, alguém lhe devia dizer para ter vergonha. Não se resolve este magno problema com a distribuição de umas migalhas, que possuem sempre o aspecto da caridadezinha fascista. Um socialista a sério jamais procedia daquele modo. E há soluções adequadas. O acréscimo do desemprego está na base deste atroz retrocesso.

Vivemos num país que já nada tem a ver com o País de Abril. Aliás, penso, seriamente, que pouco tem a ver com a democracia. O quero, posso e mando de José Sócrates, o estilo hirto e autoritário, moldado em Cavaco, significa que nem tudo foi extirpado do que de pior existe nos políticos portugueses. Há um ranço salazarista nesta gente. E, com a passagem dos dias, cada vez mais se me acentua a ideia de que a saída só reside na cultura da revolta.

Baptista Bastos
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 20 set 2008, 16:13

O atestado médico

Imagine o meu caro que é professor, que é dia de exame do 12º ano e vai ter de fazer uma vigilância.

Continue a imaginar. O despertador avariou durante a noite. Ou fica preso no elevador. Ou o seu filho, já à porta do infantário, vomitou o quente, pastoso, húmido e fétido pequeno-almoço em cima da sua imaculada camisa.

Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta.

Ora esta coisa de um professor ficar com faltas injustificadas é complicada, por isso convém justificá-la. A questão agora é: como justificá-la?

Passemos então à parte divertida. A única justificação para o facto de ficar preso no elevador, do despertador avariar ou de não poder ir para uma sala do exame com a camisa vomitada, ababalhada e malcheirosa, é um atestado médico.

Qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui do atestado médico será o despertador ou o elevador. Mas não. Só uma doença poderá justificar sua ausência na sala do exame. Vai ao médico. E, a partir deste momento, a situação deixa de ser divertida para passar a ser hilariante.

Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo. Enfim, com o sorriso de Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a felicidade do padre Melícias. A partir deste momento mágico, gera-se um fenómeno que só pode ser explicado através de noções básicas da psicopatologia da vida quotidiana. Os mesmos que explicam uma hipnose colectiva em Felgueiras, o holocausto nazi ou o sucesso da TVI.

O professor sabe que não está doente. O médico sabe que ele não está doente. O presidente do executivo sabe que ele não está doente. O director regional sabe que ele não está doente. O Ministério da Educação sabe que ele não está doente. O próprio legislador, que manda a um professor que fica preso no elevador apresentar um atestado médico, também sabe que o professor não está doente.

Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não toca, do elevador parado e da camisa vomitada, é o próprio país que está doente.

Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um país doente.

Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser racional, útil e eficaz em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo que temos de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a mentira é verdade.

Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: uma mentira várias vezes repetida transforma-se numa verdade. Já Aristóteles percebia uma coisa muito engraçada: quando vamos ao teatro, vamos com o desejo e uma predisposição para sermos enganados.

Mas isso é normal. Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranho a ver o 'ET', que este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras ocasiões. O problema é que em Portugal a ficção se confunde com a realidade. Portugal é ele próprio uma produção fictícia, provavelmente mesmo desde D.Afonso Henriques, que Deus me perdoe.

A começar pela política. Os nossos políticos são descaradamente mentirosos. Só que ninguém leva a mal porque já estamos habituados.

Aliás, em Portugal é-se penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que significa que em Portugal não há boas razões para falar verdade. Se eu, num ambiente formal, disser a uma pessoa que tem uma nódoa na camisa, ela irá levar a mal. Fica ofendida se eu digo isso é para a ajudar, para que possa disfarçar a nódoa e não fazer má figura. Mas ela fica zangada comigo só porque eu vi a nódoa, sabe que eu sei que tem a nódoa e porque assumi perante ela que sei que tem a nódoa e que sei que ela sabe que eu sei.

Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos normal que assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos derretidos (não falo do cérebro, mas de um plano emocional) ao vermos casais felicíssimos e com vidas de sonho.

Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos deles divorciam-se ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismo disfarçado. Mas adoramos fingir que aquilo é tudo verdade.

Somos pobres, mas vivemos como os alemães e os franceses. Somos ignorantes e culturalmente miseráveis, mas somos doutores e engenheiros. Fazemos malabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar férias a Fortaleza. Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos em 15 dias, temos auto-estradas modernas e europeias, mas para ver passar, a seu lado, entulho, lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta queimada, barracões com chapas de zinco, casas horríveis e fábricas desactivadas.

Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante o mundo.

Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame por ficar preso no elevador que precisa de um atestado médico. É Portugal que precisa, antes que comece a vomitar sobre si próprio.

José Ricardo Costa
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 29 set 2008, 21:48

Filosofia de vida

O estatuto de aluno concede-lhe o direito de não reprovar por faltas. Se faltar, o problema não é dele. A escola é que terá que resolver o problema.

Tendo singrado na vida e atingido o fim da escolaridade sem saber ler nem escrever e mesmo sem ter posto os pés nas aulas, o estatuto de cidadão concede-lhe o direito de ter um emprego. Se faltar ao emprego como faltava às aulas, o problema não é dele. O patrão é que terá que resolver o problema.

Se, por um impensável absurdo, for despedido, o problema não é dele. O estatuto de desempregado concede-lhe o direito de ter um subsídio de desemprego e o problema é do Estado.

Se, na vigência do subsídio, faltar às entrevistas ou recusar novo emprego, o problema não é dele. As suas habilitações arduamente conquistadas concedem-lhe o direito de escolher emprego compatível e o problema é do Instituto do Emprego, obrigado a arranjar-lhe ocupação, para não aumentar as listas de desempregados.

Se, por um novo improvável absurdo, ficar fora do esquema, o problema não é dele, que o estatuto de cidadão com todos os direitos concede-lhe o direito ao rendimento social de inserção.

Que constituirá uma renda perpétua, pois o cidadão tem direito à existência!...

Renda paga pelos portugueses e não, como devia ser, pelos autores desta celerada lei, fautora da indisciplina, do laxismo, do não te rales, da irresponsabilidade mais absoluta, fomentadora da exclusão social!...

Por uma vez, tenho direito à indignação, com todas as letras: P... que os pariu!...

UMA PROFESSORA

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a grande tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." Platão, filósofo grego (428-347 a.C.)
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 24 out 2008, 16:53

O Mário Crespo entrevistou na SIC Notícias o Dr. Medina Carreira. O vídeo é longo, tem cerca de 30 minutos, mas vale a pena. Vejam a partir do 7.º minuto!

http://sic.aeiou.pt/online/scripts/2007 ... x?videoId={EEB12ECA-ACA0-4539-8A6B-49B6F1125B41}

Nota: Não consigo colocar aqui o link de modo a funcionar!!! Experimentei de várias maneiras,mas não funciona! (não sei porquê), mas se o copiarem (na totalidade) e colarem na barra de endereços do vosso browser, funciona.
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 31 out 2008, 08:50

A banca nacionalizou o Governo

Quando, no passado domingo, o Ministério das Finanças anunciou que o Governo vai prestar uma garantia de 20 mil milhões de euros aos bancos até ao fim do ano, respirei de alívio. Em tempos de gravíssima crise mundial, devemos ajudar quem mais precisa. E se há alguém que precisa de ajuda são os banqueiros. De acordo com notícias de Agosto deste ano, Portugal foi o país da Zona Euro em que as margens de lucro dos bancos mais aumentaram desde o início da crise. Segundo notícias de Agosto de 2007, os lucros dos quatro maiores bancos privados atingiram 1,137 mil milhões de euros, só no primeiro semestre desse ano, o que representava um aumento de 23% relativamente aos lucros dos mesmos bancos em igual período do ano anterior. Como é que esta gente estava a conseguir fazer face à crise sem a ajuda do Estado é, para mim, um mistério.
A partir de agora, porém, o Governo disponibiliza aos bancos dinheiro dos nossos impostos. Significa isto que eu, como contribuinte, sou fiador do banco que é meu credor. Financio o banco que me financia a mim. Não sei se o leitor está a conseguir captar toda a profundidade deste raciocínio. Eu consegui, mas tive de pensar muito e fiquei com dor de cabeça. Ou muito me engano ou o que se passa é o seguinte: os contribuintes emprestam o seu dinheiro aos bancos sem cobrar nada, e depois os bancos emprestam o mesmo dinheiro aos contribuintes, mas cobrando simpáticas taxas de juro. A troco de apenas algum dinheiro, os bancos emprestam-nos o nosso próprio dinheiro para que possamos fazer com ele o que quisermos. A nobreza desta atitude dos bancos deve ser sublinhada.

Tendo em conta que, depois de anos de lucros colossais, a banca precisa de ajuda, há quem receie que os bancos voltem a não saber gerir este dinheiro garantido pelo Estado. Mas eu sei que as instituições bancárias aprenderam a sua lição e vão aplicar ajuizadamente a ajuda do Governo. Tenho a certeza de que os bancos vão usar pelo menos parte desse dinheiro para devolver aos clientes aqueles arredondamentos que foram fazendo indevidamente no crédito à habitação, por exemplo, e que ascendem a vários milhares de euros no final de cada empréstimo. Essa será, sem dúvida nenhuma, uma prioridade. Vivemos tempos difíceis, e julgo que todos, sem excepção, temos de dar as mãos. Por mim, dou as mãos aos bancos. Assim que eles tirarem as mãos do meu bolso, dou mesmo.

Ricardo Artur de Araújo Pereira
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 31 out 2008, 09:40

Aviso já que o texto é longo. Mas não se vão arrepender de o ler.

Sr. Engº José Sócrates,

Antes de mais, peço desculpa por não o tratar por Excelência nem por Primeiro-Ministro, mas, para ser franca, tenho muitas dúvidas quanto ao facto de o senhor ser excelente e, de resto, o cargo de primeiro-ministro parece-me, neste momento, muito pouco dignificado.

Também queria avisá-lo de antemão que esta carta vai ser longa, mas penso que não haverá problema para si, já que você é do tempo em que o ensino do Português exigia grandes e profundas leituras. Ainda pensei em escrever tudo por tópicos e com abreviaturas, mas julgo que lhe faz bem recordar o prazer de ler um texto bem escrito, com princípio, meio e fim, e que, quiçá, o faça reflectir (passe a falta de modéstia).

Gostaria de começar por lhe falar do 'Magalhães'. Não sobre os erros ortográficos, porque a respeito disso já o seu assessor deve ter recebido um e-mail meu. Queria falar-lhe da gratuitidade, da inconsequência, da precipitação e da leviandade com que o senhor engenheiro anunciou e pôs em prática o projecto a que chama de e-escolinha.

O senhor fala em Plano Tecnológico e, de facto, eu tenho visto a tecnologia, mas ainda não vi plano nenhum. Senão, vejamos a cronologia dos factos associados ao projecto 'Magalhães':

No princípio do mês de Agosto, o senhor engenheiro apareceu na televisão a anunciar o projecto e-escolinhas e a sua ferramenta: o portátil Magalhães.

No dia 18 de Setembro (quinta-feira) ao fim do dia, o meu filho traz na mochila um papel dirigido aos encarregados de educação, com apenas quatro linhas de texto informando que o 'Magalhães' é um projecto do Governo e que, dependendo do escalão de IRS, o seu custo pode variar entre os zero e os 50 euros. Mais nada! Seguia-se um formulário com espaço para dados como nome do aluno, nome do encarregado de educação, escola, concelho, etc. e, por fim, a oportunidade de assinalar, com uma cruzinha, se pretendemos ou não adquirir o 'Magalhães'.

No dia 22 de Setembro (segunda-feira), ao fim do dia, o meu filho traz um novo papel, desta vez uma extensa carta a anunciar a visita, no dia seguinte, do primeiro-ministro para entregar os primeiros 'Magalhães' na EB1 Padre Manuel de Castro. Novamente uma explicação respeitante aos escalões do IRS e ao custo dos portáteis.

No dia 23 de Setembro (terça-feira), o meu filho não traz mais papéis, traz um 'Magalhães' debaixo do braço.

Ora, como é fácil de ver, tudo aconteceu num espaço de três dias úteis em que as famílias não tiveram oportunidade de obter esclarecimentos sobre a futura utilização e utilidade do 'Magalhães'. Às perguntas que colocámos à professora sobre o assunto, ela não soube responder. Reunião de esclarecimento, nunca houve nenhuma.

Portanto, explique-me, senhor engenheiro: o que é que o seu Governo pensou para o 'Magalhães'? Que planos tem para o integrar nas aulas? Como vai articular o seu uso com as matérias leccionadas? Sabe, é que 50 euros talvez seja pouco para se gastar numa ferramenta de trabalho, mas, decididamente, e na minha opinião, é demasiado para se gastar num brinquedo. Por favor, senhor engenheiro, não me obrigue a concluir que acabei de pagar por uma inutilidade, um capricho seu, uma manobra de campanha eleitoral, um espectáculo de fogo de artifício do qual só sobra fumo e o fedor intoxicante da pólvora.

Seja honesto com os portugueses e admita que não tem plano nenhum. Admita que fez tudo tão à pressa que nem teve tempo de esclarecer as escolas e os professores. E não venha agora dizer-me que cabe aos pais aproveitarem esta maravilhosa oportunidade que o Governo lhes deu e ensinarem os filhos a lidar com as novas tecnologias. O seu projecto chama-se e-escolinha, não se chama e-familiazinha! Faça-lhe jus! Ponha a sua equipa a trabalhar, mexa-se, credibilize as suas iniciativas!

Uma coisa curiosa, senhor engenheiro, é que tudo parece conspirar a seu favor nesta sua lamentável obra de empobrecimento do ensino assente em medidas gratuitas.

