VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

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lecavo
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 04 dez 2007 00:54

Viva!

Os números


Os números que todos usamos (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 0), são chamados "números arábicos", para os distinguir dos números romanos (I, II,II, IV, V, VI, etc)

Os árabes popularizaram estes números, mas a sua origem remonta aos comerciantes fenícios, que os usavam para contar e fazer a sua contabilidade comercial.

Mas vocês alguma vez pensaram, porque "1" significa "um" e "2" significa "dois", etc?

Os números romanos são fáceis de compreender, mas... Qual é a lógica que há por detrás dos números arábicos ou fenícios?

Muito simples: Tratam-se de ângulos.

É pura lógica. Se escreverem os números na sua forma primitiva verão que:

- O número 1 tem um ângulo.
- O número 2 tem dois ângulos.
- O número 3 tem três ângulos e assim sucessivamente.
- O 0 não tem ângulos.

E como uma imagem vale por mil palavras...

Imagem
«À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás.»
M. de Montaigne

-- Um abraço - Lecavo

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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor lecavo » 04 dez 2007 23:52

Viva!

O PENSAMENTO MATEMÁTICO

Já imaginaram um mundo sem matemática? Já pensaram na vida sem números?

Qual seria o destino do ser humano se ele não mensurasse?

É possível que não tivéssemos saído da idade da pedra.

Não haveria casas, nem cidades, não haveria conforto ou qualquer tecnologia. O mundo seria diferente e a humanidade compartilharia com os animais a sua subsistência.

Hoje cada rocha que colocamos nos alicerces do progresso é devidamente calculada, mensurada e talhada pelo cinzel da matemática. O Espírito matemático está em tudo sem excepção.

O pensamento matemático, fruto do espírito científico que flui pela humanidade, teve o seu início aproximadamente há 300 mil anos atrás, quando o homem começou a aprender a contar. O desenvolvimento do conceito de números foi um processo longo e gradual. Os nossos mais antigos antepassados, a princípio contavam só até dois; qualquer conjunto, além desse nível, era dado como "muitos". Mesmo hoje muitos povos primitivos ainda contam objectos dispondo-os em grupos de dois. Usamos esse sistema hoje em dia nos modernos computadores, pois a linguagem de máquina segue o sistema binário de numeração.

Registos pré-históricos - O homem pré-histórico às vezes registava um número fazendo marcas num bastão ou pedaço de osso. Hoje existem poucos registos desses, mas na antiga Checoslováquia foi encontrado um osso de lobo com profundas 55 profundas incisões; estavam dispostas em duas séries, com 25 numa e 30 na outra, com os riscos em cada série, dispostos em grupos de cinco. Tais descobertas arqueológicas fornecem provas de que a ideia de número é muito mais antiga do que os progressos tecnológicos, como o uso de metais ou de veículos de rodas. Precede a civilização e a escrita, no sentido usual da palavra, pois artefactos com significado numérico, tais como o osso acima descrito, vêm de um período à cerca de 30 mil anos atrás.

O homem difere de outros animais de modo mais acentuado pela sua linguagem, cujo desenvolvimento foi essencial para o significado do pensamento matemático abstracto; no entanto, palavras que exprimem ideias numéricas apareceram lentamente.

Os sinais para números provavelmente precederam as palavras, pois é mais fácil fazer incisões num bastão do que estabelecer uma frase bem modulada para indicar um número. Além disso o uso dos dedos das mãos e dos pés parece ter sido um grande auxiliar no desenvolvimento de contagem (actualmente ainda utilizamos esse processo). Como resultado disso, as línguas modernas são construídas, quase sem excepção, em torno da base dez, mas existem outros sistemas numéricos, com por exemplo o de base 60, que é o sistemas das horas.

A Geometria, tal como a necessidade de contar, também teve a sua origem na antiguidade, proveniente da necessidade do homem de medir terras ou fazer os seus utensílios domésticos, como querem alguns, ou pode ter nascido de rituais religiosos, como querem outros. De qualquer forma, a preocupação do homem pré-histórico com configurações e relações pode ter origem no seu sentimento estético e no prazer que lhe dava a beleza das formas, motivos que muitas vezes estão na origem da matemática de hoje.

A Geometria, com certeza, foi a grande precursora, tomando a frente como ferramenta nas resoluções dos primeiros problemas das matemáticas. Como podemos ver, no início o aprendizagem foi difícil e lenta, cheia de problemas ligado ao sentido prático da vida quotidiana.

O número zero - Outro facto que merece destaque aqui é o aparecimento do zero como número. Até onde nos é possível chegar, recuando na História, podemos dizer que provavelmente foram os matemáticos hindus e árabes, no período de 500 d.C. a 1100 aproximadamente, os primeiros a reconhecer o zero como número. Na realidade, só a partir de Baskara - matemático hindu que viveu entre 1114 - 1185 - é que o zero se tornou plenamente reconhecido como número.

Como podemos ver, o conceito do zero é recente e ainda estamos a aprender a lidar com ele. Como exemplo, já sabemos que não podemos dividir por zero e que "Zero elevado a zero" é uma expressão indeterminada e que, em muitos cálculos que fazemos, devemos excluir o zero afim de termos coerência no nosso raciocínio.

O poder da lógica - Talvez o mais fascinante nisso tudo é que a aprendizagem das matemáticas, ou seja, o desenvolvimento do pensamento matemático, leva ao poder, uma vez que o raciocínio lógico constrói o mundo em que vivemos.

Pitágoras já dizia que os números governam o mundo. E isso é feito de forma tal que para tudo dependemos do elemento quantificador do sistema numérico.

O poder do Estado está assente sobre a geometria e a álgebra, uma vez que a estratégia da acção dos governos passa por delimitações de territórios, sistematização da economia, controle estatístico das informações etc. A ciência de tomada de decisão é pura matemática. Quando nós não usamos os números friamente, usamos a lógica que está por de trás de sua estrutura.

A sociedade baseia-se na estrutura lógica da matemática que, por sua vez, é o alicerce da ciência moderna. Portanto, ignorar o pensamento matemático é ignorar o mundo em que se vive e deixar-se envolver pelas ilusões de uma sociedade puramente consumista.

Tenham em mente que sempre que alguém quiser fundamentar um raciocínio, irá buscar nos números uma justificativa apropriada. Manipular números é a arte primeira dos que governam e daqueles que tomam decisões. Por isso, saber matemática é um passo fundamental para a vida moderna. Devemos sempre manter o pensamento matemático actualizado, exercitando os nossos conhecimentos e raciocínio.

A matemática, além de tudo, é uma linguagem que serve para despertar o pensamento. O aluno, ingénuo, que pergunta ao professor porque afinal lhe estão a ensinar a somar dois mais dois, ou o universitário que não entende as razões da matemática no seu curso, está fadado ao fracasso e ao isolamento profissional.

