PARA ONDE VAI O IRÃO?

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tiririca
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PARA ONDE VAI O IRÃO?

Mensagempor tiririca » 03 out 2008, 22:19

PARA ONDE VAI O IRÃO?

No meio das incertezas que pairam sobre o Médio Oriente, e numa situação interna de vasta transformação social, o Irão posiciona-se para exercer uma liderança política e religiosa que ameaça polarizar ainda mais as posições e põe em risco a paz mundial.

Reeleito para um segundo mandado, Ahmadinejad terá de ajustar contas com dois astros nascentes: Ali Larajani, um homem que conhece bem a intrincada estrutura estatal, e o actual presidente da Câmara de Teerão, Mohammad Bagher Qalibaf. O país está totalmente dividido e frustrado, o braços com uma classe política corrupta, à mercê de forças ocultas. Em pano de fundo, a crise económica, o progressivo empobrecimento das classes médias, o desemprego e a inflação, superiores a 20%, a política externa, a saúde do líder religioso, Ali Khamenei, as lutas entre as inúmeras facções, a política apocalíptica de Ahmadinejad.

Transformação

O país, com mais de70 milhões de habitantes, uma taxa de analfabetismo de 86%, é indubitavelmente um dos actores decisivos de toda a região, na rápida transformação económica e social. Está destinado a tornar-se no tempo, com uma política cautelosa, um gigante económico e um actor importante na cena internacional.

Tem uma enorme vantagem geográfica, uma vez que está situado entre o golfo Pérsico e o mar Cáspio e confina por terra e mar com quinze países. No golfo Pérsico encontra-se a maior parte dos recursos mundiais conhecidos de hidrocarbonetos. Apesar de o desemprego e a inflação serem elevados, o PIB total está a crescer devido aos proventos das exportações de petróleo e à Rússia quanto a gás. As exportações de petróleo constituem a base motriz da economia iraniana e a principal fonte das suas entradas em divisas estrangeiras. Paradoxalmente, o país importa gasolina refinada, que é racionada.

Ambições

O Irão propôs-se o objectivo de se tornar a potência regional líder nos campos da economia, da investigação científica e tecnológica até 2025. São continuamente proclamados de modo populista os objectivos no sector petrolífero: permanecer o segundo produtor da OPEP com 7 por cento da produção petrolífera mundial; tornar-se o terceiro produtor mundial de gás com cerca de 10 por cento do comércio de gás; tornar-se o primeiro produtor petroquímico no Médio Oriente. O Irão é um país em transição tanto a nível político, com a abertura política a leste para com a China e a Índia, como a nível económico, com a criação anual de um milhão de postos de trabalho.

Mas será capaz de gerir com eficiência e adequadamente os seus enormes recursos e desfrutar a sua posição estratégica? Será capaz de ultrapassar as tensões com os regimes árabo-sunitas, preocupados com a ascenção de uma potência xiita também no Iraque? Além disso permanecem em cima da mesa as hostilidades com os Estados unidos e Israel, as contra-posições com a Europa e o emergir de contrastes com a Rússia.

Críticas

Neste último período não é raro encontrar personalidades do mundo islâmico que avançam críticas contra o khomeinismo, comparado ao populismo latino-americano, com o qual ao início tinha em comum o regresso às raízes nacionais e a procura de uma terceira via nem capitalista nem comunista, para o desenvolvimento do país. Khomeini desconfiava de qualquer forma de pluralismo político, do liberalismo, da democracia de base. Pretendia defender, por um lado, a classe média e, por outro, queria reforçar o Estado, alargando a esfera de influência em todo o corpo social, dando prioridade às classes mais pobres.

O fim da guerra com o Iraque (1988) deu origem a uma nova casta, a dos veteranos da longa guerra, à qual a teocracia concedeu privilégios, apesar de a controlar. Tanto os pasdaran (corpo militar) como os basij (corpo paramilitar) tiveram nos anos 90, com os governos de Rafsanjani, as portas abertas na gestão da economia do país: estradas, portos, aeroportos, bairros residenciais. Intrometeram-se nas indústrias petrolíferas e gás. Mas com o reformista Khatami encontraram obstáculos e tiveram de sair a descoberto, levantando a voz para não socumbir. Os pasdaran passaram a um papel político activo (Julho de 1999). Entraram em acção os serviços dos pasdaran, que conseguiram eliminar fisicamente as mais influentes figuras reformistas da sociedade civil; atacaram com dureza as manifestações estudantis e universitárias, metendo na prisão os activistas. A eleição de Ahmadinejad (24/06/2005), veterano do corpo dos pasdaran e sua expressão política enquanto presidente da Câmara de Teerão, marcou o ponto de chegada de uma longa luta subterrânea. Os pasdaran, saídos das casernas e apoiados pelo clero conservador, são hoje protagonistas políticos da república islâmica. Segundo os analistas, apresentam-se como uma espécie de Estado no Estado.

Quem manda?

Mas quem manda verdadeiramente no Irão? A Interrogação, na boca das pessoas da rua recebe respostas diversificadas, estando o país a braços com a proliferação das facções e o fracasso do reformismo. De 1979 a 1989, Khomeini exerceu um poder quase absoluto. O Khomeinismo foi um movimento de classe radical e pragmático com bastantes sintonias com o marxismo. À morte de Khomeini tornou-se líder religioso supremo Ali Khamenei, um clérigo de segundo perfil. A sua eleição, devida à necessidade do momento, foi indubitavelmente sofrida. Tornou-se uma espécie de entidade superpartes em tutela da integridade institucional do país. Rafsanjani, uma vez presidente, governou com pragmatismo, conseguindo conciliar os diversos ânimos do poderoso clero xiita.