Há dias arrisquei-me a ver um episódio completo da série Morangos com Açúcar. Por coincidência, apanhei precisamente o primeiro episódio da nova série que significa, na ficção, o primeiro dia de aulas daquela miudagem. Ora, nesse primeiro dia de aulas, os alunos conheceram a sua professora de matemática e o seu professor de português. As imagens sucediam-se alternando a aula de apresentação de matemática por contraposição à de português. Enquanto a professora de matemática escrevia do quadro os pressupostos da sua metodologia - disciplina, rigor e trabalho - o professor de português escrevia no quadro os pressupostos da sua - emoção, entrega e trabalho. Ora, o que me faz espécie, senhor engenheiro, é que a personagem da professora de matemática é maldosa, agressiva e antiquada, enquanto que o professor de português é um tipo moderno e bué de fixe. Então, de acordo com os princípios do raciocínio lógico, se a professora de matemática é maldosa e agressiva e os seus pressupostos são disciplina e rigor, então a disciplina e o rigor são coisas negativas. Por outro lado, se o professor de português é bué de fixe, então os pressupostos da emoção e da entrega são perfeitos. E de facto era o que se via. Enquanto que na aula de matemática os alunos bufavam, entediados, na aula de português sorriam, entusiasmados.

Disciplina e rigor aparecem, assim, como conceitos inconciliáveis com emoção e entrega, e isto é a maior barbaridade que eu já vi na minha vida. Digo-o eu, senhor engenheiro, que tenho uma profissão que vive das emoções, mas onde o rigor é 'obstinado', como dizem os poetas. Eu já percebi que o ensino dos dias de hoje não sabe conciliar estes dois lados do trabalho. E, não o sabendo, optou por deixar de lado a disciplina e o rigor. Os professores são obrigados a acreditar que para se fazer um texto criativo não se pode estar preocupado com os erros ortográficos. E que para se saber fazer uma operação aritmética não se pode estar preocupado com a exactidão do seu resultado. Era o que faltava, senhor engenheiro!

Agora é o momento em que o senhor engenheiro diz de si para si: mas esta mulher é um Velho do Restelo, que não percebe que os tempos mudaram e que o ensino tem que se adaptar a essas mudanças? Percebo, senhor engenheiro. Então não percebo? Mas acontece que o que o senhor engenheiro está a fazer não é adaptar o ensino às mudanças, você está a esvaziá-lo de sentido e de propósitos. Adaptar o ensino seria afinar as metodologias por forma a torná-las mais cativantes aos olhos de uma geração inquieta e voltada para o imediato. Mas nunca diminuir, nunca desvalorizar, nunca reduzir ao básico, nunca baixar a bitola até ao nível da mediocridade.

Mas, por falar em Velho do Restelo...

... Li, há dias, numa entrevista com uma professora de Literatura
Portuguesa, que o episódio do Velho do Restelo foi excluído do estudo d'Os Lusíadas. Curioso, porque este era o episódio que punha tudo em causa, que questionava, que analisava por outra perspectiva, que é algo que as crianças e adolescentes de hoje em dia estão pouco habituados a fazer. Sabem contrariar, é certo, mas não sabem questionar. São coisas bem diferentes: contrariar tem o seu quê de gratuito; questionar tem tudo de filosófico. Para contrariar, basta bater o pé. Para questionar, é preciso pensar.

Tenho pena, porque no meu tempo (que não é um tempo assim tão distante), o episódio do Velho do Restelo, juntamente com os de Inês de Castro e da Ilha dos Amores, era o que mais apaixonava e empolgava a turma. Eram três episódios marcantes, que quebravam a monotonia do discurso de engrandecimento da nação e que, por isso, tinham o mérito de conseguir que os alunos tivessem curiosidade em descodificar as suas figuras de estilo e desbravar o hermetismo da linguagem. Ainda hoje me lembro exactamente da aula em que começámos a ler o episódio de Inês de castro e lembro-me das palavras da professora Lídia, espicaçando-nos, estimulando-nos, obrigando-nos a pensar. E foi há 20 anos.

Bem sei que vivemos numa era em que a imagem se sobrepõe à palavra, mas veja só alguns versos do episódio de Inês de Castro, veja que perfeita e inequívoca imagem eles compõem:

'Estavas, linda Inês, posta em sossego,

De teus anos colhendo doce fruito,

Naquele engano d'alma ledo e cego,

Que a fortuna não deixa durar muito (...)'

Feche os olhos, senhor engenheiro, vá lá, feche os olhos. Não consegue ver, perfeitamente desenhado e com uma nitidez absoluta, o rosto branco e delicado de Inês de Castro, os seus longos cabelos soltos pelas costas, o corpo adolescente, as mãos investidas num qualquer bordado, o pensamento distante, vagueando em delícias proibidas no leito do príncipe? Não vê os seus olhos que de vez em quando escapam às linhas do bordado e vão demorar-se na janela, inquietos de saudade, à espera de ver D. Pedro surgir a galope na linha do horizonte? E agora, se se concentrar bem, não vê uma nuvem negra a pairar sobre ela, não vê o prenúncio do sangue a escorrer-lhe pelos fios de cabelo? Não consegue ver tudo isto apenas nestes quatro versos?

... continua
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 31 out 2008, 09:41

... continuação...

Pois eu acho estes quatro versos belíssimos, de uma simplicidade arrebatadora, de uma clareza inesperada. É poesia, senhor engenheiro, é poesia! Da mais nobre, grandiosa e magnífica que temos na nossa História. Não ouse menosprezá-la. Não incite ninguém a desrespeitá-la.

Bem, admito que me perdi em divagações em torno da Inês de Castro. O que eu queria mesmo era tentar perceber porque carga de água o Velho do Restelo desapareceu assim. Será precisamente por estimular a diferença de opiniões, por duvidar, por condenar? Sabe, não tarda muito, o episódio da Ilha dos Amores será também excluído dos conteúdos programáticos por 'alegado teor pornográfico' e o de Inês de Castro igualmente, por 'incitamento ao adultério e ao desrespeito pela autoridade'.

Como é, senhor engenheiro? Voltamos ao tempo do 'lápix' azul?

E já agora, voltando à questão do rigor e da disciplina, da entrega e da emoção: o senhor engenheiro tem ideia de quanta entrega e de quanta emoção Luís de Camões depôs na sua obra? E, por outro lado, o senhor engenheiro duvida da disciplina e do rigor necessários à sua concretização? São centenas e centenas de páginas, em dezenas de capítulos e incontáveis estrofes com a mesma métrica, o mesmo tipo de rima, cada palavra escolhida a dedo... o que implicou tudo isto senão uma carga infinita de disciplina e rigor?

Senhor engenheiro José Sócrates: vejo que acabo de confiar o meu filho ao sistema de ensino onde o senhor montou a sua barraca de circo e não me apetece nada vê-lo transformar-se num palhaço. Bem, também não quero ser injusta consigo. A verdade é que as coisas já começaram a descarrilar há alguns anos, mas também é verdade que você está a sobrealimentar o crime, com um tirinho aqui, uma facadinha ali, uma desonestidade acolá.

Lembro-me bem da época em que fiz a minha recruta como jornalista e das muitas vezes em que fui cobrir cerimónias e eventos em que você participava. Na altura, o senhor engenheiro era Secretário de Estado do Ambiente e andava com a ministra Elisa Ferreira por esse Portugal fora, a inaugurar ETAR's e a selar aterros. Também o vi a plantar árvores, com as suas próprias mãos. E é por isso que me dói que agora, mais de dez anos depois, você esteja a dar cabo das nossas sementes e a tornar estéreis os solos que deveriam ser férteis.

Sabe, é que eu tenho grandes sonhos para o meu filho. Não, não me refiro ao sonho de que ele seja doutor ou engenheiro. Falo do sonho de que ele respeite as ciências, tenha apreço pelas artes, almeje a sabedoria e valorize o trabalho. Porque é isso que eu espero da escola. O resto é comigo.

Acho graça agora a ouvir os professores dizerem sistematicamente aos pais que a família deve dar continuidade, em casa, ao trabalho que a escola faz com as crianças. Bem, se assim fosse eu teria que ensinar o meu filho a atirar com cadeiras à cabeça dos outros e a escrever as redacções em linguagem de sms. Não. Para mim, é o contrário: a escola é que deve dar continuidade ao trabalho que eu faço com o meu filho. Acho que se anda a sobrevalorizar o papel da escola. No meu tempo, a escola tinha apenas a função de ensinar e fazia-o com competência e rigor. Mas nos dias que correm, em que os pais não têm tempo nem disposição para educar os filhos, exige-se à escola que forme o seu carácter e ocupe todo o seu tempo livre. Só que infelizmente ela tem cumprido muito mal esse papel.

A escola do meu tempo foi uma boa escola. Hoje, toda a gente sabe que a minha geração é uma geração de empreendedores, de gente criativa e com capacidade iniciativa, que arrisca, que aposta, que ambiciona. E não é disso que o país precisa? Bem sei que apanhámos os bons ventos da adesão à União Europeia e dos fundos e apoios que daí advieram, mas isso por si só não bastaria, não acha? E é de facto curioso: tirando o Marco cigano, que abandonou a escola muito cedo, e a Fatinha que andava sempre com ranhoca no nariz e tinha que tomar conta de três irmãos mais novos, todos os meus colegas da primária fizeram alguma coisa pela vida. Até a Paulinha, que era filha da empregada (no meu tempo dizia-se empregada e não auxiliar de acção educativa, mas, curiosamente, o respeito por elas era maior), apesar de se ter ficado pelo 9º ano, não descansou enquanto não abriu o seu próprio Pão Quente e a ele se dedicou com afinco e empenho. E, no entanto, levámos reguadas por não sabermos de cor as principais culturas das ex-colónias e éramos sujeitos a humilhação pública por cada erro ortográfico. Traumatizados? Huuummm... não me parece. Na verdade, senhor engenheiro, tenho um respeito e uma paixão pela escola tais que, se tivesse tempo e dinheiro, passaria o resto da minha vida a estudar.

Às vezes dá-me para imaginar as suas conversas com os seus filhos (nem sei bem se tem um ou dois filhos...) e pergunto-me se também é válido para eles o caos que o senhor engenheiro anda a instalar por aí. Parece que estou a ver o seu filho a dizer-lhe: ó pai, estou com dificuldade em resolver este sistema de três equações a três
incógnitas... dás-me uma ajuda? E depois, vejo-o a si a responder com a sua voz de homilia de domingo: não faz mal, filho... sabes escrever o teu nome completo, não sabes? Então não te preocupes, é perfeitamente suficiente...

Vendo as coisas assim, não lhe parece criminoso o que você anda a fazer?

E depois, custa-me que você apareça em praça pública acompanhado da sua Ministra da Educação, que anda sempre com aquele ar de infeliz, de quem comeu e não gostou, ambos com o discurso hipócrita do mérito dos professores e do sucesso dos alunos, apoiados em estatísticas cuja real interpretação, à luz das mudanças que você operou, nos apresenta uma monstruosa obscenidade. Ofende-me, sabe? Ofende-me por me tomar por estúpida.

Aliás, a sua Ministra da Educação é uma das figuras mais desconcertantes que eu já vi na minha vida. De cada vez que ela fala, tenho a sensação que está a orar na missa de sétimo dia do sistema de ensino e que o que os seus olhos verdadeiramente dizem aos pais deste Portugal é apenas 'os meus sentidos pêsames'.

Não me pesa a consciência por estar a escrever-lhe esta carta. Sabe, é que eu não votei em si para primeiro-ministro, portanto estou à vontade. Eu votei em branco. Mas, alto lá! Antes que você peça ao seu assessor para lhe fazer um discurso sobre o afastamento dos jovens da política, lembre-se, senhor engenheiro: o voto em branco não é o voto da indiferença, é o voto da insatisfação! Mas, porque vos é conveniente, o voto em branco é contabilizado, indiscriminadamente, com o voto nulo, que é aquele em que os alienados desenham macaquinhos e escrevem obscenidades.

Você, senhor engenheiro, está a arriscar-se demasiado. Portugal está prestes a marcar-lhe uma falta a vermelho no livro de ponto. Ah... espere lá... as faltas a vermelho acabaram... agora já não há
castigos...

Bem, não me vou estender mais, até porque já estou cansada de repetir 'senhor engenheiro para cá', 'senhor engenheiro para lá'. É que o meu marido também é engenheiro e tenho receio de lhe ganhar cisma.

Esta carta não chegará até si. Vou partilhá-la apenas e só com os meus E-leitores (sim, sim, eu também tenho os meus eleitores) e talvez só por causa disso eu já consiga hoje dormir melhor. Quanto a si, tenho dúvidas.

Para terminar, tenho um enorme prazer em dedicar-lhe, aqui, uma estrofe do episódio do Velho do Restelo. Para que não caia no esquecimento. Nem no seu, nem no nosso.

'A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias? '

Atenciosamente e ao abrigo do artigo nº 37 da Constituição da República Portuguesa,

Uma mãe preocupada
O pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas.
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 16 nov 2008, 21:44

Imaginem
00h30m
Mário Crespo

Imaginem que todos os gestores públicos das setenta e sete empresas do Estado decidiam voluntariamente baixar os seus vencimentos e prémios em dez por cento. Imaginem que decidiam fazer isso independentemente dos resultados. Se os resultados fossem bons as reduções contribuíam para a produtividade. Se fossem maus ajudavam em muito na recuperação.
Imaginem que os gestores públicos optavam por carros dez por cento mais baratos e que reduziam as suas dotações de combustível em dez por cento.

