Alguém

O conteúdo deste separador está acessível a visitantes
Avatar do Utilizador
Fulano_de_tal
Mensagens: 852
Registado: 02 ago 2008, 22:33
Força ou serviço: Polícia de Segurança Pública

Alguém

Mensagempor Fulano_de_tal » 09 nov 2012, 17:58

Confiar, mesmo, só em Deus. No Estado de Direito, no Estado Social, na Democracia Virtuosa, desculpem lá, não apenas não confio, como não acredito. Mas tal qual não admito que me imponham mistelas e dietas, também não faço questão de impor nada aos outros. Se todas essas balelas vos seduzem e encantam, força! Não me venham é depois com ciganices lacrimijantes do estilo "Ai que nos violam a Constituição!", "ai que a Constituição nos bloqueia!", "ai que nos estão a ir ao Estado Social", "Ai que o estado social nos vai ao bolso!", "ai que que nos prostituem o Estado de Direito!", ou "Ai que o Estado de Direito não está a render o que devia!", "ai que nos congelam a democracia", "Ai que a democracia está sem fundos, nem fundilhos!", etc, etc.
Parecem posições opostas, antagónicas, mas são a mesmíssima posição. É a mesmíssima gente. Quem conseguir distinguir a merda do cagalhão, faça favor, tenha a bondade.
Junte-se ao Luís de Matos, e também ao Júlio, e montem um espectáculo de ilusionismo para bonapartes na reforma.
Dito isto, julgo que estarei plenamente creditado (ou seja, devidamente encartado na mais olímpica das imparcialidades) para explanar o que se segue.
A principal razão para a minha descrença nos Estados (de Direito e Social), tanto quanto na Democracia (paralamentar ou para-rir-e-chorar), é a realidade da sua exstência entre nós (lá fora, no presente e no passado, também abundam maus exemplos, mas com esses posso eu bem). E essa realidade manifesta a mais desoladora e repugnante perversão dos mesmos. Quer dizer, aqueles que diariamente passam e repassam atestados da mais inoxidável das virtudes a essa sagrada tríade, outra coisa não fazem, refazem e trifazem na prática senão pervertê-la, prostituí-la e enxertá-la de vícios, taras e quimeras canibais. Temos assim, graças em grande parte, aos seus putativos paladinos (na verdade, seus proxenetas) um Estado de Direito, um Estado Social e uma Democracia completamente pervertidos. Em teoria, seraim semi-angélicos; na prática, estão completamente decaídos e adulterados.
Entretanto, a crise actual de rendimentos levou a seita proxeneta a um cisma aparatoso. Uns continuam a jurar pela virgindade da querida, apesar dos claros sinais de falência senil e dotes atractivos em vias de extinção; outros, adeptos duma gestão mais desembaraçada, conclamam ao abandono rápido do destroço improdutivo e à engenhosa imposição armada dum esquema urgente de entre-sodomia geral da clientlela. Entre-sodomia geral até à morte, bem entendido; que é como a coisa será mais rentável. Isto, numa primeira fase; porque, numa segunda, ainda mais audaz e racional, a exploração prolongar-se-á mesmo para lá dela, através da reciclagem necrófila dos cadáveres. Acrescido de que a conta no banco, além de moeda ou valores, poderá ser também em órgãos. A conta dos proxenetas, claro está.
Ora, a sensatez poderá estar banida, desterrada e até queimada em efígie. Mas continua viva, embora em parte incerta. E, em sonhos, até por força da necessidade, começa a aparecer, com certa frequência, a alguns cidadãos deste país. Um dia destes, ainda algum, daqueles que se fazem ouvir, se lembra de dizer: "Bem, não é possível termos um Estado angélico, nem uma democracia celestial, portanto é estúpido desejá-lo (e ainda mais, proclamá-lo); Mas também não queremos um estado e uma democracia completamente pervertidos, seja porque nos sodomiza arbitrariamente, seja porque nos obriga a sodomizar-nos uns aos outros. A questão não é a falsa questão. E a questão é que o nosso problema não são as funções do Estado: são as disfunções do Estado. O problema é que o dinheiro que chegaria perfeitamente para as funções do Estado, foi desviado e malbaratado com uma miríade de disfunções do estado, que outra servidão não teve, nem tem, que a sustentação arrogante e opípara duma multidão de disfuncionários do estado. O problema não é o actual governo, ou o governo anterior: o problema é a sucessão de desgovernos, que o actual apenas protagoniza e acentua. O problema é que não houve eleições: houve golpadas legitimadas através dum esquema manhoso nas urnas. A democracia serviu do cobertura a uma cleptocracia legalizada na forma dum aristocracia invertida e burocrática. O povo nada de útil ou concreto decidiu: intoxicou-se. Fumou latrocínio atrás de latrocínio; tripou com miragens, de panaceias, créditos e migalhas; e acordou um belo dia como qualquer junkie acorda: arruinado, infectado, toxicodependente e sem-abrigo."
Não reivindicamos o paraíso; mas também não queremos nem aceitamos o inferno na terra. Para começar, contentamo-nos com um estado que funcione, uma democracia que tome banho e um país que ande no mundo (que é a rua dos países) de cabeça erguida e não de pata estendida, seja a pedir esmola, seja a pedir colo.
Pois, um dia destes ainda alguém diz isto. E, mais grave ainda: ainda alguém escuta. Alguém que não apenas o boneco e as paredes.

http://dragoscopio.blogspot.nl/2012/11/alguem.html#links
------------------
Everyone has a right to be stupid once in awhile. Yet some just abuse the privilege.
------------------
https://www.tovarich.net

Voltar para “FÓRUM 9 - TEMAS POLITICOS E SOCIAIS”

Quem está ligado:

Utilizadores neste fórum: CommonCrawl e 5 visitantes