Não sois Charlie, não senhor!

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Fulano_de_tal
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Não sois Charlie, não senhor!

Mensagempor Fulano_de_tal » 11 jan 2015, 15:53

Não sois Charlie, não senhor!
Mas isto, lá está, como apenas a via utilitária prevalece e infesta, pouco importa a essência da palavra. Apenas interessa como utensílio, neste caso, como arma de arremesso.. Os "terroristas" atiram com tiros ou bombas, os nossos geo-estrategas de sofá atiram-lhes com palavras. O Ruído contra o barulho; o cuspo como resposta à pólvora. Basicamente, injuria-se, desclassifica-se e criva-se de execrações o terrorista e o seu abominável acto. Todo este escarcéu, todavia, não diminui nem atenua os efeitos do atentado: apenas o amplifica. E é isso que o terrorismo pretende. O terrorismo e todo aquele que dele pretende tirar algum lucro, rescaldo ou vantagem. Admitindo, sem mais complexificações nem metástases, que a execução dos crimes de Paris foi obra do denominado "Estado islâmico", a coisa terá sido rudimentar (porque mais não era preciso, convenhamos)... Qualquer coisa do estilo "vão para lá, arranjam umas AKs na loja albanesa, estudam o alvo, aguardam pelo dia oportuno e abatem meia dúzia de infiéis. Depois pôem-se ao fresco, aguentam o mais possível até que Alá vos recompense no céu e pronto, é tudo!"
«Só isso?!...",terão pasmado decerto os operativos. "Só. - terá respondido o tipo da agência de viagens. -"O resto do circo, eles montam automaticamente, por sua - e para nossa - alta-recreação.
Enquanto modalidade de acção da guerra subversiva (e, caramba, não é preciso ir à tropa, basta ir ao dicionário), ao terrorismo interessa-lhe uma reverberação o maior possível dos seus atentados. Por isso procura que estes se processem em locais e condições que a favoreçam. A quem faz o combate a essa subversão (as autoridades de um país, presumo eu, se calhar optimisticamente) compete evitar por todos os meios que 1. essas acções terroristas se concretizem; 2. que, em se concretizando, produzam o menor efeito possível; e 3. e decorrente da anterior, uma vez concretizadas, que logrem a menor reverberação e propaganda possível. Propaganda significa essencialmente isso mesmo: propagação pública. E a principal finalidade dos actos terroristas é, precisamente, o alastramento posterior junto da população. E quanto maior essa propagação e mais retumbante o alarme causado, maior o sucesso do acto.
Ora, o que assistimos, com toda esta algazarra e ruído manifestante é que, da parte dos mass-e- miss-media e das autoridades atacadas, em vez do sério combate à subversão, o que se verifica, a raiar o escândalo, é a mais pressurosa colaboração e conivência, na medida em que ao contrário de um esforço concertado e organizado de atenuação dos efeitros, esfalfam-se num trabalho porfiado de amplificação e enriquecimento.
O assassínio frio e metódico (na verdade, uma execução) de um grupo de pessoas foi transformado num ataque à liberdade de expressão, ao âmago da França e aos alicerces da civilização! Em suma, um perfeito circo de rilhafoles. Toda esta gritaria é dirigida, em boa verdade a quem? Decerto não acharão que psicopatas organizados e ultra-armados, que têm vido a chacinar alegremente pessoas às dezenas de milhar, ficam muito comovidos ou sensibilizados com os vossas pequeninas indignações e lacrimejorros por encomenda, coro e descargo de consciência!... Bem espremido, em que é que toda esta chinfrineira distingue esta boa gente dum bando de babuínos sob a imaginação acagaçante de um leopardo?... Pretendem exactamente o quê - assustá-los com o barulho?
Mas o que vem a ser o terror, afinal? Assassinar não é terror: é homicídio voluntário, psicopatia, ou guerrilha. Atenta contra a vida das vítimas, que não é coisa de somenos, bem pelo contrário, é a essência da questão. A vida das pessoas devia valer alguma coisa enquanto pessoas, per si. O terror, contudo, não é isso. O terror é o medo que desse tipo de actos, de desvalorização e nadificação da vida das pessoas violentamente mortas, se destila e asperge para as restantes pessoas, potencialmente candidatas ao mesmo tipo de tratamento. A propagação desse horror ao maior número de receptores é que constitui a essência do terror, a sua realização e a motivação intrínseca do terrorismo. Só depois de publicitado é que o assassínio simples devém terrorismo completo. Tecnicamente, há dois tipos de terroristas, uma vez alcançada esta realidade última: os que iniciaram o processo (neste caso, a célula islamita); e os que corporizaram e materializaram o processo, ou sejam, as próprias autoridades francesas, os mass-media (e miss-media, por mimesis e contaminação poluidora) desenfreados e todos aqueles que, de algum modo, contribuíram para a publicidade e alastramento social do acto. Em resumo, vós não sois todos Charlie. Compenetrem-se: Sois, sim, todos, terroristas.
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Everyone has a right to be stupid once in awhile. Yet some just abuse the privilege.
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