VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

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AlfaLima

Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor AlfaLima » 05 set 2007 15:53

Amigo Lecavo, acho que o amigo avançou demais na história. Há um aspecto importante do antigo regime, que falta abordar. Aquilo que ficou conhecido como a "viradeira" e que teve muita importância para o país nessa altura. Abordar toda essa indefinição e guerrilha política será interessante. A guerra civil também foi um período importante e interessante do ponto de vista histórico.

AlfaLima

Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor AlfaLima » 05 set 2007 16:14

Política da "viradeira".

A primeira metade do séc. XIX que se estende muito nacionalistamente da Viradeira à Regeneração e, em termos internacionais, da Revolução Francesa à consolidação do Liberalismo Europeu - o conceito estrito de estratégia está ausente. Por outro lado, o levantamento das prioridades da grande estratégia é uma tarefa difícil porque só recentemente a historiografia tem vindo a integrar as realidades coloniais e ultramarinas do Brasil e África com a evolução interna do Portugal europeu na primeira metade do séc. XIX. Sem integração é impossível demonstrar que as opções estratégicas do país situaram-se numa realidade intercontinental centrada no Atlântico e foram mais que um simples reflexo dos conflitos entre as grandes potências desse período.... (veja o texto na integra aqui)

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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 05 set 2007 17:58

Ζωντανός! (Αποφάσισα να γράψω στα ελληνικά)

Companheiro Alfalima, mais uma vez tenho de te dar razão. Mas não era minha intenção passar adiante. Nem me parece que isto deve ter uma relação cronológica. Ficaria massudo. Cada um pode postar sobre o que achar mais interessante.

Segundo este autor (numa opinião com a qual concordo), Portugal, a par com a Espanha e com a ajuda dos ingleses, mesmo sendo uma país periférico e assim considerado por Napoleão, que erradamente desvalorizou a nossa importância estratégica, acabou por ter um peso fulcral na derrota dos exércitos franceses, ajudando a pôr termo ao sonho napoleónico.

O impacto europeu da campanha de Vitoria, em 1813

Até 1813, a Guerra Peninsular ocupou um lugar relativamente isolado e secundário na grande estratégia dos adversários de Napoleão, embora entre acções de combate e desastres da guerra em Portugal e Espanha , já registasse quase um milhões de mortos. A Península Ibérica era considerada uma zona de operações distante do centro europeu e que o dirigente imperial se permitia desprezar, a ponto de não comparecer em pessoa senão uma vez. As duas nações ibéricas, por razões distintas, eram instrumentos úteis mas subalternos na guerra que, com curtos intervalos, a Grã-Bretanha sustentava contra a França desde 1793.
Contudo, a campanha dos exércitos britânico, português e espanhol sob o comando do marechal Wellington e tendo como segundo comandante o marechal Beresford, entre 22 de Maio e 1 de Agosto de 1813 e que tem o seu ponto culminante na batalha de Vitória, logo seguida pela batalha dos Pirenéus, demonstra o erro de considerar as periferias e as nações pequenas como secundárias. Em pouco mais de dois meses e depois de uma ofensiva de 600 quilómetros com mais de 100 mil homens das três nações em armas, o curso da história foi modificado de forma decisiva pelo impacto na Europa Central da acção conjunta dos aliados da guerra Peninsular.
Em Maio desse ano, após as surpreendentes vitórias francesas de Lutzen e Bautzen, a Europa vivia suspensa do armistício de Pleiswitz, firmado por Napoleão a 7 de Junho com a Prússia e a Rússia. Os adversários, cada um dos quais com cerca de meio milhão de homens, aguardavam as decisões políticas. A grandeza dos contendores criara um impasse que ambos aproveitaram para se reforçar com mais combatentes e mais aliados. Foi nesta gigantesca luta das nações contra o império, que teve um papel único a ofensiva comandada pelo Duque da Vitória.
Os aliados arrancaram a 22 de Maio do centro e norte de Portugal, com cerca de 50.000 britânicos e 30 mil portugueses a que se juntaram 20 mil espanhóis. Embora menores se comparados com os da Europa Central, este exército conjunto era a ponta de lança de Portugal, Espanha e Grã-Bretanha. Era, também, uma máquina de guerra formidável, provada em quatro anos de combates permanentes e grandes batalhas como o Douro, Buçaco, Albuera e Salamanca. Executando uma marcha de aproximação de quatro semanas, em colunas separadas, essa máquina militar cruzou montanhas e rios de Trás os Montes, Leão e Castela a Velha, contra as expectativas dos mais de 100 mil invasores franceses, e atingiu os campos bascos de Vitoria com surpresa estratégica.
21 de Junho de 1813 foi o dia mais longo do Exército Aliado. Durante doze horas, a refrega entre uns 150 mil homens reboou na planície de Vitória, encaixada entre montanhas e cortada pelo rio Zadorra que se espreguiça lentamente de leste para oeste, até se curvar para sul na direcção do desfiladeiro de Puebla. A manobra estratégica de Wellington colheu de surpresa e separados dos corpos de Clausel e de Foy, o corpo principal das forças francesas, formado pelos Exércitos do Centro, do Sul e de Portugal, sob o mando nominal do rei José e do já gasto marechal Jourdan, e cobrindo um imenso comboio de bagagens e pilhagens.
No demorado mas bem sucedido envolvimento dos flancos franceses, a sorte das armas distinguiu a todos veio a decidir-se pelas seis horas da tarde. Na fase final, após um duelo de artilharia com umas 75 peças de cada lado, Wellington mandou formar a 3ª e 4ª Divisões, num rolo compressor que, sofrendo pesadas baixas, avançou através de hortas, aldeias, campos e colinas. Na frente marcharam as brigadas portuguesas 11/23 e 9/21 com Caçadores 7 e 11, além das britânicas de Grant, Brisbane, Byng e O’Calllaghan. A pressão conjunta destes 12500 homens na brecha entre os exércitos de D’Erlon e de Gazan foi o golpe final para os franceses iniciarem a fuga. Ficou nas mãos de um sargento português de granadeiros a única bandeira francesa capturada, do 4º batalhão do 100º Regimento de Infantaria de Linha. A cavalaria pesada aliada saltou para a frente, para a perseguição. Capturou entre outros troféus, o bastão do marechal Jourdan.
Segundo os critérios da guerra napoleónica em que a vida humana era carne para canhão, Vitória não foi demasiado cruenta; mortos foram 503 ingleses, 201 portugueses, 96 espanhóis, 1300 franceses. O total de baixas dos quatro exércitos não terá excedido 12 mil homens. Era uma escala diferente da campanha em curso na Alemanha onde Napoleão perdia até 12 mil homens por semana.
Dada a surpresa táctica e a manobra impecável, Wellington esperava a aniquilação do adversário. Contudo, o exército imperial tinha experimentados manobradores como Reille, D’Erlon e Gazan. E, sobretudo, havia um isco à espera dos vencedores. Na planície a nordeste de Vitória e na direcção do caminho real para Baiona, aglomeravam-se cerca de 2 mil carruagens com os tesouros de cinco anos de pilhagens em Espanha; o cofre do Exercito ocupante; os afrancesados que procuravam fugir; as acompanhantes dos ocupantes. No fim do dia, a perseguição aliada falhou mais uma vez, como sempre acontecera no historial da guerra peninsular, mas desta vez por um novo motivo: um dos maiores saques da história militar. O dia mais longo do exército aliado chegara ao fim, entre o sofrimento dos milhares de feridos entregues aos rudimentares cuidados de saúde da época e o rumor das trocas, leilões e furtos dos tesouros do rei José, entre os quais o seu penico.
Na manhã de 22, os mapas de força indicavam 261 britânicos e 32 portugueses extraviados. Uma semana depois, os Ajudantes-Generais referiam a perda de 2733 britânicos e 1423 portugueses, devido a extravio, irregularidades e pilhagem. A maior parte deles regressou às unidades nas semanas seguintes. Mas Wellington desabafou que tinha no seu exército a “escumalha da terra”. Os aliados continuaram a avançar até aos Pirinéus, pondo cerco a São Sebastião, bloqueando Pamplona, e alcançando a libertação quase total da Península após cinco anos de invasão.
Quinze dias depois, a notícia destes acontecimentos chegou a Viena. O Conte Stadion arrancou violentamente Metternich da cama, exclamando que Wellington esmagara os Franceses. Metternich fez o que a hora lhe pedia. Convenceu o imperador Francisco I da Áustria - que já perdera quatro grandes guerras e dezenas de batalhas contra Napoleão - a unir-se à Prússia, Rússia, Suécia e Grã-Bretanha. Viena entrou em delírio. Beethoven compôs uma peça musical, opus 114, em honra dos bravos aliados anglo-portugueses e de Wellington. Napoleão não atendeu a conselhos de paz; limitou-se a enviar o seu melhor marechal para defender os Pirinéus.
O Império ainda não estava moribundo. Um mês depois de Vitória, o marechal Soult atacava em 25 de Julho com um reconstituído exército de 60 mil homens, através dos Pirinéus, para socorrer a praça sitiada de Pamplona. Apesar de repelirem os franceses nas portelas de Maya e Roncesvales, os generais britânicos, sem Wellington por perto, portaram-se como crianças e recuaram até perto de Pamplona.
Foi uma semana terrível para os aliados, a culminar na batalha de 2 dias em Sorauren, Como no Buçaco, portugueses e britânicos estavam de novo em número igual. Quando Wellington chegou a 26 de Julho, vindo do seu quartel-general de Lesaca, as tropas portuguesas de Caçadores 7 saudaram-no, como tinham aprendido a fazer desde 1809, com o grito de “Douro, Douro”, retomado pelas restantes tropas aliadas. No dia seguinte, começou a batalha dos Pirinéus. Tendo sofrido, 8 mil baixas - contra 3500 ingleses e uns 2500 portugueses - o marechal Soult recuou para a fronteira a 1 de Agosto. Foi a última invasão francesa da Guerra Peninsular. E foi então que, por entre elogios e louvores oficiais aos oficiais e soldados, Wellington considerou os Portugueses como os galos de combate do seu exército.
O Exército Aliado apenas poderia perseguir Soult e invadir a França se houvesse desenvolvimentos positivos na Europa Central. A coligação europeia insistia em que se criasse uma segunda frente nos Pirinéus para aliviar a pressão napoleónica. A 7 de Outubro, após confirmação de que as hostilidades tinham recomeçado na Alemanha, as tropas anglo-portuguesas cruzaram o Bidassoa e entraram em França, iniciando os derradeiros seis meses da Guerra Peninsular.
«À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás.»
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 10 set 2007 19:56

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D.João V um rei Absolutamente ... freirático

Nos séculos XVII e XVIII, a inclinação religiosa não era uma das razões mais importantes para trancar uma jovem num convento. Um espírito rebelde, uma natureza sensual, um amor inaceitável ou uma gravidez ilegítima eram motivos mais comuns. Sem a vigilância familiar, da sexualidade enclausurada brotavam êxtases místicos, auto flagelações e até os amores entre freiras e seculares Uma das principais razões, é o prazer pela transgressão das regras ditadas pela Igreja, que mantinha então a sociedade portuguesa sob a Inquisição. A violação do espaço conventual era um acto político contra o poder da Igreja.
Uma subversão da qual o próprio rei João V participava. Enquanto, pressionado por seus auxiliares, desencadeava dura perseguição contra os freiráticos, o rei enfeitava de ouro brasileiro, para seus encontros com madre Paula, uma alcova ligada ao convento de Odivelas por uma passagem secreta. O rei não estava só em sua preferência por amantes de hábito. Muitos nobres suspiravam diante das grades ou pulavam muros dos conventos. O fascínio do proibido, as dificuldades da sedução tornavam ainda mais aliciantes as conquistas.
A mais famosa delas foi, sem dúvida, Madre Paula, talvez a freira mais conhecida do mosteiro. Paula Teresa da Silva e Almeida nasceu em Lisboa em 30 de Janeiro de 1718. Era neta de João Paulo de Bryt, um alemão que fora soldado da guarda estrangeira de Carlos V e se estabelecera em Lisboa como ourives. Paula entrou para o convento de Odivelas aos 17 anos de idade, e ali professou, após um ano de noviciado.
Frequentador assíduo do convento de Odivelas, D. João V mantinha várias amantes que ia substituindo conforme lhe era conveniente. Quando encontrou a jovem madre ficou loucamente apaixonado por ela. Nessa altura, a freira Paula já era famosa: havia se tornado amante de D. Francisco de Portugal e Castro, Conde de Vimioso, e que pouco antes tinha sido agraciado com o título de Marquês de Valença. D. João V não teve problemas para resolver a situação. Ele chamou o fidalgo e disse-lhe: "Deixa a Paula que eu te darei duas freiras à tua escolha". Assim, Paula passou a ser amante do rei que era trinta anos mais velho do que ela. Madre Paula exercia uma influência imensa sobre o rei. Quem precisasse de um favor real já sabia que a maneira mais segura de conseguir: era só recorrer à valiosa protecção da Madre Paula, a quem o soberano visitava todas as noites.

Das numerosas amantes de D. João V, Madre Paula foi a única que soube dominá-lo até à morte. O rei foi extremamente generoso não só com ela como com a sua família.

O Palácio Pimenta onde se encontra o Museu da Cidade de Lisboa no Campo Grande foi mandado construir por D. João V para a sua amante.(ver foto)

O pai de Paula chegou a ser agraciado com o grau de cavaleiro da Ordem de Cristo, a receber uma tença de doze mil reis e outros benefícios que lhe permitiram viver tranquilo.

O luxo em que vivia Paula no convento de Odivelas foi bem reproduzido em um documento da época, por Ribeiro Guimarães no seu Sumário de Vária História, onde descreve a magnificência asiática dos aposentos da madre Paula e sua irmã. Para servi-la, Madre Paula tinha nove criadas. Do romance entre Madre Paula e D. João V nasceu um menino que foi baptizado com o nome de José, como o príncipe herdeiro, e que mais tarde veio a exercer as funções de inquisidor geral.

A vida desregrada do rei escandalizava não só a corte como também os súbditos mais humildes. Mas ninguém se atrevia a repreender as atitudes de D. João V. Para se fazer uma ideia da moralidade desse tempo, basta recordar o que disse a abadessa D. Feliciana de Milão, às damas da rainha que não se levantaram, como lhes competia, à sua passagem. "Não se levanta de graça quem se deita por dinheiro". Após a morte do rei, que lhe deixou uma mesada principesca, Madre Paula continuou no seu recolhimento, recebendo os grandes que ainda se aproximavam. Assim se conservou ainda durante trinta e cinco longos anos, com a altivez de uma soberana em exílio. Faleceu, em 1785, aos 67 anos de idade e foi sepultada na Casa do Capitulo do Convento de Odivelas. Entretanto, vários nobres haviam recebido em 1724, ordem para assinar o compromisso de não visitar os conventos de freiras, a não lhes escreverem, nem lhes fazerem acenos da rua. Chegando mesmo a serem anunciados propósitos de penas de prisão e de degredo. Tratavam-se apenas de leis para controlar o comportamento dos freiráticos, não o seu, claro, um rei absoluto está acima desses detalhes.
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 10 set 2007 21:06

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D. Pedro ll e a disputa do trono espanhol

Terminada a Guerra da Restauração, em que os portugueses saíram vitoriosos, quis D. Pedro II envolver Portugal noutra guerra com a Espanha – a Guerra da Sucessão. O rei de Espanha, Carlos II, morreu sem deixar filhos que o substituíssem no trono. Mas apareceram logo dois pretendentes: o Arquiduque Carlos de Áustria, auxiliado pela Inglaterra e Holanda, e Filipe de Anjou, neto de Luís XIV, rei de França, apoiado por este país e pela Espanha. Ambos os pretendentes, que iam guerrear, pediram auxílio a D. Pedro II, que veio aprestá-lo a quem lhe oferecera maiores vantagens.
Assim, tomando definitivamente o partido do Arquiduque Carlos, o qual prometia o aumento do nosso território com a cedência de algumas terras espanholas, organizou um exército comandado por D. João de Sousa (Marquês das Minas), o qual, de vitória em vitória, entrou triunfante em Madrid, onde proclamou rei de Espanha o Arquiduque Carlos, em 1706. Porém, os portugueses, ameaçados por forças muito superiores, tiveram de abandonar aquela cidade, retirando-se para Portugal.
Neste reinado negociou-se um acordo comercial, conhecido por Tratado de Methuen. Por esse acordo era favorecida a entrada em Portugal de lanifícios ingleses e, na Inglaterra, facilitado o negócio dos vinhos do Porto, os quais nas suas alfândegas pagariam direitos muito reduzidos.

Vigésimo terceiro rei de Portugal, nasceu em 1448 em Lisboa, terceiro filho varão de D. João lV e de D. Luísa de Gusmão. Logo em seguida ao casamento de seu irmão D. Afonso Vl, em 1666, com D. Maria Francisca de Sabóia, estabeleceu-se entre esta e o seu cunhado, relações amorosas. Concluíram os dois com um escandaloso processo de divórcio, a deposição de seu irmão e respectivo esposo. Conseguíram que Roma (Vaticano) anulasse o casamento, D. Pedro mandou prender seu irmão e assumiu a regência do reino, casando depois com sua cunhada. No ano seguinte, assinou um tratado com a Espanha para pôr termo à "Guerra dos Vinte Sete Anos". Para sustentar as pretensões de um Arquiduque de Áustria ao trono espanhol, envolveu-se mais tarde numa guerra funesta para Portugal. Em 1706, D. Pedro ll chegou a entrar em Madrid, mas já no reinado seguinte (D. João V), as tropas portuguesas foram vencidas pelos espanhóis em Almansa e em Caya. Durante este reinado acentuou-se a decadência moral e material de Portugal. Jaz em S. Vicente de Fora (Lisboa).

D. Pedro II

Último dos sete filhos de D. João IV, quarto na ordem de sucessão, nascido em 1648, foi vigésimo terceiro rei de Portugal e o terceiro da Dinastia de Bragança, pelo imperativo duma solução política de emergência na mais grave conjuntura das primeiras décadas da Restauração, tão recente como ainda periclitante.
Um signo funesto parecia pesar sobre os destinos da nascente dinastia. Não desistia o orgulho da Espanha de eliminá-la radicalmente por guerra de reconquista. Consumira-se o fundador, exausto na luta, sem ter podido consolidá-la. Por cúmulo, três anos antes da sua morte, falecera-lhe em 1653, aos 19 anos de idade, o primogénito, príncipe D. Teodósio, em quem seu pai fundava as melhores esperanças. Ficava-lhe por sucessor, ainda menor de 13 anos, o infante D. Afonso, com os defeitos que o incompatibilizavam com o exercício da realeza e as consequências políticas da sua doentia inferioridade, a principal das quais foi o golpe de estado que elevou à situação de primeiro-ministro, aparentemente na modesta designação de escrivão da puridade do monarca, mas na função efectiva de verdadeiro soberano, o conde de Castelo Melhor.
Entretanto em 1666, para assegurar-lhe a sucessão e o apoio do poderoso Luís XIV, o diligente ministro negociara o casamento de D. Afonso VI com uma princesa de França, Mademoiselle d'Aumale, D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, sobrinha de Luís XIV e neta de Henrique IV. E foi esse o único acto imprudente do sagaz político, tão fatal para a desgraça do rei, como para os seus próprios planos ambiciosos duma política de engrandecimento do Reino. Realizado em 1666, resultou o casamento irreparavelmente desastroso, dada a incapacidade física e moral do rei. Foi praticamente o detonador da segunda revolução de palácio, em 1667, encabeçada agora pelo infante D. Pedro, com o apoio de todos os inimigos de Castelo Melhor, invejosos da sua fortuna política.
Educada na dissoluta corte de Versalhes, a nova e formosa rainha D. Maria Francisca, vexada por tal consórcio, apaixonou-se pelo brilhante cunhado D. Pedro, de 18 anos. Nos seus delituosos amores, ambos conluiaram novo golpe político. Em certa manhã de Novembro de 1667, a rainha abandonava o Paço e, de concerto com o infante D. Pedro, refugia-se no Convento da Esperança, aonde logo ele acorria a seu favor, com o Conselho de Estado; e, depois de tumultos vários, o rei era coagido a assinar a sua própria deposição e entrega do governo do Reino a seu irmão, o qual, em nome da rainha, assumia o poder como príncipe-regente, desterrando para os Açores o irmão destronado e, depois de rápido e escandaloso divórcio, casava com a cunhada em Abril de 1668, dela tendo logo em Janeiro do ano seguinte a sua primeira e única filha, a princesa D. Isabel Luísa.
Consumara-se a dupla usurpação do trono e da mulher.
Assim dramaticamente, com 20 anos apenas, começava D. Pedro, em 1668, a sua atribulada vida política. Defrontava-se de entrada com a gravíssima situação económica e financeira do Portugal restaurado, arruinado por vinte e oito anos de guerra sem tréguas, depois dos sessenta de estragos directos e indirectos do domínio filipino.