Imaginem que as suas despesas de representação diminuíam dez por cento também. Que retiravam dez por cento ao que debitam regularmente nos cartões de crédito das empresas. Imaginem ainda que os carros pagos pelo Estado para funções do Estado tinham ESTADO escrito na porta. Imaginem que só eram usados em funções do Estado.

Imaginem que dispensavam dez por cento dos assessores e consultores e passavam a utilizar a prata da casa para o serviço público. Imaginem que gastavam dez por cento menos em pacotes de rescisão para quem trabalha e não se quer reformar. Imaginem que os gestores públicos do passado, que são os pensionistas milionários do presente, se inspiravam nisto e aceitavam uma redução de dez por cento nas suas pensões. Em todas as suas pensões. Eles acumulam várias. Não era nada de muito dramático. Ainda ficavam, todos, muito acima dos mil contos por mês.

Imaginem que o faziam, por ética ou por vergonha. Imaginem que o faziam por consciência. Imaginem o efeito que isto teria no défice das contas públicas. Imaginem os postos de trabalho que se mantinham e os que se criavam. Imaginem os lugares a aumentar nas faculdades, nas escolas, nas creches e nos lares. Imaginem este dinheiro a ser usado em tribunais para reduzir dez por cento o tempo de espera por uma sentença. Ou no posto de saúde para esperarmos menos dez por cento do tempo por uma consulta ou por uma operação às cataratas.

Imaginem remédios dez por cento mais baratos. Imaginem dentistas incluídos no serviço nacional de saúde. Imaginem a segurança que os municípios podiam comprar com esses dinheiros. Imaginem uma Polícia dez por cento mais bem paga, dez por cento mais bem equipada e mais motivada. Imaginem as pensões que se podiam actualizar. Imaginem todo esse dinheiro bem gerido. Imaginem IRC, IRS e IVA a descerem dez por cento também e a economia a soltar-se à velocidade de mais dez por cento em fábricas, lojas, ateliers, teatros, cinemas, estúdios, cafés, restaurantes e jardins.

Imaginem que o inédito acto de gestão de Fernando Pinto, da TAP, de baixar dez por cento as remunerações do seu Conselho de Administração nesta altura de crise na TAP, no país e no Mundo é seguido pelas outras setenta e sete empresas públicas em Portugal. Imaginem que a histórica decisão de Fernando Pinto de reduzir em dez por cento os prémios de gestão, independentemente dos resultados serem bons ou maus, é seguida pelas outras empresas públicas.

Imaginem que é seguida por aquelas que distribuem prémios quando dão prejuízo.

Imaginem que país podíamos ser se o fizéssemos.

Imaginem que país seremos se não o fizermos.
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 22 nov 2008, 00:05

O dislate, o talento e a soberba
Baptista Bastos
b.bastos@netcabo.pt

Se os deprimentes silêncios da dr.ª Manuela Ferreira Leite têm suscitado comoventes apreensões, os seus improvisos causam o regalo da oposição e a volúpia da sociedade jornalística. Aquela de interromper a democracia, durante seis meses, promover o doce regresso da ditadura, que colocaria ordem nas coisas e paz nas ruas, retomando-se, depois, a balbúrdia, é de cabo de esquadra.

Alguém tem de dizer à senhora que deixe de escutar os conselhos de Pacheco Pereira, cuja influência ou é nefasta ou é hilariante.

Não há paliativo que consiga atenuar os danos causados pelas imponderadas afirmações. E as justificações dadas ao povo pelo fatal dr. Marques Guedes, segundo as quais o sentido rigoroso das frases da senhora constituía "uma crítica à forma autoritária de governar do PS" – essas, então, vão sobrenadar na memória dos tempos, como a tolice do disparate ou o disparate da tolice.

Com perdão da palavra, e o chapéu na mão, a dr.ª Manuela Ferreira Leite não tem jeito nenhum para as funções que exerce. Não se lhe percebe a estratégia, não se lhe entende a táctica, não se lhe descortina a doutrina, o projecto, a própria razão de ser daquilo que faz, diz e não diz. Admito que o PSD seja aquilo que ela é: uma ambiguidade política por vezes dolorosa. Todavia, foi a senhora quem afirmou, em nome da pátria e da ética, querer limpar o almofariz onde se misturam ambições desmedidas, cruéis desígnios, cavilosos interesses, negociatas tenebrosas. Um amigo meu, por sinal um velho dirigente anarquista, ensinou-me, há dias: "Não se esqueça de que só se enriquece no PSD e no PS."

Ante a baderna, Luís Filipe Menezes sente-se vingado dos enxovalhos e das intrigas de que foi alvo. "Sá Carneiro está a dar voltas no túmulo", disse. Gostemos ou não do autarca de Gaia, a verdade é que dispõe de ideias, organizara uma agenda própria, é inteligente e culto – mas não "tem Imprensa", como, por exemplo, a tem Santana Lopes.

Ante o aperto deste quadro inacreditável, seria presumível que José Sócrates obtivesse nova maioria absoluta. Não o creio, agora. Maria de Lurdes Rodrigues, cuja irritante obstinação favorece o mal-estar de todos aqueles que a vêem e ouvem, e não só os professores, depredou o que restava de crédito ao Governo. Manuel Alegre, cansado do obstrucionismo ruidoso do seu partido, que é tudo menos "socialista", arranjou matéria de escândalo ao proclamar o que os seus "camaradas" silenciam. Depois, há os diários encerramentos das empresas e das oficinas, e o irremediável cortejo de desempregados: a fome, a miséria, o desespero, a marginalidade, o roubo, a cadeia. Eis o círculo infernal onde nos colocou uma sociedade que possui rios de dinheiro para salvar um banco, e encolhe-se na aplicação de fundos para a saúde, a educação, a previdência.

Quem nos acode?

APOSTILA 1 – O meu parceiro do lado, António Rego Chaves, acaba de publicar, com a chancela do Campo das Letras e na prestigiada colecção Instantes de Leitura, um volume de ensaios, "Livros com Ideias Dentro." A colectânea, parte escassa de centenas de outros textos por igual admiráveis, foi, anteriormente, impressa no "Jornal de Negócios." Chaves desafia o leitor a pensar, quase que exige a sua intervenção crítica, sacode a preguiça tradicional dos que entendem ser a leitura um atrevimento ou uma molesta chatice. Sobre ser um dos mais notáveis jornalistas portugueses, o autor só compreende o acto de escrever como moral em acção, e o de ler uma ventura incessante. Somos camaradas há quarenta anos, trabalhámos no mesmo jornal com honra e orgulho, o "Diário Popular", e, parafraseando Herculano sobre Garrett, posso afirmar que "nenhum dinheiro do mundo o faria escrever uma frase indigna ou uma linha imperfeita." Quem quiser saber, que o leia.

APOSTILA 2 – Assisti ao programa "Prós e Contras", de Fátima Campos Ferreira, na RTP, sobre os planos para os contentores de Alcântara. Sou lisboeta da Ajuda, conheço-lhe as ruas e as manhas, aqui trabalho, aqui amo, aqui tenho brigado, aqui nasceram os meus filhos e a minha mulher. Ser alfacinha é um privilégio. E o Tejo é o espelho das minhas emoções e dos meus desvelos. Eis porque demorei os olhos, os ouvidos e o entendimento naquelas conversas cruzadas. Fui assaltado por intensa compaixão quando José Sá Fernandes falava. E sobressaltado pelo enfado e pela perplexidade quando o Miguel Sousa Tavares intervinha. Deixei, há muito, de me importunar com a egolatria, a ânsia de protagonismo, a soberba deste homem que (reconheço) carrega um fardo insuportável, o que talvez possa explicar a sua petulância. Haja Freud! O sujeito não admite que o contradigam, e o rosto torce-se-lhe numa ira incontida quando é colhido em falso. No caso vertente, por ignorância técnica e carência de reflexão, como o demonstrou a secretária de Estado Ana Paula Vitorino, calma, didáctica, irónica, mas sempre empenhada em esclarecer o que o poderoso romancista teimava em confundir. O Miguel Sousa Tavares surgiu nos ecrãs notoriamente fatigado, e com evidentes sintomas de má digestão, pormenores verificáveis pelo modo com que se remexia na cadeira e pelos trejeitos nervosos do semblante. O lisboeta, susceptível e desconfiado, ficou, apenas, com a certeza de que nada lhe fora explicado. E o fatal Tavares, colérico, turbulento, desagradável, afastou, irremediavelmente, para o lado contrário à causa que diz representar, aqueles dos telespectadores indecisos, que aguardavam a clareza dos seus raciocínios e o transporte luminoso das suas sábias advertências.
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 25 nov 2008, 22:31

A conspiração


A política portuguesa, ciclicamente, é assolada pelo fumo das teorias da conspiração. Só que elas, normalmente, acabam por servir os interesses do poder. Este transpira e livra-se de vírus infecciosos. O caso BPN pode vir a servir neste momento para uma limpeza de elementos indesejáveis para que a paz torne a vida de alguns mais fácil.

Nos últimos anos circularam, nos mais diferentes meios, rumores sobre o banco de Oliveira e Costa. Pelos vistos, como se vai percebendo, todos sabiam alguma história sobre o assunto, mas ninguém levantou a voz para saber se o que se dizia nos bastidores tinha uma ponta de verdade. Agora, após a polícia ter batido à porta do BPN, todos têm algo a contar ou a desmentir. Mas é assim que se vão criando as bolas de neve, onde as teorias da conspiração vão crescendo, até se tornarem devastadoras. Aquelas em que se torna impossível discernir a verdade da mentira. As boas teorias da conspiração, bem montadas, acabam sempre por cumprir o seu objectivo central: desviar as atenções do que é fulcral. Talvez por isso seja um pouco incompreensível a rispidez do comunicado do Presidente da República, pessoa habitualmente ponderada nos seus comentários. Não se imagina Cavaco Silva aterrorizado com o quer que seja. Mesmo se Dias Loureiro se tornou um elo menos forte no seu círculo. Não parece, até agora, pelo que conhecemos, que alguém esteja a querer montar uma cilada ao PR. Mas no BPN só já temos uma certeza: a próxima teoria da conspiração segue dentro de momentos.

Fernando Sobral
fsobral@mediafin.pt
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 08 dez 2008, 00:56

Perfil
Anatomia de um intocável
A história de Dias Loureiro é um puzzle que ajuda a explicar muito do que tem sido Portugal desde 1985, data da sua ascensão ao poder. Um homem com um percurso de luzes e sombras, que se confunde, por vezes, com as zonas cinzentas de um regime

Quando eu era pequenino…

É uma das figuras mais poderosas do País. Mas sempre disse não ser um homem «do poder político». Fez fortuna de quase nada e até além-fronteiras lhe dão tratamento VIP. Priva com Clinton, Aznar, Durão Barroso e outros dos homens mais poderosos do planeta, alguns com actividades e práticas bastante controversas. Apanhado pelos estilhaços do «caso BPN», tem-se defendido nos fóruns que lhe foram postos à disposição, reafirmando inocência e comportamento acima de qualquer suspeita. À VISÃO, recusou prestar declarações por considerar «encerrado» o capítulo das entrevistas e esclarecimentos e estar «cansado de dizer uma coisa e sair outra». Agora, adiantou, só falará «noutras instâncias». Mas quem é, afinal, Manuel Dias Loureiro e como personifica, para o bem e para o mal, os poderes reais e paralelos do nosso país?

Dias Loureiro é natural de Aguiar da Beira, terra pequena, pobre e rural, com um castelo altaneiro, onde nasceu, a 18 de Dezembro de 1951. Os pais eram comerciantes (a mãe tinha alguns estudos, mas o pai completou apenas a quarta classe) e vendiam de tudo um pouco, desde tecidos a materiais de construção, incluindo artigos de mercearia. Tinha sete irmãos. Em pequeno, gostava de comer batatas fritas em azeite, ovos estrelados e pastéis de massa tenra.

Aos 9 anos, foi fazer a 4.ª classe num colégio interno em Lamego – não muito longe de casa, mas o suficiente para só ver a família nas férias de Natal, Páscoa e Verão. Ali, os hábitos eram muito rígidos: os alunos levantavam-se às 6 da manhã e havia regras para tudo e hierarquias bem definidas. Nas férias, quando regressava à terra, ajudava os pais e os irmãos no pequeno comércio, todos os dias, incluindo aos domingos.

Seguiu-se uma passagem de dois anos pelo seminário de S. José, em Fornos de Algodres, não porque, segundo diz, quisesse ser padre, mas porque assim tinha uma oportunidade para estudar. A mãe, contudo, ainda hoje está convencida de que ele queria mesmo seguir o sacerdócio, pois, nas suas brincadeiras de criança, «vestia uma saia branca da avó ou enrolava um pano branco à volta do corpo e depois dizia homílias».

Passou ainda pelos colégios de Mangualde e de Tondela, antes de ir para Coimbra, tirar Direito. Por esta altura já não tinha dúvidas de que queria ser advogado para «não ter patrões» e manter a sua independência. A militância na Juventude Universitária Católica foi coisa normal para quem vinha de um meio católico. As leituras de Faulkner e de Open Society, de Karl Popper, viriam, depois, a ter grande influência nas suas ideias e opções.

