Compromisso Portugal - Estado da Governação em Julho de 2008

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Diana
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Compromisso Portugal - Estado da Governação em Julho de 2008

Mensagempor Diana » 07 jul 2008 08:37

Compromisso Portugal - http://www.compromissoportugal.pt


O Estado da Governação em Julho de 2008


Uma avaliação de desempenho do XVII Governo Constitucional no fim do Terceiro Ano da Legislatura.

Aproxima-se o Debate na Assembleia da República, que terá lugar no próximo dia 10 de Julho, neste sentido, o Movimento de Cidadãos - Compromisso Portugal - preparou o documento que pode ser lido, aqui:

http://www.compromissoportugal.pt/docs/ficheiros/EstadoGovernacao07_2008.pdf


O que é o Compromisso Portugal


O Compromisso Portugal é uma iniciativa da Sociedade Civil. Sem alinhamentos partidários nem vocação para governar. É um fórum de discussão aberto à participação de todos, onde não cabem os preconceitos ideológicos.

É um movimento de cidadãos, um exercício de cidadania, que pretende promover a discussão do modelo económico-social do nosso País, avançando com propostas concretas de mudança.

Mas que tem uma ambição: contribuir para que a nossa sociedade atinja patamares mais elevados de bem-estar, coesão e felicidade de uma forma natural e sustentável. Esse é o nosso sonho.

O persistente atraso de Portugal, tanto do ponto de vista económico como social, convoca a Sociedade Civil para um desafio que não pode, pela sua dimensão e pela ruptura que comporta, ficar exclusivamente nas mãos dos decisores políticos.

Este desafio exige que todos os Portugueses sejam agentes activos de mudança.

O Compromisso Portugal tem assumido, desde a sua fundação, as suas responsabilidades cívicas na construção de um país mais justo, mais solidário e mais desenvolvido. Debatendo, questionando, propondo, o Compromisso Portugal assume a sua vocação de agente activo de mudança na sociedade.

O Compromisso Portugal é um movimento de causas que propõe:

Um Estado forte e independente ao serviço dos cidadãos.
Um Estado existe para desempenhar com eficiência e eficácia todas as funções e actividades (mas só estas) que a iniciativa e o interesse individual dos cidadãos e das suas instituições privadas não conseguem garantir.
A flexibilidade e a predisposição à mudança como atitude dos cidadãos e da sociedade no seu todo.
A igualdade de oportunidades como ponto de partida para a liberdade e iniciativa individual. Acredita na sã concorrência nos mercados enquanto fonte de valor económico e social.
A existência de direitos sociais e de uma rede de protecção social para os que deles realmente carecem.
O Compromisso Portugal pretende intervir na sociedade enquanto essa for a vontade dos seus promotores e seja possível reunir as condições necessárias para a realização das suas iniciativas.

O Compromisso Portugal acredita em Portugal.

E que pode contribuir para fazer do nosso País um melhor sítio para viver.


Duas conclusões sobressaem deste Documento:

- O Governo PS foi capaz de reequilibrar as Contas Públicas, contrariamente aos anteriores executivos, que não o fizeram, apesar de se terem proposto a fazê-lo.

- O Governo PS não foi capaz de alavancar a Economia, conforme apresentou como objectivo, no seu Programa Eleitoral.
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Re: Compromisso Portugal - Estado da Governação em Julho de 2008

Mensagempor Diana » 08 jul 2008 09:53

:shock: :shock: :shock: :shock: :shock:


O Declínio Inequívoco de Portugal



Medina Carreira - Fiscalista

Há mais de três décadas que o produto desacelera e em 2020 poderemos estar na cauda da Europa.

Há um notório e crescente mal-estar no nosso país. Apesar do optimismo e das promessas, os salários continuam baixos, as pensões são exíguas, o poder de compra estagna, o desemprego é elevado, a classe média dissolve-se, a pobreza alastra, as desigualdades acentuam-se, as famílias estão pesadamente endividadas, a emigração recomeça e os temores aumentam.

A crise internacional chegou e atingirá alguns com especial violência.

É a mediocridade da economia que temos. Quando se analisa a sua evolução, torna-se inequívoco o declínio. Quando se imagina o futuro europeu de Portugal, ele é cinzento. Há mais de três décadas que o produto desacelera, conforme as seguintes taxas de crescimento médio anual: 7,5 por cento (1960-70); 4,5 por cento (1970--80); 3,2 por cento (1980-90); 2,7 por cento (1990-2000); e 0,9 por cento (2000-06). Outros países europeus também não conseguiram muito melhor.

