OCIDENTAIS! OU GALAICO-CRISTÃOS?

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lecavo
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OCIDENTAIS! OU GALAICO-CRISTÃOS?

Mensagempor lecavo » 18 ago 2007, 21:47

Viva!

A arte dos adolescentes

Agora recordo: uns anos atrás, nos bancos de faculdade, a turma esperava as indicações bibliográficas para o semestre. "Introdução à História da Arte", eis o título da disciplina. E o professor, com total seriedade, informando os alunos que só havia um livro verdadeiramente obrigatório: a Bíblia. A turma ouviu o conselho e abriu a boca de espanto. A Bíblia?

Sim, a Bíblia. Sem um conhecimento do Antigo e do Novo Testamentos; mas também sem alguma intimidade com outros textos religiosos --a Vida dos Santos e mesmo os Textos Apócrifos-- era inútil tentar entender a história da arte no Ocidente.

Escuso de dizer que o homem estava certo. Olhando para os últimos 17 ou 18 séculos --desde as primeiras expressões de arte paleocristã-- é a figura de Cristo e a sua herança que se encontram presentes em cada quadro, escultura ou igreja ocidental. E, se esquecermos a Idade Média e a sua longa meditação artística sobre o sagrado, mesmo o Renascimento, ao procurar "resgatar" a herança greco-latina (o que implicava resgatar a figura humana que os medievais colocavam numa posição de inferioridade hierárquica face ao divino), foi sobretudo para melhor servir a história sacra.

Giotto, por exemplo, um revolucionário que operou essa transição entre a medievalidade e a era moderna ao pintar figuras sagradas como se fossem humanas (um prenúncio da revolução maior, que viria dois séculos depois com Caravaggio), não prescindiu dos textos bíblicos, ou religiosos, como se vê na Basílica de S. João de Latrão, em Roma. E sobre Caravaggio, conhecer o primeiro grande pintor barroco implica conhecer também a vocação e o martírio de S. Mateus (hoje na igreja romana de San Luigi dei Francesi), ou saber as histórias da crucificação de Pedro ou da conversão de Paulo (temas que dominam a Capela Cerasi, na igreja de Santa Maria del Popolo, também na capital italiana). O desconhecimento da religião cristã é, no essencial, o desconhecimento da identidade cultural do Ocidente. E causa maior da ignorância, da estupidez e da mediocridade que define, artisticamente falando, o nosso tempo.

Aliás, não é preciso acreditar no divino para acreditar no papel da religião na construção dessa identidade. Que o diga Camille Paglia, que em texto recente se apresenta como ateia e libertária de esquerda --e, apesar disso, defensora da necessidade de estudos religiosos nos currículos universitários das Humanidades. Uma sociedade totalmente secularizada, que despreza a religião e eleva o materialismo a um novo e único deus, só pode gerar uma arte entediante e adolescente. E, do ponto de vista histórico, falsamente rebelde: a arte "oposicional" começou com os românticos e morreu, algures, na década de 60, com o estertor pop. Bater na mesma tecla é bater em tecla gasta, repetitiva e artisticamente estéril.

Paglia tem razão. Não apenas pelo retrato atual de grande parte da arte contemporânea --um caso extremo, e bem irônico, de "rebelião como convenção"; Paglia acerta também ao atribuir aos românticos o início de uma "arte de ruptura" que terminou meio século atrás, com as paródias e as auto-paródias de Warhol e companhia.

Um ponto, porém, parece ignorado por Paglia: é que mesmo o romantismo, na sua recusa da "tradição" (a começar pela tradição neoclássica), não ignorou o que podia aprender com ela. Na pintura, e apenas na pintura, a ruptura romântica não ignorou o que podia aprender com os pré-românticos de finais do século 18, sobretudo com o (chamado) movimento dos Nazarenos, ligado a autores tão "clássicos", e tão místicos, como Perugino.

Se a história da arte deixa uma lição aos artistas de hoje é que não existe verdadeira "novidade" sem um entendimento da "tradição": sem esse sentido histórico que, para usar as palavras de T. S. Eliot, leva alguém a escrever (ou a pintar, ou a esculpir) como se a literatura ocidental estivesse presente no momento presente. Porque só esse entendimento permite uma verdadeira continuidade, ou uma reformulação, ou até uma ruptura com o passado.

A criação no vazio, típica de adolescentes, apenas produz grande parte da arte adolescente que ocupa os nossos museus, ou as nossas estantes privadas.
João Pereira Coutinho
«À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás.»
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Pedro Bala
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Re: OCIDENTAIS! OU GALAICO-CRISTÃOS?

Mensagempor Pedro Bala » 19 ago 2007, 00:36

sim, lecavo... estás no bom caminho...

... qualquer dia, na missa, não me admiraria nada se, quando o padre disesse: - "saudai-vos na Paz de Cristo". te cumprimentase e desejasse a Verdadeira Paz.

Porque Deus é grande... (e incomoda, né?)

Abraço!
Deus te dê o dobro daquilo que me desejas.

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lecavo
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Re: OCIDENTAIS! OU GALAICO-CRISTÃOS?