Coimbra tem mais encanto…

Foi na hora da despedida que Coimbra teve mais encanto para Dias Loureiro. Desde a ida ao congresso da Figueira para apoiar Cavaco, em 1985, foi sempre a subir. Até aí, porém, tinha vivido tempos difíceis. Pouco depois de chegar à cidade, morreu-lhe o pai, com um cancro, em apenas três meses. E perderia o irmão e um tio, quase de seguida. Tempos de algum aperto financeiro também. «Na altura, alguns de nós já tinham carro, mas ele vinha todos os fins-de-semana de Aguiar da Beira sempre de camioneta e vestido de forma muito simples, com umas samarras muito coçadas. Via-se que não tinha muito dinheiro», descreve um colega de curso. Pouco tempo depois de se ter formado em Direito, as idas a casa, no final da semana, começaram a escassear. Recordam-se dele como um estagiário de advocacia que arrebanhava as defesas oficiosas que pudesse, a fim de equilibrar o orçamento. Ao contrário de outros, ele não tinha pergaminhos familiares na advocacia, e «ia a todas, era impressionante», admira-se um desembargador.

No início dos anos 80, os amigos de esquerda e extrema-esquerda tinham ficado para trás. Já militante do PSD, pela mão de Carlos Encarnação – que viria a ser seu secretário de Estado –, Dias Loureiro morava no segundo andar de um prédio comum, com as suas duas filhas e mulher, Fátima Varandas, de quem se divorciou há poucos anos. Ele terá sido pescado para a política pelo líder do PSD/Coimbra, Alexandre Gouveia, em cujo escritório de advocacia trabalhou. «Num ápice, tornou-se adjunto do governador civil e nunca mais ninguém ouviu falar dele como advogado», conta outro juiz. Ângelo Correia, então ministro da Administração Interna, terá dado uma mãozinha na escolha.

Tudo pelo partido

De dirigente do PSD, com Cavaco, a redactor de moções e estratego de vários líderes, o poder e a influência de Dias Loureiro no partido cresceu de forma avassaladora. Foi secretário-geral, numa época em que coleccionou sucessos para o PSD, o dinheiro entrava com mais regularidade no partido «e o financiamento partidário não tinha, praticamente, controlo», explica um ex-titular daquele cargo. Mas o início foi complicado. O comendador Salvador Pereira, emigrante português radicado na África do Sul desde 1964, homem de sucesso nos negócios, sobretudo na área da construção civil, garantiu à VISÃO ter, naquele período, «ajudado como podia. Sempre fui fiel ao PSD e paguei algumas coisas, na altura, as finanças do partido não estavam boas». Diz conhecer Cavaco «desde os tempos de ministro das Finanças» e foi mantendo contactos, em algumas ocasiões, várias das quais solenes. Já com o professor como primeiro-ministro, Dias Loureiro foi-lhe apresentado. «É um bom homem. Ajudou-me num negócio relacionado com a hemodiálise que eu queria montar em Portugal, recomendou-me que fosse ter com o irmão dele para ser nosso advogado e tratar da papelada. Mas as coisas acabaram por não se concretizar», explica, precisando ter perdido «mais de 30 mil contos» só em contactos e burocracias. Amigo de José Cesário, ex-secretário de Estado das Comunidades e antigo adjunto de Dias Loureiro na secretaria-geral do partido, Salvador Pereira garante ter estado sempre disponível para ajudar o PSD, nas suas vindas a Portugal e também na África do Sul. «Passou muita gente por cá e saíram daqui sempre bem agasalhados, nunca lhes faltou nada.» O empresário, natural da Feira, referiu à VISÃO ter-lhe sido igualmente proposta a compra da nova sede, «por mais de 100 mil contos. Pensei, mas disse que não».

No exercício do cargo, uma das marcas deixadas por Dias Loureiro foi precisamente a compra da actual sede do partido, por 100 mil contos, com a ajuda dos militantes, os quais receberam uma carta a pedir uma contribuição financeira. Apesar disso, a sede só acabou de ser paga depois de Dias Loureiro sair. Dessa altura há ainda, segundo um funcionário do partido, a história da compra de um carro blindado para uso do presidente do PSD, a instalação de vidros com dois ou três dedos de grossura no gabinete da presidência e a colocação de portas de ferro na sala da Comissão Política. Estas extravagâncias terão sido propostas por Luís Geraldes, um dos homens que Dias Loureiro escolheu para seu secretário-geral adjunto, que vinha da África do Sul e vivia aterrorizado com a hipótese de o caso Camarate se repetir.

...continua...
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 08 dez 2008, 00:57

... continuação.

Meu adorado Cavaco


Dias Loureiro esteve com Cavaco desde o dia zero até à altura de arrumar as tralhas da campanha presidencial. As histórias de vida ajudaram: «Não nascemos em berço de oiro», esclareceu, um dia, o ex-gestor do BPN. O professor escolheu-o, em 1985, para secretário-geral, com as finanças do partido nas lonas e sem poder à vista. A vitória nas legislativas daquele ano mudaria tudo. A partir daí, Dias Loureiro foi o fiel servidor de um chefe que, segundo diz, não agia como chefe.

Por ele, pelo PSD, fez de tudo. De hinos a discursos preparados madrugada dentro, com chávenas de chá pelo meio, para Cavaco ler depois. Partilharam a restrita intimidade do poder, férias, tacadas de golfe e almoços de família em São Bento. A empatia ajudou à influência do discípulo. Segundo um ex-governante e actual deputado «laranja», Maria Cavaco Silva também «tinha a sua preferência», inclinando-se «para os jovens turcos [como Loureiro] e menos para os que falavam baixinho e davam conselhos avisados e moderados». Algo «altamente comentado nos círculos mais restritos». Laços nunca quebrados e extensivos a outras pessoas: no gabinete da primeira-dama, em Belém, trabalha hoje Diana Ulrich, antiga assessora de Dias Loureiro. A gratidão de Cavaco também assumiu várias formas. Como Presidente da República, cortou a fita da fábrica da Inapal, em Palmela, elogiando o investimento da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), na presença de Dias Loureiro. E até a inauguração do Estádio Municipal de Aguiar da Beira fez parte da agenda do PR, em Maio do ano passado. «Tenho adoração por ele, de facto», reconheceu o ex-ministro. A única vez que se desencontraram foi, talvez, em confissão. Na sua autobiografia, Cavaco revela não ter convidado Dias Loureiro para o Governo, em 1987, «pela simples razão de não poder prescindir dele no partido». Uma decisão recebida com desgosto. «Foi parco em palavras e fiquei com dúvidas sobre se ele compreendia e aceitava os meus argumentos.» Já o então dirigente diz ter recusado um convite de Cavaco para ministro da Administração Interna, quando ainda era secretário-geral, pois não queria acumular funções no partido com a tutela do SIS. Confusão de datas? Certo é que, pelo menos no «caso BPN», Cavaco acredita «solenemente» na palavra de Dias Loureiro.

Luxos e prazeres caros

«Quando se sai do Governo, precisa-se de ganhar dinheiro, é verdade. Mas passados cinco ou seis anos, tinha o suficiente para não ter de me preocupar com isso», explicou Dias Loureiro. Há dias, reafirmou à RTP que, em 1995, «não tinha dinheiro nenhum». Onze anos depois, a jornalista que entrou no seu gabinete a pretexto de uma entrevista para o Jornal de Negócios viu um espaço que exalava «bom-gosto e dinheiro», com quadros de Cargaleiro e Vieira da Silva. Em 2002, foi noticiado que pagava mais impostos do que o empresário Belmiro de Azevedo.

O curioso é que, em 1991, Dias Loureiro já tinha comprado e remodelado uma vivenda, no Estoril, por 150 mil contos. A origem do dinheiro para a compra e obras foi questionada pelo Expresso, sobretudo porque a casa anterior era em Sete Rios, Lisboa, e custara 9 600 contos. Poderia um vencimento modesto de governante e de advogado em part-time suportar tamanho luxo? «Quem não tem a consciência tranquila em relação ao dinheiro pode tentar escondê-lo. Quem tem a consciência tranquila pode fazer o que entender», disse, então, o detentor da pasta dos Assuntos Parlamentares. E justificava a mudança para a casa da Linha de Cascais com uma herança e venda de propriedades em Coimbra. Avô e divorciado, vive actualmente na quinta Patiño, no Estoril, uma das zonas mais privilegiadas e caras do País (diz-se que cada metro quadrado de terreno custa 5 mil euros), onde residem pessoas da alta sociedade como Rocha Vieira, João Rendeiro, Diogo Vaz Guedes, Stanley Ho ou Stefano Saviotti.

A Dias Loureiro não faltam, igualmente, gostos caros: há uns anos, comprou um Mercedes CL 65 AMG, prateado, com um potentíssimo motor V12. Trata-se de um modelo altamente exclusivo, o mais luxuoso da marca alemã. Em Portugal, não devem existir mais de dez unidades. Custo? Cerca de 275 mil euros. Gasta uns «meros» 14,8 litros por cada 100 km percorridos. As motos também já o entusiasmaram. Preocupante, porém, foi a polémica à volta da sua carta de condução. Em 1995, então ministro da Administração Interna, foi noticiado que a licença havia sido aprovada pelo próprio director-geral de Viação… antes do exame, feito num quartel da GNR, com uma moto da corporação.

Paixão, paixão, é a caça, sobretudo de perdizes. Mas não as come, preferindo distribui-las por amigos. Começou aos 19 anos, nos tempos da faculdade, e, mais tarde, juntou-se a Proença de Carvalho e Carlos Barbosa, com quem detém um couto em Mértola. Foi ele que iniciou Cavaco na caça. Há quem assegure que já participou em caçadas milionárias, em África, daquelas que podem chegar a custar 100 mil euros e que incluem acampamentos, jipes e perseguições. O próprio diz preferir aves. «Nada de caça grossa.»

Após sair do Governo, Dias Loureiro iniciou-se no golfe e pratica-o normalmente, entre as sete e meia e as nove da manhã, perto de casa, no campo do Estoril. Até nas viagens de negócios, seja a Marrocos seja a Palma de Maiorca, aproveita para dar umas tacadas. «O golfe liberta a cabeça», explica. Também gosta de jogar póquer. Ou gostava, pelo menos. Sempre com os amigos e desde que não envolvesse muito dinheiro. Os prémios costumavam ter limites e raramente iam além dos cem contos.

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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 08 dez 2008, 00:59

... continuação.

Laços de ternura…

Amigos há mais de 40 anos, Jorge Coelho e Dias Loureiro são praticamente da mesma terra. Tratam-se como irmãos. «Éramos uns brincalhões. Jogávamos futebol e comíamos pastéis de feijão numa casa, junto da escola», contou Coelho ao Jornal de Negócios, já este ano. «Passados 22 anos, reencontrámo-nos e estreitámos relações. Hoje, é um dos meus melhores amigos.» Ambos confrontaram ideias no Correio dos Senadores do jornal Correio da Manhã e até já partilharam a presidência, em 2002, do grupo parlamentar de amizade entre Portugal e Espanha. Coelho sucedeu a Loureiro na Administração Interna. Em quase 35 anos de democracia, durante oito anos alguns dos maiores segredos do País estiveram «guardados»…. por esta dupla inseparável.

Loureiro foi uma das primeiras pessoas a saber que Coelho tinha um cancro. E fez das tripas coração para o ajudar. Ligou a Durão Barroso, este mexeu os cordelinhos em Paris e, dois dias depois, Coelho partia para França a fim de ser visto por um grande médico, a quem Chirac tinha ligado pessoalmente. Coelho confirmou, entretanto, à VISÃO que «há uns cinco anos» pediu «um empréstimo pessoal de 100 mil euros» ao BPN, na altura mais complicada da sua vida. Possui também uma conta na instituição, num balcão de Lisboa. A escolha, explica, resultou do facto de o gerente do balcão ser seu amigo de longa data, facilitando-lhe assim «o despacho rápido» do pedido. «Já não devo nada e paguei tudo direitinho. Neste momento, sou um mero cliente e talvez dos piores», garantiu.

Proença de Carvalho é outro amigo de Loureiro e ambos dão largas à veia de poetas e artistas de variedades. Já gravaram um CD com estas aventuras. Mais a sério, Proença foi o advogado escolhido pelo BPN para processar a revista Exame, quando Dias Loureiro se sentiu «incomodado» com as primeiras notícias sobre o banco, em 2001. Houve acordo e o caso foi enterrado.

Com Aznar encontra-se de vez em quando, incluindo em sua casa. O genro do ex-chefe de Governo espanhol, Alejandro Agag, foi assessor do antigo ministro de Cavaco, no BPN. Agag, ex-vice-presidente do Partido Popular Europeu (PPE), terá facilitado a integração do PSD naquele grupo de eurodeputados e a amizade com Durão Barroso virá desses tempos. Dias Loureiro já jantou e jogou golfe com Bill Clinton.

Com jornalistas, o ex-ministro também nunca se deu mal. Paulo Portas incluído, mesmo no tempo em que as manchetes d'O Independente demitiam ministros. Ou, se calhar, por causa disso, quem sabe? Cavaco não gostava desses relacionamentos dele, no período em que governou e deixou isso registado na sua autobiografia. Baptista-Bastos, de quem Dias Loureiro foi testemunha abonatória, num processo em que o queixoso era Alberto João Jardim, é outro dos seus amigos: «Detestava-o e disse-lho quando o conheci. Até lhe falei no rosto sombrio que ostentava, o que lhe conferia um ar sinistro.» BB ouvira-o, numa manhã de sábado, na rádio: «Ele possuía uma ampla informação política, económica, social e cultural do País. E desenvolveu as suas ideias, associando-as com uma forte componente social-democrata, à maneira, por exemplo, de Willy Brandt e de Olof Palme.» Vai daí, BB escreveu um artigo sobre isso e Dias Loureiro telefonou-lhe de Nova Iorque. Depois disso, foram-se encontrando, entre almoços e uísques, por vezes com Duarte Lima a juntar-se-lhes. Conheceu um Dias Loureiro que «se interessava por livros, pintura e música. E, sobretudo, por pessoas. Ajudou, desinteressadamente, muitas pessoas, entre as quais alguns nossos camaradas de Imprensa, que, neste momento, o ignoram ignobilmente», observa.