Resolutamente se esforçou desde logo o usurpador por administrar bem, com acerto, chamando ao Conselho, para conjurar a crise, um escol de homens notáveis pela cultura e pelo carácter, como Diogo Rodrigo de Macedo, o 3.º conde da Ericeira, D. Luís de Meneses, e outros economistas, homens cultos, informados já pelas novas teorias económicas fisiocráticas de Colbert, grande ministro das Finanças de Luís XIV.

Nada, porém, remediavam de momento as suas tentativas de reformas drásticas, por inoperantes em país tão devastado pela guerra, desfalcado de população produtiva, com as lavouras ao abandono, sem indústrias fabris e inveteradamente viciado no gozo falaz da ilusória opulência do comércio do Oriente, já reconhecidamente ruinoso para o Estado e para a Nação desde os tempos de D. João III e Pêro de Alcáçova Carneiro.

Restava à Metrópole, como esteio económico, o Brasil, com sua próspera actividade, agro-industrial de plantações e engenhos de açúcar, exportação de pau-brasil e outras madeiras e produtos exóticos, além da intensiva pesquisa de minas de ouro e prata que se presumia existirem a oeste, como nos sertões do Peru e da Bolívia, próximos em continental continuidade. No afã de se acudir por todos os meios à ameaça duma bancarrota à vista, recorria-se ainda complementarmente à valorização económica dos domínios de África. Em 1678 tentava-se uma colonização militar em Moçambique, para fixação de colonos e exploração agrícola, e desenvolvia-se na fertilíssima região da Zambézia um símile de capitanias donatárias, à semelhança das do Brasil, com as concessões de terras, a que se deu a designação oficial de prazos da Coroa. Na Guiné, em Cabo Verde, em Angola, que praticamente viviam do tráfico de escravatura, incrementava-se por meios adequados o fomento agrícola e comercial, criando companhias de comércio privilegiadas, como as de Cacheu e Cabo Verde e outras, disseminando feitorias e povoações comerciais nas zonas mais populosas de Angola e Moçambique.

Tudo, porém, pouco mais do que inútil. Progressivamente se agravavam a penúria e decadência material da Metrópole, sob a regência de D. Pedro, cujo reinado legítimo só propriamente começara em 1683, por morte do irmão proscrito, sem descendência, na sua prisão-desterro do Paço de Sintra, para onde viera transferido dos Açores (ilha Terceira), depois de malograda, pela execução dos cabecilhas, a conjura de 1673, para o libertar e repor no trono.
De perto o seguiu no túmulo, ainda nesse ano, a própria rainha D. Maria Francisca, sua ex-mulher, sem outros herdeiros além da infanta D. Isabel Luísa. Já rei de facto, proclamado em Cortes, D. Pedro II casava, em segundas núpcias, com D. Maria Sofia de Neuburgo, princesa bávara do Palatinado do Reno, que em 1689 lhe assegurava a sucessão da coroa em varão herdeiro dando à luz o príncipe D. João, depois D. João V, logo como tal proclamado, em substituição da princesa Isabel Luísa, das primeiras núpcias, falecida pouco depois, aos 22 anos de idade.

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

(... continua)
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 10 set 2007 21:08

Ζωντανός! (Αποφάσισα να γράψω στα ελληνικά)

(... continuação...)

Nesse mesmo ano de 1690 a situação agravava-se com o suicídio do conde da Ericeira, seu vedor da Fazenda, numa crise aguda de neurastenia, exacerbada pela inanidade da sua sábia administração desde 1675 e de todos os seus planos da criação de indústrias fabris para ressurgimento da Metrópole em sólidas bases económicas. Era o sinal de alarme duma inevitável ruína financeira a curto prazo, que arrastaria possivelmente a própria Nação à catástrofe duma desagregação política, precursora de definitiva absorção por Espanha. De resto, já mesmo em 1683, ano da proclamação do rei em Cortes, era tão patente e generalizada a previsão dessa fatalidade que o próprio D. Pedro II chegara a encarar seriamente o propósito de renunciar à coroa e retirar para o Brasil, abdicando na filha D. Isabel e em quem viesse a ser seu marido. Dissuadiram-no dessa espécie de deserção o confessor e o seu conselheiro secreto, sem que por esse facto se desanuviassem as perspectivas do pessimismo que havia levado ao suicídio o seu mais ilustre vedor da Fazenda. Em 1685, cedia enfim ao acto de generosidade de autorizar o regresso de Castelo Melhor, já velho e sem veleidades políticas.

Nesse destino lúgubre se teria talvez afundado, com a dinastia, a sobrevivência da Nação, se nos fins do século não tivesse providencialmente chegado à corte a alvoroçada notícia da descoberta de minas de ouro e brilhantes no Brasil, a coroarem de pleno êxito as exaustivas e pertinazes incursões do bandeirismo paulista nas selvas e sertões a oeste do imenso e inexplorado estado americano.

Como o rendimento fiscal da Coroa era desde logo o quinto da mineração, a primeira remessa de 1699 trazia a D. Pedro, além de 11000 quilos de ouro amoedado, o valor de sete milhões de cruzados, na transacção de brilhantes em Amesterdão; e até final do reinado o quinto devido à Coroa orçaria por cerca de cinco milhões de cruzados.
Era uma ressurreição de desvairantes esperanças! Considerados desnecessários, e logo abandonados, todos os planos de sadia reformação económica por exploração metódica das próprias riquezas da Metrópole, e por isso também já despiciendo, por supérfluo, o acordo comercial negociado com Inglaterra em 1703, conhecido por Tratado de Methuen. Era, aliás, de vantagens problemáticas para a nossa economia a colocação dos nossos vinhos em Inglaterra, mas substancial para esta a colocação entre nós de seus lanifícios. O fortuito caudal de ouro e pedras preciosas do Brasil tudo viria suprir e sanar sem mais cuidados para o futuro da dinastia.
Ter-lhe-ia, pois, terminado em glória o tormentoso reinado sem a aventura militar em que por fim precipitava o Reino, acedendo a pressões inglesas para se imiscuir também, como aliado, no imbróglio inextricável da Guerra de Sucessão de Espanha, em que rigorosamente não se pleiteavam vitais interesses materiais ou políticos para a Nação, nem mesmo a defesa do seu território ou da honra nacional, que, pelo contrário, ficavam sob a permanente ameaça das contingências duma guerra, sempre imprevisíveis.

Aderindo à tripla aliança anglo-austro-holandesa contra o bloco bourbónico franco-espanhol, D. Pedro obrigava-se, por acordo de 1703, a fornecer aos aliados um exército de 28 000 homens e, pior que tudo, à cedência do próprio território pátrio para teatro de operações, como a melhor base estratégica de invasão da Espanha.
Favorável de começo a campanha, pelos êxitos efémeros do exército do marquês das Minas na sua marcha e entrada triunfal em Madrid (1706), evoluiria em breve desastrosamente para os aliados, depois da sua decisiva derrota na batalha de Almansa, em Espanha (1707), a que se seguiu a contra-ofensiva espanhola sobre Portugal, em cujas fronteiras, forçosamente desguarnecidas, a batalha do Caia foi outra derrota para o exército anglo-português.

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

(... Continua)
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 10 set 2007 21:12

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(... Continuação)

Em suma, por sua morte, em 1706, o rei, cognominado Pacífico, deixava ao sucessor, com várias praças do Alentejo ocupadas por espanhóis, o encargo de liquidar uma guerra inglória e dispendiosa que, no reinado seguinte, se arrastaria por mais seis anos e de que a única vantagem positiva para a Nação, pelo Tratado de Paz de Utreque, ratificado em 1713 com a França e em 1715 com a Espanha, viria a ser a de se ter salvo, ao menos, a integridade dos seus domínios do Ultramar.

Em reinado de tão tumultuária política interna e externa, a actividade cultural da Nação não sofreu, todavia, o colapso ou afrouxamento que seria de esperar, quer na expressão literária, em que fulgurara o talento dum António Vieira, mestre e renovador da língua, quer nas artes plásticas, pintura religiosa e arquitectura religiosa e civil, em que o barroquismo seiscentista, com toda a sua sobrecarga de decoração ornamental, teve entre nós e no Brasil o seu período áureo e de carácter tão inconfundivelmente nacional como o manuelino, no século XVI.

Guerra da Sucessão Espanhola

http://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_da_ ... _Espanhola

A Guerra da Sucessão Espanhola disputou-se entre 1702 e 1714, pelo direito de sucessão da coroa espanhola, depois da morte do último monarca da casa de Habsburgo, Carlos II de Espanha. A guerra foi motivada pela morte precoce de José Fernando da Baviera, Príncipe das Astúrias, que levou à ascensão de Filipe V, neto do rei Luís XIV, ao trono da Espanha, que lhe fora legado pelo testamento de Carlos II (1700). Uma aliança anglo-luso-alemã, entretanto, insurgiu-se para evitar a união dinástica de França e Espanha.
Nessa guerra, a França enfrentou ao mesmo tempo a Áustria, a Inglaterra, Portugal e as Províncias Unidas. A luta caracterizou-se inicialmente por vitórias parciais francesas na Itália (1702) e na Alemanha (1703).
Depois, houve constante pressão sobre o território francês, especialmente na regiões do Flandres e Artois. Ali, tropas inglesas e holandesas, comandadas pelo duque de Marlborough, capturaram diversas praças fortificadas francesas, além de obterem importantes vitórias em campo aberto, como em Ramilles. Porém, uma das batalhas mais decisivas foi travada longe dali, em Blenheim (1704), na Baviera. Logo se seguíram reveses sérios: a invasão da Espanha pelo arquiduque Carlos (1707) e a derrota de Audenarde (Oudenarde), que abriu caminho para a invasão do norte da França, contida por Villars na batalha de Malplaquet (1709) e na vitória de Denain (1712). Embora a França tenha sofrido sucessivos revezes, a retirada prematura do exército britânico, devido a questões políticas internas, permitiu à França se levantar, batendo os austro-holandeses, comandados por Eugénia de Sabóia, em Denain.
O partido dos Bourbons acabou por sair vencedor. Os tratados de Utrecht (1713), de Rastatt e de Baden (1714) puseram fim ao conflito. O primeiro desses tratados contribuiu fundamentalmente para o crescimento do poderio marítimo e colonial da Inglaterra.

Os desdobramentos do conflito para Portugal


A 30 de Abril de 1704, Filipe V de França declarou guerra a Portugal, iniciando-se uma etapa do conflito na península Ibérica.
A 7 de Novembro de 1712, Portugal assinou armistícios com a Espanha e com a França. Posteriormente, assinou o Tratado de Paz com a França (1° Tratado de Utrecht, 11 de Abril de 1713), obtendo a completa renúncia gaulesa às possessões portuguesas na margem esquerda do rio Amazonas, no Estado do Brasil. O processo seria concluído com a assinatura do Tratado de Paz com a Espanha (2° Tratado de Utrecht, 6 de Fevereiro de 1715).

Em 1703, Portugal e a Inglaterra assinaram o Tratado de Methuen, onde as trocas comerciais entre os dois países foram regulamentadas. Ficou estabelecido um regime especial para a entrada de vinhos portugueses em Inglaterra. A exportação de vinho conheceu então um novo incremento.

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor othelo » 11 set 2007 07:17

Só uma pequena pergunta:

JÁ EQUACIONARAM TIRAREM A LICENCIATURA EM HISTÓRIA E DEDICARM-SE AO ENSINO?


1 ABRAÇO
---Mil hão-de cair à nossa esquerda, dez mil à nossa direita, mas nós não seremos atingidos---

AlfaLima

Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor AlfaLima » 11 set 2007 08:36

Já! Mas como o Ministério da Educação não tem vaga para nós no ensino oficial, "decidimos" dar as aulas aqui! :LOL

AlfaLima

Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor AlfaLima » 14 set 2007 18:27

A União Ibérica


INTRODUÇÃO

Este texto, ao tratar da União Ibérica, pretende analisar o processo de fusão das coroas peninsulares (Portugal e Espanha), englobando os seguintes aspectos:

o A crise dinástica portuguesa;
o O processo de unificação das coroas peninsulares;
o A administração dos reis espanhóis;
o Ruptura do processo de União Ibérica;


Nesse trabalho se traçará o advento do corpo político administrativo durante o processo de União Ibérica, apontando o seu carácter poliárquico e sua organização, bem como, o processo de reforma administrativa promovido pelo governador Olivares na gestão de Filipe IV. Tal reforma ocasionou a centralização do poder político em torno de Castela, a provincialização de Portugal e a ruptura do pacto entre o soberano e a nação estabelecido nas Cortes de Tomar em 1582. Esse fato culminou na insurreição portuguesa de 1640, no qual o trono português foi restaurado nas mãos da família de Bragança.

I – ANTECEDENTE: A CRISE DINÁSTICA


No dia 4 de Agosto de 1578 nos campos de Alcácer Quibir, jazia D. Sebastião, e com ele o projecto de difusão da fé católica e o resgate do passado épico português descrito por Camões. A sua morte foi o estopim da crise dinástica portuguesa, que culminou na união dos tronos peninsulares. (...)"D. Sebastião, na sua infelicidade pessoal, não era mais do que o acidente dinástico que a família conscientemente fora preparada. Esta junção das coroas peninsulares poderia ter acontecido antes. Veio a ser desencadeado de um modo dramático, pela imprudência de um jovem que ninguém soubera deter".

Como D. Sebastião não possuía herdeiros directos, o trono português ficou sob a regência de seu tio-avô, o Cardeal D. Henrique, aclamado rei no dia 28 de Agosto de 1578. As duas grandes preocupações na gestão do Cardeal-Rei foram: o resgate de milhares de cativos aprisionados na África e a nomeação de um sucessor legal que pudesse evitar ao pais uma guerra civil.

O quadro de crise política se agravava, pois, com a vacância do trono, vários pretendentes passaram a disputar a coroa de Portugal:

* D. Catarina de Médicis, rainha da França, que se dizia descendente do antigo rei D. João III;
* D. Catarina, Duquesa de Bragança e sobrinha do Cardeal D. Henrique (a que reunia maiores direitos);
* Manuel Felisberto, Duque de Savóia e D. António Prior do Crato, ambos sobrinhos do Cardeal-Rei;
* Alberto de Parma e Filipe II, Rei de Espanha, bisnetos de D. Manuel, O Venturoso;

A disputa acirrou-se entre D. Catarina de Bragança (mantendo-se a sucessão na linhagem masculina – D. Duarte), o Prior do Crato (filho bastardo do infante D. Luís) e Filipe II, o mais perigoso dos pretendentes. Buscando uma solução para tal problema, D. Henrique decidiu convocar as Cortes. (...)"Pressionado de três lados, odiando D. António, inclinando-se para D. Catarina mas, receoso da força de Filipe II, resolveu-se por fim convocar Cortes (1579-80) ... acabou D. Henrique por nomear cinco governadores para constituírem uma regência interina – o Arcebispo de Lisboa e quatro nobres, dois deles com cargos governativos – mas morreu tuberculoso em 31 de Janeiro de 1580, legando um problema de difícil solução".

"A escolha seria feita pelo país, reunido em Cortes, o que fatalmente daria lugar às corrupções e manejos de todas as assembleias".

D. António gozava de certa popularidade, pois o povo rejeitava a ideia de um soberano espanhol, vendo no Prior do Crato o único candidato capaz de desafiar o poderio de Filipe II. A duquesa de Bragança contava com o apoio dos nobres e clérigos (D. Henrique), mas actuou com prudência. Já Filipe II soube articular diplomaticamente as relações políticas e económicas com a nobreza, o clero e a burguesia, obtendo dos mesmos uma forte aliança: (...)"Nobreza e clero venderam-se porque se achavam geralmente desprovidos de fundos. Ao mesmo tempo receavam motins populares chefiados por D. António ... para a grande burguesia, também, a União Ibérica só traria um fortalecimento do sistema financeiro do Estado, e portanto uma protecção ... significaria igualmente a abertura dos novos mercados e a supressão das barreiras alfandegarias".

Após a morte do Cardeal-Rei, as Cortes continuaram reunidas. Nos finais de Junho de 1580, Filipe II invadiu Portugal com um forte exército para assegurar a sua coroação. (...)"Não quer submeter-se a um julgamento de direito, que o punha à partida, em igualdade com os outros pretendentes. Considerava-se, sem dúvida o legítimo herdeiro". A sentença final dos governadores, reconhecendo-o herdeiro, acabou por ser proferido em Castro Marim em 17 de Julho.
Em contrapartida, D. António organizou uma resistência, na qual foi aclamado Rei pelo povo em Lisboa, Santarém, Setúbal e outros lugares. Mas, na batalha de Alcântara (25 de Agosto), as tropas espanholas derrotaram o improvisado exército revoltoso, pacificando o país em dois meses. Consequentemente, Filipe II reuniu as Cortes em Tomar (Abril de 1581), onde foi solenemente jurado e aclamado rei de Portugal com o título de Filipe I.

II – UM REI E DUAS COROAS


Extensão territorial da Coroa Espanhola na Europa

Como vimos, em 1580 Filipe II, monarca espanhol, governante de uma das nações mais poderosas do mundo, exigiu o trono português e ordenou ao Duque de Alba a invasão de Portugal. Contando com o apoio da nobreza e da burguesia portuguesas, a quem havia prometido inúmeros favores, Filipe II uniu as duas coroas, dando início a uma nova fase da política portuguesa: a União Ibérica, que se estendeu até 1640.

A união das duas Coroas peninsulares possibilitou a constituição de um grande império Ibérico que durou sessenta anos. Num primeiro instante, Portugal manteria a autonomia administrativa e seus domínios continuariam separados das possessões espanholas. (...)"Ao ser unido pessoalmente a Felipe II de Espanha, como reino e Coroa, Portugal conservou com efeito, a sua autonomia aparente. Filipe II foi forçado, na verdade, a jurar nas cortes de Tomar de 1581, embora com sabor amargo, a conservação dos Foros, liberdades, privilégios do Reino". No entanto, esse quadro perdurou por pouco tempo, pois o poder administrativo castelhano gradativamente incumbiu-se por anular a autonomia lusitana, através da centralização do poder administrativo em torno de Castela. (...)"Filipe II havia prometido manter todos os direitos e regalias dos portugueses. Depressa se esqueceu dos seus compromissos".

O juramento de Filipe II nas Cortes de Tomar tinha como principal determinação a nomeação de portugueses ou pessoas ligadas à família Real para encabeçar os altos cargos, como o Vice-reinado.
(...Continua)

AlfaLima

Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor AlfaLima » 14 set 2007 18:39

...continuação...