A matemática é uma ciência antiga, como pudemos ver, fruto do trabalho laborioso da mente humana em compreender página por página do grande livro que escreve a natureza.

É, portanto, o pensamento matemático, factor comum em todas as culturas, o maior legado deixado pela espécie humana. O que hoje sabemos, amanhã saberemos muito mais, e é isso que move o Espírito científico e tecnológico do homem.

Cleiton J. B. Lattari
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor masahemba » 07 jan 2008 23:22

Caros colegas, foi com imensa e agradável surpresa que li as lições de história que antecedem estas palavras. É com enorme satisfação que constato que, no seio das nossas lides, existem pessoas com uma tão grande dimensão histórica. Afinal Portugal sempre tem filhos que sabem e se preocupam com a sua história, que têm consciência de que ignorar as raízes de um povo é esvaziá-lo de identidade. Haverá coisa mais triste? Pois me permitam de pôr um pouco de sal nesta conversa assaz interessante. Estão agora a cumprir-se 200 anos que Portugal entrava num dos seus mais negros períodos, senão o mais negro, mesmo pior do que os 60 anos de ocupação espanhola. Para os que o viveram, do princípio ao fim, de forma consciente, ou seja, com a noção exacta do que viam e viviam, e falo especificamente do período compreendido entre 1807 e 1834, foram, decerto, vinte e sete anos de perfeito calvário. E alguns episódios existem, que não têm sido explorados por quem de direito. D. João VI, no dia 7 de Março de 1826 decretou que, por sua morte, seria regente do reino a infanta D. Isabel Maria. Três dias depois, a 10 de Março de 1826 o rei morreu. A história não conta, pelo menos nunca li nada sobre isso, que o soberano estivesse doente. Mas na história há rumores de que tenha sido assassinado com arsénio. Os meus caros colegas, em algumas passagens, citaram o nome da rainha D. Carlota Joaquina, esposa de D. João VI. Falaram também na Vila-Francada e na Abrilada. Há a acrescentar que estas duas intentonas realistas tiveram por autores a própria rainha e o infante D. Miguel. Em 1826, aquando da morte do rei, o infante D. Miguel estava exilado na Áustria, por ordem do soberano, desde a Abrilada (30 de Abril de 1824) e a rainha estava exilada em Queluz. A quem interessaria a regência da infanta D. Isabel Maria? No entanto a regência da infanta duraria até Fevereiro de 1828, altura em que o infante D. Miguel regressou a Portugal, por ordem, expressa do seu irmão D. Pedro, herdeiro natural do trono, já imperador do Brasil. Bom, e por hoje, por aqui me fico. Amanhã um comando existe que aguarda pela minha prestação, e neste momento, a boa forma mental é o meu grande instrumento de trabalho. Como tal, tenho o colocar em repouso. Estou muito agradado pelo convite que me foi feito, para integrar este agradável núcleo.

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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor tiririca » 07 jan 2008 23:49

masahemba Escreveu:Estou muito agradado pelo convite que me foi feito, para integrar este agradável núcleo.


Enquanto hem-netjer, espero que este forum seja uma hut-netjer para ti, onde encontres harmonia, convivência e sã troca de ideias. A fazer fé na tua primeira intervenção, parece-me que já te sentes em casa. O agrado é todo meu!
O pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas.
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor masahemba » 08 jan 2008 14:07

meu caro amigo e colega tiririca, eu gosto muito de história, penso que tenho alguns conhecimentos, mas já que sou, e em muito, ultrapassado pelos conhecimentos que aqui vejo expostos, e pela capacidade de pesquisa. Mas como a vida é uma permanente escola, aqui estou receptivo a toda a aprendizagem. E desde já, aguardo com expectativa, que me traduzas o significado das duas expressões que utilizaste. Com um abraço deste africano masahemba.

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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor tiririca » 08 jan 2008 14:45

Masahemba...

O termo mais comum para designar um sacerdote em egípcio era hem-netjer, o que significa "servo de deus".

O termo para designar o templo egípcio era hut netjer, a "morada do deus".

A expressão Hem-netjer-tepy-en-amun, significa O primeiro profeta (alto-sacerdote) de Amon.
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor masahemba » 08 jan 2008 16:58

Caro tiririca, tenho por passamento, ou um dos passatempos, escrevinhar umas coisas. E para compôr um dos meus úlimos trabalhos, tive de pesquisar uma encilopédia de história universal sobre o Egipto. E quando vi agora a tua resposta, tive um arrepio... de vergonha. Nessa enciclopédia nunca encontrei estes termos... e podes crer que li imensos. Efectivamente o léxico das expressões são de cariz profundamente egípcio. Isto quer dizer que nem tudo o que se quer aprender, se aprende nas enciclopédias. Com simples palavras se pode entrar em incompatibilidade com a maet. Saudações. Masahemba

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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor tiririca » 08 jan 2008 21:55

Meu caro amigo masahemba, quando chegar a hora da nossa justiça final, quando Maet usando a sua pena pesar os nossos corações, o teu ficará certamente em equilíbrio, enquanto o meu, fruto dos meus muitos erros, certamente penderá fortemente para Ammut.
O pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas.
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor masahemba » 08 jan 2008 22:35

meu caro tiririca, não sejas tão cruel para contigo mesmo. Decerto que não és assim tão mau. Se eu te conhecesse, seria, decerto, capaz de dizer, que o teu coração desmente o que a tua boca profere. E certamente, Osíris, na sua imensa bondade, encontraria em ti qualidades que te haveriam de tirar das trevas. Saudações. Masahemba.

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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor tiririca » 09 jan 2008 14:26

Meu caro masahemba, como queres tu "conhecer-me", se nem eu me conheço! Não é crueldade, é a observação simples de uma realidade prática.

Saudações para ti também.
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor masahemba » 09 jan 2008 17:27

tiririca, qual será a concepção do pecado? És então, tu, um pecador a tempo inteiro? Não acredito. Quem consegue sentir prazer a trocar impressões, como estamos a fazer, não tem a sua mente, de certeza, orientada para o mal. Longe de mim afirmar que sou um ser perfeito. É claro que tenho os meus pecados, como todos têm, mas ao ponto de me estar reservado um lugar de trevas... não quero parecer presunçoso, mas considero que não sou má pessoa, assim como tu, tenho a certeza, também o não serás. Isto para o caso de um lugar de trevas ou um lugar de luz, após a morte, ter para ti algum significado. Se te conhecesse, diria que... que achas? Mas, o nosso diálogo está-se a desviar do tema que tu criás-te «vamos falar de história». Se eu tivesse conhecimentos de informática, que me permitissem manipular a meu belo prazer esta máquina... mas sou um trengo! Tenho fotografias cujo momento em que as tirei me hão-de acompanhar para o resto da vida. Já te imaginás-te no interior de um túmulo, no Vale dos Reis? È soberbo, meu amigo. A deusa da magia, Isis, está-me a cochichar ao ouvido que tu és um gajo porreiro. Ela nunca se enganou... saudações. Masahemba

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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor tiririca » 09 jan 2008 18:55

masahemba Escreveu:tiririca, qual será a concepção do pecado? És então, tu, um pecador a tempo inteiro? Não acredito.