Dormindo com o inimigo

Em termos comparativos, Dias Loureiro tem feito mais pela boa imagem do PS e de Sócrates do que Manuel Alegre. Críticas, só à lupa. Nos últimos anos, o antigo governante do PSD foi todo mesuras com o rumo traçado pelo Executivo e saiu a terreiro em defesa do primeiro-ministro. «Se há coisa de que o Governo não pode ser acusado é de querer a todo o custo ganhar votos», afirmou, numa entrevista. Já recusou fazer uma análise «tremendista» e «catastrofista» da gestão do País, censurou a liderança de Marques Mendes por fazer uso do caso da licenciatura do chefe do Governo e emocionou-se com O Menino de Oiro do PS, a biografia autorizada de Sócrates. No lançamento público da obra, elogiou a afectividade, generosidade, sensatez, prudência e coragem do primeiro-ministro, cujo optimismo «faz bem ao País». Já na sequência dos episódios do BPN, Sócrates terá pedido ao PS para poupar nas críticas a Loureiro e outros «cavaquistas» citados nas polémicas sobre o banco. De resto, segundo o histórico socialista António Arnaut, Loureiro é dono da «tradicional irreverência coimbrã», ou seja, «dá-se bem com todos». É amigo de Jorge Coelho desde pequenino (ver outros textos) e também o foi do falecido dirigente Fausto Correia, que o considerou homem de honra, trabalho, «do poder e com poder». No Natal de 2000, editou um disco para amigos, com Almeida Santos. O ex-ministro deu voz a um bolero e à canção Pomba Branca. Na música como noutras matérias, o bloco central não desafina. E só Alfredo Barroso, ex-assessor de Mário Soares em Belém, se atreveu a outras sonoridades: «Nunca percebi as obscuras razões que justificam a credibilidade e a fortuna – políticas, entenda-se! – de que o doutor Dias Loureiro hoje goza», escreveu, em 2001.

...continua...
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 08 dez 2008, 01:00

... continuação.

Chamem a polícia

O caso da carga policial na ponte 25 de Abril, em 1995, por causa da polémica das portagens marcou o fim do cavaquismo. Mas Dias Loureiro achará que resolveu alguns dos dilemas desse período, quando comprou uns quadros ao homem que ficou paraplégico, na sequência dos incidentes. No Ministério da Administração Interna, entre 1991 e 1995, é recordado como o «ministro que mais perseguiu e aterrorizou os sindicalistas dentro da polícia», atesta Paulo Rodrigues, líder da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP). Vários processos disciplinares foram instaurados e três líderes associativos foram expulsos. Os processos acabariam arquivados, dois deles após a vitória socialista, em 1995. A repressão da actividade sindical na PSP foi, segundo aquele dirigente, a imagem de marca de Loureiro. As superesquadras, a menina dos olhos do seu mandato, foram contestadas por populações e elementos da ASPP. «Havia instruções ministeriais dadas às chefias para transmitirem aos agentes: ‘se não largares a ASPP, vais ter chatices’», conta Paulo Rodrigues. Mal-amado pelas tropas, foi admirado pelas chefias. Alguns oficiais recordam-no como «um dos ministros mais competentes», «atencioso e preocupado» com os subalternos.

Do segredo reza a história?

Dias Loureiro seguia com o «maior interesse» o trabalho e os resultados da actuação dos serviços de informação que tutelava, diz quem o acompanhou de perto nesse período. Mas as incompatibilidades com Ladeiro Monteiro – uma espécie de «pai» do SIS e seu director desde 1986 – começaram cedo. O prestígio histórico do director retardou o afastamento, que só aconteceria em 1994, na sequência da espionagem do SIS a dois magistrados do Ministério Público da Madeira. Para o seu lugar, Dias Loureiro nomearia o seu amigo Daniel Sanches, ao mesmo tempo que remodelaria, também, a chefia da secreta militar, entregando-a ao seu conterrâneo e também amigo Lencastre Bernardo.

Se o SIS já andava em bolandas com insinuações de práticas pouco ortodoxas e de trabalhar a favor do Governo, com a entrada de Sanches as acusações subiriam de tom, dada a proximidade – «cumplicidade», referem dois magistrados – entre o ministro e o novo director. Dentro do SIS, o ambiente deteriora-se, sobretudo após alegadas instruções para vigiar e identificar dinamizadores de manifs e protestos contra o Governo. Dias Loureiro não se livra da fama de querer dossiês pormenorizados sobre figuras de vários quadrantes. Ainda hoje, há quem o considere intocável, dada a relevância de documentos que terá guardado em lugar seguro, fora do País, segundo pessoas das suas relações. «Muita gente lhe deve favores», atesta um magistrado que esteve ligado aos serviços de informações. Confrontado, ao longo do tempo, com a fama granjeada, os métodos usados e os proveitos conseguidos, Dias Loureiro reagiu sempre com indignados desmentidos.

Informação é poder

Em Fevereiro de 2001, poucos dias após ter sido nomeado administrador da SLN, Dias Loureiro convidou Daniel Sanches e Lencastre Bernardo para os quadros da holding detentora do BPN. Ou seja, só dois dos maiores peritos nacionais em espionagem e informações. Segundo fonte judicial, eles «tiveram acesso aos mais valiosos segredos políticos, económicos e empresariais», enquanto estiveram à frente das secretas, informação «do mais alto calibre».

No caso do procurador-geral-adjunto Daniel Sanches, o caso ganha outros contornos: quando, em Fevereiro de 2001, aceita o convite de Dias Loureiro, larga a chefia do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), a unidade de elite do MP, criada dois anos antes, com o objectivo de combater a criminalidade mais complexa, sobretudo a económica. «A informação que levo não me vai ser útil», disse, porém, Daniel Sanches quando abraçou o mundo dos negócios. À época, como hoje, vários colegas não ficaram convencidos. Afinal, recordam, foi a Sanches que, em 1999, o então procurador-geral da República, Cunha Rodrigues, confiou a missão de desenhar e pôr a funcionar o referido departamento. De acordo com magistrados ouvidos pela VISÃO, quando saiu para o BPN, Sanches conheceria como poucos as estratégias investigativas, os meios disponíveis... e a ausência deles, ou não tivesse sido precisamente a «falta de condições de trabalho» o argumento invocado para abandonar o DCIAP.

Em 2003, Dias Loureiro e Daniel Sanches concorreram, em listas opostas, às eleições da Académica de Coimbra. Nos últimos 20 anos, terá sido a única vez que não andaram de braço dado. Não sendo fácil precisar o momento em que cimentaram uma amizade aparentemente indestrutível, há quem considere que os laços entre ambos se fortaleceram devido à influência de Loureiro na nomeação de Sanches para o SEF, durante o primeiro mandato de Cavaco. Na SLN, o magistrado – em licença de longa duração desde 2001 – foi, entre outros cargos, administrador da Plêiade Investimentos e administrador da ServiPlex (Recursos Humanos) e da Vsegur (segurança privada).

... continua...
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 08 dez 2008, 01:02

... continuação.

A polémica do SIRESP…

Foi também pela mão de Dias Loureiro que, em 2004, Daniel Sanches chegou a ministro, no Governo de Santana Lopes, com a tutela de uma área que fora de Loureiro, a Administração Interna. Sanches protagonizou uma das maiores polémicas do efémero Executivo laranja quando, três dias após a vitória de Sócrates, em 2005, adjudicou o negócio do Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) a um consórcio liderado pela SLN, para a qual trabalhara entre 2001 e 2004. O contrato deste sistema de comunicações entre as polícias era da ordem dos 540 milhões de euros. O então ministro escudou a sua decisão num parecer oral do procurador Mário Gomes Dias, então auditor do MAI – e hoje vice-PGR – que atestou tratar-se de «um acto urgente». Mas novo parecer da Procuradoria invalidaria o primeiro. E o Executivo PS renegociou novo contrato com a SLN, ficando o SIRESP por 485 milhões de euros.

Ao contrário dos administradores das entidades do consórcio, todos constituídos arguidos por suspeitas de tráfico de influências e participação económica em negócio, Sanches não foi sequer chamado como testemunha ao inquérito, que acabaria arquivado pelo Ministério Público, em Março deste ano. O procurador encarregado do processo, Azevedo Maia, nem sequer inquiriu qualquer um dos dez arguidos. Entretanto, o papel de Dias Loureiro neste imbróglio foi amplamente questionado. O ex-ministro justificou a sua ausência de interesse com o facto de presidir à Erickson, uma empresa concorrente da Motorola, parceira da SLN no negócio. Mas, tal como informa fonte da PJ que acompanhou o caso SIRESP, «a Motorola era, desde a altura de Dias Loureiro no Governo, um dos grandes fornecedores de material de comunicações ao MAI», o que a tornava possuidora de «conhecimento privilegiado».

Este terá sido, à data, um dos motivos que levaram os outros quatro concorrentes a desistir do projecto e a questionar a sua imparcialidade, alegando ter-lhes sido fornecida pouca informação sobre as infra-estruturas a utilizar na montagem do SIRESP. Foram feitas várias reclamações e pedido um alargamento do prazo, mas, pouco tempo depois, dirigentes das quatro outras empresas interessadas terão chegado à conclusão de que o concurso já teria vencedor antecipado. Isso mesmo terá sentido Carlos Salema, ex-presidente do Instituto de Telecomunicações. Ouvido pela PJ, considerou os 65 dias dados pelo Governo para os concorrentes visitarem os 225 locais com infra-estruturas utilizáveis pelo SIRESP um prazo «manifestamente insuficiente», favorecendo assim «o concorrente que tivesse acesso a informação privilegiada».

… e o caso da OMNI

Em Dezembro de 2004, a compra de seis aviões Canadair para o combate aos incêndios florestais, decidida pelo Governo do PSD, constituiu mais um bom negócio para a SLN. A OMNI, do grupo de Dias Loureiro, representante exclusiva em Portugal daquelas aeronaves, já era responsável pelo aluguer de aviões à Protecção Civil. A decisão correspondeu a um contrato de 150 milhões de euros, assente num estudo pedido pelo MAI de Daniel Sanches a uma consultora, a Roland Berger. Pormenor relevante: a OMNI foi a única empresa do sector contactada no âmbito daquele estudo. Dias Loureiro alegou desconhecimento de qualquer assunto relacionado com a OMNI. A mudança de Governo acabaria por bloquear o negócio, mas a posição dominadora da SLN nesta área, e, em particular de Dias Loureiro, continuou sob suspeita. Em Setembro desse ano, Francisco Louçâ acusou-o de promover um negócio assente na continuação dos incêndios. Loureiro apelidou o bloquista de terrorismo político e anunciou que o ia processar. Ainda hoje Louçã aguarda a notificação…

Dez anos antes, Dias Loureiro, então titular da pasta da Administração Interna, anunciara a abertura de um concurso internacional para dotar Portugal de meios modernos de detecção e comunicação, necessários ao combate de incêndios florestais. Tinha cerca de 5 milhões de contos para investir na prevenção e combate aos incêndios. Prometia aviões de grande tonelagem, a «melhor tecnologia do mercado» e o fim das sucessivas suspeitas e irregularidades que envolviam os concursos para meios aéreos do Serviço Nacional de Bombeiros (SNB). A OMNI ganhou a concessão.

Dois anos depois, já com o PS no Governo e Jorge Coelho no lugar de Loureiro na tutela do MAI, a OMNI, uma empresa do grupo Plêiade, de José Roquete, ganhou, pela segunda vez consecutiva, a fatia de leão do fornecimento de meios aéreos a adjudicar no concurso do SNB, ainda que acusada pelas empresas concorrentes de «favorecimento» e «concurso feito à sua medida». O cérebro da Plêiade era agora... Dias Loureiro. José Roquete tinha-lhe dado 15% do grupo em stock options, a que somara mais 7% do capital para efeitos de distribuição dos lucros. O ex-ministro era também administrador executivo da OMNI. Armando Vara, secretário de Estado de Coelho, assinou a adjudicação a esta empresa. As preteridas – Heliportugal e HFS – justificaram os protestos com o facto de a solução excluída diminuir os gastos do SNB em mais de 200 mil contos, à época.

As suspeitas de favorecimento da OMNI repetiram-se em 1997, quando a empresa ganha o concurso para o fornecimento de três helicópteros ao INEM, destinados a operações de socorro. Antes de ser conhecido o caderno de encargos fixando o número e as características das aeronaves, já a OMNI adquirira o número de helis pretendido com as características indicadas no caderno....

...continua...
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 08 dez 2008, 01:03

...continuação.

