Partidofagias e contos do vigário

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Fulano_de_tal
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Partidofagias e contos do vigário

Mensagempor Fulano_de_tal » 03 set 2015, 18:01

Partidofagias e contos do vigário


Mas alguma vez os partidos, em Portugal, se guiaram coisa que se visse por ideologia, doutrina, receita (culinária, que fosse), programa de partido ou sequer de governo? Mal se apanham no poleiro, passam por isso tudo com o maior desembaraço, velocidade e amnésia súbita. Mesmo os comunistas (dos vários credos e alambiques) quando, no pós-25 de Abril, se entretiveram a desmantelar a nação à boleia da peregrinice zoina dos moderados (como já tinha sido em Outubro de 1917, na Rússia), mesmo esses, nunca deixaram, no essencial, de acautelar a vidinha e o futuro sem sobressaltos na "democracia burguesa" pós-Novembro. Nos restantes quarenta anos, os partidos têm sido nada mais que agências de emprego, feiras de contactos e influências, trampolins sociais e trambicódromos para safardanas, sicofantas e arranjistas das mais diversas estirpes, cores e proveniências. E quanto mais instalados ou com acesso ao Poder, pior. A não ser no folclore da treta, não há socialistas nem não socialistas, sociais-democratas ou populares, esquerdistas ou direitistas, conservadores ou liberais: é tudo devoristas, trepadoristas e empalmadores. A máquina partidária encarrega-se de produzir, em regra, enchidos desses. Mesmo indivíduos honestos e genuinamente bem intencionados que, por algum milagre da santa, escapassem à filtragem interna, acabariam rapidamente submersos e varridos pela marabunta infestante.
Fora tudo isso, as úinicas agendas que cumprem vêm de fora e fazem parte do kit/alvará comercial. Ou do estojo de emergência, por dictatum ainda e sempre externo. Resume-se o fenómeno inteiro num aforismo simples: sacrifica-se o pagode para salvação dos eleitos.

Os partidos são o cancro. Está provado e servido, à náusea e à exaustão, desde a cegada de 1820. E também já vimos a cura, pelo que não requer descobertas da pólvora ou da roda dentada. Não há metásteses boas nem metásteses más: há metásteses que se tornam particularmente nefastas e malfazejas logo que abocanham o Poder. A diferença no malefício é directamente proporcional à quantidade de poder nas unhas da quadrilha e à duração da mamada. A dinâmica da mediocridade, da chicana, da safadeza e da filha-da-putice que reina no interior das cloacas partidárias (dos quais o modelo universal e perpétuo é o do próprio Partido Comunista - cada Secretário-geral converte-se num tótem tribal a prazo, e, uma vez no Poder, degenera num Kim-Kong-ill à solta, a arder em frémitos de eternidade) alastra ao país e instaura a dispersão, o oportunismo, a velhacagem e a zaragata permanente. Acangotada na Administração Pública, naum cascata de alvéolos, casulos e bolsas marsupiais, esmera-se, afana-se e desunha-se, a um ritmo cada vez mais frenético, em extorquir e brutalizar, sem dó nem piedade (e toda a burrocracia de que é capaz), o contribuinte e o desamparado em geral. Desamparado, entenda-se como todo aquele que não pertence ou é patrocinado por qualquer uma das camarilhas em exercício: dos partidos à maçonaria, das Ordens às Opus, dos Clubes às seitas (excepto naquele caso emblemático em que o clube e a seita se confundem), passando por todas as mancebias e manjedouras a jusante, cujo elenco me dispenso de explicitar por economia de espaço e nojo. O certo é que é toda uma escumalha - que não vale a ponta dum corno nem serve para nada de útil à nação - a armar ao importante, ao fino e, sobretudo, ao caro. Mainates que se fazem pagar como arquiduques.

Os partidos, entretanto, foram todos socialistas no pós-25 de Abril; foram todos democráticos no pós-25 de Novembro; e serão todos o que for preciso para garantir o estipêndio dos seus comensais (devidamente hierarquizados à boa moda feudal, pois claro, que isto da democracia é só mesmo para inglês ver e otário aplaudir). Acreditar na reforma deste esquema, ou, ainda pior, na sua cura milagrosa, é o mesmo que acreditar na redistribuição da riqueza. Os mesmos que não impedem os ladrões de roubar e, ainda por cima, os ajudam a sacar a seu bel-prazer, apregoam depois projectar persuadi-los a devolver o que quer que seja? Os mesmos que facilitam são depois os mesmos que moralizam? No menos mau dos casos, é o mesmo que pretender educar um filho na idade adulta, depois de deixá-lo adquirir todos os vícios, taras e más tendências. Uma nódoa, parafraseando o Eça, não se reforma: remove-se.
Mas pior ainda é tentar camuflar o surro duns debaixo do tapete do lixo dos outros. Quem o faz não o realiza por amor genuíno à higiene, mas por frete escuso ou interesse escaninho numa das imundícies. Repito: Não é devoção à limpeza: é propaganda eleitoral. E das rascas.
Ou então não, dir-me-ão as almas mais caridosas; que é mero fruto da ingenuidade, de boa fé, com boa intenção. Pois, contra bem intencionados desses já fiquei eu vacinado (e pena não ter também ficado o país) no 25 de Abril. Já sei qual vai ser o resultado da "boa intenção"... Que, diz o provérbio, povoa os infernos.

PS: consta que as "câmaras corporativas" rosas e laranjas que infestam a blogosfera (quem a viu e quem a vê!...) são, em larga percentagem, tripuladas por funcionários públicos. Faz todo o sentido. Em pleno mundo às avessas, numa sociedade em putrefacção acelerada, o parasita ascende a guardião da moral pública. .

http://dragoscopio.blogspot.pt/2015/09/partidofagias-e-contos-do-vigario.html
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