Bem, a conversa é como as cerejas. Teríamos antes de mais, de definir o conceito de pecado, que me parece ser muito pessoal, mais, quiçá subjectivo. O que para alguns é um pecado mortal, pode para mim, ser uma coisa natural. Não sendo um crente, não posso considerar pecados, todos os conceitos religiosos que estão subjacentes a cada falta. Na minha concepção de vida, Considero pecado, cada acção que tenha um efeito negativo sobre outra pessoa, que lhe cause algum mal, seja físico, psicológico ou patrimonial.

Como toda a gente, procuro não pecar, mas e, já que a minha formação foi judaico-cristã, vou parafrasear Cristo «quem nunca pecou, que atire a primeira pedra». Ou seja, acreditando eu nos homens, acho que somos todos uns pecadores porreiros!

masahemba Escreveu:Quem consegue sentir prazer a trocar impressões, como estamos a fazer, não tem a sua mente, de certeza, orientada para o mal. Longe de mim afirmar que sou um ser perfeito. É claro que tenho os meus pecados, como todos têm, mas ao ponto de me estar reservado um lugar de trevas... não quero parecer presunçoso, mas considero que não sou má pessoa, assim como tu, tenho a certeza, também o não serás. Isto para o caso de um lugar de trevas ou um lugar de luz, após a morte, ter para ti algum significado.


Masahemba, meu caro amigo, quantas horas teremos nós já passado a discutir o lado místico da vida!? Temo não te poder acompanhar nessa viagem que teimas em apontar para o lado do misticismo. Sou um materialista convicto. Outros há que já me tentaram puxar para esse lado da vida. Acredito que seja um belo refugiu. Mas em boa verdade, não acredito em paraísos e infernos. O homem consegue viver sem Deus, já o Homem tem necessidade de ter um Deus. Todas as sociedades, das mais primitivas às mais "modernas" têm os seus Deuses. Quem inventou quem? Foi Deus que inventou o homem ou terá sido o Homem que inventou Deus? Eu fico-me por esta última possibilidade. Por via disso, todas as minhas acções dependem dos meus valores humanistas, não faço ou deixo de fazer isto ou aquilo, porque tenho medo do inferno!


Masahemba Escreveu:Se te conhecesse, diria que... que achas? Mas, o nosso diálogo está-se a desviar do tema que tu criás-te «vamos falar de história». Se eu tivesse conhecimentos de informática, que me permitissem manipular a meu belo prazer esta máquina... mas sou um trengo! Tenho fotografias cujo momento em que as tirei me hão-de acompanhar para o resto da vida. Já te imaginás-te no interior de um túmulo, no Vale dos Reis? È soberbo, meu amigo. A deusa da magia, Isis, está-me a cochichar ao ouvido que tu és um gajo porreiro. Ela nunca se enganou... saudações. Masahemba


Não sou uma pessoa de invejas, levo um vida simples, onde pouco me chega. Mas admito que invejo essa tua experiência. Estar no Vale dos Reis, fazer essa viagem no tempo, é de facto um dos meus sonhos e objectivos, que espero concretizar em breve.

Já agora, quero ver essa fotografias.

No Antigo Egipto, a religião marcava a vida dos homens. Os animais eram adorados como divindades. As suas formas e normas eram adoptadas e condicionavam o procedimento humano. Daí a forma como os deuses eram vistos: com cabeça de animal e corpo humano ou vice – versa. Por exemplo: O deus Hórus era representado com cabeça de falcão. O deus Anubis era representado com cabeça de chacal. Hátor a deusa do amor, da música e do vinho era representada com corpo de uma vaca ou de uma mulher ou misto.

O Sistema Solar e os deuses estavam relacionados. A deusa Nut engolia o Sol ao anoitecer e ao amanhecer era representado pelo escaravelho, o deus da vida. Este mudava de nome conforme a posição do Sol: Jepre de manhã, Rá ao meio dia, Aton ao anoitecer.

A "vida" no além depois da morte, só era concedida ao faraó. Depois de ter reinado como encarnação do deus Hórus convertia-se no deus do mundo subterrâneo Osíris. O culto dos mortos foi muito popular até ao fim do Império Antigo. Por esse facto é que os túmulos dos faraós se encontravam cheios de objectos úteis durante a vida e que não podiam faltar depois da morte: alimentos, jóias, roupas, figuras de criados que estavam lá para trabalhar para ele, etc.
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor masahemba » 09 jan 2008 21:07

meu Deus, tiririca, mas que banho!! apenas para uma pequena pergunta inundaste a minha atenção com um mar de palavras, um oceano de conceitos. É verdade, nós conhecemo-nos, já o disseste. Somos amigos... isso já se percebeu. Mas nada como uma boa conversa surda, para conhecermos bem uma pessoa. Não sei se te apercebeste, mas em parte respondeste-me. É óbvio que tu não és uma má pessoa. E como já te disse, tiririca, por vezes, os mais cépticos, são os que mais próximos se encontram da verdade Divina. E isso é muito valioso, porque não os move qualquer tipo de subjectividade relacionada com o «acto-recompensa». O livre arbítrio é a liberdade de pensamento e de acção. Quem é que actuará com uma maior genuídade, tu, que és céptico ou eu que sou crente? Sem dúvida que és tu, porque para ti é um dado adquirido que da morte apenas esperas podridão, decomposição, o nada. Contrariamente, eu, espero que a morte não seja o fim, mas antes... não, não é o principio, é o regresso ao que verdadeiramente somos. Não achas que seria um desperdício a inteligência que criou a possibilidade de nos estarmos a comunicar, distantes um do outro, desaparecer assim, num piscar de olhos, como a luz de uma lâmpada que se funde? Bem, tenho um jantar para terminar, sim, porque eu cozinho... continuarei esta bem disposta discussão. Agora estou pressionado pelo jantar e o filho mais novo que pergunta «o que é a janta?», e assim as palavras se me atropelam. BRIOSAS saudações. Masahemba

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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor tiririca » 09 jan 2008 22:13

Masahemba, todos sabemos que o saber não ocupa lugar. Os miúdos aprendem línguas, geografia, matemática, etc. e quando "vertem" os conhecimentos, eles não saem em forma física. Portanto, podemos depreender que o conhecimento não é material.

Ora se o conhecimento não é material, não pode estar "armazenado" algures, num local que seja material. Logo, a inteligência é imaterial, certo? Então a este conhecimento que consideramos imaterial, podemos chamar de espiritual, certo?

A nossa faceta espiritual tem três capacidades ou habilidades, a de aprender conceitos abstractos, usando a inteligência, ter vontade e a faculdade de sentir alegria, tristeza, raiva, amor, angustia, etc., que podemos designar por faculdade de ter sensibilidade.