Mensagempor lecavo » 19 ago 2007, 08:54

Viva!

Sultão Escreveu:sim, lecavo... estás no bom caminho...

... qualquer dia, na missa, não me admiraria nada se, quando o padre disesse: - "saudai-vos na Paz de Cristo". te cumprimentase e desejasse a Verdadeira Paz.

Porque Deus é grande... (e incomoda, né?)

Abraço!


Quando algum facto, seja uma festa familiar (que na minha família são sempre comemoradas com uma missa, já deves saber porquê), mas também casamentos, baptizados, funerais e etc me levam a participar de "corpo presente" num acto litúrgico, matenho-me respeitosamente sentado.

Quando chega o "abraço da paz", levanto-me e abraço todos com amor, paz e alegria. Em nome de Cristo fizeram-se muitas guerras, morreu muita gente (e talvez continuem a morrer). A paz não tem necessariamente de ser cristã (católica). A paz de Cristo, não é diferente das outras pazes, das pazes dos romanos, por exemplo, que diziam, que "vale mais uma paz desastrosa que uma guerra honrosa".

PS: Por falar em guerra, vou entrar em estágio, preparar-me psicologicamente, para enfrentar um cabrito assado. Será uma guerra sem dó nem piedade!

PS2: Depois mais tarde, darei conta do resultado la peleja! Podia convidar a Márcia Rodrigues para fazer a entrevista. Como gosto de ver nus (artísticos!) femininos, podia ser que a moça aparece-se "vestida" de modo a satisfazer a minha "cultura".
«À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás.»
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matahary
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Re: OCIDENTAIS! OU GALAICO-CRISTÃOS?

Mensagempor matahary » 19 ago 2007, 10:32

Estás a confundir cultura com Lei.
Se não sabes a diferença entre uma e outra experimenta ir ao Irão.
"Satisfaça-se com o que lhe agrada, e deixe os outros falarem de si como lhes agrada." - Pitágoras

Uma por dia, tira a azia.

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Re: OCIDENTAIS! OU GALAICO-CRISTÃOS?

Mensagempor lecavo » 20 ago 2007, 06:58

Viva!

Lecavo Escreveu:PS2: Depois mais tarde, darei conta do resultado la peleja! Podia convidar a Márcia Rodrigues para fazer a entrevista. Como gosto de ver nus (artísticos!) femininos, podia ser que a moça aparece-se "vestida" de modo a satisfazer a minha "cultura".


O cabrito estava divinal, fantástico. :))

Mas a Márcia Rodrigues não apareceu para a entrevista! :(

Matahary Escreveu:Estás a confundir cultura com Lei.
Se não sabes a diferença entre uma e outra experimenta ir ao Irão.


É, é isso, andamos "todos" muito confusos! Algumas vezes, sem saber muito bem o que dizer, vamos dizendo "não", porque simplesmente temos de estar do contra! Não se sabe porquê nem há argumentos para isso, mas como "temos" de estar do lado do contra, "mandamos" umas bocas. É, é isso tudo, "andamos todos" muito confusos.

Ir ao Irão!? Livra, vai tu! Não quero nada com essa gente.
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Re: OCIDENTAIS! OU GALAICO-CRISTÃOS?

Mensagempor lecavo » 26 ago 2007, 22:59

Viva!

Ciência Politica - Mestrado FDL

Conferência na FACULDADE DE DIREITO DE LISBOA, 28 DE FEVEREIRO DE 2000

No princípio estão os princípios

O pensamento politico e jurídico ocidental tem o seu princípio, e os seus princípios, na chamada filosofia clássica expressa, entre outros, por Platão, Aristóteles e Cícero.

Eles são, de facto, as nossas origens.

Eles estão no nosso começo e voltam sempre a aparecer nos nossos recomeços, quando depois dos muitos fins da história, tratamos de nascer de novo, de procurar a restauração, a regeneração.

Quando em revolução, no giro do corpo esférico sobre si mesmo, vivemos o futuro como um eterno retorno, na procura do que é melhor.

Porque o fim da história que podemos viver é sempre um regresso da história. Ou, pelo menos, a consciência de que somos finitos.

Porque há um fim depois do fim, o infinito.

Escolhemos esses três grandes mestres do pensamento clássico. O primeiro, Platão, marcado pelo idealismo, vai pensar a política por analogia com a geometria.

O segundo, Aristóteles, marcado pelo ideal-realismo da natureza das coisas e pelo experimentalismo, vai pensar a política por analogia com a medicina e a biologia.

O terceiro, Cícero, já liberto da política como ciência arquitectónica, da qual estavam dependentes a moral, a religião e o direito, já pensa a coisa pública como algo que tem o seu fundamento e o seu limite no próprio direito.

Os dois primeiros foram professores e preceptores de príncipes; o terceiro, um político activo.

Os três foram derrotados pelo curto prazo, mas saíram vencedores no longo prazo.

Com efeito, a política nasceu na Grécia e foi reinventada em Roma. Tal como a filosofia e o direito.... (veja o texto na integra aqui)
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