Amizades das Arábias

Em 2004, um livro editado em Espanha sobre o poder e a influência de Alejandro Agag, genro de Azna – Los PPijos – ligava Dias Loureiro a El-Assir, um libanês citado como «traficante de armas», que o ex-ministro convidou para o casamento da sua filha com o filho de Ferro Rodrigues, em Setembro de 2003. Apesar de reconhecer a amizade com o árabe, Loureiro não gostou de ser associado a El-Assir, tendo garantido publicamente que iria impedir a utilização do seu nome em futuras edições da obra. «Até ao dia de hoje, nenhum advogado contactou connosco ou com a nossa editora para que o nome de Dias Loureiro seja suprimido do livro», esclareceu à VISÃO Nacho Cardero, um dos autores. Mas quem é, afinal, El-Assir? Influente em círculos do bloco central espanhol, em 1994 pediu ao Governo do PP cerca de 10 milhões de pesetas para intermediar um contrato de fornecimento de armas a Marrocos, através de Fundos de Apoio ao Desenvolvimento. Além dos seus negócios de armas com o Egipto, a Somália e outros países, o árabe, cujos rendimentos circulam habitualmente por contas de diversos paraísos fiscais, foi relacionado com escândalos de enriquecimento ilícito e branqueamento de capitais, envolvendo governantes da América Latina. Dono de mansões e estâncias de Inverno espalhadas pelo mundo, El-Assir foi discípulo e cunhado de Adnan Kashougui, ex-padrasto do falecido Dodi Al Fayed e pretendente da Princesa Diana, além de sócio das famílias Bush e Bin Laden, em vários negócios. O saudita é citado nas hemerotecas como um dos maiores traficantes de armas do mundo. Por seu lado, El-Assir é amigo do Rei Juan Carlos, com quem já partilhou diversas caçadas e foi por seu intermédio que Dias Loureiro conheceu o monarca. Assir era, igualmente, próximo do Rei Hassan II, de Marrocos.

Neste país, Dias Loureiro foi administrador da REDAL, uma empresa de águas e energia eléctrica que acabaria na posse do grupo BPN, via Plêiade. A concessão, que resultou num investimento de 250 milhões de contos, à época, e deu muito dinheiro a ganhar a Loureiro, segundo versão do próprio, não teria sido possível sem a ajuda e a influência do seu amigo, o ministro do Interior de Marrocos, Driss Basri, governante que morreu exilado em Paris após 25 anos de poder e depois de ser afastado por Mohammed VI do Governo marroquino. Este homem, que Dias Loureiro conheceu enquanto ministro da Administração Interna, com quem celebrou protocolos de Estado e visitava amiúde, foi processado por alegado genocídio de mais de 500 sarauis pelo juiz Baltazar Garzon, tendo deixado uma lista considerável – e em alguns casos, confessa – de tortura, assassínios, compra de votos e suborno de políticos. As imprensas francesa e marroquina garantem que nenhum negócio se fazia em Marrocos sem a sua bênção. Basri, a «Alcachofra», chegou, inclusive, a ser citado como portador de umas malas de «generosas contribuições» do Rei Hassan II para a campanha do ex-Presidente francês, Jacques Chirac, em cujo Governo se encontrava outro conhecido vértice deste triângulo de amizades: Charles Pasqua, ex-ministro do Interior, actualmente a ser julgado no processo Angolagate por alegado envolvimento no tráfico de armas para Angola, nos anos noventa.

Epílogo... ou talvez não

Dias Loureiro diz, após serem conhecidas as primeiras notícias sobre o caso BPN, que tem uma honra a defender. A sua versão é conhecida e pretende revelar o retrato de um homem que pouco ou nada sabia de comprometedor para o banco, apesar das suas funções na SLN, entre 2001 e 2005, onde ganhou, primeiro, 2 500 contos, e mais tarde 8 500 euros por mês «sem prémios de gestão». Já deu entrevistas sobre o tema, esclareceu o que queria, pediu para ir ao Parlamento. Afirma ter uma vida transparente. Admite que os contactos na política lhe facilitaram os negócios. E só quer uma coisa: «Que tudo se esclareça.»

* com Cesaltina Pinto, Sónia Sapage e Tiago Fernandes
http://clix.visao.pt/Actualidade/Portugal/Pages/perfildiasloureiro.aspx
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 08 jul 2009, 16:58

A FOME, A CORRUPÇÃO E OS LUXOS...

Portugal precisa de jactos executivos para transporte de governantes?

Pronto! Finalmente descobrimos aquilo de que Portugal realmente precisa: uma nova frota de jactos executivos para transporte de governantes. Afinal, o que é preciso não são os 150 mil empregos que José Sócrates anda a tentar esgravatar nos desertos em que Portugal se vai transformando. Tão-pouco precisamos de leis claras que impeçam que propriedade pública transite directamente para o sector privado sem passar pela Partida no soturno jogo do Monopólio de pedintes e espoliadores em que Portugal se tornou. Não precisamos de nada disso.
Precisamos, diz-nos o Presidente da República, de trocar de jactos porque aviões executivos "assim" como aqueles que temos já não há "nem na Europa nem em África". Cavaco Silva percebe, e obviamente gosta, de aviões executivos. Foi ele, quando chefiava o seu segundo governo, quem comprou com fundos comunitários a actual frota de Falcon em que os nossos governantes se deslocam.

Voei uma vez num jacto executivo. Em 1984 andei num avião presidencial em Moçambique. Samora Machel, em cuja capital se morria à fome, tinha, também, uma paixão por jactos privados que acabaria por lhe ser fatal.
Quando morreu a bordo de um deles tinha três na sua frota. Um quadrimotor Ilyushin 62 de longo curso, versão presidencial, o malogrado Antonov-6, e um lindíssimo bimotor a jacto British Aerospace 800B, novinho em folha. Tive a sorte de ter sido nesse que voei com o então Ministro dos Estrangeiros Jaime Gama numa viagem entre Maputo e Cabora Bassa. Era uma aeronave fantástica. Um terço da cabina era uma magnífica casa de banho. O resto era de um requinte de decoração notável. Por exemplo, havia um pequeno armário onde se metia um assistente de bordo magro, muito esguio que, num prodígio de contorcionismo, fez surgir durante o voo minúsculos banquetes de tapas variadíssimas, com sandes de beluga e rolinhos de salmão fumado que deglutimos entre golinhos de Clicquot Ponsardin. Depois de nos mimar,
como por magia, desaparecia no seu armário. Na altura fiz uma reportagem em que descrevi aquele luxo como "obsceno". Fiz nesse trabalho a comparação com Portugal, que estava numa craveira de desenvolvimento totalmente diferente da de Moçambique, e não tinha jactos executivos do Estado para servir governantes.

Nesta fase metade dos rendimentos dos portugueses está a ser retida por impostos. Encerram-se maternidades, escolas e serviços de urgência. O Presidente da República inaugura unidades de saúde privadas de luxo e aproveita para reiterar um insuspeitado direito de todos os portugueses a um sistema público de saúde. Numa altura destas, comprar jactos executivos é tão obsceno como o foi nos dias de Samora Machel. Este irrealismo brutalizado com que os nossos governantes eleitos afrontam a carência em que vivemos ultraja quem no seu quotidiano comuta num transporte público apinhado, pela Segunda Circular ou Camarate, para lhe ver passar por cima um jacto executivo com governantes cujo dia a dia decorre a quilómetros das suas dificuldades, entre tapas de caviar e rolinhos de salmão. Claro que há alternativas que vão desde fretar aviões das companhias nacionais até, pura e simplesmente, cingirem-se aos voos regulares.

Há governantes de países em muito melhores condições que o fazem por uma questão de pudor que a classe que dirige Portugal parece não ter.
Vi o majestático François Miterrand ir sempre a Washington na Air France. Não é uma questão de soberania ter o melhor jacto executivo do Mundo. É só falta de bom senso. E não venham com a história que é mesquinhez falar disto. É de um pato-bravismo intolerável exigir ao país mais sacrifícios para que os nossos governantes andem de jacto executivo. Nós granjearíamos muito mais respeito internacional chegando a cimeiras em voos de carreira do que a bordo de um qualquer prodígio tecnológico caríssimo para o qual todo o Mundo sabe que não temos dinheiro.

2009/4/1
JN - Mário Crespo. Jornalista
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 08 jul 2009, 17:07

Continuemos a fazer de conta

Façamos de conta que e o que passou no BPN e na SLN não é mesmo uma enorme "roubalheira". Façamos de conta que há outro termo para descrever correctamente o saque de dois mil milhões de dinheiro dos portugueses.

Façamos de conta que a mais-valia de 147 por cento do investimento de Aníbal Cavaco Silva e família não aparece nos dois mil milhões de prejuízos do BPN nacionalizado. Façamos de conta que não é o contribuinte português quem está a pagar esses dois mil milhões.

Façamos de conta que é normal conseguir valorizar um investimento 147,5 por cento em menos de dois anos. Tudo isto fora do controlo das entidades fiscalizadoras e reguladoras do mercado de capitais.

Façamos de conta que um conglomerado de bancos e offshores que compra coisas por dezenas de milhão, que vende depois por um dólar, e que rende mais do que a Dona Branca, é normal.

Façamos de conta que um negócio gerido assim faz algum sentido no mercado.

Façamos de conta que é acessível ao cidadão comum um negócio destes.

Façamos de conta que sabemos todas as circunstâncias da compra e da recompra das acções de tão prodigiosa mais valia, que a família Silva detinha no projecto de Dias Loureiro e Oliveira e Costa.

Façamos de conta que a SLN não tem nada a ver com o BPN.

Façamos de conta que o BPN e a SLN não têm um número invulgar de gente do PSD envolvido nas suas actividades.

Façamos de conta que Aníbal Cavaco Silva não é a personalidade de mais influência no PSD.

Façamos de conta que os termos SLN, Sociedade Lusa de Negócios ou SLN Valor aparecem no comunicado da Presidência da República de 23 de Novembro de 2008.

Façamos de conta que, nesta fase de dúvidas, é aceitável uma declaração como a emitida pelo Palácio de Belém sem referências ao valioso investimento familiar no mais controverso dos projectos financeiros da história de Portugal. Quando é só esse investimento que está causa. Por ser uma aplicação num projecto de licitude duvidosa.

Façamos de conta que o Chefe Executivo desse projecto não tinha sido um íntimo colaborador de Aníbal Cavaco Silva responsável por finanças públicas.

Façamos de conta que entre 2001 e 2003 os negócios do BPN e da SLN decorriam de forma irrepreensível e no cumprimento integral da lei da República.

Façamos de conta que não foi por escolha pessoal do Presidente da República que Dias Loureiro foi nomeado Conselheiro de Estado.

Façamos de conta que, como o Presidente disse, estar Dias Loureiro no Conselho de Estado era a mesma coisa que estar António Ramalho Eanes ou Mário Soares ou Jorge Sampaio.

Façamos de conta que o Presidente relatou tudo o que devia ter relatado ao País sobre os seus activos passados nos projectos de Oliveira e Costa e Dias Loureiro.

Façamos de conta que não há gente presa por causa do BPN.

Façamos de conta que não vai haver mais gente presa.

Façamos de conta que o que se passou no BPN e na SLN não é mesmo uma enorme "roubalheira".

Façamos de conta que há outro termo para descrever correctamente um saque de dois mil milhões de dinheiro dos portugueses.

Façamos de conta que não conseguimos imaginar quantas escolas, quantos hospitais, quantas contas de farmácia, quantas pensões mínimas, quantas refeições decentes se podem comprar com esse dinheiro.

Façamos de conta que basta, apenas, cumprir rigorosamente a Lei e ignorar o que a Lei não diz, para se ser inquestionavelmente impoluto.

Façamos de conta que não sabemos o que se está a passar à nossa volta.

Até onde aguenta o País se continuarmos a fazer de conta que não vemos?

Mário Crespo
JN de 17/6/2009
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 13 jul 2009, 23:07

Enlouquecemos de vez!


Segunda-feira passada, a meio da tarde, faço a A-6, em direcção a Espanha e na companhia de uma amiga estrangeira; quarta-feira de manhã, refaço o mesmo
percurso, em sentido inverso, rumo a Lisboa. Tanto para lá como para cá, é uma auto-estrada luxuosa e fantasma. Em contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional, entre Arraiolos e Borba, vamos encontrar um trânsito cerrado, composto esmagadoramente por camiões de mercadorias espanhóis. Vinda de um país onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espantada com o que vê:

- É sempre assim, esta auto-estrada?

- Assim, como?

- Deserta, magnífica, sem trânsito?

- É, é sempre assim.

- Todos os dias?

- Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente.

- Mas, se não há trânsito, porque a fizeram?

- Porque havia dinheiro para gastar dos Fundos Europeus, e porque diziam que o desenvolvimento era isto.

- E têm mais auto-estradas destas?

- Várias e ainda temos outras em construção: só de Lisboa para o Porto, vamos ficar com três. Entre S. Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, não há nenhuma: só uns quilómetros à saída de S. Paulo e outros à chegada ao Rio. Nós vamos ter três entre o Porto e Lisboa: é a aposta no automóvel, na poupança de energia, nos acordos de Quioto, etc. - respondi, rindo-me. - E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada nacional está cheia de camiões?
- Porque assim não pagam portagem.

- E porque são quase todos espanhóis?

- Vêm trazer-nos comida.

- Mas vocês não têm agricultura?

- Não: a Europa paga-nos para não ter. E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável.

- Mas para os espanhóis é?

- Pelos vistos...

Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga:

- Mas porque não investem antes no comboio?

- Investimos, mas não resultou.

- Não resultou, como?

- Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a modernizar a linha Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas não resultou.

- Mas porquê?

- Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não 'pendula'; e, quando 'pendula', enjoa de morte. Não há sinal de telemóvel nem Internet, não há restaurante, há apenas um bar infecto e, de facto, o único sinal de 'modernidade' foi proibirem de fumar em qualquer espaço do comboio. Por isso, as pessoas preferem ir de carro e a companhia ferroviária do Estado perde centenas de milhões todos os anos.

- E gastaram nisso uma fortuna?