A sensibilidade, a inteligência e a vontade fazem parte da nossa faceta espiritual.

Para os crentes, quando ocorre a morte, ocorre igualmente a separação da alma e do corpo. O corpo decompõem-se e a alma é perene.

Agora pergunto eu, onde ocorrem todas estas sensações e capacidades que acabei de descrever? Obviamente num meio físico, o cérebro. Se o cérebro, que é material se decompõe, todas aquelas sensações, capacidades e faculdades, deixam de ter o meio físico onde se desenvolviam, certo?

Todos sabemos que os animais não têm capacidade intelectual, não têm inteligência. Não são capazes de produzir pensamentos abstractos. Aprendem por reflexos condicionados, memorizando actos, mas ligando-os a objectos tais como comida. A "memoria" dos animais morre com eles.

Todos os bafejados pela fé, acreditarão que no momento da morte física do seu corpo, a sua componente imaterial não morre, permanecerá perene, embora sem qualquer suporte físico onde possa funcionar. Esta é a diferença entre os crentes e os cépticos como eu!

masahemba Escreveu:Bem, tenho um jantar para terminar, sim, porque eu cozinho... continuarei esta bem disposta discussão. Agora estou pressionado pelo jantar e o filho mais novo que pergunta «o que é a janta?»


"Nem só de pão vive o homem"... mas de estómago vazio nem apetece adorar a Deus!

Já agora, bom apetite!
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor masahemba » 09 jan 2008 23:09

meu caro amigo tiririca, aqui estou de novo, com um sorriso nos lábios, como quando era criança, e embevecido, observava o brinquedo novo. Na minha óptica, que vai de encontro a conceitos de Allan Kardec, o cérebro coordena todas as funções do organismo e nele reside a inteligência, claro, mas o que humaniza a nossa inteligência não é o peso da massa encefálica, antes uma centelha divina. O amor, a sensibilidade, o ódio e todos os sentimentos humanos residem no que se chama o «perispirito», o «corpo» da alma, que envolve o corpo material. No mundo em que vivemos, tal afirmação é conotada, muitas vezes, com estupidez, atraso, eu sei lá. O psiquiatra norte-americano Brian Wisse também assim o considerava, até que, nos seus tratamentos de psicanálise, através da terapia da hipnose, foi mudando a sua forma de pensar. Esteve dois anos a ponderar se devia ou não escrever um livro, narrando as suas experiências, receando que, ao fazê-lo, caísse no ridículo na comunidade científica e dissesse adeus à sua carreira, mas algo mais forte do que o medo falou, e nasceu o seu primeiro livro, com o título em português- «Muitas Vidas, Muitos Mestres». Mas, evidentemente, cada um tem a sua própria filosofia de vida. A mim, apenas me resta respeitar a tua forma de pensar e desejar que estejas errado, porque, infelizmente, não posso garantir que o que eu quero que seja verdade, o seja realmente. Outros há que têm certezas. Eu apenas tenho a minha convicção, baseada num ou noutro episódio que me tem acontecido na vida. Briosas saudações. Masahemba

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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor tiririca » 11 jan 2008 20:53

Meu caro masahemba, conheço-te à tempo suficiente para saber que não estou à tua altura, tanto em conhecimentos, como em convicções, para debater contigo estes assuntos do espírito e da alma.

Sendo este tópico sobre história e, sem deixar de ser sapateiro a tocar rabecão, sinto-me mais à vontade a discutir assuntos históricos. Sem querer molestar-te, talvez fosse melhor enveredarmos pela história e deixar-mos estes assuntos místicos para os teólogos.

Muito pouca gente sabe, que a comunidade judaica existente em Portugal, sofreu um enorme massacre no ano de 1506, quando Portugal passava por dificuldades sociais tremendas, devido aos efeitos conjugados da seca e da peste. Reza a história, que num período tremendamente curto, foram assassinados cerca de quatro mil judeus, por uma causa primária e estúpida, no que ficou conhecido como a questão judaica.

Os reis católicos de Aragão e Castela determinaram a expulsão de milhares de judeus, que num prazo de quatro meses, sob pena de serem executados , caso não cumprissem a ordem, tiveram de abandonar aqueles territórios. Muitos deles rumaram a Portugal, onde puderam viver, mas à custa do pagamento de elevadas quantias, que pagavam em jeito de taxa residencial, por assim dizer. A verdade é que o total destes refugiados ascendeu a mais de cem mil. Os mais humildes, aqueles que não podiam pagar verbas elevadas, foram reduzidos á condição de escravatura.

Quatro anos mais tarde, D. Manuel (por interesses matrimoniais), expulsou-os, tal como tinham feito os monarcas castelhanos. Mais tarde, tomou-se consciência que tal medida resultou em graves perdas para os cofres da coroa portuguesa. Decidiu-se então adoptar uma solução de meio termo. Os judeus podiam ficar, mas teriam de renunciar ao judaísmo e teriam de se converter à fé católica. Procedeu-se ao baptismo forçado dos filhos dos judeus, ao mesmo tempo que se garantia uma ausência de perseguição por vinte anos aos seus pais.

Em 1506 houve um facto infeliz, que resultou numa grande tragédia. Durante uma celebração litúrgica na Igreja de São Domingos em Lisboa, alguém afirmou ter visto uma imagem de Cristo iluminar-se. Um destes cristãos novos autorizado a residir em Portugal, negou imediatamente tal facto. Rapidamente este cristão novo foi retirado do interior da igreja e espancado até á morte por uma multidão enlouquecida por uma religiosidade primária. Em três dias, cerca de quatro mil judeus foram assassinados pelo povo.

Este pequeno episódio da nossa história demonstra-nos, que no mundo a História pode sempre repetir-se a qualquer momento.
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor masahemba » 12 jan 2008 12:03

meu caro tiririca, mas quem sou eu para que tu não estejas à minha altura! Eu posso-te ganhar, possivelmente, em experiência de vida. De resto...a tua chegada foi uma golfada de ar fresco na minha existência bolorenta, de certas horas do dia. Tu entendes. Briosas saudações. Masahemba

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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor matahary » 13 jan 2008 01:18

tiririca Escreveu:Este pequeno episódio da nossa história demonstra-nos, que no mundo a História pode sempre repetir-se a qualquer momento.

Eita! Mudamos de nick e mudamos de opinião! Mudas conforme o vento, né? Ou tens dupla personalidade?
Vê lá, se calhar é melhor tirar isso a limpo...
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor masahemba » 13 jan 2008 01:33

Não percebi! Eu sempre me chamei masahemba! Muito curiosa é a tua observação, matahary. Como é que em tão poucas palavras, conseguiste conhecer tão bem a minha personalidade, a ponto de detectares uma tão profunda mudança?!