2.0– ADMINISTRAÇÃO DOS REIS ESPANHÓIS:


Filipe II: (...)"A não residência prolongada em Portugal do monarca, obrigou a colocar o poder supremo em mãos de Vice-reis ou governadores". Com isso, para fins práticos, criava-se um Conselho de Portugal composto por seis membros (representantes da nobreza e do alto Clero) todos portugueses, responsáveis em auxiliar o Vice-rei na tarefa administrativa. Em 1583, Filipe II nomeou Vice-rei o seu sobrinho, Cardeal Arquiduque Alberto de Áustria, que representou o alter ego do rei.

(...)"Diga-se também que o Cardeal Alberto governou com mãos de ferro, como alias o exigiam a necessidade de pôr fim à agitação interna e o alerta constante contra o inimigo exterior".

Além desse conselho, o vice-rei devia reunir-se com o Conselho de Estado (espécie de ministério), no qual se regulava a administração da justiça, os assuntos de defesa, os negócios ultramarinos e as audiências a conceder ao povo. Desse modo, conclui-se que internamente o poder régio era decorativo, pois o poder político estava ligado a uma rede de poderes, ou seja, uma poliarquia. (...)"Convivendo com o poder régio, justapondo-se, havia com efeito corpos políticos dotados de autonomia".

Nesse primeiro instante, a grande preocupação de Filipe II era estruturar o funcionalismo burocrático português, por intermédio do equilíbrio entre as forças políticas centrais e locais. Com o término da gestão do Cardeal Arquiduque, o soberano espanhol recorreu a uma fórmula colectiva de governo. (...)"Não confiando suficientemente em ninguém para nomear governador de Portugal, o monarca preferiu a forma colectiva, escolhendo 5 governadores para constituírem um conselho de regência. Essa estratégia oscilante entre o poder colectivo e individual, será largamente utilizada ao longo do processo de União Ibérica, como forma de enfraquecer ou fortalecer a autoridade representativa".

Filipe III: com a morte de Filipe II em 1598, ascendeu ao trono seu filho Filipe III, que logo mostrou desinteresse em relação as questões políticas do Estado Português. (...)"Fraco de espírito, totalmente desinteressado dos negócios do Estado, verdadeira antítese do pai, Felipe III nunca governou por si próprio, entregando o poder real nas mãos de favoritos".

Iniciando um projecto de centralização política e administrativa em torno de Castela, Filipe III nomeia para Vice-rei de Portugal o espanhol Conde de Salinas, contrariando o juramento de seu pai nas Cortes de Tomar. Tal medida reduziria gradativamente a autonomia política de Portugal, significando o antecedente da política de Filipe IV para a provincialização do reino. (...)"Em 1600, o Rei enviava a Portugal uma comissão de três membros (todos castelhanos) com o fim de fiscalizar a Casa da Índia e as finanças em geral. Em seguida, nomearam-se ministros castelhanos para o Conselho de Portugal e o Conselho da Fazenda, em manifesta violação dos capítulos de 1581". Essa medida, bem como o aumento dos impostos sobre a classe média em geral, caracterizaram um governo extremamente impopular.

Filipe IV: Em 1621 faleceu Filipe III e sucedeu-lhe seu filho Filipe IV. No seu governo agravou-se a impressão de que os reis castelhanos não observavam seus deveres para com Portugal, (...)"Rompendo seu pacto com a nação". Esse fato se explica pelo plano de reformas estabelecidas pelo primeiro-ministro, Duque de Olivares, que visava ao fortalecimento da centralização interna para corrigir abusos e evita-los no futuro: "Todos os detentores de património da Coroa tiveram de submeter os seus títulos à confirmação régia como forma de conter a corrupção".

No contexto da política externa, a Espanha mergulhava na Guerra dos Trinta Anos, e sofria as consequências decorrentes dos fracassos militares contra a Holanda e a França, o que acarretou uma grande crise económica. O cenário de crise externa reflectiu-se internamente, pois Olivares decretou um aumento da carga tributária em Portugal como forma de sanar os problemas vigentes no território espanhol. (...)"Com a centralização, pretendia o Conde Duque superar exactamente àquelas dificuldades financeiras e militares". Tal aumento tributário observou-se na criação do imposto Real de Água estendido por todo país; na sobrecarga fiscal sobre o sal e o açúcar; na duplicação da sisa; na aplicação do imposto Meia-Anata, que obrigava o pagamento de metade da importância dos ordenados, no prazo de dois anos, sobre os ofícios e cargos públicos.

No entanto, as medidas tomadas por Olivares agravaram ainda mais os descontentamentos e revoltas entre as classes sociais.

Essas revoltas "eram a expressão da oposição à política de centralização que elidia privilégios consagrados pelo tempo em um mundo que se constituía social e politicamente com base na distribuição de privilégios". Não obstante, o quadro de descontentamento social fez eclodir em Portugal os movimentos antifiscais, como por exemplo o ocorrido na Revolta de Évora. (...)"Os levantamentos antifiscais têm uma profunda expressão ao tempo do domínio filipino, sobretudo entre 1629 à 1638, constituindo um dos aspectos mais relevantes da oposição política".

A excessiva taxação tributária fazia parte do projecto de centralização política de Portugal, no qual Olivares pretendia provincializar o Reino Português. (...)"O Reino ia deixando de ser uma monarquia associada para se tornar província". (...) "A situação tornava-se crítica, pois, todos deram-se conta dos perigos em que Olivares incorria ao forçar a centralização, e quão depressa era necessária a insurreição".

2.1– A REAÇÃO PORTUGUESA E A POLÍTICA EUROPEIA


O monopólio ibérico estabelecido pela União das Coroas peninsulares não impediu a aceleração da decadência do reino português, arrastado nas sucessivas e desastrosas guerras que a Espanha sustentava na Europa contra a Inglaterra (em que ocorreu a destruição da Invencível Armada luso-espanhola), a França (Guerra dos Trinta anos) e a Holanda ( esta lutando pela independência do domínio Espanhol). Consequentemente, as maiores desgraças recaíram sobre os domínios portugueses que estavam sob "tutela" de Castela.

É justamente no âmbito dos conflitos externos travados entre Espanha e os países em questão que se desenrolou a insurreição Portuguesa em relação ao domínio castelhano, cujo rastilho foi a Guerra dos Trinta Anos.

Esse conflito fez com que a Espanha atravessasse graves dificuldades económicas. Logo, a solução mais viável, como já observamos anteriormente, foi a pressão fiscal sobre a sociedade portuguesa sujeita à violação de seus privilégios e à anulação política.
(...)"Para o reino já empobrecido por vexatórios tributos e pela saída de tantos dos seus filhos, representava um golpe tremendo". A centralização política em torno de Castela e o banimento da representação portuguesa (nobreza) no cenário político fizeram eclodir a restauração do domínio português em 1640.

III – CONSIDERAÇÕES FINAIS


A análise histórica do poder político administrativo no processo da União Ibérica, envolve a seguinte evolução:


* Aparente autonomia administrativa asseguradas pelas Cortes de Tomar juradas por Filipe II, no qual se conservou os Foros, liberdades, privilégios, usos e costumes do reino, colocando a justiça e o governo em mãos de Portugueses e preservando, dessa forma, as instituições políticas vigentes;

* O carácter poliárquico do poder interno, ou seja, o poder como uma entidade plural – múltipla: O poder régio alicerçado pela religião e justiça, figurando a fonte da lei; a hierarquia nobiliário – eclesiástica detentora do poder de facto; cabendo ao povo a liberdade ou submissão;

* A distribuição desigual do poder, atendendo aos interesses da classe nobiliário-eclesiástica, gerou o chamado localismo baseado na corrupção;

* A crise do poder externo promoveu uma reforma administrativa interna, onde se centralizou o poder nas mãos de Castela. Dessa forma, aglutinou-se o poder político português, devido à provincialização que culminou na ruptura política das Coroas peninsulares.

BIBLIOGRAFIA
Mattoso, José (org.), História de Portugal,Lisboa, ed. Estampa, 1993, vol. 3.
Marques, Oliveira, História de Portugal, Lisboa, Palas Editores, 1983, vols. 1 e 2.
Oliveira, Antônio de, Poder e oposição política em Portugal no período Filipino, 1580 – 1640. Lisboa, Difel, 1990.

França, Eduardo D’Oliveira, Portugal na época da Restauração, S. Paulo, Haucitec, 1997.
Matoso, Antônio G., História de Portugal, Lisboa , ed. Livraria Sá da Costa, 1939, vol. II.

Angela Birardi
3º Ano - História/USP

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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 14 set 2007 20:59

Ζωντανός! (Αποφάσισα να γράψω στα ελληνικά)

RELAÇÃO DAS NÁOS E ARMADAS DA INDIA - 1597


D. Affonso de Noronha capitam-mór

Anno de 1597

D. Affonso de Noronha capitão-mor comprou a viagem a Fernão de Mendoça que se perdeo duas vezes nos annos de 85 e 91. Partio a 25 de Abril. Capitães: Jorge da Silveira de Castello Branco, e Christovão de Siqueira de Alvarenga, os quais forão e vierão a salvamento.

O capitam-mór - nanáo N. S.ta. do Castello. Christovão de Siqueira de Alvarenga - na náo S. Martinho. Jorge da Silveira de Castello Branco - na náo S. João.

Gaspar Ferreira, piloto da náo S. Martinho que escreveu esta viagem diz que partira a 5 de Abril de 1597 com o capitam-mór [D.] Affonso de Noronha que foi de tres náos, e na viagem que o mesmo escre[v]eu de Goa para o Reino [v]indo nanáo Castello com o mesmo capitam-mór, [d]iz que partira de Goa a [21] de Dezembro do mesmo anno de 1597 fazendo a viagem por dentro da Ilha de S. Lourenço, havendo 70 annos que se tinha deixado esta carreira.

(Leitura e anotações de Maria Hermínia Maldonado, obra publicada pela Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

RELAÇÃO DAS NÁOS E ARMADAS DA INDIA (L) - 1547


D. Francisco de Lima capitam-mór

Anno de 1547

D. Françisco de Lima capitão-moor. Partio sua armada a 23 e a 28 de Março. Capitães: Francisco da Gouvea, Françisco da Cunha, Misser Bernardo armador que foi ter a Sacatorá, Balthazar de Sousa Lobbo, Dom Pedro da Silva da Gama, que se perdeo nas Ilhas de Angoxa, e as mais forão e vierão a salvamento.

Em vinta dous de Maio de 48 chegou a Goa hum navio que deste reino partio de que era capitão Pero de Sá pelo qual ElRei Dom João mandou ao governador o titulo de vizo-rei e que servisse outros tres annos e diçe que partirão junto com elle outros dous navios do Reino de que erão capitães Martim Correa da Silva e Antonio Pereira.

E depois disso avião de partir outros tres de que era capitão-mor Françisco Barreto que partio a oito de Novembro. Capitães Pero de Mesquita, e Dom Heitor Aranha.

Todos os navios chegarão a India a salvamento e lá ficarão. Por morte do vizo-rei succedeo no governo Garçia de Saa.

Outra relação descreve a 2ª e 3ª armada nesta forma:

1547

Martim Correa capitam-mor de tres vellas partiu a 31 de Outubro com estes capitães =

O capitam-mór - na Vigua S. Matheus - Christovão de Sá - caravella Rozario - Antonio Pereira - na Boquica.

O capitam-mór foi ter a Anghediva, e Antonio Pereira a Ormus. Nestas naos mandou ElRei o titulo de vizo-rei ao governador D. João de Castro com tres annos mais de governança da India, e outras mercês.

1547

Francisco Barreto capitam-mor. Partiu em Novembro a 15 com tres vellas e estes capitães =

O capitam-mór - na náo Salvador Grangeira - Pero de Mesquita - em S.ta Catherina a Nova - D. Heitor Aranha - em S. Dinis.

(Leitura e anotações de Maria Hermínia Maldonado, obra publicada pela Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

Com esta relação, referente a 1547, assim se completa a descrição dos primeiros 50 anos de viagens da “Carreira da India”, desde a expedição pioneira de Vasco da Gama, em 1497-1498.

A obra a partir da qual foram extraídos estes excertos - publicação da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, numa edição de 1985, com tiragem de 1000 exemplares - prossegue a descrição das relações de viagens, que se realizaram ininterruptamente (e, pelo menos, com periodicidade anual), entre 1500 e 1653.

A partir de hoje, nas correspondentes ”datas-aniversárias”, aqui apresentarei a transcrição da Carta de Pêro Vaz de Caminha.

Leonel Vicente
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 14 set 2007 22:10

Ζωντανός! (Αποφάσισα να γράψω στα ελληνικά)

"O SEGREDO DA ÍNDIA"

“O Segredo da Índia – A Viagem de Vasco da Gama” (romance), de Jean-Jacques Antier, edição “A Esfera dos Livros”


“Vasco da Gama desprendeu-se das suas recordações. O rei D. Manuel pegava de cima de um móvel baixo num livro encadernado de couro fulvo.

– Isto é uma cópia do Imago Mundi, publicado em 1410 pelo cardeal Pedro d’Ailly, chanceler da Universidade de Paris. Confirma que a terra não é plana, mas esférica, o que já Aristóteles sugeria. O cardeal também faz caso das intuições similares de Ptolomeu, um texto introduzido no início do nosso século pelos venezianos. Aí se encontra até a medida do raio da Terra. As superfícies emersas ocupariam a maior parte, é lógico, já que Deus, diz a Bíblia, criou a Terra para os homens e não para os peixes. Resulta do cálculo dos nossos cartógrafos de Sagres que a distância entre o Cabo da Boa Esperança e a Índia deve ser curta. Alguns dias, quanto muito algumas semanas de mar com ventos favoráveis…

– Verdadeiramente, Senhor? Não consigo acreditar. O capitão Dias também não.

Sem repreender a impertinência, o rei designou-lhe o globo terrestre.

– É uma cópia da famosa esfera que Martim Behaim criou recentemente em Nuremberga. Apaixonado pelas viagens marítimas, este geógrafo, antes de ir para Nuremberga, praticou medicina na corte de Lisboa. Em parte, este globo inspira-se em Ptolomeu. Vede, capitão! Isto diz-vos alguma coisa?

Vasco inclinou-se sobre o globo. O olhar ardia-lhe de curiosidade.

– Senhor, Ptolomeu afirmava não haver passagem a sul de África entre o Atlântico e o Índico. Ora, o que aqui vejo…

– Bem visto, Vasco! Indo contra a opinião de Ptolomeu, Behaim, informado por viajantes venezianos familiarizados com navegadores árabes, abre o caminho a sul de África, o que é confirmado pela nossa Junta dos Matemáticos. Então, Dias não terá mentido? Terá feito a passagem? Mas por que não foi mais além?”

“Três caravelas e um abastecedor repleto de mantimentos para um ano: carnes e peixes salgados e fumados; vinho – Dão e Bairrada –, azeite virgem, manteiga salgada, mel das montanhas; muitos cereais, legumes secos, ervilhas e favas. Osso de choco em quantidade. Algumas barricas de vinagre, para nos preservar da peste, e um bidão de água benta da fonte sagrada da Nossa Senhora da Rocha, contra os feitiços.

– A São Gabriel é a nau capitania?

– Sim. Este três mastros tem uma arqueação de cento e vinte tonéis, do melhor que se faz na arte naval; um segredo bem guardado que nos invejam os espanhóis. Esta caravela recentemente lançada à água é comandada pelo capitão-mor da expedição, Vasco da Gama, que deves ter visto no tombadilho. É secundado por um marinheiro aguerrido, mestre Pêro de Alenquer, o melhor piloto de Portugal. Conhece a rota até ao Cabo da Boa Esperança, já que era o mestre-piloto de Bartolomeu Dias. A segunda caravela, a São Rafael, pauta-se por cem tonéis. Paulo da Gama, o irmão do capitão-mor, comanda-a. O seu piloto é João de Coimbra. A terceira nau, a Bérrio, do nome do seu antigo armador, fica-se pelos cinquenta tonéis, mas é a mais ligeira, a mais rápida, capaz de navegar sobre fundos baixos e de explorar costas e estuários. Capitão Nicolau Coelho. O abastecedor, o Camelo, com duzentos tonéis, é comandado por Gonçalo Nunes, um pirata arrependido. As quatro tripulações, todas intermutáveis, totalizam cento e cinquenta homens, incluindo os soldados. Não embarcamos nenhum passageiro.”

“O sol iluminava a praia dourada da enseada do Restelo, no estuário do Tejo, a jusante de Lisboa. Concentrada nas margens, a multidão compacta e silenciosa mantinha o olhar fixo na capela de Nossa Senhora de Belém, flanqueado por um pequeno ermitério, outrora edificado pelo Infante D. Henrique. Monges hieronimitas do mosteiro vizinho de Belém serviam-na, rezando exclusivamente para o sucesso das naus lançadas à descoberta das costas de África, e mais além.

O capitão-mor Vasco da Gama, o seu irmão Paulo da Gama e os seus oficiais tinham passado a noite em oração na capela. Quando a porta se abriu, um imenso arrepio percorreu a multidão, onde se empurravam as famílias dos marinheiros, amigos e uma quantidade de anónimos vindos de Lisboa e dos arredores. Vasco da Gama, magnífico sob a luz do sol de Verão, avançara, uma capa escarlate pelos ombros, levemente levantada ao nível da mão esquerda pela espada. Tinha vestido sobre o gibão e a camisa de seda uma cota de malha de couro entrançada, forrada a cetim carmesim, com franjas de ouro. O vento desgrenhava-lhe a cabeleira brilhante e negra de azeviche. Tinha na mão o boné de veludo com canutilhos de ouro.

Um cavaleiro avançou para ele, inteiramente vestido de veludo e de seda púrpura e ouro. Um novo arrepio percorreu a multidão. O rei! D. Manuel I desceu do cavalo e cumprimentou o capitão-mor, que se ajoelhara.

– Levantai-vos, Vasco da Gama, e pegai nestas informações confidenciais reunidas pelo meu primo D. João II. Eis também as minhas instruções secretas e a credenciais que entregareis aos soberanos e príncipes dos países que ireis descobrir. Procurai estabelecer alianças. Levai-lhes a paz, a prosperidade e a boa nova de Cristo ressuscitado.”

“– Sim, Pêro. Foi aí que tudo começou. Esse cabo rochoso de falésias negras e, por trás, esse outro cabo, o famoso Cabo de Sagres, qual frente de navio rasgando o mar, dura roda de proa da Europa de que somos a ponta extrema, abrindo-se para o oceano!

Sagres! Vasco da Gama revivia a descoberta de há quinze anos com o seu pai. O mestre piloto também vasculhava memórias antigas:

– Julgo ver errante a sombra do Infante D. Henrique, o Navegador.

– Conheceu-o, Pêro?

– Não tinha mais de treze anos quando ele morreu, mas sabia já tudo sobre essa personagem lendária, visionário de um mundo novo.

– Um estranho destino, Pêro! O terceiro filho de D. João I não sabia bem o que iria fazer da vida, já que não devia aceder ao trono de Portugal. A vida na corte entediava-o. Não sonhava senão com grandes espaços e descobertas. Os portugueses haviam transposto o estreito de Gibraltar, saltando para terras de África! O que empurrara o Infante D. Henrique para a sua sorte, sempre mais longe em terra estranha. Ao ocupar Ceuta, na margem africana do estreito, esse antro de piratas marroquinos que escumavam o Mediterrâneo ocidental, não desconfiava de que a sua vida iria soçobrar.

– Soçobrar é pouco, capitão!

– Em Ceuta, os portugueses, solidamente ancorados na sua cidadela, viram chegar de África caravanas pejadas de ouro, de marfim e de escravos negros. Outra revelação: interrogando os caravaneiros, o Infante D. Henrique ficou a saber de que deveria haver, a sul de África, nos confins desse imenso continente, uma passagem fazendo comunicar o Alântico com o grande oceano Índico.