Com Khatami (1997-2005), nasceu uma espécie de associação entre ele, reformistas e os poderosíssimos pasdaran. Mas o seu reformismo fói mais de fachada do que substancial e desabou sob ataques dos conservadores. Ahmadinejad impôs-se com um populismo radical e a retórica baseada no regresso do Mádi, o imã oculto. Como esperá-lo? O clero tem uma posição de expectativa, enquanto o poder político demagógico tem uma posição activista. O madismo permite ao presidente assumir uma aura de religiosidade, que vai para lá do puro aspecto político.

(... continua)
O pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas.
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Re: PARA ONDE VAI O IRÃO?

Mensagempor tiririca » 03 out 2008, 22:24

... continuação...

Para onde vai?

A trinta anos da revolução khomeinista, o Irão é um país difícil de entender. Isso deve-se, por um lado, à estranha mistura entre os representantes do clero não eleitos pelo povo, que controlam os centros do poder económico e, por outro, ao emergir de novas dinâmicas políticas. Khatami fracassou e Ahmadinejad está a braços com um programa que não consegue realizar: a justiça social, a luta contra a corrupção, o estilo de vida radicado no Islão, um Governo eficiente.

O Irão é um país rico. Se bem governado, tem possibilidades de se tornar um protagonista da cena económica global e poderia colocar-se na lista das primeiras vinte nações mais ricas do mundo. Mas a sua economia está doente. É dificultada por normas religiosas obsoletas e por uma excessiva intervenção do Estado. Depende do petróleo, tem de lidar com monopólios públicos e privados. A produtividade é escassa. O esbanjamento é sem medida; a inflação e o desemprego são galopantes; o défice orçamental e as desigualdades sociais são uma chaga. De tal modo que o líder religioso continua a bradar contra os «males supremos»: a pobreza, a corrupção, a discriminação.

As perspectivas económicas tornaram-se incertas devido à instabilidade do futuro mercado petrolífero e à estagnação da produtividade. A estrutura económica está fortemente esclerótica e falta capacidade de atrair investimentos e inovação tecnológica. O descontentamento e a insatisfação em relação ao Governo está continuamente a ponto de explodir.

Populismo

Ao presidente Ahmadinejad reprovam-se acções populistas no limite da racionalidade, medidas monetárias e fiscais ineficazes e uma posição flutuante acerca do nuclear. Nestes anos o país viu fugir cérebros e capitais e reduzir-se os investimentos privados. Mas o que mais inquieta – no dizer dos observadores – são a falta de um programa económico concreto, a interrupção das reformas, o afastamento de gestores de valor substituídos por gente incapaz, mas ligada às várias facções, a extenuante pressão sobre os meios de comunicação e a capilar presença da polícia secreta.

Uma política apocalíptica

A política apocalíptica entra em cena com a revolução khomeinista como promessa de criar o céu na terra através da lei islâmica e o governo teocrático. Khomeini pertence à escola dos Mashhad. No século XX, Mashhad era o centro das ciências ocultas e dos grupos secretos, sob a influência do anti-racionalismo na interpretação dos textos sagrados. A cidade tornou-se um lugar significativo quanto à ideia do imã oculto. Khamenei, mais do que por um pensamento racional e uma sólida formação teológica, foi influenciado por uma visão supersticiosa da religião.

Ahmadinejad pertence à sociedade semi-secreta dos Hoijatieh, que acredita no regresso iminente do imã oculto. O grupo considera-se o autentico intérprete do ensinamento islâmico e julga-se investido de uma missão especial: mudar a sociedade iraniana preparando a vinda do Mádi. É realmente difícil precisar o percurso deste grupo secreto, mas alguns indícios fazem crer que os seus membros sejam os mais activos na defesa do programa nuclear. Parece que a ideologia do grupo de Ahmadinejad seja uma mistura de socialismo, de nacionalismo e de fundamentalismos islâmico. É caracterizada sobretudo por dois slogans: anti-sionismo e antiamericanismo.

As sondagens dizem que a popularidade de Ahmadinejad está em constante declínio, enquanto o astuto Rafsanjani está em forte ascensão, chegando a ocupar o primeiro lugar na assembleia dos peritos, que elege o líder supremo. Khamenei é muito mais apocalíptico que Ahmadinejad. A sua posição, como representante do imã oculto, inclina-o mais para a estabilidade do regime teocrático do que para o caos, necessário para que o imã oculto regresse. Não parece, ao contrário de Ahmadinejad, que Khamenei seja favorável ao confronto armado com o Ocidente, a América, Israel. Não segue a ideologia revolucionária de Ahmadinejad. Os seus contínuos compromissos com os vários grupos e facções mostram-no mais interessado na manutenção da estrutura teocrática do que na sua desintegração. Khomeini dizia que é melhor lutar para melhorar a situação do que cruzar os braços e esperar com paciência o imã oculto.

Texto de: Francesco Atrazzari
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Re: PARA ONDE VAI O IRÃO?

Mensagempor tiririca » 21 jun 2009, 21:37

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