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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor tiririca » 14 jan 2008 10:07

O MASSACRE DOS JUDEUS DE LISBOA


1) O Massacre dos Judeus/Cristãos-Novos de Lisboa teve na época um impacto considerável, o que é comprovado pelo grande número de cronistas principalmente da época ou próxima dela que o narra: Salomon Ibn Verga, um exilado judeu espanhol que foi aqui em Portugal apanhado pelas conversões forçadas e embora só tivesse chegado a Lisboa uns dias mais tarde é contemporâneo e testemunha indirecta; um visitante alemão anónimo, testemunha directa e envolvida directamente nos acontecimentos que deixou um testemunho extremamente detalhado; há as crónicas de Damião de Góis, de Jerónimo Osório, referências em Garcia de Resende, Samuel Usque no seu livro “Consolação às Tribos de Israel e mais tarde no séc. XIX Alexandre Herculano.

2) A maioria dos cronistas concorda nalguns pontos importantes e que eu gostaria de salientar:

- A extrema violência do massacre e de certa forma o seu carácter algo inédito em Portugal. Tinha havido alguns incidentes graves como em 1499 e outros, mas nada que se comparasse a esta matança generalizada: entre 2 a 4 mil mortos, assassinados em três ou quatro dias com requintes de malvadez tremendos – mulheres grávidas atiradas pelas janelas e aguardadas em baixo pelas lanças empunhadas; bebés estilhaçados contra os muros; violações; desmembramentos; autos de fé ....O Massacre parou por exaustão, mas também porque já havia pouco para matar, os sobreviventes tinham fugido, alguns com a ajuda de cristãos-velhos;

- O papel decisivo e determinante dos frades dominicanos que instigaram e conduziram até ao final a turba enfurecida, no sentido de exterminar os cristãos-novos, inclusivamente opondo-se ao rei e ao poder temporal que foi claramente desafiado e contestado e que só conseguiu impor a ordem bastantes dias depois. Quando digo exterminar, estou a medir as palavras, foi claramente uma tentativa de extermínio, embora localizada e centrada em Lisboa e arredores.

- Embora alguns cronistas citem o Rossio e o cais, os testemunhos mais directos referem não só o Convento de S. Domingos como ponto de partida do massacre, mas também o Largo de S. Domingos como o local para onde convergiam todos os cadáveres, trazidos pelos malfeitores, onde eram empilhados e queimados; é por isso que ainda hoje esse é o lugar mais simbólico do massacre e onde propusemos à Câmara Municipal de Lisboa, a colocação de uma placa que lembre para a posteridade o sofrimento atroz dos judeus nesses dias;

- a participação de marinheiros alemães, holandeses e franceses no massacre e no saque dos judeus, o que mostra que o ódio aos judeus era um fenómeno generalizado.

3) Quais os motivos do massacre? Mais uma vez, os judeus foram o bode expiatório de uma determinada situação de seca, fome e peste; alguns historiadores apontam o papel, odiado pelo povo, de colectores de impostos de que os cristãos-novos eram incumbidos pelo rei, tal como o eram quando judeus; o fanatismo religioso, como já vimos é outra causa decisiva.

Para além destes, em minha opinião, há dois factores que foram decisivos: o primeiro é conjuntural, o segundo marcou todas as perseguições judaicas ao longo de dois mil anos.

As conversões forçadas é o primeiro. A conversão, voluntária ou forçada foi a forma encontrada por D. Manuel para manter os judeus em Portugal porque precisava deles. Não os podia manter como judeus, tentou mantê-los como cristãos, acreditando que com uma política de integração os conseguia assimilar e diluir na sociedade portuguesa. Enganou-se duas vezes: em primeiro lugar, porque subestimou a fé religiosa judaica que se manteve acesa e não podendo ser às claras tornou-se secreta; em segundo lugar porque o ódio que o povo tinha aos judeus, em vez de diminuir foi exacerbado: antes os judeus eram um corpo bem identificado, submetido a regras e leis rigorosas, apartado. Agora depois da conversão estava inserido, disseminado na sociedade portuguesa, invisível e por isso muito mais perigoso. Aliás, só o rei acreditou na conversão e na assimilação, o povo nunca.

O segundo factor que explica o Massacre, embora não sendo específico dele, é a vulnerabilidade judaica ao longo dos dois mil anos de diáspora. Sem reinos, sem exércitos, sem poder, os judeus foram ao longo da história uma presa fácil Aliás, é o próprio Damião de Góis que na Crónica de D. Manuel explica assim que tenham sido os filhos dos judeus a serem retirados aos pais para a conversão forçada e não os filhos dos mouros. Diz ele “A razão pela qual el-Rei ordenou que levassem os filhos dos judeus e não os filhos dos Mouros era que os judeus, pelos seus pecados, não tinham reinos, nem domínios, nem cidades, nem aldeias, mas são – em todas as partes em que vivem – peregrinos e súbditos, desprovidos de poder e de autoridade para executar os seus desejos contra as ofensas e os males exercidos sobre eles ...”

Muito mais tarde, 500 anos depois, os judeus souberam tirar a lição desta realidade ...

4) O Massacre é a consequência da falência da política pérfida de D. Manuel: as conversões forçadas foram uma tentativa de manter cá os judeus, mas como cristãos; considerava que bastava umas gotas de água baptismal e uma política de integração para que os judeus se deixassem integrar. Não foi isso o que aconteceu, como vimos e o próprio rei deu-se conta disso em primeiro lugar permitindo por decreto de 1507, a saída de Portugal dos cristãos-novos. Mas a quem ainda tivesse alguma ilusão sobre a estima que o rei D. Manuel tivesse em relação aos judeus nunca é demais lembrar que face ao fracasso da sua política, ele não hesitou em confiar ao seu embaixador em Roma a missão secreta de pedir ao Papa, em 1515, a permissão de estabelecer a Inquisição em Portugal. Ou seja se não ia a bem, talvez fosse a mal...Não foi!

No entanto, a política de D. Manuel teve um impacto considerável que dura até aos nossos dias: o cripto-judaísmo, o marranismo é um fenómeno essencialmente português e até hoje, 500 anos depois, se fazem sentir as consequências da presença do marranismo na sociedade portuguesa.

5) Finalmente, e para terminar, é evidente que temos de analisar o Massacre também com os olhos de ontem, da época, em que a questão da religião era absolutamente dominante, a força da Igreja absoluta, e a diabolização dos judeus um facto. No entanto, o Massacre de Lisboa, não deixa de ser um terrível exemplo de até onde pode levar o fanatismo, a intolerância e o ódio religioso. Afinal, o Massacre de Lisboa, tão distante, é infelizmente ainda tão actual...

Esther Mucznik

Gravura alemã, contemporânea do massacre e que o retrata.