- Gastámos. E a única coisa que se conseguiu foi tirar 25 minutos às três horas e meia que demorava a viagem há cinquenta anos...

- Estás a brincar comigo!

- Não, estou a falar a sério!

- E o que fizeram a esses incompetentes?

- Nada. Ou melhor, agora vão dar-lhes uma nova oportunidade, que é encherem o país de TGV: Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa... e ainda há umas ameaças de fazerem outro no Algarve e outro no Centro.

- Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo?

- Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km.

Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.

- Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?

- Não, pára em várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de Lisboa; depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.

- Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois volta para trás e entra em Lisboa?

- Isso mesmo.

- E como entra em Lisboa?

- Por uma nova ponte que vão fazer.

- Uma ponte ferroviária?

- E rodoviária também: vai trazer mais uns vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa.

- Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!

- Pois é.

- E, então?

- Então, nada. São os especialistas que decidiram assim.

Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.

- E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a auto-estrada está deserta...

- Não, não vai ter.

- Não vai? Então, vai ser uma ruína!

- Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A exploração é que vai ser uma ruína - aliás, já admitida pelo Governo - porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justificar.

- E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?

- Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!

- E vocês não despedem o Governo?

- Talvez, mas não serve de muito: quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando era governo...

- Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem um TGV que já sabem que vai perder dinheiro?

- Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.

- O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?

- A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV.

- Como? Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de ter?

- É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade.

Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás:

- E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?

- O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a uns 50 quilómetros de Lisboa.

- Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro da cidade, e fazer um novo?

- É isso mesmo. Dizem que este está saturado.

- Não me pareceu nada...

- Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca de 20.000. O que está a crescer são os voos das low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.

- Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum disponível?

- Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do Sul para a Europa: um sucesso garantido.

- E tu acreditas nisso?

- Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes o que é aquilo?

- Um lago enorme! Extraordinário!

- Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.

- Ena! Deve produzir energia para meio país!

- Praticamente zero.

- A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!

- A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.

- Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve para regar - ou nem isso?

- Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.

- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada?

- Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós fazemos mais e melhor.

Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente:

- Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?

- Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora; depois, disseram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez.

Ela voltou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no assento. E suspirou:

- Bem, uma coisa posso dizer: há poucos países tão agradáveis para viajar como Portugal! Olha-me só para esta auto-estrada sem ninguém!


Miguel Sousa Tavares
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor punisher » 16 ago 2009, 18:21

...avaliações assim...só mesmo num país fictício

Somos todos bons
por Pedro Marques Lopes
Segundo o relatório anual do Conselho Superior da Magistratura, há umas semanas divulgado, dos 1932 juízes em funções, apenas foram avaliados/inspeccionados 259. Aparentemente, está tudo normal. Pelos vistos, ninguém achou estranho que 87% das pessoas de quem a democracia depende para o seu regular funcionamento não tenham sido avaliadas.

Para quem ande distraído, os juízes são aqueles senhores a quem cabe aplicar a lei. Quem, no limite, decide se o cidadão vai para a cadeia, se uma empresa vai à falência por não poder executar um crédito, se um trabalhador é legal ou ilegalmente despedido ou se um pai pode visitar um filho. São as pessoas que aplicam o mais valioso bem numa comunidade: a justiça.

Também ninguém parece ter achado, no mínimo, curioso que dos inspeccionados apenas um tenha sido considerado medíocre e que 237 de 258 sejam bons ou muito bons.

Não conheço dados da avaliação (se é que existe) dos magistrados do Ministério Público ou dos oficiais de justiça mas era capaz de jurar que, a haver inspecções ou avaliações, os resultados diriam que eram todos - ou, pelo menos, a esmagadoríssima maioria - bons ou muito bons.

Ora, ficamos a saber (sempre com a reserva do possível erro em que posso estar a incorrer sobre os magistrados do Ministério Público e oficiais de justiça) que não é pelas pessoas que a gerem que a nossa justiça não funciona: algumas são tão boas que nem vale a pena avaliá-las - só pode ser por isso -, as outras, quando são avaliadas, têm excelentes resultados.

De facto, avaliações daquelas pessoas ou ausência de avaliação têm praticamente o mesmo resultado. Será que alguém, no seu juízo perfeito, acredita que numa dada profissão 91% dos avaliados são bons ou muito bons? E que critério leva a que sejam aqueles 259 a ser avaliados e não os outros? Porque não todos?

Tem que se dar razão a Alberto João Jardim quando resolveu correr os professores da Madeira a "bom": mais vale não fingir.

Em Portugal, a avaliação de desempenho é um bicho de quem toda a gente foge.

Os magistrados servem, neste caso, como mero exemplo de uma situação comum aos mais diversos sectores do Estado e também, a bem da verdade, a largas fatias do sector privado: a inexistência factual de avaliação de desempenho - essa coisa tão simples nos seus objectivos e que permite dizer que alguém é melhor que o outro na execução de uma determinada tarefa ou no exercício de uma profissão e que não deixa que o simples decurso do tempo sirva como único critério para ter melhor salário, melhores prémios ou melhores condições laborais.

É verdade. Há bons trabalhadores e maus trabalhadores. Há bons e maus juízes; bons e maus polícias; bons e maus médicos; bons e maus professores; bons e maus gestores. Não somos, de facto, todos iguais: há quem trabalhe mais, quem se sacrifique mais, quem seja mais inteligente. Eis a dura realidade.

Quando o Estado, como principal empregador português, não promove e não incentiva um melhor desempenho, como quer que a produtividade suba? É que, por muito que se aposte em qualificação e formação, sem métodos correctos de avaliação de desempenho, o dinheiro gasto nesses programas é puro e simples desperdício. Mas as associações profissionais e os sindicatos, nomeadamente, estão na linha da frente da luta contra o julgamento do mérito.

Qual será o incentivo para que um funcionário público trabalhe mais e melhor quando o secretário-geral da CGTP afirma que não deve existir avaliação de desempenho dos trabalhadores do sector público? Que reacção terá um polícia que se esforce na sua acção diária quando ouve um dirigente sindical dizer que apenas o tempo deve servir para subir de escalão profissional? Quantas vezes ouvimos publicamente um representante de uma associação profissional ou ordem (honrosa excepção a Marinho e Pinto) dizer que um membro deve ser expulso da profissão porque é incompetente?

Alguém se lembra de um dirigente sindical exigir bons métodos de avaliação de desempenho para que os melhores trabalhadores fossem recompensados e os maus penalizados?

A verdade é que vivemos num país que promove a mediocridade e desincentiva o esforço e o mérito.



http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interi ... omentarios
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 01 dez 2009, 15:24

Armando Vara na vara criminal

Que os índices de desenvolvimento estagnem, ou até regridam, não me choca nem surpreende. É habitual. Mas que as actividades ilícitas andem, elas próprias, nas ruas da amargura, deixa-me deprimido

O que se oferece a quem já tem tudo? Um cheque de 10 mil euros é uma boa hipótese. Há ofertas que sabem sempre bem, e um cheque de 10 mil euros é simultaneamente prático e elegante. É elegante por ser, no fundo, uma mensagem escrita num tempo em que as pessoas já não escrevem umas às outras, o que é desde logo comovente. É prático, porque ninguém se queixa de já ter um igual e, na hipótese remota de não gostar, trata-se de um presente que se pode trocar em qualquer altura. Nomeadamente, por bens no valor de 10 mil euros. Dito isto, e por muitos méritos que as hipotéticas ofertas de 10 mil euros possam ter, é forçoso assinalar que o caso Face Oculta embaraça, e de que maneira, José Sócrates e o partido socialista. Ainda há pouco tempo, figuras importantes do PSD foram enredadas num escândalo que envolvia milhões desviados da banca. Quando militantes destacados do PS aparecem ligados a crimes, o melhor que conseguem é uma suspeita de pagamento ilícito de 10 mil euros, levado a cabo por um sucateiro. De um lado, o glamour social-democrata da alta finança, das off-shores, dos grandes grupos económicos; do outro, a falta de estilo do ferro velho e do lixo. Estamos perante corrupção pelintra, que é um oximoro difícil de compreender: na origem da corrupção costuma estar a ganância. Aceitar subornos de 10 mil euros ao mais alto nível é como ser depravado a dar beijinhos na testa.

Quando surgiu, o caso Face Oculta foi justamente recebido por todos com algum entusiasmo, pelo contributo que dava para desenjoar os portugueses dos escândalos do Freeport, do BPN, do BPP e dos submarinos, entre outros. Era um caso cujo processo seria interessante acompanhar, desde o momento inicial da investigação até ao dia em que, vários anos depois, uma prescrição ou um vício de forma acabe por absolver todos os arguidos menos o mais pequenino. No entanto, quando começaram a ser conhecidos os pormenores, o caso passou de simpático a aflitivo. Se se confirma que administradores de grandes bancos recebem 10 mil euros em troca de favores, quanto receberá, hoje em dia, um vereador corrupto, um administrativo gatuno, um vulgar funcionário vigarista? Eu sou do tempo em que fechar ilegalmente uma marquise custava mais do que 10 mil euros só em luvas. O que está a acontecer ao meu país? Que os índices de desenvolvimento estagnem, ou até regridam, não me choca nem surpreende. É habitual. Mas que as actividades ilícitas andem, elas próprias, nas ruas da amargura, deixa-me deprimido. Falhar onde nunca fomos bons não é novidade; fraquejar onde sempre fomos grandes, mói um bocadinho.

Ricardo Araújo Pereira
Na Boca do Inferno
8:00 Quinta-feira, 5 de Nov de 2009
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 31 out 2010, 23:26

Supostamente retirado do Pravda (aquele jornal abominável daquele país grande, frio e obscuro, onde se comem criancinhas ao pequeno-almoço...).

---/---


Artigo de jornal russo sobre Portugal


Source: Pravda.ru

Foram tomadas medidas draconianas esta semana em Portugal, pelo Governo liberal de José Sócrates. Mais um caso de um outro governo de centro-direita pedindo ao povo Português a fazer sacrifícios, um apelo repetido vezes sem fim a esta nação trabalhadora, sofredora, historicamente deslizando cada vez mais no atoleiro da miséria.

E não é porque eles serem portugueses.

Vá o leitor ao Luxemburgo, que lidera todos os indicadores socioeconómicos, e vai descobrir que doze por cento da população é portuguesa, oriunda de um povo que construiu um império que se estendia por quatro continentes e que controlava o litoral desde Ceuta, na costa atlântica, tornando a costa africana até ao Cabo da Boa Esperança, a costa oriental da África, no Oceano Índico, o Mar Arábico, o Golfo da Pérsia, a costa ocidental da Índia e Sri Lanka. E foi o primeiro povo europeu a chegar ao Japão….e à Austrália.

Esta semana, o Primeiro Ministro José Sócrates lançou uma nova onda dos seus pacotes de austeridade, corte de salários e aumento do IVA, mais medidas cosméticas tomadas num clima de política de laboratório por académicos arrogantes e altivos desprovidos de qualquer contacto com o mundo real, um esteio na classe política elitista Português no Partido Social Democrata (PSD) e Partido Socialista (PS), gangorras de má gestão política que têm assolado o país desde anos 80.

O objectivo? Para reduzir o défice. Porquê?

Porque a União Europeia assim o diz. Mas é só a UE?

Não, não é. O maravilhoso sistema em que a União Europeia se deixou sugar, é aquele em que as agências de Ratings, Fitch, Moody's e Standard and Poor's, baseadas nos Estados Unidos da América (onde havia de ser?) virtual e fisicamente, controlam as políticas fiscais, económicas e sociais dos Estados-Membros da União Europeia através da atribuição das notações de crédito.

Com amigos como estes organismos e ainda Bruxelas, quem precisa de inimigos?

Sejamos honestos. A União Europeia é o resultado de um pacto forjado por uma França tremente e com medo, apavorada com a Alemanha depois das suas tropas invadiram o seu território três vezes em setenta anos, tomando Paris com facilidade, não só uma vez mas duas vezes, e por uma astuta Alemanha ansiosa para se reinventar após os anos de pesadelo de Hitler. A França tem a agricultura, a Alemanha ficou com os mercados para a sua indústria.

E Portugal? Olhem para as marcas de automóveis novos conduzidos pelos motoristas particulares para transportar exércitos de "assessores" (estes parecem ser imunes a cortes de gastos) e adivinhem de que país eles vêm? Não, eles não são Peugeot e Citroen ou Renault. Eles são os Mercedes e BMWs. Topo-de-gama, é claro.

Os sucessivos governos formados pelos dois principais partidos, PSD (Partido Social Democrata da direita) e PS (Socialista, do centro), têm sistematicamente jogado os interesses de Portugal e dos portugueses pelo esgoto abaixo, destruindo a sua agricultura (agricultores portugueses são pagos para não produzir!!) e a sua indústria (desapareceu!!) e sua pesca (arrastões espanhóis em águas lusas!!), a troco de quê?

O quê é que as contra-partidas renderam, a não ser a aniquilação total de qualquer possibilidade de criar emprego e riqueza numa base sustentável?

Aníbal Cavaco Silva, agora Presidente, mas primeiro-ministro durante uma década, entre 1985 e 1995, anos em que despejaram bilhões de euros através das suas mãos a partir dos fundos estruturais e do desenvolvimento da UE, é um excelente exemplo de um dos melhores políticos de Portugal. Eleito fundamentalmente porque ele é considerado "sério" e "honesto" (em terra de cegos, quem vê é rei), como se isso fosse um motivo para eleger um líder (que só em Portugal, é!!) e como se a maioria dos restantes políticos (PSD/PS) fossem um bando de sanguessugas e parasitas inúteis (que são), ele é o pai do défice público em Portugal e o campeão de gastos públicos.