– A Índia, capitão! O sonho acalentado há já dois séculos pelo relato de Marco Polo…

– Em vez de voltar para a corte de Lisboa, o Infante D. Henrique instalou-se em Sagres, por trás desse Cabo de São Vicente, onde fez construir uma residência fortificada entre terra e oceano, a vila do Infante. Aí, perto do porto de Lagos, o mais próximo de África, montou uma rede de informação interrogando marinheiros, escravos brancos evadidos e náufragos da costa africana. Graças aos melhores cartógrafos, traçou as primeiras rotas, as primeiras cartas de África, com os ventos e as correntes, as funduras, as aguadas.”


(... Continua)
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 14 set 2007 22:12

Ζωντανός! (Αποφάσισα να γράψω στα ελληνικά)

(... Continuação...)

“Pêro de Alenquer avançou, a sua barba grisalha apontava como uma ameaça. Esta rebelião, que lhe trazia terríveis memórias, abalava-o neste momento decisivo, em que precisava de todas as suas forças mentais para se concentrar na sua missão e nesta opção revolucionária: a volta!

– Faça-se silêncio, e oiça-se, através da minha, a voz de Bartolomeu Dias. É a conselho dele que iremos cumprir a volta!

[…]

– Para atingir o cabo, temos imperativamente de percorrer caminho ao largo sem mais demoras para beneficiar dos ventos portantes, os alísios de nordeste que sopram ao largo. Depois de um amplo laço, a volta, rumaremos de novo direitos ao sul. Depois, mudando de bordo, rumo a leste, transporemos a ponta de África, levados pelos ventos de oeste dominantes…

– Mas nunca ninguém a deu, essa volta!

– Seremos então os primeiros! As nossas naus, mais pesadas e mais sólidas que as de Dias, permitem-no.

[…]

Em pé na ponte superior do castelo de popa, o mestre piloto Pêro de Alenquer contemplava, fascinado, o mar alto que a roda de proa da caravela abria sob a vela cevadeira desfraldada. […]

– O oceano é como um grande corpo vivo. Desde a antiguidade, os médicos gregos compreenderam a importância do sangue, essa corrente vital, que vai e volta. Passa-se o mesmo no oceano. Essas correntes e esses ventos que sopram contra nós ao longo das costas de África têm de se voltar algures ao largo, para regressarem à sua origem. E é aí que os devemos procurar; é preciso ousar navegar no mar alto!

Confiante na experiência do seu mestre piloto, Vasco da Gama ousou assim o que nunca antes fenícios, normandos, venezianos ou árabes haviam ousado. A navegação de alto mar, a milhares de milhas de qualquer terra. Às clássicas descobertas, realizadas ao longo das costas sempre à vista, sucediam-se os descobrimentos, no sentido mais lato de termo: a navegação oceânica, à escala planetária. Meses a fio de navegação sem escala e sem qualquer referência além dos astros, meses de angústia e de terror. Era necessário a estes homens uma coragem inaudita para se arriscarem assim a cumprir esse laço fantástico, cinco mil milhas marítimas, baseando-se exclusivamente na intuição do genial mestre piloto Pêro de Alenquer. Mais do que uma evolução tornada possível pelo aperfeiçoamento da arquitectura naval: uma revolução nas mentalidades.”

“A 7 de Novembro, depois de oitenta e cinco dias de mar, um recorde, o vigia gritou da gávea:

– Terra! Terra mesmo em frente!

– Louvado seja Deus!

[…]

A terra da África do Sul estendia-se diante deles, baixa, verdejante, misteriosa, aparentemente deserta; mas a densa mata podia esconder mil perigos. Porém, aqueles que haviam julgado ter perdido tudo, acharam-na acolhedora. Vasco baptizou esta terra com o nome de Santa Helena.

[…]

Tinham acostado a menos de trinta léguas do Cabo da Boa Esperança, no ponto previsto pelo seu genial piloto. Um feito. Os homens amontoaram-se ao pé do castelo de popa, e aclamaram o capitão.

– Viva Vasco da Gama! Glória ao nosso capitão-mor!

E aqueles que gritavam mais alto eram os mesmos que mais o haviam vilipendiado.

Modestamente, Vasco da Gama designou o mestre piloto Pêro de Alenquer, seu amigo, que se lhe tinha juntado. Pegando-lhe na mão, ergueu-a e gritou com força:

– Eis o nosso guia e o nosso salvador!

As aclamações duplicaram! Num gesto espontâneo, que fizera com toda a sua alma, o piloto designou o céu.

– O nosso guia está lá em cima!”

“Depois da escala de Natal, a lenta subida da costa oriental de África começava. Lenta, porque os ventos continuavam obstinadamente contrários. As tripulações, que não tinham completamente ultrapassado a fadiga, manifestavam novamente a sua angústia. O facto de acompanhar uma costa selvagem que nenhum ocidental cristão abordara alimentava um sentimento de insegurança, que apenas alguns podiam compensar ao sentir a exaltação dos descobridores. Por sorte, nessa costa sul de Natal, os indígenas, os bantus, de grande envergadura, não se comportavam como os hotentotes do Cabo. Pacíficos e calorosos, partilharam voluntariamente com estes visitantes extraordinários a água, o peixe, a caça e os frutos de que se alimentavam.

A 4 de Janeiro de 1498, abordaram um estuário que baptizaram Rio do Cobre, porque os indígenas não usavam nenhuma roupagem além de jóias em cobre. O seu acolhimento foi tão amigável que Vasco da Gama resolveu fazer aqui uma longa escala para permitir que os seus homens mais atacados pelo escorbuto se pudessem refazer.

[…]

Depois desta paragem benéfica, prosseguiram a longa subida da costa, que se cobria de florestas sombrias enquanto o mar ia ganhando encantadores tons de esmeralda. Por causa de perigosos fundos de coral, a pequena Bérrio precedia as caravelas, sondando regularmente.

A 22 de Janeiro, descobriram um novo estuário, desta vez um verdadeiro rio, que os indígenas chamavam Zambeze.

“Vasco, que sentia cada vez mais pesar sobre si a sombra do capitão Dias, hesitou ainda. Reuniu os seus capitães e o mestre piloto, Pêro de Alenquer. Uma angústia surda esmagava os homens. Cabisbaixo, o capitão fez, friamente, a sua autocensura:

– Subestimei duas dificuldades maiores. O desconhecimento deste oceano, que se revela obstinadamente refractário para com aqueles que ignoram as suas leis. E a hostilidade das populações muçulmanas, que aumenta à medida das nossas reacções violentas. Quando tivermos esvaziado os nossos paióis de pólvora, estaremos à sua mercê.

Hesitou, soltando depois, numa voz surda:

– A menos que rumemos ao largo?

Com o olhar, interrogou o mestre piloto que ficou perturbado:

– Afinal de contas, não saberei aconselhá-lo a arriscar-se em pleno oceano sem um piloto familiarizado com estas costas e com o regime da monção. O risco é demasiado grande.

Vasco voltou-se para Ramos, que assistia à conversa.

– Onde encontrar nesta costa um piloto que não nos atraiçoe?

– Os pilotos estão nos portos, capitão. E portos não faltam, subindo para norte: Kilwa, Mombaça, Melinde, Mogadíscio. Mas todos os pilotos estão enfeudados aos árabes, aos turcos ou aos persas, que colonizaram este litoral, aí criando pequenos sultanatos teocráticos.

– Os ventos continuam a soprar de nordeste – retomou Pêro de Alenquer. – E as correntes também nos são contrárias. É difícil subir a costa. É, no entanto, a opinião que sugiro, até se encontrar um piloto de alto mar e água em abundância. Senão…

– Senão?

– Senão, será preciso abandonar a empresa e ordenar o regresso.

De novo, a sombra fatal de Bartolomeu Dias surgiu diante do capitão-mor. Sentia-se encurralado. O que podiam as suas tripulações esgotadas contra a coligação muçulmana dona destas costas? E que podiam eles contra este oceano cujas leis lhes eram desconhecidas, os seus ventos, as suas correntes? Via-se reproduzir a cena em que o capitão Dias renunciara. Mas ele, Vasco da Gama, possuía essa pugnacidade que nada detém. Mais as dificuldades aumentavam e mais ele se sentia ele próprio, o capitão-mor! A alta figura do rei D. Manuel I impôs-lhe. «Avança ao largo!» Com uma raiva contida, onde entrava um imenso orgulho, exclamou:

– Dar meia volta? Nunca! Antes morrer ao largo!”


(continua...)
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 14 set 2007 22:16

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(... Continuação...)

“O velho marabuto tinha dito a Vasco da Gama que encontraria no porto de Melinde bons pilotos susceptíveis de conduzi-los directamente a Calecute, centro de especiarias, sem se perderem ao longo de uma costa indiana que ostentava de norte a sul, ao longo de milhares de léguas, territórios mais ou menos desertos e, oh, quão perigosos! Podia confiar-se neles? Como não imaginar, mais uma vez, uma armadilha fatal montada pelos chefes árabes para sua perdição? O emir de Melinde já devia estar a par da vinda das caravelas de Cristo, devia consequentemente ter mobilizado as suas milícias para os neutralizar, uma palavra que podia esconder o pior.

[…]

Melinde, que alcançaram sem empecilhos, apresentava todas as características de uma cidade meio africana, meio oriental, soalheira, voluptuosa, refinada, ao mesmo tempo indolente e exuberante, rica ou miserável segundo os bairros. Aninhada no côncavo de uma baía harmoniosa, a cidade espraiava-se à beira-mar, oferecendo à vista um palácio, belas casas com andares, à sombra de palmeiras, tamareiras e coqueiros. Em toda a volta da cidade, estendia-se um imenso palmeiral produtor de óleo de coco e, mais além, culturas de milho, alimentação de base dos negros. Os árabes e os indianos, mais bem providos, possuíam hortas e pomares regados em abundância por canais que distribuíam a água límpida do rio Galana; uma água que era tida como a mais pura do mundo, já que o Galana tinha a sua nascente no monte Kilimanjaro, o tecto de África!”

“A 24 de Abril de 1498, a flotilha dos Arcanjos, devidamente abastecida, de cascos raspados e asfaltos renovado, bandeiras desfraldas e empavesada, zarpou de Melinde num estrondo de artilharia a que respondiam em terra centenas de trompas e trombetas, tambores e címbalos. Foguetes chineses, «a pólvora do céu», subiam para as nuvens, saudando a esperança de Vasco da Gama e do seu soberano: abrir o caminho da Índia ao Ocidente cristão, e assim mudar o mundo.

A 29 de Abril, depois de terem passado o Equador, reencontraram, com alívio, a Estrela Polar. […]

A 18 de Maio, ao fim de apenas vinte e três dias de mar, empurrados a grande velocidade pelo alísio de sudoeste, descobriam uma costa escarpada, que se estendia a perder de vista de norte a sul. O Mu’allim exclamou:

– A Índia, capitão! Eis o monte Dilly, o promontório sagrado do deus Shiva, a norte de Cananor!

Durante dois dias, acompanharam, rumo a sul, a costa de Malabar, cada vez mais montanhosa, com a cordilheira dos Gates ocidentais.

– A palavra Malabar, disse ainda o Mu’allim, significa «país das montanhas». Olhem para esta costa hostil, apenas acessível por alguns estuários. Nestas encostas aquecidas ao sol, cresce no estado selvagem a pimenta mais procurada do mundo! Cem mil pimenteiros desabando sob os grãos!

[…]

No domingo 20 de Maio de 1498, descobriram uma ampla baía dominada pelos montes Nilgiri. De pé, na ponte do castelo da popa, o Mu’allim voltou-se para Vasco da Gama, muito comovido:

– Meu senhor, está diante de Calecute, que se abriga a algumas léguas no fundo desta baía imensa.

– Chegámos, finalmente! – pensava Gama. E connosco, doravante, os cristãos do Ocidente. Abre-se uma nova era para o mundo.”


“O Segredo da Índia – A Viagem de Vasco da Gama” (romance), de Jean-Jacques Antier, edição “A Esfera dos Livros”
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 14 set 2007 22:43

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As Provas do Colombo Português


Traição na Casa Real


Conspiração Contra o Rei

D. João II (1455-1495) se era um mestre na diplomacia, foi também um mestre na arte da guerra, não recuando perante os poderosos.

Com apenas 16 anos participou na conquista de Arzila (1471), no norte de África, onde foi armado cavaleiro. Na constantes lutas contra Castela, em que se pai se envolveu, por questões de sucessão, participou na guerra contra os "reis católicos" - Fernando e Isabel. Em 1476, ainda príncipe, vence o rei Fernando na batalha de Toro (perto de Zamora).

- Centralização. Não recuou também perante a nobreza e os seus privilégios, quando iniciou um processo de centralização real, assente numa completa obediência ao monarca. D. João, ainda príncipe, em 1478 enfrentou as primeiras revoltas de nobres, centradas no Alentejo, onde muitos deles se recusaram a contribuir com mais dinheiro para o esforço de guerra com Castela (Guerra da Sucessão). Neste ano, D. Lopo de Vaz de Castelo Branco, monteiro-mor do reino e alcaide-mor de Moura proclama a sua obediência a Castela. D. João não tarda a mandá-lo matar. A seguir, em Serpa, o cavaleiro Álvaro Mendes Cerveira revolta-se e os seus bens são confiscados. A sua mão é pesada e nenhum traidor é poupado.

O principal foco de agitação vinha das perigo vinha contudo da própria Casa de Bragança, sediada em Vila Viçosa, onde 3º.Duque - D. Fernando - conspirava abertamente com os reis de Espanha.

- Conspiração Internacional. No espaço de dois anos ocorrem duas conspirações, apoiadas por Castela, destinadas a matar D. João II e colocarem no trono de Portugal um traidor:

a) Duque de Bragança.Os espiões de D. João II, em 1483, detectam uma conspiração do Marquês de Montemor-o-Novo e do Duque de Bragança destinada a matá-lo, apoiada pelos reis de Espanha. D. Fernando é preso a 30 de Maio de 1493 e executado, em Évora, a 20 de Junho deste ano. Dá-se então uma primeira fugas para Castela, Inglaterra e França.

b) Duque de Beja e Viseu. Em 1484, descobre-se uma nova conspiração desta vez dirigida por D. Diogo (1452?- 1484), 3º Duque de Beja e 4º de Viseu, que tinha igualmente o senhorio das ilhas atlânticas. Era filho do Infante D. Fernando, o irmão de D. Afonso V e da Infanta D. Beatriz. Foi Condestável do reino e governador da Ordem de Cristo. Era cunhado do rei. O plano era matá-lo, assim como ao príncipe herdeiro, colocando no trono D. Diogo. O rei foi informado a tempo da conspiração. Atraiu o cunhado à sede a Ordem de Santiago de Espada, em Palmela, onde o assassinou. Os acontecimentos geram uma nova vaga de mortes, prisões e fugas para o estrangeiro. Colombo foge para Espanha nesta segunda vaga.

Estes casos desonravam as respectivas famílias, fazendo acumular os ódios contra D. João II.

A Fuga para Espanha

Entre 1483 e 1484 fogem de Portugal muitos nobres, ligados à Casa de Bragança e às principais famílias do reino. A família de Colombo, assim como o próprio fazem o mesmo e de forma precipitada como escreve o seu filho Hernando Colón.

Alguns dos nobres e outros notáveis figuras que fogem para Castela:

- D. Alvaro de Bragança, irmão do 3ª.Duque de Bragança D. Fernando I. Era Chanceler do Reino. Fugiu para Castela em 1483, onde recebeu um enorme apoio da rainha Isabel, exercendo as funções de Governador da Justiça. Era parente de Colombo. O seu filho casou-se com a neta de Colombo, tendo dado origem à descendência actual dos Duques de Verágua.

D. Álvaro foi quem, em 1497, defendeu e negociou os privilégios de Colombo junto dos reis de Espanha, na cidade de Burgos.

- D. João de Bragança (c.1430-), era filho de D. Fernando I, Duque de Bragança e de Dª. Joana de Castro. Foi o 7º. Condestável do reino e marquês de Montemor-o-Novo, sobrinho de Colombo, fugiu para Castela em 1483, ficando a residir em Sevilha nos domínios do Duque de Medina Sindónia. Casou com Dona Isabel Henriques de Noronha, parente e protectora da família de Colombo. Não deixou descendência.

- Dona Isabel Henriques de Noronha (Isabel Enríquez, em Castelhano). Filha de Pedro Noronha, arcebispo de Lisboa e de Dona Branca Dias Perestrelo. Casou com D. João de Bragança, Condestável de Portugal. Em Espanha era conhecida por "marquesa de Portugal" ou "marquesa de Montemayor" (corrupção do nome português de marquesa de Montemor-o-Novo). Após se ter refugiado em Castela, em 1483, patrocinou as obras da Igreja de Santa Paula, em Sevilha, onde adquiriu os direitos de ser sepultada com toda a sua família na Capela Maior (1493). Fez trasladar para a mesma o corpo do seu irmão.

Foi um dos principais apoios de Colombo, em particular a matriarca do clã familiar - Dona Violante Perestrelo, sua tia.

- D. Afonso de Bragança, era filho de D. Fernando I, Duque de Bragança e de Dª. Joana de Castro. Foi o 1º. Conde de Faro e 2º. Conde de Odemira. Casou-se em 1460, com D. Maria de Noronha (1440-1523), 2ª condessa de Odemira. Era sobrinho de Colombo e fugiu para Castela em 1483, ficando a residir em Sevilha nos domínios do Duque de Medina Sindónia. Foi condenado à morte em Portugal.

- D. Lopo de Albuquerque, Conde de Penamacor, casado com a sobrinha de Colombo, foge também para Castela, em 1484, refugiando-se depois em Inglaterra. No estrangeiro usava o nome de "Pedro Nunes". Foi preso, em 1488, a mando de D. João II. O rei Henrique VII, de Inglaterra, encarcerou-o na Torre de Londres. A rainha Isabel de Espanha iniciou uma acção diplomática para a sua libertação. Em 1492 encontrava-se na cidade de Barcelona, tendo sido nomeado corregedor de Baeza e Ubeda. Após a sua morte, em 1494, o seu filho adoptivo - Diego Mendez - passa a ser o secretário de Colombo.

- Diego Mendez Segura, cujo padrasto era D. Lopo de Albuquerque, foge também para Espanha (1484). Foi o secretário vitalício de Colombo e do seu filho Diego. Usava também um nome falso.

- Filipe, Jaime e Dinis, filhos do 3º. Duque de Bragança, foram enviados para Castela, em 1483, na companhia dos seus tios. Esta fuga acaba por provocar o reforço da ligação entre a Casa de Bragança e a Casa dos Duques de Sidónia, um dos protectores do Colombo em Espanha.

- Fernão da Silveira, filho do barão de Alvito. Fugiu em 1484 para Castela e daí para França. Em 1489 foi morto em Avinhão (França).

- Isaac Abranavel. Judeu. Era intimo dos Duque de Bragança e em particular de D. Afonso de Bragança, 1ª. Conde de Faro. Fugiu para Espanha em 1483. Abranavel foi o 1º. judeu que se prontificou a financiar a 1ª. viagem de Colombo.

Três deles estiveram ligados à missão de Colombo em Espanha, colaborando activamente no logro que levou a efeito.

Argumentação dos Traidores

Os traidores que fogem para Espanha, afirmam aos "reis católicos" que pretendiam após matar D. João II, abolir os Tratados de Alcaçovas e Toledo.

Esta foi a argumentação que usaram para obterem protecção dos monarcas espanhóis, como recompensa obtiveram elevados cargos na corte.