Imagem

“Von dem Christeliche – Streyt, kürtzlich geschehe – jm. M.CCCCC.vj Jar zu Lissbona – ein haubt stat in Portigal zwischen en christen und newen chri – sten oder juden, von wegen des gecreutzigisten [sic] got.” (Da Contenda Cristã, que Recentemente Teve Lugar em Lisboa, Capital de Portugal, Entre Cristãos e Cristãos-Novos ou Judeus, Por Causa do Deus Crucificado”)
----
Nota: O sublinhado no texto é meu.
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor masahemba » 14 jan 2008 12:46

segundo consta o povo de Israel é o escolhido por Deus. Nessa óptica, todos os povos que sejam adversos aos Judeus serão severamente punidos. Tu, tiririca, contas esse episódio do massacre aos Judeus, ocorrido em 1506 em Lisboa, do qual, aliás, passou uma pequena reportagem no Telejornal da RTP-1, no ano de 2006, quando se comemoraram os 500 anos sobre esse lamentável e terrível episódio. Os Judeus acabaram por serem expulsos de Portugal. E agora, nos dia de hoje, pagamos por esse acto, pois a maldição divina desceu sobre Portugal, e por mais que batalhemos, por mais que trabalhemos, por mais que produzamos, por mais que usemos a nossa intelectualidade no sentido de fazer evoluir o país, por mais que nos preocupemos com o civismo, por mais que resolvamos os nossos graves problemas sociais, aos mesmo tempo que nos empenhamos em ajudar a resolver os problemas sociais de outros países em crise, por mais que vejamos os milhões que vem da UE a ajudar a resolver os nossos problemas, e a tornar-nos um pouco mais abastados, o que é certo é que continuamos a ser das últimas, senão a última carruagem do combóio que é a Europa, carruagem ferrugenta, com aquela estúpida luz vermelha acesa, onde a energia produzida pela máquina motriz chega a nós, já depois de ter passado por todas as outras carruagens, e decerto já muito desgastada, porque é certo que fomos e somos, e pelo andar da nossa carruagem seremos sempre pobres. É sem dúvida o castigo de Deus pelo que fizemos ao povo de Israel. Mas...espera aí...não houve um país há pouco mais de 50 anos que fez umas atrocidades muito piores? Pois houve! E é um país da Europa. Claro, a Alemanha. Então...a Alemanha, dentro desta óptica, deveria ser mais pobre do que nós. Mas a Alemanha...não faz parte do Jet 7? Então, ó tiririca...o que é que se passa? Deus está a ser injusto! Há aqui qualquer coisa que me escapa. Pronto, já sei. O castigo que Deus nos deu chamou-se Salazar. Mas, isso já lá vai há quase 34 anos. Somos um povo tão orientado, tão bem governado em 34 anos, com um povo tão preocupado no crescimento do país, durante 34 anos, com os grandes magnatas do nosso pequenos país, porque os há, a fazerem tudo o que podem para enriquecer o país, a criarem postos de trabalho justos, onde se ganha tão bem...os poderosos com remorsos de o serem, abdicando de parte dos salários de uma outra galáxia, na tentativa de equilibrar a balança da justiça social, e mesmo assim as coisas não funcionam?! Na, há para aí grandes acções pecaminosas que não são do conhecimento geral. Só assim é que se compreende esta desconcertante e triste estagnação. Não achas, tiririca? Briosas saudações. Masahemba

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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor tiririca » 14 jan 2008 20:19

masahemba Escreveu:Não achas, tiririca?


Apenas com três palavras, apresentas-me o maior enigma que este país tem enfrentado ao longo da sua história.

Se soubesse a resposta a essa pergunta, teria certamente encontrado a chave do problema, que tem sido e é estrutural.

Claro que todos podemos apontar alguns dos problemas, tais como uma educação deficitária, falta de produtividade, má organização quer civil quer do próprio estado, corrupção generalizada, etc.

Por alturas do Euro 2004, quando em Portugal só se falava de futebol, lembro-me de ter lido um texto de opinião, em que o opinador falava de uma visita que tinha feito à Áustria. Retive na memória uma frase «na Áustria não há belos campos de futebol, mas têm cá umas escolas!»

Este país nunca fez um investimento profundo no ensino. Continuamos ano após ano a discutir pontes, estradas, barragens, aeroportos, campos de futebol, CCB's de Belém e outros, Expos, etc. e continuamos a não investir estruturalmente no sistema de ensino, que ano após ano se vê a braços com cortes orçamentais e experiências educativas a rodos.

Cá dentro, somos desorganizados, pouco honestos, pouco cumpridores, pouco empenhados, pouco participativos, pouco voluntariosos, pouco solidários, pouco colaborantes, pouco responsáveis, mas estamos sempre prontos a criticar tudo e todos. Por norma não assumimos as nossas responsabilidades, são sempre os “outros” os responsáveis pelo péssimo desempenho do país em todas as áreas. Somo o país da Europa onde ocorrem mais mortes por acidentes de viação, na sua esmagadora maioria, causados por atropelos grosseiros ao código da estrada, nomeadamente excesso de velocidade e manobras perigosas. Mas são sempre os outros que conduzem mal, que andam em excesso de velocidade….

Até 1500, entre altos e baixos, mostramos ser um povo valente e senhor da sua vontade. Depois, entrou-se na curva descendente e de lá para cá, tem sido sempre a decrescer.

De lá para cá, no colectivo, nunca soubemos fazer as apostas correctas, andamos quase sempre em contracorrente. Quando todos estavam a abandonar África, nos fomos para lá em força. Foi o que se viu. Fico com a ideia que depois da aposta correcta no Atlântico e em África em 1400, esta actual aposta na União Europeia está para os dias de hoje, como estiveram as descobertas marítimas para aquele tempo.

Sou optimista por natureza, acredito que na Europa teremos futuro, mais ano menos ano, com ajuda ou sem ajuda da União, encontraremos o caminho para o sucesso.
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor tiririca » 15 jan 2008 20:36

No seguimento do post anterior e da pergunta que me formulas-te, ao começar a ler o livro que tiveste a amabilidade de me emprestar, não me contive e perdi dez minutitos a transcrever este extracto, que de uma forma muito sucinta nos mostra o quilate dos nossos políticos (os antigos que a julgar pela descrição, os de hoje são iguais aos de antanho), como tem sido governado este país ao longo dos tempos e, como infelizmente a nossa história se tem vindo a repetir.


"Portugal era, no início de 1908, um país à beira do colapso. Trinta anos de rotativismo e, por fim, dois de «franquismo» não haviam conseguido disciplinar a vida nacional, desenvolver duradouramente a economia ou modernizar a sociedade, que mantinha na sua dominância rural muitos dos traços do Portugal de antanho. Independentemente do regime, «o sistema» mostrava-se incapaz de solucionar os muitos problemas técnicos, económicos e políticos que clamavam por resolução urgente: o equilíbrio das finanças públicas e a regularização dos empréstimos contraídos no estrangeiro; o fomento do Ultramar, onde mal se rasgava uma estrada ou construía uma escola ou um hospital; a criação de uma rede de saúde e de uma rede escolar que tomassem o lugar anteriormente ocupado pela igreja; a reforma da agricultura e o progresso das comunicações; o restauro e ampliação dos portos; a modernização das frotas mercantes e de guerra; a criação de industrias; a incremento do comercio e o controlo dos produtos de consumo; a protecção das produções nacionais e o desenvolvimento das exportações. Outros países europeus, monárquicos ou repúblicas, debatiam-se com idênticos problemas de desenvolvimento; mas a acentuada periferia das políticas económicas portuguesas do século XIX fechara um círculo em torno do Pais, retirando-lhe o entusiasmo pelo fomento, que despontara com Fontes, e privando-o da competição internacional. A vida política espelhava este quadro.

