Para Washington, a Europa pesa cada vez menos

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tiririca
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Para Washington, a Europa pesa cada vez menos

Mensagempor tiririca » 08 abr 2011, 17:10

Henrique Raposo: "Para Washington, a Europa pesa cada vez menos"

A administração Obama apresentou a sua nova doutrina de segurança, que porá fim à guerra contra o terrorismo do anterior Presidente, George W. Bush. Em vez disso, apostará em alianças com potências emergentes, como a China e a Índia. É este um exemplo da “redefinição de conceito de Ocidente” a que alude no livro?

Não. A redefinição do conceito de Ocidente está a ser feita apenas com as democracias asiáticas. Ou seja, a China não entra neste filme. E, claro, esta redefinição do espaço ocidental não está inscrita nos documentos oficiais dos EUA (até porque isso representaria uma declaração de “guerra fria” contra a China). Na política internacional, nem tudo é explícito, nem tudo tem documentos oficiais. O Novo Ocidente é uma realidade que se consuma ao longo do sistema de alianças dos EUA, numa rede de relações bilaterais entre os EUA e as democracias transpacíficas (Índia, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália, Nova Zelândia, etc.). Para Washington, as democracias transpacíficas são tão importantes como as democracias europeias.

Sustenta no livro que o 11 de Setembro não mudou o mundo e que o dado determinante da nossa era é a ascensão dos asiáticos e não o terrorismo islamita. Até à crise de 2008, era difícil defender a tese. Agora deixou de ser?

Sim, depois da crise ocidental de 2008, esta tese tornou-se mais consensual. Mas, mesmo antes de 2008, existiam dados empíricos que deveriam ter despertado os europeus para esta realidade. Exemplos: homem chinês no espaço; em 2005, o mundo em desenvolvimento passou a representar mais de 50% da riqueza mundial; aquisição de empresas europeias por empresários indianos; o acordo nuclear entre Índia e EUA. E, acima de tudo, era preciso ter atenção a uma coisa: o efeito psicológico do 11 de Setembro não podia desviar o nosso olhar dos velhos cálculos de poder realista. O feitiço da “guerra ao terror” não cegou apenas George W. Bush.

Alude no livro à aliança formal EUA-Japão e à aliança informal EUA-Índia, mas não é na relação EUA-China que boa parte do essencial do século XXI se desenhará?

Sim, a relação China-EUA é a relação bilateral mais importante. Mas a forma como os EUA lidam com a China passa por Tóquio e Nova Deli. Os americanos sabem que não podem (nem devem) conter a ascensão da China. Mas os americanos sabem que podem condicionar a ascensão chinesa. A aliança entre as democracias transpacíficas (EUA-Japão, EUA-Índia) é a única forma de evitar um revisionismo autoritário da China. A unidade das democracias transpacíficas força a China a emergir dentro do respeito pela ordem liberal internacional.

Onde e porquê a Europa falhou quando defende que o mundo não é já pós-americano, mas sim pós-Atlântico?

A unipolaridade continua de pé. É um erro dizer-se que vivemos num mundo multipolar. Em todos os indicadores empíricos da “polaridade”, os EUA continam a ser únicos. Ponto final. O que existe não é multipolaridade (três ou mais pólos de poder idênticos), mas sim uma nova pluralidade de potências (Brasil, Índia, China, o Japão de regresso à soberania plena, etc.). Porém, esta pluralidade não põe em causa a unipolaridade americana – até porque muitos destes estados são aliados ou parceiros dos EUA (ex.: Índia e Japão). O mundo não é pós-americano. É, isso sim, pós-Atlântico, porque o centro de gravidade da política internacional desviou-se do Atlântico para o Pacífico. Os EUA também são uma potência do Pacífico, convém lembrar. Na segunda metade do século XX, Washington esteve concentrada no Atlântico. Na primeira metade do século XXI, Washington estará concentrada no Pacífico. Isto não é “culpa” da Europa. Os asiáticos é que começaram a entrar no jogo da globalização e, com naturalidade, roubaram o protagonismo à Europa. Mesmo que crescesse a 5%, a Europa não conseguiria evitar este declínio.

Porque é que a Europa recusa perceber o mundo pós-Atlântico?

Porque a elite europeia pensa de forma anti-realista. A linguagem e os conceitos do realismo (Estado, Poder, alianças, declínio, potência, ascensão) foram banidas do léxico europeu. Se falarmos com estes termos, seremos facilmente rotulados de “reaccionários”. A elite europeia vive numa ambiência pós-Estado, pós-Poder, e pensa que a política internacional se resume a fóruns apolíticos como o TPI e as conferências de Copenhaga. Neste sentido, os europeus nem sequer têm os instrumentos intelectuais para pensar o seu próprio declínio. Falar de declínio seria admitir que o realismo, afinal, ainda é válido. E a elite europeia não consegue engolir esse sapo. Entre a ideologia europeísta e a realidade, a elite do velho continente escolhe sempre a primeira. Depois, os europeus não respeitam as democracias asiáticas. Continuam a achar que a democracia é um monopólio de europeus e americanos. Não compreendem que o “mundo pós-atlântico” também é relativo à legitimidade democrática. Os indianos são tão legítimos – do ponto de vista democrático – como os franceses.

Vai ser a Rússia o grande teste para a Europa do séc.XXI?

As potências autoritárias (China e Rússia) vão testar as regras da ordem liberal internacional – a ordem onde vivemos desde 1945. A Rússia não concorda com as regras liberais europeias e quer impor uma ordem europeia à moda antiga. Os russos querem manter uma esfera de influência oitocentista sobre os seus estados vizinhos e recusam respeitar as regras do mercado energético. Ora, para ter um lugar à mesa das grandes potências (junto de americanos e asiáticos), a Europa tem de meter a Rússia no seu lugar. Ou seja, a Europa tem de colocar a Rússia a respeitar as regras europeias. Se não conseguir controlar a sua própria vizinhança, a Europa não será respeitada por americanos e por asiáticos. Não será vista como um ‘igual’ por Washington, Pequim ou Nova Deli.

Visto de Washigton, há um dilema - o de dar poder aos asiáticos sem melindrar os europeus - ou, para a diplomacia norte-americana deixou de ser importante o que a Europa possa pensar?

Para Washington, a Europa é cada vez menos importante. Para Washington, a Europa pesa cada vez menos. Basta pensar na Cimeira de Copenhaga. Obama negociou o acordo final com as potências emergentes. Os europeus ficaram à porta.

Sustenta que a aliança entre Paris e Londres é a condição sine qua non para uma Europa global. Onde fica a Alemanha na equação?

A Alemanha, por razões históricas, tem problemas no que diz respeito à projecção de forças no exterior. Se queremos uma Europa forte e com voz global, isso só será possível com a França e o Reino Unido a puxar para o mesmo lado. Para um equilíbrio entre a Alemanha doméstica (liderando a UE na sua dimensão interna) e a França e Reino Unido globais (liderando a UE na sua dimensão externa), o Tratado de Lisboa deixou uma porta aberta: por um lado, o Tratado reconhece que a Alemanha é o primus inter pares dentro da UE; por outro lado, através das Cooperações Estruturadas, o tratado abriu caminho a alianças informais de estados da UE no que diz respeito à projecção de forças no sistema.

José Bastos
O pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas.
(Willian George Ward)

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