Colombo e os seus familiares terão usado a mesma argumentação ? O certo é que a partir de Janeiro de 1486, passou a receber dinheiro da rainha Isabel de Castela. Foi-lhe dado por pertencer à Alta Nobreza Portuguesa ? Por passar a apoiar a causa de Castela ? Por andar a estudar uma maneira de contornar o Tratado de Alcaçovas-Toledo ? Nada sabemos de concreto.

A única coisa que sabemos com segurança é que se dirigiu para casa de um aliado do rei de Portugal - o Duque de Medina Sidonia- em Palos, onde já se encontrava a sua cunhada vinda de Portugal e um frade português (João Peres Marchena).

Regresso e Ocultação

Após a morte de D. João II por envenenamento, em 1495, D. Manuel I irá procurar criar as condições para o regresso a Portugal destes conspiradores (1497). Começa então uma acção sistemática de ocultação dos acontecimentos e dos conspiradores de 1492 a 1494. Os cronistas do reino, como veremos, serão censurados. Damião de Góis pagou no século XVI com a própria vida, o facto de ter procurado levantar o véu desta traição.

A principal preocupação foi em ocultar tudo o que dissesse respeito à Casa de Bragança, e que dissesse respeito ao nobres que fugiram para Espanha em 1483-84, nomeadamente D. Jaime (1479 -1532). Este filho do 3.º duque, D. Fernando II, havia regressado a Portugal em 1497. Por morte do seu irmão D.Filipe herdou o título de Duque de Bragança ( 4º). D. Manuel nomeado-o fronteiro-mor de todas as terras e restituiu-lhe todos os títulos. Em 1498 é apontado como o herdeiro do trono de Portugal.

Selando o compromissos que haviam sido estabelecidos com os Duques de Medina Sidónia com a Casa de Bragança, em 1502, casou com D. Leonor de Mendonça, filha de D. João de Gusmão, 3.º duque de Medina Sidónia e de D. Isabel de Velasco. Num acesso de ciúme matou D.Leonor, a 2/11/1512, no passo de Vila Viçosa.

A traição de 1492/3 e a morte da Duquesa em 1512 mostravam os enormes as enormes perturbações que ocorriam na Casa Real Portuguesa. Foi tudo isto que os cronistas foram obrigados a ocultar.

Recorde-se que Colombo foi protegido em Espanha pelo Duque de Medina Sidónia e a linha da sua descendência que herdou os seus títulos ligou-se, por casamento, a familiares directos da Casa de Bragança !

Carlos Fontes
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 14 set 2007 23:03

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Povo sem geo-memória só pode gerar país sem futuro


Henrique o Navegador, o maior estratego europeu de todos os tempos


Sobre os “Grandes Portugueses” é, de facto, um espelho do povo sem memória histórica de dimensão global que somos hoje.

No sítio certo

No debate da RTP1 ocorrido no Palácio de Queluz, apenas Fernando Nobre, o presidente da Assistência Médica Internacional (AMI), colocou a questão no sítio certo: os grandes portugueses deveriam ser “achados” entre os que tiveram geo-impacto, nos que “deram Mundos ao Mundo”.

E, nesse campo, há um que sobressai: Henrique, o Navegador, indiscutivelmente o maior estratego europeu de todos os tempos. Um activo da nossa História que tem sido malbaratado.

Quem olhe para as consequências das grandes decisões geo-políticas tomadas na Europa, e olhando para os mapas dos grandes impérios, verifica que a visão e projecção de poder iniciada pelo princípe Henrique (entre 1415 e 1460) geraria uma geografia de potênca global que ultrapassou as dimensões do império Alexandrino (euro-asiático) no século IV a.C., do Império Romano (em torno da Bacia do Mediterrâneo, no século II), das tentativas continentais europeias ao longo de vários séculos, até ao Império britânico a partir do séc. XVIII - o único, que, “copiando” o modelo português se tornou o mais global de todos os tempos. No seu ponto auge, o britânico rivalizava em massa continental com o Mongol (século XIII) e o Russo (século XIX-XX), mas tinha uma vantagem “competitiva”, herdada da lição portuguesa: a sua projecção global e a sua mobilidade.

A figura do princípe Henrique, o Navegador, foi apagada - injustamente - pela historiografia oficial, face a um monarca posterior: João II (reinou entre 1481 e 1495).

A questão “henriquina”

No entanto - perdoe-se a expressão -, João II foi um “follower” em relação ao seu tio Henrique.

Foi o Infante, o estratego que:

a) se revelou com o jogo de cintura e espírito de sobrevivência política, durante quase 50 anos, para dar a cara pela visão globalista; provavelmente um típico “survivor”, manhoso, bem português;

b) reuniu o talento (mesmo que esteja por provar a existência física da famosa “Escola de Sagres”) através de um processo que hoje chamaríamos de gestão do conhecimento e de deslocalização da plataforma de lançamento de iniciativas para o Sul, para Lagos (sendo ele governador do Algarve);

c) e dirigiu a saída para o Atlântico (muito para além da estratégia estreita e maniqueísta anti-muçulmana, das políticas ditas “marroquinas” em que ele próprio começara por estar envolvido, inclusive no desastre de Tânger em 1437) durante três reinados (João I, seu pai, Duarte, seu irmão primogénito, e Afonso V, seu sobrinho) e uma regência (Pedro, seu irmão, que viria a ser morto por Afonso V).

Contudo, até o próprio “africanismo anti-muçulmano” do Infante é muito distinto do carácter de loucura religiosa (ou fé, como se queira) que muitos lhe colam ou que poderá ter dominado o seu sobrinho Afonso V (alcunhado, “O Africano”).

A tomada de Ceuta em 1415 correspondeu ao objectivo estratégico de tomar o “ferrolho” do Mediterrâneo, metendo uma “portagem” política nas rotas do comércio italiano e árabe da época. E as expedições, pirataria de costa e saques e banditismo na costa africana pretendiam controlar as rotas árabes de comércio.

O intento tinha rigorosamente nada de divino - era da mais pura estratégia de projecção com vista à hegemonia das rotas comerciais da época e do poder geopolítico que daí advinha.

Para o comum dos mortais, Henrique é o tal fulano com um chapéu preto estranho e parodiado com os seus ‘tiques’ por Herman José nas ‘Entrevistas Históricas’ na RTP.

E é, também, certo que, à frente da chamada Ordem de Cristo (uma recrismação da antiga Ordem dos Templários), foi provavelmente um dos primeiros patronos negreiros da Europa, arrancando com o ignóbil comércio de africanos negros.

Mas é lamentável que hoje se assista ao seu quase-desaparecimento da nossa memória.

Conhece-se a opinião do historiador A. H. de Oliveira Marques (em Breve História de Portugal) ou de Martin Page (em The First Global Village) de que se criaram alguns mitos em torno do Infante - o que é verdade. Particularmente no tempo da ditadura salazarista reescreveu-se a história, “santificando” e endeusando o personagem.

As iniciativas marítimas, naquele período inicial, não obedeciam a um plano “centralizado”, e por isso gente muito diversa organizava expedições, não continuadas, nem sistematicamente orientadas.

Henrique teria, apenas, tomado a iniciativa de 1/3 delas, e tê-lo-ía feito fortemente “empurrado” pela rentabilização política e económica da Ordem de Cristo que liderava desde 1420.

Mas a partir de 1443, o Infante passara a ter o monopólio de todo o comércio na costa africana a sul do cabo Bojador (ouro, o ignóbil tráfico de escravos e tudo o resto), bem como a prerrogativa de autorizar as expedições de terceiros, pela qual cobrava 1/5 dos espólios conseguidos.

Henrique, também, seria menos cosmopolita, em contraste com seu irmão Pedro, duque de Coimbra (que viria a ser regente do reino por um curto período), que visitara diversas cortes europeias entre 1425 e 1428. Henrique nunca colocou um pé fora para além das “cruzadas” em Marrocos.

Contudo, a ele se devem expedições decisivas, como a da passagem do Bojador (1434) ou, mais tarde, a chegada à Costa da Guiné (1456). Estas movimentações marcaram um ponto de viragem na projecção global portuguesa. Também a transformação da Madeira em plataforma de colonização e como placa giratória estratégica, onde se criaria uma inovação geopolítica de administração colonial, se devem à iniciativa do Infante.

Foi no período “henriquino” que a primeira vaga de inovações tecnológicas aplicadas à projecção global ocorreu: a caravela (1420) e a balestilha (1440).

O monarca da segunda vaga

João II, sobrinho de Henrique, decretou o “Mare Clausum” (Mar fechado, em 1480) e depois negociou o Tratado de Tordesilhas (1494). O monarca liderou a segunda vaga de inovações tecnológicas com influência na marinharia e na projecção de poder global - foi o período em que a nau (1490) substituiu a caravela.

O monarca foi muito bem acompanhado pelo que alguns chamaram de “Junta dos Cosmógrafos”, mais um “pool” de talento na tal lógica de gestão do conhecimento.

Foi, também, João II que alimentou o mito medieval do “Preste João das Índias” (os historiadores dizem que nada teria a ver com a Índia propriamente dita, mas com a Etiópia) que serviria de isco para o novo caminho marítimo pelo Atlântico.

Assim, sob as ordens de João II, Bartolomeu Dias dobrou em 1488 o famoso Cabo das Tormentas (ou da Boa Esperança, na ponta meridional de África, onde hoje é a cidade do Cabo, na África do Sul) - o que abriria, finalmente, as portas do Índico.

O mesmo rei que, no entanto, recusou o projecto de Cristovão Colombo (Cristóbal Colón, para os castelhanos, Cristoforo Colombo, para os italianos, Cristòfor Colom, para os catalães, consoante as várias reivindicações).

Envolto em muita polémica sobre a sua nacionalidade (até Cuba, no Alentejo, reclama, agora, o seu berço), os ziguezagues do navegador (que casou em Porto Santo e aí estudou os mares) e as manhas do próprio monarca português, alguns historiadores consideram esta negativa de João II um erro estratégico clamoroso, que daria uma janela de oportunidade a Castela para marcar um ponto no mapa mundo a partir de 1492.

É, de qualquer forma, historicamente falso dar a Colombo os louros da globalização, como o faz, por exemplo, Alex MacGillivray, em “A Brief History of Globalization”. Castela foi um “follower” e não uma potência inovadora.

Condição periférica virou vantagem

O alcance do que Henrique, o Navegador, e João II lideraram pode ser percebido se tivermos em conta o que era Portugal no século XIV e no início do século XV - um pequeno país periférico na ponta ocidental de um continente dominado por vários impérios e estados com projecção europeia ou mesmo internacional.

A Europa era então palco de uma disputa entre dois Papados (o de Roma e o de Avignon), de uma Guerra que duraria mais de Cem Anos (iniciada em 1338) entre ingleses e franceses e pelo desgaste da hegemonia do comércio global exercida pelas Repúblicas Marítimas italianas (primeiro Génova no Mar Mediterrâneo e depois Veneza no Mar Adriático).

As lideranças portuguesas daquela época tiveram a sagacidade estratégica de aproveitar a confusão europeia continental e de, na sombra, sair para fora desse terreno minado. Foi uma das ocasiões históricas em que a condição periférica se tornou vantagem estratégica, permitindo iniciar um novo jogo e criar novas regras “out of the box” (fora do tabuleiro da época).

Não se trata de uma avalição moral ou ética sobre estes dois personagens - um infante pioneiro no ignóbil negreirismo europeu, e ávido de encher os cofres da Ordem que liderava, e um monarca tirano brutal.

Mas sobre o impacto das suas decisões estratégicas.

Continuará em Grandes Portugueses II: De Manuel I ao enterro do projecto global filipino.

Paulo Buchinho
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 14 set 2007 23:08

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Grandes Portugueses - II

Por JNR na secção Globalização



Deixem-me passar 150 anos a correr: do Rinoceronte de Manuel I ao enterro do Projecto Global filipino

João II morreria em 1495 – antes das viagens memoráveis de Vasco da Gama (chega a Calecute, Índia, em 1498) e Pedro Álvares Cabral (“achamento” da costa brasileira em 1500), de que é lamentável não existirem filmes de impacto internacional como o que foi feito sobre Colombo (“Christopher Columbus”, 1985, realizado pelo italiano Alberto Lattuada).

Da fortuna ao «overstretch»

O monarca que tirou glória e proveito das duas primeiras vagas dos “Descobrimentos” foi o primo de João II, o monarca Manuel I (reinou de 1495 a 1521), a quem ficou colado o tal “estilo manuelino” (vale a pena uma escapadinha cá dentro - http://pt.wikipedia.org/wiki/Estilo_manuelino), uma exuberante embaixada (1513) a Leão X, o Papa da época, onde se deveria ter passeado um rinoceronte trazido da Índia (mas que se afundou com o barco onde ía)*, uma moeda de ouro chamada de “portugueses”, e uma Lisboa com 100 mil habitantes (10% da população do país), dos quais 10 mil escravos e 7000 estrangeiros, diz-se. A propósito o cognominaram de “afortunado”. [*O que não impediu Albrecht Durer de fazer uma xilogravura desenhando-o com base no que ouvira contar.]

Foi na época deste monarca que surgiu o galeão (1510) e apareceu o “Livro de Marinharia” (1514), um dos primeiros repositórios do conhecimento náutico lusitano.

Mas Manuel I acabaria indo na conversa de Afonso de Albuquerque, o 2º Vice-Rei da Índia (a partir de 1509), e optou pela estratégia do famoso “Império Português do Oriente”, contra a opinião de Francisco de Almeida, o 1º Vice-Rei, que defendia o princípio do domínio dos mares e da projecção de poder através da mobilidade.

Apesar da conclusão da primeira rede mundial de pontos estratégicos de projecção de poder ao longo das costas africanas, indianas e no Extremo Oriente, o “albuquerquismo” conduziria rapidamente ao que hoje se designa pela maleita do «overstretch» (um conceito divulgado por Paul Kennedy no seu livro The Rise and Fall of the Great Powers). Traduzido por miúdos, servem os ditados portugueses de “grande nau, grande tormenta” ou “mais olhos do que barriga”.

É claro que Albuquerque tinha um argumento de peso (no sentido literal do termo): o monopólio régio, da coroa, do comércio internacional (a famosa Casa da Índia).

Havia-se concluído uma deslocação colossal de poder económico: Lisboa passava a ser a metrópole do comercio global com a mudança do eixo geoestratégico do Mediterrâneo (e das Repúblicas italianas) para o Atlântico.

Mas, logo aqui, a maldita lei da vantagem “comparativa” nos matou: a famosa Feitoria da Flandres, fundada por João I em Bruges e que depois passaria para Antuérpia, acumularia um enorme défice em relação aos clientes/fornecedores flamengos, alemães e italianos, a tal ponto que João III a extinguiu.

Ou seja importávamos produtos de maior valor acrescentado e exportávamos «commodities» cujos preços paradoxalemente quebraram (para cerca de 1/5), fruto, precisamente, da nossa descoberta das novas rotas marítimas. [David Ricardo, o economista inglês filho de judeus de origem portuguesa, haveria de teorizar esta nossa “sina” geoeconómica no século XVIII e XIX. Pois é, a maleita é coisa antiga!!!]

João III traria em 1536 a Inquisição (Santo Ofício assim se chamava a associação de malfeitores) para Portugal e convidaria os Jesuítas de Inácio de Loyola a se estabelecerem no país em 1540 (a 1ª Casa da Companhia de Jesus seria fundada em 1542).

As duas opções ideológicas ajudariam ainda mais na nossa sina de uma medíocre vantagem “comparativa”: impediu a entrada das ideias protestantes (Martinho Lutero e as suas “95 teses” em 1517; depois João Calvino e as suas obras de 1536 a 1542) que, diz a vulgata de Max Weber, então, na Europa se associariam ao “espírito do capitalismo”.

Foi no tempo de João III, também, que o imperador Carlos V, que dominava Castela e Aragão, contratou o português Fernão de Magalhães para o que viria a ser a primeira viagem de circumnavegação do mundo (1519), concluída em 1522 por Sebastião del Cano. Portugal perdeu essa “première”.

O golpe de misericórdia no globalismo português não se faria esperar.

Sebastião, feito rei aos 3 anos de idade (em 1557), e tomando as rédeas do poder ainda «teenager» de 14 anos (1568), voltaria à estratégia liquidacionista das “políticas marroquinas” de Afonso V e acabaria sem glória nas areias de Alcácer Quibir em 4 de Agosto de 1578 com mais 9000 mortos por perto.

O ciclo português de primeira potência global durara mais de 150 anos.
O projecto fracassado dos Filipes

Fala-se que Filipe II – o primeiro da dinastia espanhola que governaria Portugal entre 1581 e 1640, pelo que na História portuguesa ficou designado como Filipe I – teria ainda idealizado o projecto de Lisboa (consta que ele passaria grande tempo pela cidade do Tejo) como capital global de um vasto império de além-mar saído da “fusão”.

Filipe II foi, também, o primeiro rei formal da “Espanha” (até ali era uma aliança entre Castela e Aragão), um projecto de potência europeia (além da Península, dominava boa parte da Itália e dos Países Baixos, no espaço que é hoje formado pela Bélgica e Holanda) e global (um império “em que o sol nunca se punha”, desde as Américas à Ásia), um desejo e um mito que duraria, no entanto, pouco mais de sessenta anos.

Os Filipes envolveram-se nas disputas hegemónicas europeias e acabariam por ser derrotados na sua mania de invencíveis logo em 1588 quando a Grande y Felicíssima Armada apanhou uma tareia dos ingleses e do temporal.

Mais tarde, metidos até ao pescoço na Guerra dos Trinta Anos (de 1618 até à Paz de Vestafalia em 1648) e no esmagamento da Catalunha (que o francês Richelieu instigara contra Madrid), acabariam por dar uma aberta aos portugueses (1640) e perderiam, definitivamente, a parte norte dos Países Baixos (desde a criação da União de Utreque em 1579, até que Espanha reconheceu a independência das Províncias Unidas da Holanda em 1648).

Em 1608, um jurista holandês, Hugo Grocio, teorizou a doutrina do “Mare Liberum” – o princípio da liberdade de navegação - que poria fim à doutrina portuguesa do “Mare Clausum” e ao Tratado de Tordesilhas.

Com as trapalhadas em que se meteram os Filipes, o domínio das rotas do Oriente passou paulatinamente para as Companhias das Índias Orientais da Inglaterra (East India Company, criada por Isabel I, em 1600) e da Holanda (VOC, criada em 1602). Holandeses, ingleses (que designariam então o seu “Império das Índias”) e franceses lançaram-se por todo o lado na conquista de posições outrora portuguesas no Brasil, em África e na Ásia, algumas das quais se retomariam depois de 1640.

Finalmente, com o desgraçado do monarca Carlos II, a Espanha entraria em colapso.

Da confusão europeia, emergia a Holanda como potência global no final do século XVII. Provavelmente um dos sinais deste facto foi, particularmente, sentido pelos portugueses, que foram corridos do ponto estratégico de Malaca em 1641. Em 1688, Guilherme III de Orange e Nassau, o governador (designado por stadholder) da Holanda, ascendia ao trono de Inglaterra, Escócia e Irlanda, em virtude de uma história rocambolesca que não vem aqui ao caso, excelentemente retratada numa série inglesa de televisão.

A aliança anglo-holandesa serviria aos Ingleses para emergirem na sombra ao longo de setenta anos.
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 16 set 2007 14:45

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Exploração e comercio das riquezas dos novos mundos foram tremendamente mal organizadas pelo estado português.

Ao contrário de Holandeses, Franceses e os "amigos" Ingleses, não tínhamos (não criamos) um serviço bem organizado. Tudo estava nas mãos do nosso rei, ao contrário dos restantes que cederam a exploração à iniciativa privada, tendo estes que pagar os impostos respectivos, que eram amealhados pela respectiva coroa (estado), sem mais investimentos que o patrulhamento dos mares, com vista á caça de corsários.