O rotativismo, versão novecentista da «alternância» bipolar dos nossos dias, parecera um sistema eficaz de governação e, 1876, quando os Partidos Histórico e Reformista assinaram o Pacto da Granja e se transformaram, sob a designação de Partido Progressista , no grande opositor do Partido Regenerador. Progressistas («à esquerda») e regeneradores («à direita») seriam, nas três décadas seguintes, os principais agentes legisladores e executivos em Portugal. Assente na presunção de que a alternância entre esses dois «grandes representantes» das «duas grandes tendências nacionais» permitiria o refrescamento cíclico da vida pública, corrigindo um os erros do outro, o rotativismo pretendia transpor para Portugal experiências bem sucedidas, tanto do ponto de vista da mecânica política como do ponto de vista do progresso económico. Mas o fracasso da transposição dizia muito sobre a qualidade intrínseca dos políticos portugueses e sobre a sua preparação para governo racional da nação.

O sistema rotativo chegou ao século XX com poucas alterações; esta incapacidade de auto-reforma ditaria a sua sorte. A viciação do sistema tornara-se inevitável pelo próprio mecanismo eleitoral, posto à mercê dos «caciques», dos «influentes», dos «marchais». Sempre que caía um governo, o Rei nomeava outro e, a pedido deste, convocava depois eleições que o «reforçassem». Sendo estas organizadas pelo novo detentor do poder, o partido no governo ganhava invariavelmente – até, por seu turno, cair e ser substituído por outro, que repetia a operação. No campo de flores, o poeta e pedadogo João de Deus ironizava:

Há entre el-rei e o povo
Por certo um acordo eterno:
Forma el-rei governo novo
Logo o povo é do governo
Por aquele acordo eterno
Que há entre el-rei e o povo
Graças a esta harmonia,
Que é realmente um mistério,
Havendo tantas facções,
O governo, o ministério
Ganha sempre as eleições
Por enorme maioria!
Havendo tantas facções,
É realmente um mistério!


Com o decorrer do tempo, os próprios fundamentos ideológicos dos dois principais partidos foram sendo corrompidos: o Partido Regenerador desistira de «regenerar a vida pública», instalando-se no asilo do poder ou na sua iminência, e o Partido Progressista seguira uma via sinuosa até se tornar, também ele, um simples partido «de clientes». Por fim, não havia entre os dois divergência programática: o Parlamento era uma repartição aos gritos, o Governo uma «recompensa» pessoal. A bipolarização criara tais vícios que, em 1906, José Luciano de Castro podia dizer a João Franco: «A opinião pública é, em Portugal, a dos seus homens públicos; e, como bem sabe, esses homens públicos são o Hintze e eu»*. O problema do rotativismo residia, pois, na natureza idêntica dos seus protagonistas: no governo alternavam, não as ideias, mas pessoas e clientelas.

*Conde de Carnide, Na Intimidade de João Franco., pág. 118."

Jorge Morais in REGICÍDIO contagem decrescente
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor masahemba » 15 jan 2008 22:37

Pois! É que tal como as riquezas, também as pobrezas se constroem. E a nossa já tem muitos aaaaaaaanos. Assim como no Séc.XVIII, D. João V, rei de um reino pobre, teve o devaneio de gastar uma incomensurável fortuna a construir o Convento de Mafra, enquanto o povo passava fome, também agora temos os magníficos estádios da Luz, do Dragão e Alvalade XXI, entre outros, ao passo que o resto do país vive um verdadeiro regabofe na economia, na saúde,no ensino...português sofre!! Briosas saudações. Masahemba

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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor tiririca » 09 fev 2008 13:51

The Association between Naziism and Arab Antisemitism

SS

Sempre houve coisas estranhas ao longo da História... esta é talvez a maior incoerência e incongruência.....

PS: Mas que não se pense que são coisas do passado, hoje continuam a existir pessoas assim, que não sabem muito bem de que lado estão, dão uma no cravo e outra na ferradura! É a vivinha!
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor tiririca » 25 abr 2008 21:16

Exactamente, como foi previsto há cerca de 60 anos...

É uma questão de História lembrar que, quando o Supremo Comandante das Forças aliadas (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, etc.), General Dwight D. Eisenhower encontrou as vítimas dos campos de concentração, ordenou que fossem feitas o maior número possível de fotos, e obrigou que os alemães das cidades vizinhas fossem guiados até aqueles campos e até mesmo enterrassem os mortos.

O motivo? Ele assim o explanou: "Que se tenha o máximo de documentação - façam filmes - gravem testemunhos - porque, em algum ponto ao longo da história, algum idiota se erguerá e dirá que isto nunca aconteceu".

"Tudo o que é necessário para o triunfo do mal, é que os homens de bem nada façam". (Edmund Burke)


Relembrando:

O Reino Unido removeu o Holocausto dos seus currículos escolares porque "ofendia" a população muçulmana, que afirma que o Holocausto nunca aconteceu...

Este é um presságio assustador sobre o medo que está a atingir o mundo, e o quão facilmente cada país se está a deixar levar.

A Segunda Guerra Mundial terminou há mais de 60 anos.

Este texto foi escrito em memória dos 6 milhões de judeus, 20 milhões de russos, 10 milhões de cristãos, e 1900 padres católicos que foram assassinados, massacrados, violentados, queimados, mortos à fome e humilhados, enquanto Alemanha e a Rússia olhavam noutras direcções.

Agora, mais do que nunca, com o Irão, entre outros, a sustentar que o "Holocausto é um mito", torna-se imperativo fazer com que o mundo jamais esqueça.
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Re: VAMOS FALAR DE HISTÓRIA

Mensagempor tiririca » 30 mai 2008 22:25

Enviado por mail.
---

A verdade sobre Rosa Coutinho

Ora vejam como um "CANALHA" pode ser "HERÓI" «Sede cruéis sobretudo com as crianças»

Excelente artigo de António Barreto no "PÚBLICO", sobre o livro "HOLOCAUSTO DE ANGOLA - MEMÓRIAS DE ENTRE O CÁRCERE E O CEMITÉRIO", de Américo Cardoso Botelho. O sociólogo é categórico na sua apreciação, "O que ali se lê é repugnante", diz. Sobre aquela a que alguns chamaram a "descolonização exemplar", não se inibe de dizer: "O que fizeram as autoridades portuguesas durante a transição foi crime de traição e crime contra a humanidade."