A sua “política de betão” foi bem concebida, mas como sempre, mal planeada, o resultado de uma inapta, descoordenada e, às vezes inexistente localização no modelo governativo do departamento do Ordenamento do Território, vergado, como habitualmente, a interesses investidos que sugam o país e seu povo.

Uma grande parte dos fundos da UE foram canalizadas para a construção de pontes e auto-estradas para abrir o país a Lisboa, facilitando o transporte interno e fomentando a construção de parques industriais nas cidades do interior para atrair a grande parte da população que assentava no litoral.

O resultado concreto, foi que as pessoas agora tinham os meios para fugirem do interior e chegar ao litoral ainda mais rápido. Os parques industriais nunca ficaram repletos e as indústrias que foram criadas, em muitos casos já fecharam.

Uma grande percentagem do dinheiro dos contribuintes da UE vaporizou-se em empresas e esquemas fantasmas. Foram comprados Ferraris. Foram encomendados Lamborghini, Maserati. Foram organizadas caçadas de javalí em Espanha. Foram remodeladas casas particulares. O Governo e Aníbal Silva ficaram a observar, no seu primeiro mandato, enquanto o dinheiro foi desperdiçado. No seu segundo mandato, Aníbal Silva ficou a observar os membros do seu governo a perderem o controle e a participarem.

Então, ele tentou desesperadamente distanciar-se do seu próprio partido político.

E ele é um dos melhores?

Depois de Aníbal Silva veio o bem-intencionado e humanitário, António Guterres (PS), um excelente Alto Comissário para os Refugiados e um candidato perfeito para Secretário-Geral da ONU, mas um buraco negro em termos de (má) gestão financeira. Ele foi seguido pelo excelente diplomata, mas abominável primeiro-ministro José Barroso (PSD) (agora Presidente da Comissão da EU, “Eu vou ser primeiro-ministro, só que não sei quando”) que criou mais problemas com o seu discurso do que com os que resolveu, passou a batata quente para Pedro Lopes (PSD), que não tinha qualquer hipótese ou capacidade para governar e não viu a armadilha. Resultando em dois mandatos de José Sócrates; um Ministro do Ambiente competente, que até formou um bom governo de maioria e tentou corajosamente corrigir erros anteriores. Mas foi rapidamente asfixiado pelos interesses instalados.

Agora, as medidas de austeridade apresentadas por este primeiro-ministro, são o resultado da sua própria inépcia para enfrentar esses interesses, no período que antecedeu a última crise mundial do capitalismo (aquela em que os líderes financeiros do mundo foram buscar três triliões de dólares (???) de um dia para o outro para salvar uma mão cheia de banqueiros irresponsáveis, enquanto nada foi produzido para pagar pensões dignas, programas de saúde ou projetos de educação).

E, assim como seus antecessores, José Sócrates, agora com minoria, demonstra falta de inteligência emocional, permitindo que os seus ministros pratiquem e implementem políticas de laboratório, que obviamente serão contra-producentes.

O Pravda.Ru entrevistou 100 funcionários, cujos salários vão ser reduzidos. Aqui estão os resultados:

Eles vão cortar o meu salário em 5%, por isso vou trabalhar menos (94%).

Eles vão cortar o meu salário em 5%, por isso vou fazer o meu melhor para me aposentar cedo, mudar de emprego ou abandonar o país (5%)

Concordo com o sacrifício (1%)

Um por cento. Quanto ao aumento dos impostos, a reação imediata será que a economia encolhe ainda mais enquanto as pessoas começam a fazer reduções simbólicas, que multiplicado pela população de Portugal, 10 milhões, afetará a criação de postos de trabalho, implicando a obrigatoriedade do Estado a intervir e evidentemente enviará a economia para uma segunda (e no caso de Portugal, contínua) recessão.

Não é preciso ser cientista de física quântica para perceber isso. O idiota e avançado mental que sonhou com esses esquemas, tem os resultados num pedaço de papel, onde eles vão ficar!!

É verdade, as medidas são um sinal claro para as agências de rating, que o Governo de Portugal está disposto a tomar medidas fortes, mas à custa, como sempre, do povo português.

Quanto ao futuro, as pesquisas de opinião providenciam uma previsão de um retorno do Governo de Portugal para o PSD, enquanto os partidos de esquerda (Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português) não conseguem convencer o eleitorado com as suas ideias e propostas.

Só em Portugal, a classe elitista dos políticos PSD/PS seria capaz de punir o povo por se atrever a ser independente. Essa classe, enviou os interesses de Portugal para o ralo, pediu sacrifícios ao longo de décadas, não produziu nada e continuou a massacrar o povo com mais castigos.

Esses traidores estão a levar cada vez mais portugueses a questionarem se não deveriam ter sido assimilados há séculos pela Espanha.

Que convidativo, o ditado português “Quem não está bem, que se mude”. Certos, bem longe de Portugal, como todos os que podem estão a fazer. Bons estudantes a jorrarem pelas fronteiras fora. Que comentário lamentável para um país maravilhoso, um povo fantástico e uma classe política abominável

Timothy Bancroft-Hinchey

Pravda.Ru
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor CPC » 05 nov 2010, 10:13

Porque será que "cá dentro" ninguém abre os olhos e vê o que vê lá fora em relação a nós? ... Estamos condenados com esta classe politica...

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tiririca
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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 03 fev 2011, 17:46

Não sou o autor deste texto, mas reencaminho porque até eu que dificilmente enjoo, ando muito nauseado.

Na mesma semana em que foi assassinado um cronista social faleceu um capitão de Abril, ao primeiro a comunicação social dedica horas, ao segundo dedicou minutos, para o primeiro são ouvidas dezenas de personalidades, do segundo nada se diz, do primeiro até temos de saber por onde vão ser distribuídas as cinzas, do segundo soube-se que o corpo esteve algures em câmara ardente, do primeiro traça-se um perfil de grande lutador pelas liberdades, do segundo pouco mais se diz que era um oficial na reserva.
A forma como a comunicação social tem tratado o homicídio de um mero cronista social tem sido, no mínimo abusiva, são jornalistas, astrólogos, parapsicólogos e uma verdadeira procissão de personagens de um jet set rasca e no meio usa-se e abusa-se das imagens onde se vê o cronista a entregar um ramo de flores a Maria Barroso, imagens que já vi serem repetidas quase uma dúzia de vezes.
A forma trágica como terminou aquilo que o cronista descreveu aos amigos que iria ser uma lua de mel é apresentada por astrólogas, parapsicólogos e outros especialistas deste ramo como uma bela história de amor, um misto de um episódio do Morangos com Açúcar com o Romeu e Julieta. Chegamos ao ridículo de ver as astrólogas e parapsicólogos a tentarem demonstrar a culpa do jovem homicida exibindo e-mails e insinuando que este teria conquistado com palavras o distraído apaixonado, dando a entender que como noutro tempos que o enganou.
E anda este país com problemas gravíssimos distraído com um episódio sórdido da lumpen-burguesia deste nosso jet set miserável, como uma pequena seita de gente que se auto-elege como bonita , vive de pequenos luxos obtidos à custa de papalvos, um meio onde se promovem personagens patéticas e decadentes a grandes figuras nacionais, onde autarcas financiam discotecas de astrólogas ou ajeitam as contas de idiotas convidando-os para reis do Carnaval.
Todo este espectáculo mórbido que só serviu para os portugueses saberem um pouco mais sobre se fazem e desfazem as paixões conseguidas com trocas de favores começa a provocar-me náusea, já me custa assistir a um telejornal ou abrir as páginas dos jornais, enoja-me que estes jornalistas me queiram fazer pensar que os grandes problemas do país é como acabam as paixões dos nossos socialites, os sítios que querem poluir com as suas cinzas, ou os sms que trocaram com os seus engates.
Lá que insistam em dizer que crónica social é saber com quem namora uma qualquer Lili decrépita e decadente é uma coisa, agora que a sociedade portuguesa é o pequeno mundo dessa pobre gente é outra coisa. O país tem muito mais com que se preocupar com os engates de modelos, com as trocas de sms, com paixões à primeira vista entre jornalistas de 65 anos e modelos de 20. Chega, começo a sentir náuseas


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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor matahary » 04 fev 2011, 11:48

De facto, têm razão!
Assuntos tão mais importantes e nós a darmos tão pouca importância.

Embora haja outros assuntos que me dêem bem mais náuseas.
"Satisfaça-se com o que lhe agrada, e deixe os outros falarem de si como lhes agrada." - Pitágoras

Uma por dia, tira a azia.

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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor house » 04 fev 2011, 20:13

tens razão, realmente isso foi vergonhoso... carniceiros...
:ira O Lameiras é que tem razão!! :ira

Ivosousa

Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor Ivosousa » 08 fev 2011, 22:35

Transmito-a conforme a recebi:

Folha salarial (da responsabilidade da Câmara Municipal) dos administradores e de outros figurões, da Fundação Cidade de Guimarães, criada para a Capital da Cultura 2012:

- Cristina Azevedo - Presidente do Conselho de Administração:14.300 € (2 860 contos) mensais + Carro + Telemóvel + 500 € por reunião

- Carla Morais - Administradora Executiva 12.500 € (2 500 contos) mensais + Carro + Telemóvel + 300 € por reunião

- João B. Serra - Administrador Executivo 12.500 € mensais + Carro + Telemóvel + 300 € por reunião

- Manuel Alves Monteiro - Vogal Executivo 2.000 € mensais + 300 € por reunião

Todos os 15 componentes do Conselho Geral, de entre os quais se destacam Jorge Sampaio, Adriano Moreira, Diogo Freitas do Amaral e Eduardo Lourenço, recebem 300 € por reunião, à excepção do Presidente (Jorge Sampaio) que recebe 500 €.

Em resumo: 1,3 milhões de Euros por ano, em salários. Como a Fundação vai manter-se em funções até finais de 2015, as despesas com pessoal deverão ser de quase 8 milhões de Euros !!! Reparem bem: Administradores ganhando mais do que o PR e o PM !

Esta obscenidade acontece numa região, como a do Vale do Ave, onde o desemprego ronda os 15 % !!!

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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor Bruno Lameiras » 09 fev 2011, 04:10

Os Portugueses têm os politicos que merecem. Votaram no PS, agora aturem-nos!
"podem-me calar, mas jamais mudarão a minha forma de pensar"

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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 23 fev 2011, 10:57

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Re: UM PAÍS FICTÍCIO

Mensagempor tiririca » 23 fev 2011, 11:17

Conselho aos Filhos de Portugal


SER JOVEM NOS TEMPOS DE HOJE EM PORTUGAL


Se és um jovem português
Atravessa a fronteira do teu País
E parte destemido
Na procura de um futuro com Futuro


Porque no teu País
A Educação é como uma licenciatura
Tirada sem mérito e sem trabalho
Arquitectada por amigos docentes
E abençoada numa manhã dominical


Porque no teu País
É mais importante a estatística dos números
Que a competência científica dos alunos
O que interessa é encher as universidades
Nem que seja de burros


Porque no teu País
A corrupção faz parte do jogo
Onde os jogadores e os árbitros
São carne do mesmo osso
E partilham o mesmo tempero


Porque no teu País
A justiça é ela própria uma injustiça
Porque serve quem é rico e influente
Com leis democraticamente pobres


Porque no teu País
As prisões não são para os ladrões ricos
Porque os ricos não são ladrões
Já que um desvio é diferente de um roubo


Porque no teu País
A Saúde é uma doença crónica
Onde, quem pouco tem
É sempre colocado na coluna da despesa


Porque no teu País
Se paga a quem nada faz
E se taxa a quem pouco aufere


Porque no teu País
A incompetência política
é definida como coragem patriótica


Porque no teu País
Um submarino é mais importante que tu
E o mar apenas serve para tomar banho
E pescar sardinhas


Porque no teu País
Um autarca condenado à prisão pela justiça
Pode continuar em funções em liberdade
Passeando e assobiando de mãos nos bolsos


Porque no teu País
Os manuais escolares são pagos
Enquanto a frota automóvel dos políticos
É topo de gama


Porque no teu País
Há reformas de duzentos euros
E acumulação de reformas de milhares deles


Porque no teu País
A universidade pública deixou cair a exigência
E as licenciaturas na privada
Tiram-se ao ritmo das chorudas mensalidades


Porque no teu País
Os governantes, na sua esmagadora maioria
Apenas possuem experiência partidária
Que os conduz pelas veredas do "sim ao chefe"


Porque no teu País
O que é falso, dito como verdade,
Sob Palavra de Honra !
São votos ganhos numa eleição


Porque no teu País
As falências são uma normalidade
O desemprego é galopante
A criminalidade assusta
O limiar da pobreza é gritante
E a venda de Porsches ... aumenta


Porque no teu País
Há esquadras da polícia em tal estado
Que os agentes se servem da casa de banho
Dos cafés mais próximos


Porque no teu País
Se oferecem computadores nas escolas
Apenas para compor as estatísticas
Do saber "faz de conta" em banda larga


Porque no teu País
Se os teus pais não forem ricos
Por mais que faças e labutes
Pouco vales sem um cartão partidário


Porque no teu País
Os governantes não taxam os bancos
Porque, quando saírem do governo
Serão eles que os empregam


Porque no teu País
És apenas mais um número
Onde o Primeiro-Ministro se chama Alice
Que vive no País das Maravilhas
Mesmo ao lado do teu.


Foge!

E não olhes para trás!
O pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas.
(Willian George Ward)


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