O nosso sistema gerou uma dinâmica de corrupção que inviabilizou a exploração verdadeiramente lucrativa para o país. Muitos dos navios afundavam-se, por transportarem excesso de carga. Como o produto era pertença do rei, o capitão carregava à socapa a sua parte, outros faziam o mesmo, resultava que o navio partia do porto com excesso de carga. À mais pequena alteração de mar, afundava-se. Não era por acaso que Portugal tinha uma taxa de perda de navios muito superior aos seus parceiros europeus!

O número de navios que tínhamos a navegar era tremendamente reduzido, quando comparado com o holandês (ainda hoje temos mais população que os holandeses).

Imagem
Nota: As embarcações espanholas não aparecem neste quadro, porque o seu comercio marítimo fazia-se com a América. Os espanhóis nunca mostraram grande interesse pelas "índias".

"Adoptando – desde os primórdios da “Carreira da Índia” – um “padrão-base”, os navios partiam do Tejo geralmente entre o início de Março e meados de Abril, de forma a assegurar a passagem do Cabo da Boa Esperança até ao mês de Julho, visando beneficiar dos ventos da monção de sudoeste da costa oriental de África, mais propícios em Agosto/Setembro, compreendendo esta rota as seguintes “etapas” essenciais:
- uma primeira, de Lisboa a Cabo Verde, em “linha recta”, com boas condições de navegação, ainda com aprovisionamentos frescos;
- seguia-se uma fase complexa, a da travessia das calmas águas equatoriais, que levava por vezes a que os navios permanecessem sem avançar durante semanas, submetidos a um calor tórrido, que contribuía decisivamente para a deterioração dos alimentos a bordo;
- iniciava-se então, numa inflexão para sudoeste, a “volta do mar”, uma rota em arco, visando contornar os ventos alísios do Atlântico Sul, aproximando-se mesmo da costa brasileira, a sul do Cabo de Santo Agostinho;
- a partir daí, navegando para sueste, em direcção ao Cabo da Boa Esperança, aproximando-se às ilhas de Tristão da Cunha, antes de vencer o “Adamastor”, numa dobragem do Cabo, que tantos naufrágios provocaria;
- dobrado o “Cabo das Tormentas”, então já da “Boa Esperança”, o que deveria ocorrer até Julho – e, depois de escala em Moçambique –, a segunda parte da viagem era efectuada “por dentro”, pelo canal de Moçambique, entre a costa africana e a ilha de Madagáscar (então denominada de S. Lourenço) – caso houvesse atrasos, seria necessário adoptar a rota “por fora”, a leste de Madagáscar, através do Índico Central (sem possibilidade de escalas);
- depois de passar pelas ilhas Comoros, a norte de Madagáscar, o percurso, numa inflexão para nordeste, era novamente em “linha recta”, até à Índia (portos de Goa ou Cochim), também já com vento a favor (embora com os perigos decorrentes de baixios e rochedos inicialmente mal conhecidos), onde as expedições chegavam normalmente em Agosto/Setembro.

O regresso (“[i]tornaviagem”), tinha como data ideal de partida o final do mês de Dezembro – após cerca de 3 meses de escala na Índia –, começando por rumar à costa da Somália, atravessando (em sentido inverso ao da ida), o canal de Moçambique (também nesta situação, em caso de atrasos, tinha que ser adoptada a rota “por fora”, com opção pela “carreira velha” ou pela “carreira nova”). Dobrado o Cabo da Boa Esperança, os navios beneficiavam dos ventos favoráveis, rumando a Cabo Verde, passando ao largo ou fazendo escala em Santa Helena e nas ilhas Ascensão (principalmente para fazer “aguada”, ou seja, o reabastecimento em água potável). Em Cabo Verde iniciavam nova “volta ao largo”, em arco, rumo aos Açores, a partir de onde se dirigiam então, numa etapa final, praticamente em “linha recta”, para Lisboa, onde chegavam geralmente em Julho.


“Carreira da Índia” foi a designação atribuída à ligação marítima entre Lisboa e os portos da Índia (Cochim e Goa), a qual – após a viagem precursora de Vasco da Gama em 1497/1498, ligando, pela primeira vez na história da Cristandade, a Europa Ocidental e a Ásia – perdurou durante mais de três séculos (até à centúria de 1800, final da era dos grandes veleiros), constituindo-se na maior e mais prolongada rota de navegação à vela.
Sendo a sua motivação – logo desde a expedição inaugural – a de “buscar
cristãos e especiarias”, ou seja, fundamentos de ordem espiritual e comercial, não isentos de riscos, as primeiras missões tiveram também objectivos político-militares.


Com a duração média de cerca de 15 meses para uma “carreira redonda” (viagem de ida e volta), partindo de Lisboa geralmente em Março, e regressando em Junho/Julho do ano seguinte – [i]na expedição pioneira, Vasco da Gama partiu a 8 de Julho, demorando cerca de dois anos na viagem de ida e regresso – estas viagens, que se realizaram com periodicidade pelo menos anual a partir de 1500 (começando com uma média de cerca de 15 navios na primeira década, reduzindo-se a cerca de 8 a 10 nas três décadas seguintes, limitando-se depois a apenas 5 ou 6 navios), caracterizar-se-iam por significativas perdas humanas, por via de doenças (devido às pobres condições higiénico-sanitárias e à deficiente alimentação), naufrágios (atingindo – considerado o trajecto de ida e volta – quase cerca de 20 % das embarcações), e ataques de piratas e corsários (em particular, nas escalas efectuadas para reabastecimento).

Também a acção evangelizadora no terreno, desenvolvida por missionários que seguiam integrados nas expedições, depararia com fortes resistências.

Por seu lado, na vertente comercial, seria igualmente necessário garantir meios operacionais e pontos de apoio, os quais, em boa parte, se encontravam então já tomados.

Atravessando várias idades do império colonial português, assinalando a sua época mais áurea, o declínio da também denominada “Rota do Cabo” iniciar-se-ia a partir do final do século XVI, quando, em 1595, partiu a primeira armada holandesa ao Oriente, visando comerciar directamente as especiarias – em particular a pimenta – de que os portugueses detinham uma posição de monopólio (em termos de comércio por via marítima) desde há cerca de um século.
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 16 set 2007 14:53

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Territórios controlados


O Império português incluía, entre outros os seguintes postos:

- África Ocidental, a importante feitoria de S. Jorge da Mina, os arquipélagos de Cabo Verde e de S. Tomé e Príncipe. Em Angola a cidade de S. Paulo de Luanda e, na África Oriental Sofala, a ilha de Moçambique e Mombaça ;

- América do Sul: o território do Brasil, dependente de Angola para o abastecimento de mão-de-obra escrava ;

- Ásia: Ormuz (fortaleza estratégica, à entrada do Golfo Pérsico), Índia (Goa, Cochim), ilhas do arquipélago indonésio (Molucas, Timor e outras), Macau (às portas da China) e uma importante presença portuguesa no Japão (Nagasáqui).

As dificuldades do Império

A manutenção do domínio do comércio marítimo não se fez sem dificuldades. Enumeramos algumas das mais importantes :

- Os ataques de corsários e de piratas;

- Os naufrágios;

- A reabertura das Rotas do Levante (a partir da segunda metade do séc. XVI);


- Os ataques de Franceses, Holandeses e Ingleses contra os navios e os domínios portugueses;

- A ostentação de luxo e de riquezas das classes dirigentes portuguesas, em detrimento do trabalho produtivo. Os reis de Portugal eram obrigados a endividar-se junto de grandes banqueiros europeus pagando juros elevados pelos empréstimos contraídos. *


PORTUGAL NA EUROPA DO SEU TEMPO (SÉCS. XVI-XVII)

Apesar da concorrência de outros países, Portugal manteve-se como uma importante potência comercial. À medida que a situação se foi agravando no Oriente - devido à má organização e aos ataques estrangeiros - Portugal virou-se para o Atlântico, ainda no séc. XVI, sobretudo para S. Tomé e Príncipe e para o Brasil. O séc. XVII representou para Portugal um novo período de prosperidade, graças ao desenvolvimento deste território sul-americano. No Nordeste Brasileiro as plantações de cana-de-açúcar (desenvolvidas graças à mão-de-obra escrava vinda de Angola, em boa parte) asseguraram uma importante produção deste artigo que era exportado para a Europa. Entretanto, expedições organizadas no Brasil iam penetrando para o interior à procura de minas de ouro e de pedras preciosas e explorando e conhecendo o território. Eram as chamadas bandeiras e os seus membros bandeirantes que muito contribuíram para o alargamento territorial do Brasil. Mas as minas de ouro e de diamantes só foram descobertas já no fim do séc. XVII, tendo a produção sido notável durante o reinado de D. João V (1ª metade do séc. XVIII).

Sublinhe-se que era graças ao Brasil que Portugal participava activamente no Comércio Triangular do Atlântico.

Note-se também que durante a Guerra da Restauração (1640-1668) os Portugueses do Brasil desempenharam um importante papel pela conquista de Angola aos Holandeses e ainda pela completa expulsão destes do território brasileiro. Nas lutas contra os Holandeses – lembramos as batalhas de Tabocas (1645) e as duas batalhas dos Guararapes (1648 e 1649) - terá nascido aqui a origem do sentimento nacional brasileiro que levou muito mais tarde à proclamação da independência (1822).

* Algumas das peças teatrais de Gil Vicente satirizam mordazmente estas situações.
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AlfaLima

Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor AlfaLima » 18 set 2007 23:27

O Infante D. Pedro


Irmão de D. Duarte e filho de D. João I, D. Pedro é, no plano da filosofia, o segundo pilar da Ínclita Geração, tendo ambos servido, sobretudo desde Oliveira Martins, para simbolizar os dramas de alternativa da nossa história. O Infante D. Pedro tem sido nomeado, com justiça aliás, como representante do cosmopolitismo e do Portugal moderno, oposto ao sedentarismo e ao espírito mais cavaleiresco de seu irmão. Viajante ilustrado pelos mais reputados centros universitários da Europa culta do século XV, ninguém mais do que ele pugnou pela abertura do país à dinâmica cultural europeia, sublinhando a cultura como a mais importante fonte da grandeza das nações. Entre as suas obras mais relevantes contam-se o Livro da Virtuosa Benfeitoria (escrito pelo seu confessor Frei João Verba, com base em texto inicial do Infante) e a Carta de Bruges, que aqui analisaremos em traços sucintos.

O primeiro aspecto a sublinhar é o de que, apesar da moldura modernizante com que tem sido lido, a sua mundividência é essencialmente medieval, bebendo nas grandes fontes da filosofia cristã de S. Paulo a S. Tomás de Aquino, passando por Sto. Agostinho e pelo Dionísio Areopagita, sem ignorar as fontes da cultura clássica como Platão, Aristóteles e sobretudo Séneca, que lhe deu o substrato mais relevante da sua filosofia moral.

Um dos tópicos salientes do seu pensamento assenta no conceito de grau ou hierarquia dos entes, correspondendo a uma ordem emanada da inteligência divina, mediante a qual a providência governa o mundo, esquema de vincada coloração neoplatónica.

Este é o eixo em torno do qual gira o conceito de benfeitoria. De facto, cada grau apresenta-se com uma determinada carência de ser, «pois que do ser eternal é sempre minguado», carência que se determina pelos diferentes níveis de participação na perfeição do Ser eterno, pois que se as perfeições pertencem a Deus por essência, as criaturas possuem-nas somente por participação, não deixando os homens de participar nesse estado geral de carência, tornando-os necessitados de socorro, logo, de benefício.

Define-se assim uma cadeia de colaboração e de ajuda entre os homens cuja base radica no amor que as criaturas naturalmente se devem e que por isso assume uma coloração vincadamente ética. Para o Infante, a essência do benefício, a sua causa formal, é a intenção de ajudar o próximo, tendo a sua raiz no querer da vontade, a qual «apenas se move a fazer cousa se ela for ou parecer boa». Assim, regressamos ao ponto inicial, pois entende o autor que Deus outorga participação da sua bondade a cada um segundo a sua própria natureza, pelo que a vontade humana não somente recebe de Deus perfeição para ser boa, mas também para fazer o bem. Repare-se que a referência ao facto de a vontade apenas se mover para fazer o que é bom ou parece bom, participa da perspectiva agostiniana do mal como privação, tema amplamente desenvolvido também por Dionísio Areopagita, no Tratado dos Nomes Divinos: o mal é uma ausência ou carência de bem, não sendo por isso um princípio ou uma potência.

Este tema do benefício e da entreajuda humana no quadro da sua existência social apresenta também uma vertente marcadamente política, pois são os poderosos que mais condições têm para praticar o benefício livre e voluntário, contribuindo para uma sociedade na qual as relações entre os homens não assentam apenas num plano jurídico mas também vincadamente paternalista, onde se evoca uma atmosfera familiar de fraternidade.

Reflecte por isso o Infante sobre as desigualdades sociais entre os homens, a par da sua identidade de natureza, para explicar a origem do domínio político como uma necessidade inerente à natureza social do homem, e do domínio servil como uma decorrência do pecado. O que no fundo procura fundar é um tipo de comunidade política que expresse um meio termo entre a comunidade que existiria se o homem não tivesse pecado e a comunidade posterior ao pecado, assente no domínio servil. O núcleo dessa nova comunidade social seria a sua doutrina do benefício.

O livro em causa é ainda um meio fecundo para aceder às doutrinas políticas da Geração da Avis, nomeadamente as que se referem à tese da origem popular do poder, que tendo origem imediata em Deus como autor da natureza social do homem, tem origem imediata na vontade dos homens reunidos em comunidade política, embora escamoteie a difícil questão do direito de resistência perante o desvirtuamento da acção dos governantes, preferindo invocar as virtudes da obediência e sobretudo a superioridade moral dos governantes, expressa numa aliança entre o poder e a sabedoria.

A este último tema se dedicará também na Carta de Bruges, escrita a seu irmão D. Duarte, em que critica asperamente a falta de cultura da nossa administração. Para o Infante, importa que «príncipe e sabedor sejam uma só cousa», embora separe sabiamente a cultura da pura erudição, pois que a cultura é a luz da razão que orienta e ilumina o homem e lhe define um horizonte de felicidade, da qual no fundo o poder é um meio.

A Carta de Bruges é uma crítica contundente à situação real do Estado Português, chamando a atenção de seu irmão, para o facto de ser pela cultura e pelo prestígio dos seus colégios e universidades que os estados se conseguem impôr no contexto das grandes nações do mundo.


Obras
Obras dos Príncipes de Avis, Porto, 1982 (contém: Livro da Virtuosa Benfeitoria, De Oficiis de Cícero (trad.), Carta de Bruges, edição de Artur Moreira de Sá, Lisboa, 1956.

Bibliografia
Pedro Calafate, «O Conceito de ordem natural no Livro da Virtuosa Benfeitoria do Infante D. Pedro», Metamorfoses da Palavra. Estudos sobre o pensamento português e brasileiro, Lisboa, 1998; Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I; Afonso Botelho, «Infante D. Pedro», Logos-Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, Lisboa-S. Paulo, 1989-1992; VV.AA., Actas do Colóquio Dedicado ao Infante D. Pedro, Biblos, vol. LXIX, Coimbra, 1993; Diamantino Martins, «O sistema moral da Virtuosa Benfeitoria», em Revista Portuguesa de Filosofia, vol. 21, pp. 235-254; Id, «O "De Beneficiis" de Séneca, e a "Virtuosa Benfeitoria" do Infante D. Pedro» em Ibid., vol. 21, pp. 255-321; Elias de Tejada, «Ideologia e Utopia no Livro da Virtuosa Benfeitoria», em Ibid., vol. 3, p. 5-19.

Pedro Calafate

AlfaLima

Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor AlfaLima » 20 set 2007 02:23

1441 - Na Vedoria/Alfandega - Na cidade de Lagos foi construído o primeiro Mercado de Escravos da Europa

Deve Portugal pedir desculpa a África pelo tráfico de escravos?

Em tempo de desculpas, a Alemanha pelo Holocausto aos judeus, a Igreja aos mesmos por causa da inquisição e, ao mundo da Ciência, por Galileu, será que Portugal deveria pedir desculpa aos africanos por causa do tráfico? A exigência foi feita por Joaquim Chissano, presidente de Moçambique, no seu recente doutoramento "honoris causa" na Universidade de Coimbra.

Embora a escravatura seja um fenómeno antigo, o tráfico e a exploração de escravos africanos para a América, teve uma dimensão diferente por se integrar numa economia mais extensiva, numa agricultura de plantação em que, de acordo com a terminologia marxista, o modo produção capitalista era dominante. A produção esclavagista da América, tanto do Sul, como do Centro e do Norte, alimentava de matéria-primas as indústrias da velha e da Nova Inglaterra, assim como a dos países europeus, aonde esses produtos e matérias-primas chegavam. E tudo se integrava numa cadeia de custos, de valor, por igual, que viu o escravo, como meio de produção, adquirir um preço, formado no mercado, pelo seu justo valor, graças, à concorrência entre produtores e consumidores.

O processo de produção do escravo consistia em provocar guerras em África, cuja extensão e frequência só se justificava por esse negócio. Enquanto o tráfico de escravos tinha uma pequena dimensão, o escravo era também um subproduto marginal da guerra. Quando o tráfico se tornou central, operou-se uma mudança dramática: a guerra passou a ser um meio de obter escravos para vender aos europeus. Entre os séculos XVI e XIX, a geografia política africana, anterior à ocupação europeia efectiva do final do século das luzes, consistia na formação e no desabar de potentados, reinos ou impérios, através de constantes guerras entre grupos étnicos rivais que lutavam para controlar as rotas do tráfico, em seu benefício e em prejuízo de outros.

Quando lemos, hoje, anúncios de jornal do século XIX, referindo circunstâncias de qualidade e de preço do escravo, não podemos deixar de nos sentir indignados pelo enorme contraste entre, por um lado, as mudanças socio-económicas e culturais - racionalismo, iluminismo, desenvolvimento científico e técnico, revolução comercial e industrial, direitos do homem, democracia, separação de poderes, etc... - e, por outro, a escravização de populações inteiras, uma prática que a priori se consideraria arcaica e anterior ao cristianismo.

É possível fazer um paralelo entre a escravatura antiga, a grega e a romana, e a moderna, a que prosseguiu quase até ao final do século XIX. Atenienses e espartanos reduziram populações inteiras ao estado de escravos, de tal maneira que, segundo algumas estimativas, a de Kitto, por exemplo, só 1/4 da população da Ática, teria o título de cidadão, no auge da democracia ateniense do século V. Em Roma, a necessidade de escravos chegou a ser também um motivo para a guerra. A violência da escravatura nestas civilizações não seria com certeza inferior à violência da moderna.

Mas Finley, como sabemos, mostrou-nos que o título de escravo, na Antiguidade, era um conceito essencialmente jurídico e não económico. Isto é, haveria pessoas que não eram escravos e que se viam forçadas a trabalhar. E, pelo contrário, havia escravos que viviam muito melhor do que cidadãos e que desempenhavam funções elevadas. Refere-se, por exemplo, que num determinado momento, o director do banco de Atenas seria um escravo.

Para ilustrarmos isso, lembremo-nos da Odisseia, do momento em que Ulisses regressa incógnito e reencontra um seu escravo que era o porqueiro. Euríloco era um verdadeiro gestor, com uma quantidade enorme de escravos ao seu dispor e o seu centro de produção de porcos tinha centenas de animais. Ele sentia-se livre para oferecer churrascos ao estrangeiro que o visitava, por causa da obrigação de dar um bom acolhimento. Mas, por outro lado, lamentava que Ulisses tivesse desaparecido, pois, como seu senhor, este ter-lhe-ia arranjado uma bela e jovem esposa. Se nos lembrarmos que Ulisses, o rei de Ítaca, antes de ir para a guerra, estava com um arado no campo, concluímos da enorme diferença entre essa escravatura e a actual. A comédia grega e latina mostra-nos o escravo como um habitante da casa que recebia castigos físicos quando se comportava mal (estou a lembrar-me de Menandro), mas que aparece quase como um membro da família, subalterno, é certo. Por outro lado, o antigo estatuto, em certos casos, era conhecido e tido em conta. Um tinha sido um antigo príncipe trácio; outro, era de uma família rica de Chipre e fora apanhado por piratas no mar, etc.