Fala também da responsabilidade de Rosa Coutinho neste Holocausto e no caso de Manuel Ennes Ferreira, preso e torturado depois de lhe ter sido assegurada protecção na Embaixada de Portugal em Luanda.

Sobre o percurso dos responsáveis por este Holocausto e a atitude cúmplice dos políticos portugueses, diz: "Muitos dos responsáveis pelos interrogatórios, pela tortura e pelos massacres angolanos (...) estão hoje vivos e ocupam cargos importantes. Os seus nomes aparecem frequentemente citados, tanto lá como cá. Eles são políticos democráticos aceites pela comunidade internacional. Gestores de grandes empresas com investimentos crescentes em Portugal. Escritores e intelectuais que se passeiam no Chiado e recebem prémios de consagração pelos seus contributos para a cultura lusófona. Este livro é, em certo sentido, desmoralizador. Confirma o que se sabia: que a esquerda perdoa o terror, desde que cometido em seu nome. Que a esquerda é capaz de tudo, da tortura e do assassinato, desde que ao serviço do seu poder. Que a direita perdoa tudo, desde que ganhe alguma coisa com isso. Que a direita esquece tudo, desde que os negócios floresçam. A esquerda e a direita portuguesas têm, em Angola, o seu retrato." D.B.

Rosa Coutinho no Holocausto em Angola

O meu amigo Nonas já me havia falado no livro "Holocausto em Angola - Memórias de entre o cárcere e o cemitério", de Américo Cardoso Botelho, e despertara a minha curiosidade. Mas depois de ler o excelente e corajoso artigo de António Barreto no jornal «Público», passou a ser obrigatório.

Na sua lúcida análise e reflexão, lembrei-me do meu avô materno, oficial de Marinha que esteve colocado na Base Naval de Luanda. Fiquei com pena de ele não poder ler isto por já ter falecido. Sabia muito bem quem era Rosa Coutinho e o que tinha feito. Chocava-o um militar ser capaz de atraiçoar a Pátria que jurara defender. Sentia repulsa pelos traidores tornados "heróis". Mas não deixei de sentir alguma felicidade em ver como as verdades incómodas começam a vir à tona. Ainda para mais, por uma pena insuspeita, como neste caso.

Diz António Barreto no seu texto: "O livro revela os actos do Alto-Comissário Almirante Rosa Coutinho, o modo como serviu o MPLA, tudo fez para derrotar os outros movimentos e se aliou explicitamente ao PCP, à União Soviética e a Cuba. Terá sido mesmo um dos autores dos planos de intervenção, em Angola, de dezenas de milhares de militares cubanos e de quantidades imensas de armamento soviético". O livro publica, em fac simile, uma carta do Alto-Comissário (em papel timbrado do antigo gabinete do Governador-geral) dirigida, em Dezembro de 1974, ao então Presidente do MPLA, Agostinho Neto, futuro presidente da República. Diz ele: "Após a última reunião secreta que tivemos com os camaradas do PCP, resolvemos aconselhar-vos a dar execução imediata à segunda fase do plano. Não dizia Fanon que o complexo de inferioridade só se vence matando o colonizador? Camarada Agostinho Neto, dá, por isso, instruções secretas aos militantes do MPLA para aterrorizarem por todos os meios os brancos, matando, pilhando e incendiando, a fim de provocar a sua debandada de Angola. Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos para desanimar os mais corajosos. Tão arreigados estão à terra esses cães exploradores brancos que só o terror os fará fugir. A FNLA e a UNITA deixarão assim de contar com o apoio dos brancos, de seus capitais e da sua experiência militar. Desenraízem-nos de tal maneira que com a queda dos brancos se arruíne toda a estrutura capitalista e se possa instaurar a nova sociedade socialista ou pelo menos se dificulte a reconstrução daquela"." D.B."

Angola 1975

Enquanto em Luanda, sob o troar dos canhões na batalha de Kifangondo, Agostinho Neto proclama, perante a África e o Mundo, a independência de Angola, em simultâneo, em Carmona, hoje Uige, e em Nova Lisboa, hoje Huambo, os ainda aliados, Holden Roberto e Jonas Savimbi, proclamavam a efémera República Democrática de Angola. O que resultou dessa dupla e antagónica proclamação foi uma das mais sangrentas guerras fratricidas que dizimou para cima de 100.000 pessoas para só falar de angolanos.

A maior parte deles, presos, torturados e assassinados sumariamente sem culpa formada e sem um julgamento legal. Sobretudo pós 27 de Maio quando, face ao golpe Nitista, os ânimos e ódios se extremaram e Agostinho Neto, sedento de poder único e absoluto, não olha a meios, mesmo os mais sanguinários, para o conquistar e deter. As prisões e campos de concentração vão-se enchendo de cidadãos, nacionais e estrangeiros, acusados dos crimes mais diversos e inimagináveis. A terra angolana cobre-se assim de sangue numa escalada de violência e de crimes nunca vista. Com o auxílio dos soviéticos e dos cubanos, o MPLA, Agostinho Neto e as forças da ordem, Disa e militares, não poupam nenhum dos considerados opositores ou discordantes do regime ditatorial que pretendem impor e os fuzilamentos em massa começam a entrar na ordem do dia. É neste cenário terrível que o Autor deste livro, Américo Cardoso Botelho, se vê detido e mergulhado na masmorra de uma prisão onde diariamente são cometidos os maiores atentados à vida e aos direitos humanos. Durante cerca de 5 anos, Américo Cardoso Botelho conhece os horrores desse inferno prisional e mercê de uma coragem excepcional não só resiste às provações que lhe são impostas como consegue registar tudo o que vê e lhe contam outros prisioneiros, alguns deles hoje ainda vivos e citados no livro. Os casos de barbárie e crueldade humana a que assiste e lhe são transmitidos são narrados com uma isenção exemplar, não por ajuste de contas ou retaliação das penas sofridas, mas por uma assunção de justiça e julgamento dos principais autores desses crimes (alguns deles a ocuparem hoje lugares de relevo no governo de José Eduardo dos Santos), pela memória de todos quantos foram vítimas desses crimes e em respeito às famílias que ainda hoje ignoram onde param os corpos dos seus parentes para fazerem o luto e as honras funerárias.

Contextualizando as circunstâncias históricas e politicas que estão na raiz dessa luta sangrenta e fazendo eco do sofrimento, tortura e morte de muitos dos seus colegas de prisão, Américo Cardoso Botelho dá-nos um testemunho impressionante e de inestimável valor para que, à semelhança do que aconteceu em Nuremberga em relação ao holocausto nazi, as entidades internacionais se detenham nesse outro holocausto e promovam o julgamento de todos quantos estão na sua origem.

Assírio Bacelar
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