Mais uns passos a direita

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Fulano_de_tal
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Mais uns passos a direita

Mensagempor Fulano_de_tal » 17 out 2011, 11:51

As novas medidas de austeridade são aumentar em meia hora o dia de trabalho dos trabalhadores do sector privado e retirar dois ordenados por ano aos funcionários públicos. Desta maneira, todos partilhamos a austeridade, desde que por “todos” se considere apenas, no sector privado, os que têm de picar o ponto e, no sector público, os que vivem do seu ordenado. Isentos ficam gestores, administradores e grandes accionistas do privado e os cargos públicos cujo rendimento vai muito além do ordenado (1).

Segundo o Pedro Passos Coelho (PPC), uma das justificações para o Estado ficar com os subsídios de Natal e férias apenas dos funcionários públicos é de que «em média os salários na função pública são 10 a 15 por cento superior à média nacional»(2). A estatística é suspeita, pois compara salários declarados, e o sector privado permite uma contabilidade muito mais criativa. Mas, mesmo que seja correcta, não serve de justificação. Deve-se cobrar mais impostos a quem ganha mais, mas com base no salário de cada individuo e não na média do grupo arbitrário onde o colocam. Também não seria justo criar um imposto especial para homens engravatados ou licenciados só por, em média, ganharem mais do que os restantes. A outra desculpa é de que «estender esta medida ao setor privado não resolveria o problema do défice orçamental». Grande barrete.



O Estado não pagar dois ordenados aos funcionários públicos é o mesmo que o Estado cobrar dois ordenados aos funcionários públicos, como imposto extraordinário. Para efeito do défice, tanto faz ver isto como menos a sair ou mais a entrar. É claro que, se o Estado desse este dinheiro às empresas privadas, isso não reduziria o défice. Por isso é que o Estado fica com este dinheiro. Fazer o equivalente no sector privado seria cobrar dois ordenados de cada salário acima dos 1000€. Esse dinheiro, obviamente, seria receita do Estado e não das empresas, reduzindo o défice de qualquer forma, excepto talvez no ideário da demagogia imbecil.

Mas a demagogia funciona. Possivelmente, muita gente julga que a principal despesa do Estado é com os salários dos funcionários públicos. Na realidade, estes perfazem menos de um quarto do orçamento (3). A despesa principal é em prestações sociais, de 37 mil milhões. Os salários totalizam 19 mil milhões e os restantes 35 mil milhões são despesas de capital, contractos com empresas, juros e outras despesas. Seria mais razoável cortar nesses 35 mil milhões antes de cortar nos salários. Infelizmente, esses 35 mil milhões vão directamente para os bancos, para as empresas de construção, para os concessionários das estradas e outros amigos dos amigos que, desta maneira, conseguem muitos e bons negócios. É o tal empreendedorismo que tanta falta nos faz.

Outra ideia comum é a da função pública ser inútil e as empresas privadas mais eficientes. É verdade que a função pública, menos sujeita a pressões de mercado, tende a acumular mais burocracia. Essa é de evitar. Mas o sector privado é eficiente apenas a maximizar a diferença entre o dinheiro a pagar por um trabalho e o valor a cobrar pelo resultado. É fácil ver porque é que precisamos de polícias, professores, enfermeiros, contabilistas, e até cobradores de impostos, para que a sociedade funcione. Mas empregados de mesa, ajudantes de cabeleireiro e aqueles chatos que nos tocam à porta a vender tretas que não queremos só têm esses empregos porque alguém lucra com isso. Se se despedissem todos a sociedade continuava na mesma. Ou até ficava melhor. Mas é fácil passar a ideia de que ensinar crianças numa escola pública é mau porque é “despesa” mas criar uma empresa para dar banho a cães é excelente por ser “empreendedorismo”.

Apesar da conversa do PPC, as medidas deste orçamento não têm nada de justo nem são para todos pagarem a crise. A maior fatia dos impostos vem do IVA, que é cego aos rendimentos (se bem que favoreça os alcoólicos, porque o vinho é um bem essencial), e a segunda maior vem do trabalho dependente. As empresas pagam um décimo disto, e a banca fica a rir. O PPC vai agravar ainda mais a diferença entre quem ganha o dinheiro a trabalhar e quem o ganha a especular ou a vender o trabalho dos outros. Também são formas legítimas de ganhar dinheiro mas, se é para todos pagarmos em função dos nossos rendimentos, então que paguem mesmo todos e em função de todos os rendimentos que auferem, seja qual for a sua proveniência. As medidas do PPC são, novamente, sacar da maioria para dar aos amigos. A única coisa que mudou desde o Sócrates foi os amigos. E talvez nem isso...
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Bruno Lameiras
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Re: Mais uns passos a direita

Mensagempor Bruno Lameiras » 17 out 2011, 21:52

Gostava de saber em que parte da Politica até agora aplicada pelo PSD é "caminhar para a Direita".... :roll
"podem-me calar, mas jamais mudarão a minha forma de pensar"


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