Esta diversidade de situações de vida era muito menor na escravatura moderna, porque, para se manter como tal, o estatuto de escravo não podia colidir com os estatutos das pessoas livres que viviam numa cada vez mais aberta economia de mercado, em que a força de trabalho se tornara uma mercadoria. A proletarização do camponês e do artesão na economia industrial deixava um lugar muito restrito para o escravo: o trabalho de plantação e a esfera doméstica. Além disso, estavam marcados pela sua origem africana. Mais ninguém, por mais que o desejasse se podia tornar escravo - nem sequer para pagar um dívida, como se fazia nos tempos bíblicos. O resultado era que negro que na América não fosse escravo, era uma coisa esquisita, e corria o risco de ser tratado como tal.

A escravatura na África subsariana difere em extensão, tanto da Antiguidade Clássica, como da moderna escravatura do Novo Mundo. Não se trata aqui de justificar ou desculpar o que quer que seja. Mas o facto das sociedades africanas terem menor especialização económica, uma menor divisão do trabalho impedia uma distinção muito clara entre pessoa livre e escravo. Havia também uma enorme diversidade de estatutos. Um escravo do antigo Império do Mali (séc. XIII), pôde-se tornar no imperador Sakura. Isso foi possível porque, nesse reino, os escravos da coroa, desempenhavam funções administrativas. Talvez, nessa situação, ser escravo da coroa seja melhor do que ser um simples camponês. Em todo o caso, não pretendo contrastar em termos de valores uma situação com a outra. É verdade que a escravatura, assim como o tráfico para os países árabes e para o os do norte de África, teve uma grande extensão, nos séculos anteriores à chegada dos portugueses.

O papel que coube a Portugal foi o de iniciar a participação dos europeus num tráfico intercontinental que terá roubado de modo directo a África cerca de 10 milhões de almas, segundo alguns cálculos. Quantas pessoas morreram em guerras para produzir esses 10 milhões e em fomes provocadas pela desestruturação económica associada a essas constantes guerras é algo que, penso, não está contabilizado.

O pior é que o português ficou particularmente marcado como o traficante de escravos por excelência, por a escravatura ter continuado nos territórios portugueses muito para além da sua proibição formal e de a ela ter sucedido um tipo de trabalho forçado que, em substância, era escravatura efectiva (veja-se o caso paradigmático de São Tomé).

Será que temos que pedir desculpa a África pela escravatura? Para Vasco Pulido Valente (coluna do Público, algures, há umas semanas atrás), a resposta é não: as vítimas já não existem e os traficantes também não. Mas mesmo que queiramos assumir as culpas dos nossos compatriotas traficantes, a questão de a quem é que devemos pedir desculpa não é fácil de resolver porque as elites africanas pactuaram quase sempre com a escravatura. Por exemplo, os van Dunen são hoje um apelido importante em Angola, mas são descendentes de traficantes de escravos. Quando encontramos alguém a revoltar-se contra os portugueses, nunca é para abolir o tráfico de escravos, mas, quanto muito, por causa dos seus lucros nesse negócio.

No final do século XIX, encontramos em Angola um movimento anti-metropolitano. Os naturais de Angola, brancos, negros e mestiços de Luanda e Benguela revoltam-se contra os portugueses que chegam, mas porque os que vêm, roubavam-lhes os lugares na administração colonial. Este grupo que perde os seus privilégios é solidário - em termos familiares - com os que nas décadas anteriores iam ao interior buscar escravos.

É engraçado, quando vemos intelectuais nacionalistas, como o Carlos Lopes da Guiné, a falarem da resistência do povo contra o tráfico de escravos. Pois claro que houve resistência, mas é abusivo considerarem o movimento nacionalista como herdeiro dessa resistência. Em Moçambique, por exemplo, temos que considerar que o fenómeno paralelo da resistência à escravatura é a dos camponeses que resistiram tanto ao trabalho forçado colonial como às aldeias comunais impostas pelo Estado nacionalista e socialista.

Então, por falta de destinatário credível, não podemos pedir desculpa a ninguém.

Nós, portugueses, temos, sim, que procurar a verdade do nosso passado, abandonar ideias falsas e que nos têm sido justamente criticadas, como a do carácter excepcional dos portugueses na relação com os povos africanos, a de sermos invulgares produtores de mestiçagem e a do Portugal de Quinhentos ser uma das maiores potências da Europa. Temos que formar a exacta dimensão do que fomos: uma potência europeia de segunda linha que teve um protagonismo notável em "dar novos mundos ao mundo", que legitimou a conquista do Ultramar com a ideologia medieval da "fé" e do "império", mas que, também, iniciou um negócio desprezível, em cujo enredo nenhuma personagem, mas mesmo, nenhuma - sejam africanos, espanhóis, franceses, ingleses ou holandeses -, tem as mãos limpas.

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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 21 set 2007 01:00

Viva!

Para quem trabalha com números e tem vastos conhecimentos de álgebra, Joana evidencia uma clara inabilidade para contar.

Eram 40? Só?

E a revolta contra o domínio espanhol, o que é que foi? Um golpe palaciano de 40 conjurados no 1º de Dezembro?

Joana, subtilmente, faz uma leitura revisionista da história da Restauração para alcandorar à condição de vanguarda corajosa um reduzido número de revoltosos. A elite. A nata.
O povo, essa massa amorfa na versão de Joana, limitou-se a «aderir» ao movimento dos quarenta.

E no entanto foi essa mesma elite, essa nobre nata, que prudentemente se alheou de todas as batalhas que o Prior do Crato travou ao longo dos anos de ocupação espanhola à frente de um exército de camponeses e vadios.

Na revolta do Manelinho de Évora, em 1637, e que alastrou a todo o Alentejo, não se viu nenhum desses quarenta.

O próprio duque de Bragança, que vivia em Vila Viçosa, ao ouvir o povo a manifestar-se nas ruas contra o domínio castelhano e a clamar por uma liderança, enfiou-se valentemente na cama com a desculpa de que estava doente.

Compreende-se. Em 1637 ainda não existia aquilo a que hoje se chama «condições objectivas» para a restauração da independência.

Só que aquilo que objectivamente criou essas condições foi o levantamento simultâneo dos povos de Portugal e da Catalunha, que obrigou os castelhanos a lutar em duas frentes, com grande dispersão de meios.

E mesmo quando já era claro para todos que a Espanha não tinha força para impedir a restauração de Portugal, o duque de Bragança ainda hesitava, duvidoso, De tal maneira que, como a história regista, ele só entrou em Lisboa no dia 6 de Dezembro. Um empurrão decisivo foi-lhe dado pela mulher, a tal que preferia ser rainha por uma hora. Por suprema ironia, a senhora era espanhola...

Eram apenas 40, só 40, nada mais do que 40 — a Joana bem podia poupar-nos a esta ridícula dramatização. Por que não foram apenas 40: foram quatro mil, quarenta mil, quatrocentos mil... foi um povo inteiro que se levantou.

Só me faltava ouvir, três séculos e meio depois, que a restauração de Portugal, obtida contra um ocupante respaldado num exército de milhares de homens, foi um feito de 40 Batmans super-heróis...

TNT
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 21 set 2007 01:31

Viva!

Não vale a pena estarmos com exegeses, porque nem eu nem você precisamos de provar um ao outro que conhecemos a História.

A minha contestação surgiu apenas devido ao seu arroubo literário que atribui «aos quarenta» o papel de detonador do 1º de Dezembro. E ambos sabemos que não é verdade.

Enquanto a nobreza portuguesa aderiu, praticamente, em massa, em 1580 à coroa espanhola (na maior parte das famílias, a começar pela Casa de Bragança, havia casamentos cruzados e muitas expectativas), o povo nunca aceitou o domínio espanhol. Aliás, o povo português NUNCA aceitou o domínio espanhol e, não haja ilusões, NUNCA aceitará.

Por isso, quem conhece a História, sabe que ao longo daqueles 60 anos o povo sempre resistiu e sempre se viu sem chefes, com excepção do Prior do Crato.

A revolta do Manuelinho de Évora não é conhecida por esse nome por mero acaso. Quando meio país se levanta contra o ocupante e não aparece um líder que que organize o movimento, não admira que a «cabeça» da revolução seja atribuída a um tontinho.

Na sua memória da revolta de Évora e do Alentejo falta um pormenor muito significativo. É verdade que a revolta foi causada pelo aumento dos impostos, mas é também verdade que as «palavras de ordem» (e alguns actos, ça va de soi) tanto brindaram os espanhóis como a nobreza portuguesa. Dizia o povo, com montes de razão, que os nobres continuavam acomodados porque, designadamente na questão dos impostos, não eram eles quem pagava a factura espanhola.

Aliás, o texto de Vertot que você cita é bem explícito:

“Provavelmente nunca se viu na história outra conjura que, como esta, ... que tenha sido confiada a um tão grande número de pessoas de todas as idades, de ambos os sexos, de todas as condições...»

É uma descrição que não condiz com «apenas 40».

Por outras palavras, não foi o povo que aderiu a um golpe palaciano de um dia, foi aquela fracção da nobreza que aderiu a um movimento popular de 60 anos.

E aí também não foi uma adesão de última hora. Foi uma conjura longamente preparada e organizada, como assinala Vertot. Ou alguém acredita que o que se passou nos dias seguintes ao 1º de Dezembro aconteceu por geração espontânea?

Asdrubal
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M. de Montaigne

-- Um abraço - Lecavo

AlfaLima

Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor AlfaLima » 22 set 2007 21:36

FORA DE TÓPICO:
Portugal é um acidente do chico-espertismo medievo ibérico. Mais tarde, no século XVII, em plena “ocupação espanhola” (mentira, o Filipe II/I era de facto o herdeiro legítimo ao trono – quem os mandou andarem a casar-se uns com os outros?) grande parte da intelectualidade lisboeta pretendia convencer o Filipe II/I a trazer a capital do império para Lisboa.
Se nos afastámos de Castela em 1640 foi porque alguns nobres se sentiam menos nobres e decidiram defender os seus interesses, e não foi difícil convencer a arraia miúda a servir de carne para canhão por causa dos impostos que sutentavam um império decadente devido às guerras em que o papado tinha envolvido o Filipe II/I. Enfim, a nossa restauração foi a modos que uma entrada na CEE mas ao contrário, houve uns que decidiram e os outros não tiveram outro remédio.
A propósito: obrigado catalães por se terem revoltado nessa altura, permitindo que as tropas de Castela ficassem entretidas aí por cima - entre a Catalunha e Portugal não é necessário ser nenhum génio para decidir da proridade, n’é? Foi chato foi para o Miguel de Vasconcelos que levava a sério a sua missão e acabou por inaugurar o verbo defenestrar - um verbo esquecido quando os esfomeados portugueses viam Salazar mandar camiões carregados de arroz para alimentar os exércitos de Franco.

Mas há outra vertente do problema (desde pequenino que queria começar uma frase assim…): A ideia de uma Confederação de Estados Ibéricos soberanos não me é antipática; possivelmente faria mais sentido que uma união política com os croatas, mas quem sou eu para decidir disso?
Os nossos “nobres” já decidiram e hão-de continuar a decidir: as confederações são uma merda porque são de esquerda, as uniões forçadas de direita são melhores porque cumprem a tradição. Eles continuam a parir os filhos malucos, mas os doidos somos nós.

De qualquer forma, meus amigos, a “independência nacional” teve tempos. Já foi defensável nas fontes grossas dos pasquins, mas nessa altura o José Manuel Fernandes e o Espada eram maoistas.
Como sempre fui mais dado ao internacionalismo que o pessoal do livrinho vermelho, acho que o problema da independência não é nacional: é político e de Classe.
Neste sentido,"à mon avis" (topam o ligeiro e macarrónico mundanismo europeu?) se queremos ser verdadeiramente independentes temos de começar por nos desfazermos dos nossos nobres e bobos da corte.
Conclusão (antes supostamente foi a introdução e o desenvolvimento): Tanto cheiro a bafio e tantas janelas à espera de serem abertas de par em par...

nelson gonçalves


PS: Está aqui! Como vez, totalmente enigmático. Nunca saberás de que lado estará!

AlfaLima

Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor AlfaLima » 22 set 2007 21:55

D. Dinis e a supressão da Ordem do Templo (1312): o processo de formação da identidade nacional em Portugal


"Sobre tôdolos pecados, bem parece ser mais torpe, sujo e desonesto o pecado da sodomia, e não é achado outro tão aborrecido ante Deus e o mundo como ele; (...) e por este pecado foi destruída a Ordem do Templo per toda a Cristandade em um dia..." (Ordenaçoens do Senhor Rey D. Affonso V. Parte I, livro V, tomo XVII, p. 86-89. Citado em MARQUES, 1987: 128-129).

As Ordenações Afonsinas apenas registram a idéia corrente no século XV: os templários - ordem religiosa-militar criada na Palestina em 1120 por Hugo de Payens - foram suprimidos por seus inúmeros pecados, entre eles o da sodomia (LEHMANN, 1989: 165). As inúmeras acusações levantadas no processo movido pelo rei da França, Filipe IV, o Belo (1285-1314), não impediram que o rei de Portugal, D. Dinis (1279-1325), agisse de maneira diferente com os templários portugueses.

As acusações eram: "...bestialidade, adoração de ídolos, negação de sacramentos; de vender a alma ao Diabo e adorá-lo na forma de um enorme gato; de sodomia entre eles e relações com demônios e súcubos; de exigir dos iniciados que negassem Deus, Cristo e a Virgem; de cuspir três vezes, urinar e pisar na cruz, e dar o "beijo da vergonha" no prior da Ordem, na boca, no pénis e nas nádegas..." (TUCHMAN, 1990: 41).

A transferência dos bens templários para a Ordem de São João de Jerusalém - conforme decisão do Concílio de Vienne (1311-1312) -, não aconteceu em Portugal - a Ordem de São João foi criada na Palestina pouco antes da Primeira Cruzada ("...duas famílias amalfitanas, os Mauris e os Pantaleonis, em 1048, solicitaram ao califa fatímida Mustansir Billah [1036-1094], por intermédio de ricos presentes, permissão muçulmana para construção de um hospício, um hospital e um convento [...] com o objectivo de acolher e abrigar peregrinos que afluíam à cidade de Jerusalém" - COSTA, 1994: 14).

Posteriormente, a Ordem do Hospital foi adaptada para uma ordem militar, sem abandonar sua origem assistencialista). Como veremos, D. Dinis agiu de maneira extremamente oportuna, ao nacionalizar os bens da Ordem do Templo, fortalecendo ainda mais a coroa lusa frente ao papado.

Este artigo pretende discutir a supressão dos templários e a criação da Ordem de Cristo, inserindo-os dentro de um âmbito maior, o da lenta formação de uma identidade nacional portuguesa. Este processo, precoce em relação às demais potências européias, possibilitou aos lusos a dianteira na expansão marítima dos séculos XVI-XVII. Para isso, precisamos antes introduzir o tema no espaço e no tempo a que diz respeito.

*


Os templários causam aos historiadores dificuldades interpretativas: "...são ainda hoje (e sobretudo hoje) uma instituição difícil de entender" (SARAIVA, 1988: 265). Em recente e ainda inédita palestra proferida na Universidade Estácio de Sá (1993), o Dr. Rui Vieira da Cunha, ao se referir aos templários, salientou que não desejava aparecer com "novos fantasmas".

Isso se deve em parte ao grande número de lendas que se formaram já a partir da execução do último grão-mestre, Jacques de Molay, além de ordens maçônicas que se intitulam herdeiras da Ordem do Templo. Jacques de Molay teria lançado uma maldição sobre o rei francês e seus descendentes até a 13.ª geração, no momento de sua execução na ilha de Sena, em 18.03.1314, convocando Filipe, o Belo e o papa Clemente V para se encontrarem com ele perante Deus dentro de um ano.

O fato é que Clemente V morreu um mês depois, e Filipe após sete meses, aos 46 anos. Além disso, "...em sucessão, Luís X, Filipe V e Carlos IV reinaram menos de seis anos cada e morreram com 27, 28 e 33 anos respectivamente, sem deixar sucessor masculino, apesar de terem tido os três juntos um total de seis esposas" (TUCHMAN, 1990: 43).

Deixando este caminho místico de lado, resta ater-nos às fontes. Para podermos levantar as questões propostas acima, é necessário traçar o caminho político percorrido por D. Dinis no curto período de 1307-1319, anos que englobam a prisão dos templários na França e a criação da Ordem de Cristo em Portugal. Não abordaremos o processo em si, já bastante conhecido (BARBER, 1991), mas o que se passou em Portugal, particularmente as relações entre D. Dinis e o papado.

Já em 1306, pressionado por Filipe, o Belo, o papa Clemente V (1305-1314) ordenou que se reunisse um Concílio na Espanha, com o objetivo de investigar o comportamento dos templários na Península. A reunião deu-se em Salamanca, com a presença do arcebispo de Santiago, além de onze bispos, entre eles o de Lisboa, D. João de Soalhães (ALMEIDA, volume I, 1967: 154). O fato é que nada foi constatado que comprometesse os freires do Templo.

Após a prisão dos templários na França em 1307, Clemente V, através da bula Callidis serpentis (30.12.1308), solicitou a D. Dinis que fizesse o mesmo com os templários portugueses. O rei luso não atendeu ao pedido do papa. Além disso, os templários e seu mestre, D. Frei Vasco Fernandes, haviam se ausentado do reino, por razões desconhecidas.

Fortunato de Almeida levanta a possibilidade de terem ido se justificar perante o papa (ALMEIDA, volume I, 1967: 155). Consideramos tal hipótese improvável. Desde 1309 o papado achava-se em Avignon, perto da foz do Ródano, feudo do reino de Nápoles e Sicília, mas sob influência política da França (TUCHMAN, 1990: 25); os templários franceses estavam presos. D. Vasco Fernandes não se arriscaria a ser capturado pela simples tentativa de conversar com Clemente V. É mais provável que estivesse aguardando o desenrolar dos acontecimentos.

Devemos discutir a posição tomada por D. Dinis. Portugal já havia tido inúmeros problemas com a Igreja: Em 1192 o cardeal Rinério lançou sentenças de excomunhão e interdito sobre Portugal e Leão; em 1208, Sancho I foi excomungado e morreu nessa condição, em 1210. Só em 1213 o papa Inocêncio III ordenou aos juizes eclesiásticos que absolvessem Afonso II de excomunhão (com uma multa de 50.000 cruzados).

Mas a querela entre Portugal e a Igreja não parou aí: em 1218 o bispo de Lugo renova o processo de excomunhão; em 1220, o arcebispo de Braga excomungou novamente Afonso II. Honório III confirmou a excomunhão e ameaçou expor o reino de Portugal à conquista de outros soberanos, além de absolver seus vassalos do juramento de fidelidade. Afonso II também morreu excomungado, em 1223. Em 1231, Portugal sofreu novo interdito papal, levantado em 1233 pelo papa Gregório IX. Os conflitos desembocaram em 1245, na deposição de Sancho II e a guerra civil (MATTOSO, s/d).

Ricardo da Costa

...Continua

AlfaLima

Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor AlfaLima » 22 set 2007 21:59

...Continuação.

Agora, o momento era oportuno para tentar resolver a questão dos bens templários: a Ordem do Templo possuía um imenso território em terras lusas, espaço que seria entregue ao papado, em Avignon, portanto, sob influência directa de Filipe, o Belo. Todos sabem que a Península Ibérica espelhava a rivalidade entre França e Inglaterra - que mais tarde desembocaria na Guerra dos Cem Anos, em 1328: Castela, pró-França, Portugal, pró-Inglaterra. Com a eclosão da guerra, a posição de Portugal foi a seguinte: Afonso IV optou pela Inglaterra, em nível de neutralidade militar (relações diplomáticas e acordos comerciais).

Nesse intrincado jogo político internacional, os bens templários poderiam criar um cisma geopolítico no reino português. Além disso, houve propostas de união das duas ordens hierosolimitanas, templários e hospitalários (DEMUGER, 1986: 236). Isto significaria a união dos bens lusitanos do Hospital e do Templo: seria um "estado dentro do estado", já que rivalizaria com o rei português em termos de posses senhoriais.

Diante da posição de D. Dinis, Clemente V, em 1310, determinou que se realizasse novo Concílio, novamente para investigar a conduta dos templários ibéricos. Reuniram-se duas assembleias: uma em Medina del Campo - onde foram citados os templários de Castela e Leão - e outra novamente em Salamanca, com a presença do bispo de Lisboa, D. João da Guarda, e do bispo da Guarda, D. Vasco. Os acusados foram mais uma vez inocentados, mas "os prelados abstiveram-se de proferir sentença, que reservaram para o Papa" (ALMEIDA, volume I, 1967: 155)

Para precaver-se contra qualquer medida papal, D. Dinis firmou um pacto com seu genro, Fernando IV de Castela (1285-1312). Os monarcas se comprometiam a defender as posses templárias de seus respectivos reinos (21 de Janeiro de 1310. O rei de Aragão poderia, se quisesse, entrar no pacto) (ALMEIDA, volume I, 1967: 155).

A firme postura dos reis de Portugal e Castela levou Clemente V a incluir a seguinte cláusula em sua bula Ad providam (2 de maio de 1312): todos os bens da Ordem do Templo seriam transferidos para a Ordem do Hospital, excepto os situados nos reinos de Castela, Aragão, Portugal e Maiorca.

Inserida nesta mesma bula, havia a seguinte condição: os reis da Península eram obrigados a não alienarem as propriedades templárias, até que a Igreja tomasse uma decisão definitiva.

Com o novo papa, João XXII (1316-1334), os procuradores portugueses alegaram que a transferência dos bens templários para a Ordem do Hospital acarretaria danos à coroa. Embora os hospitalários, desde Frei Afonso Peres Farinha, sempre estiveram em afinidade com a coroa, o fato é que a Ordem do Hospital portuguesa era subordinada ao grão-comendador da Hispânia, que residia em Castela (MATTOSO, 1986: vol. II, 164).

O grão-comendador era a autoridade máxima da ordem na Península, subordinado directamente ao grão-mestrado, que nesse período residia na ilha de Rodes - em 1291 a ordem havia sido expulsa da Palestina pelos muçulmanos. Isso futuramente provocaria problemas quanto à gerência dos bens em terras portuguesas, além de proporcionar ao rei de Castela algum tipo de pretensão territorial em tempo de guerra.

Esta relativa autonomia dos hospitalários portugueses em relação ao comendador da Hispânia não seria suficiente para resolver alguma questão hierárquica de maior importância: o grão-comendador da ordem residia em Castela, eterna rival de Portugal. Como afirma Erdmann, "Só lhe interessava (a D. Dinis) que o rico património (templário) não saísse para fora do país. É o que teria acontecido, pelo menos em parte, se os bens passassem para os cavaleiros de S. João" (ERDMANN, 1940: 51).

A preocupação de D. Dinis com a demarcação territorial do reino de Portugal não era injustificada; os freires portugueses da Ordem de Santiago (ou Calatrava), que desde 1288 não estavam mais sujeitos ao mestre de Castela por decisão do papa Nicolau IV (1288-1292), voltavam agora a sê-lo, por decreto de Bonifácio VIII (1294-1303). A subordinação da Ordem de Santiago portuguesa ao mestre de Castela só foi resolvida oficialmente em 1319, pelas bulas Olim felicis (27 de Fevereiro de 1319) e Tunc digne (1 de julho do mesmo ano), ambas do papa João XXII; os freires portugueses de Calatrava não ficavam mais sujeitos à Castela (Bula do papa Nicolau IV: Pastoralis officii [17 de setembro de 1288]; bula de Bonifácio VIII: Ab antiquis retro [20 de julho de 1295] - ALMEIDA, volume I, 1967: 151).

"Na distribuição das fortificações das ordens militares, levou-se em conta a protecção militar das cidades de Lisboa e Santarém. Os hospitalários defendiam a entrada pelo Tejo ao norte, a partir do Zêzere, com base em Belver e Crato. Da mesma forma, os templários, tinham fortificações em Castelo Branco, Soure, Pombal e Tomar. Os cavaleiros da Ordem de Avis, controlavam a via que vinha de Badajoz e Mérida. A Ordem de Santiago participou directamente da vitoriosa conquista do Alentejo. Assim, recebeu em troca o controle da estrada que vinha do Sul: Mértola, Beja e Aljustrel, até Alcácer do Sal. Ressalte-se, por fim, o talhe geográfico do reino de Portugal, quase que totalmente baseado na existência das ordens militares, fosse para a guerra ou para as actividades de repovoamento. In: MATTOSO, José (dir.). História de Portugal - A Monarquia Feudal (1096-1480), Lisboa, Editorial Estampa, s/d, p. 212."

Isto poderia causar sério transtorno à coroa, pois os cavaleiros de Santiago receberam dos reis portugueses muitos castelos limítrofes com o reino de Castela. A ordem crescera de importância desde quando da conquista do Algarve durante a campanha militar de 1249-1250 e as subsequentes doações de Afonso III (1245-1279) (MARQUES, 1994: 125-152). Somando isso à questão da subordinação dos hospitalários portugueses ao mestre de Castela, criava-se um problema essencial para a soberania portuguesa. Ambas as ordens (Santiago e do Hospital) possuíam um vasto território no reino, além do problema templário.

Mas voltemos ao caso do Templo. Os procuradores portugueses apresentaram a João XXII a seguinte proposta: em Castro Marim, castelo do reino de Algarve, na fronteira com os muçulmanos, seria fundada uma (nova) ordem monástico-militar portuguesa de cavalaria, e D. Dinis doaria o castelo e todos os direitos que exercia nele.

O papa concordou (bula de João XXII, Ad ea ex quibus) (ALMEIDA, volume I, 1967: 351), e a ordem foi estabelecida no dito castelo, com igreja paroquial de Santa Maria do Castelo, no bispado de Silves, seguindo a regra de Santiago (Calatrava) - pouco depois, aproximadamente em 1338, a Ordem do Templo transferiu-se para Tomar.

O papa, através das bulas Venientes e Ad ea ex quibus (15 e 14 de Março de 1319), denominou-a Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, com Gil Marques ocupando a posição de mestre (já era mestre da casa de Avis, outra ordem religiosa-militar de grande força política em Portugal). Os futuros mestres seriam eleitos pelos freires professos, e a supervisão da ordem ficava sob a responsabilidade do abade de Alcobaça.

Com Gil Marques como mestre da Ordem de Cristo, D. Dinis resolvia o problema do controle sobre a Ordem do Templo. A Ordem de Cristo recebeu da coroa portuguesa todos os bens templários, a vila de Castro Marim, e a da maior parte dos ex-freires do Templo. De acordo com seus estatutos, feitos em 1321, a Ordem de Cristo tinha um efectivo relativamente pequeno: 69 cavaleiros armados e montados, 9 clérigos e 6 sargentos, num total de 84 freires.

Ricardo Costa

...Continua

AlfaLima

Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor AlfaLima » 22 set 2007 22:05

... Continuação

Os sargentos (sergentes) eram uma espécie de escudeiros. Serviam os monges-cavaleiros, vestiam-lhes e preparavam as armas, cuidando dos cavalos e do serviço de limpeza. Com o passar do tempo, passaram a receber o hábito religioso. O efectivo foi pouco depois alterado, pois na Constituição de Tomar de 1326 se diz o seguinte: "Ordenamos, e estabelecemos, e outorgamos, que para todo o sempre haja na dita nossa ordem oitenta e seis freires, ao menos, como dito é. Dos quais sejam setenta e um freires cavaleiros, guisados de cavalos, e armas, e outros (quinze) serem clérigos, e sergentes" (ALMEIDA, volume I, 1967: 156).

Este número reduzido caracterizava a Ordem de Cristo como um corpo militar de elite, permanentemente pronto para entrar em combate. Daí sua importância para a coroa portuguesa e para o processo de Reconquista, pois, como afirma Humberto Baquero Moreno, "...na Península Ibérica durante a época medieval o exército não constituiu um corpo armado com carácter de permanência, procedendo apenas ao recrutamento de homens quando as necessidades de natureza militar assim o impunham" (MORENO, 1991: 29-40).

Assim, este corpo de elite supria uma necessidade vital para a consolidação e o fortalecimento do estado português. Ele, assim como as outras ordens militares em solo luso, atendia à necessidade do estado de possuir um exército permanente, mesmo que em número limitado.

De qualquer forma, assim se deu a nacionalização dos bens templários em terras portuguesas. A Ordem de Cristo ficava assim "praticamente à mercê da coroa" (MATTOSO, 1986: vol. II, 164). D. Dinis mostrou grande perspicácia política, aproveitando o momento que se lhe oferecera. Portugal caminhava a passos largos para a afirmação de sua identidade nacional, forjada desde Afonso Henriques com uma mentalidade de cruzada, que tinha nas ordens militares - especialmente agora em sua própria ordem - seu maior paradigma.

A Ordem de Cristo, situada no âmbito da esfera política da coroa, a partir do século XV, alargou seus horizontes, direccionando e conduzindo a expansão marítima lusitana. Como entendemos, a criação de uma ordem militar portuguesa está inserida dentro do lento processo de formação da identidade nacional portuguesa, vital para o processo de expansão lusitana dos séculos seguintes: "Mas a facilidade de comunicações não era bastante para diluir os propósitos localistas e o espírito de bairro que animava todos os municípios durante a Idade Média, ajudando a travar o surto de uma consciência nacional, que só a unidade de língua e a necessidade de defesa contra o Castelhano puderam ao fim cimentar" (MARQUES, 1987: 02).

Seu maior incentivador foi o infante D. Henrique, terceiro filho de D. João I (1385-1433), que, em 1420, aos 26 anos, tornou-se mestre português da ordem, combatendo os mouros em Ceuta e ajudando Portugal a se expandir para além-mar:

"...o Infante foi, até a sua morte, o principal impulsionador dos empreendimentos de descoberta (...) Graças à sua imensa fortuna e aos bens da Ordem de Cristo, de que se tornou grão-mestre, podia arcar com as enormes despesas que as expedições exigiam" (TEYSSIER, 1992)."

A permanência dessa mentalidade de cruzada, que insistia em se prolongar para além dos séculos XII-XII, levou os navegantes portugueses a caminhos desconhecidos; essa mesma mentalidade de cruzada motivou o rei Afonso V, o Africano (1432-1481), nas palavras de Armindo de Souza, "um cruzado fora de época, o último cruzado", a ousar penetrar na África: "Em 1458 conquista-se Alcácer Ceguer. Em 1463-1464, tenta-se Tânger, mas desiste-se. Em 1469 é a vez de Anafé, a actual Casablanca, que logo se abandonou, por ficar situada desconfortavelmente ao sul. Em 1471 cai Arzila." (SOUZA, s/d: 505-506).

Esse impulso conquistador trouxe Portugal para um papel de destaque no palco maior dos actos humanos, a História. No cerne dessas realizações está sua mentalidade de cruzada, resquício medieval último, legado directo deixado pelas ordens militares:

"...sabia-se que a penetração em África seria uma guerra aos mouros como as precedentes lutas multi-seculares. Também nos marroquinos se viam ‘mouros’ (...) A seguir a estas conquistas em Marrocos, as viagens marítimas desenvolveram-se ao longo da costa ocidental africana. Aludimos atrás à parte que nelas teve a Ordem de Cristo, continuadora dos templários (...). O papel desempenhado pela ideia de cruzada desde os descobrimentos portugueses está, pois, intimamente ligado à sua anterior evolução nas guerras com os mouros" (ERDMANN, 1940: p. 57-58)."

Na verdade, é o português cabralino o último cruzado. As caravelas que aportam no Brasil têm na sua estampa a velha cruz templária, eterno símbolo da cruzada contra o "outro". Esse foi um motivo maior do processo de formação da identidade nacional portuguesa.

*


Bibliografia
ALMEIDA, Fortunato de. História da Igreja em Portugal. Porto: Portucalense Editora, S.A.R.L., volume I, 1967.

BARBER, Malcolm. The Trial of the Templars. Cambridge: University Press, 1991.

COSTA, Ricardo L. S. da. A Ordem dos cavaleiros do Hospital de São João de Jerusalém durante as cruzadas (1048-1291). Rio de Janeiro: Universidade Estácio de Sá, mimeografado, 1994.

DEMUGER, Alain. Auge y caída de los Templarios (1118-1314). Barcelona: Ed. Martínez Roca, 1986.

ERDMANN, Carl. A Idea de Cruzada em Portugal. Coimbra: Public. do Instituto Alemão da Universidade de Coimbra, 1940.

LEHMANN, Johannes. Las cruzadas - los aventureros de Dios. Barcelona: Martínez Roca, 1989.

MARQUES, A. H. de Oliveira. A Sociedade Medieval Portuguesa - aspectos da vida cotidiana. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1987.

MARQUES, José. "Os Castelos Algarvios da Ordem de Santiago no Reinado de D. Afonso III". In: Relações entre Portugal e Castela nos finais da Idade Média. Braga: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, p. 125-152.

MATTOSO, José. Identificação de um país - ensaio sobre as origens de Portugal (1096-1325). Lisboa: Ed. Estampa, 1986, vol. II.

MATTOSO, José (dir.). História de Portugal - A Monarquia Feudal (1096-1480). Lisboa: Ed. Estampa, vol. II, s/d.

MORENO, Humberto Baquero. A Organização Militar em Portugal nos séculos XIV e XV. In: Revista da Faculdade de Letras - História, II série, vol. VIII. Universidade do Porto, 1991, pp. 29-40.

Ordenaçoens do Senhor Rey D. Affonso V. Parte I, livro V, tomo XVII, pp. 86-89. In: MARQUES, A. H. de Oliveira. A Sociedade Medieval Portuguesa - aspectos da vida quotidiana. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1987.

SARAIVA, António José. O crepúsculo da Idade Média em Portugal. Lisboa: Gradiva, 1988.

SOUZA, Armindo de. "1325-1480 - Realizações". In: MATTOSO, José (dir.). História de Portugal — A Monarquia Guerreira (1096-1480). Lisboa: Editorial Estampa, vol. II, s/d.

TEYSSIER, Paul. "O século glorioso". In: Lisboa Ultramarina - 1415-1580: a invenção do mundo pelos navegadores portugueses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992, p. 13-46.


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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 24 set 2007 22:38

Viva!

AlfaLima Escreveu:PS: Está aqui! Como vez, totalmente enigmático. Nunca saberás de que lado estará!


Não tenho assim tantas dúvidas. Estive a lê-lo no contexto e mantenho a minha, mesmo neste texto que na verdade sai um pouco da sua linha habitual, aqui mostrou-se mais caustico (mas apenas isso), continuo a achar que se mantém fiel ao Fernando Rosas. Embora se note (na minha opinião) que procura incessantemente criar a sua doutrina.
«À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás.»
M. de Montaigne

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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 27 set 2007 17:40

Viva!

Mais do que quaisquer outros, dois homens que chegaram ao auge do poder no final do século XV - o Inquisidor Geral Tomás de Torquemada e o tirano de Florença Girolamo Savonarola - simbolizam a face intolerante da história da Igreja Católica. Com eles, as fogueiras estiveram sempre acesas, para desespero de judeus, mouros e hereges.

Tomás de Torquemada

(1420 - 1498)



"Padre católico nascido em Valladolid, Espanha, principal organizador da Inquisição espanhola. De origem judaica e sobrinho do cardeal Juan de Torquemada, ingressou na Ordem dos Pregadores e foi prior do convento de Santa Cruz de Segóvia (1452-1474). Protegido de Fernando e Isabel, os Reis Católicos, de quem era confessor e conselheiro, foi eleito pelo papa Sisto IV para compor o grupo de oito inquisidores encarregados de organizar o recém-criado Tribunal do Santo Ofício da Inquisição (1482) e, no ano seguinte, ascendeu ao cargo de inquisidor-geral dos reinos de Castela e Aragão. Instalado em Ávila onde ficou até sua morte, promulgou (1484) os 28 artigos que orientavam os inquisidores no julgamento de crimes de heresia, apostasia, feitiçaria, bigamia, usura e blasfémia, e autorizou a tortura para obter evidências, caso o acusado se recusasse a confessar. Célebre pelo fanatismo religioso e crueldade, seu nome tornou-se símbolo da temível instituição e chegou a ofuscar o poder real. Embora de origem judaica agiu com crueldade e fanatismo contra judeus, mouros e cidadãos suspeitos de heresia, blasfémia, bigamia e outras práticas consideradas criminosas pelo Santo Ofício, em nome da ortodoxia católica. Seu fanatismo superou a sábia política de tolerância religiosa dos Reis Católicos, que suspenderam uma sábia política de tolerância religiosa e implantaram medidas repressivas não só contra os mouros, mas também contra judeus e marranos, assim denominados os judeus convertidos ao catolicismo, embora ele próprio fosse um deles, pois seu "poder económico e financeiro" constituiria uma ameaça ao trono. Cerca de 170.000 judeus foram expulsos da Espanha pelo edito real de 31 de março (1492), que estipulava o exíguo prazo de quatro meses para se retirarem do país sem levar dinheiro, ouro ou prata. Estima-se em cerca de dois mil condenados foram mortos na fogueira durante sua gestão a frente da Inquisição. Temendo pelos seus excessos o papa Alexandre VI viu-se obrigado a nomear quatro inquisidores auxiliares para refreá-lo (1494)."

Girolamo Savonarola

(1452 - 1498)


"Pregador cristão italiano, reformador e mártir nascido em Ferrara, que ganhou fama por lutar contra governantes tiranos e um clero católico corrupto. Educado pelo avô paterno, abandonou os estudos de medicina, iniciados após graduar-se em artes liberais, e ordenou-se dominicano (1475). Depois mudou-se para Florença (1482), onde se tornou prior do convento de São Marcos e fez-se respeitado por seu conhecimento e ascetismo. De moral rígida e princípios religiosos, passou a condenar o paganismo humanista que corrompia os costumes, a arte, a poesia e a própria religião, e apontava como principais causas a corrupção do clero, inclusive nos mais altos escalões da hierarquia eclesiástica. Por cinco anos pregou em várias cidades italianas até retornar à Florença (1490), onde iniciou uma pregação violenta contra a tirania dos Medicis. Coma invasão da cidade por Carlos VIII da França e a consequente queda dos Medicis (1494), tornou-se líder absoluto de Florença e instalou uma república democrática. Seu sucesso provocou a ira de inimigos poderosos e baseado em informações caluniosas, o papa Alexandre VI o proibiu de pregar (1495). Revoltado o religioso atacou a venalidade da igreja e propôs a celebração de um concílio. Somadas as dificuldades políticas e económicas de seu governo em virtude dos permanentes boicotes, seu prestígio entrou em declínio e ele acabou preso, juntamente com alguns de seus seguidores. Julgado por uma comissão formada por seus maiores inimigos e selvagemente torturado, o pregador foi condenado à morte pela Inquisição, e queimado na fogueira no dia 23 de maio, em Florença."
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