Cerca de 2020, se a nossa economia e as dos seis outros que agora nos seguem se comportarem como de 2000 a 2006, seremos o país mais pobre dos “25”. Só o evitaremos se o produto subir a uma taxa mínima da ordem dos três por cento, ou os demais caírem significativamente. Isto é: mais ano, menos ano, poderemos estar na cauda da Europa.Há, por todas as razões, uma prioridade absoluta para a nossa economia.

Esta evolução tem origens diversas: externas e internas, públicas e privadas. Importam aqui, sobretudo, as de natureza política, relativas aos “defeitos” que existem na área do Estado ou que dele derivam, porque numa economia aberta e pouco competitiva, como a nossa, não se convive longamente com eles sem provocar efeitos desastrosos.

Acontece, em todo o caso, que o Estado português está rodeado de circunstâncias adversas, condicionantes das mudanças indispensáveis. Desde logo, falta-lhe “tempo” político: o sistema de governação criado em 1976, a impreparação dos partidos para governar e o eleitoralismo que cada vez mais os domina originam uma frequente e inconveniente descontinuidade executiva (1).

Também não há “verdade” política: quanto aos problemas essenciais, os partidos do poder assumem compromissos eleitorais que não tencionam ou não podem cumprir e fazem no Governo o que antes rejeitam ruidosamente na oposição. Assistimos a um espectáculo de mentira sem decoro, gerador do descrédito dos partidos e da decadência da democracia.

Escasseia, igualmente, “qualidade” política: os partidos que existem, tal como já acontecia em 1926, são “agrupamentos sem raízes na realidade do país” que propiciam o “aparecimento na cena política de homens de segundo plano” (2).

Há assim uma doença grave na nossa vida política que também conduz ao desaproveitamento de enormes e irrepetíveis meios financeiros. Efectivamente, desde 1990 o nosso Estado arrecadou cerca de 160.000 milhões de euros (M€) – aproximadamente 820 M€/mês – de receitas não tributárias (3). Determinou ainda um grande aumento da carga fiscal, de 29 por cento (1990) para 37 por cento do PIB (2006): +8 pp., que não têm paralelo na Europa durante esse período. Quase tudo o que exige tempo, verdade e qualidade, ou tarda muito ou nunca acontece.

Não se pode considerar o curto e o médio prazo porque os governos nada podem fazer, perdidas que foram as principais ferramentas de política macroeconómica:

a moeda nacional, os juros, os câmbios, as tarifas aduaneiras e, na sua maior parte, a margem de discricionariedade orçamental. E isso é muito claro quando observamos o que aconteceu desde 2000: o produto português limitou-se a acompanhar as tendências europeias, crescendo quando ali se cresceu e caindo quando ali se caiu (cf. gráfico anexo). Nesse tempo, apesar dos quatro governos que tivemos, a nossa economia, uns pontos abaixo, só “obedeceu” à dos “25”. Foi em absoluto indiferente a quem e como governou.

A receita habitual e de que muitos falam – o aumento da procura interna, fazendo o Estado gastar mais – não é viável porque continuamos a ter contas públicas muito desequilibradas e porque, como nos ensina quem sabe, sendo insuspeito de simpatias neoliberais, “um aumento grande da despesa pública [não resolve] o que quer que seja em termos de crescimento "económico" (4). Apesar destas evidências, o Governo vai lançar um projecto irresponsável e eleitoralista de “betão” em larga escala, para realizações muitas vezes supérfluas e de aparente êxito imediato. É mais um dispendioso logro, parece que com o silêncio da oposição.

De tudo resulta, portanto, que o Governo não falha porque a economia é medíocre e o desemprego está alto. O Governo falha, e muito, porque atravessa uma longa legislatura, como a actual, em tudo favorável, deixando sem remédio, em 2009, a maioria dos mais graves “defeitos” que já encontrou em 2005. Perdemos outra vez tempo: não se solucionou a conjuntura nem se preparou a estrutura.

A nossa evidente fragilidade económica tem hoje efeitos negativos e muito sensíveis no
plano salarial, no nível do emprego, no poder de compra (5) e na acentuação da pobreza. Porém e pior do que isso: ela está a minar, a prazo, a base de sustentação das políticas sociais, já de si cheias de problemas.

Quem quiser pode entendê-lo com facilidade: entre 1990 e 2005 o produto português evoluiu à taxa anual de dois por cento e as despesas sociais (6) à de quase seis por cento; essas despesas absorviam 60 por cento das contribuições sociais e dos impostos em 1990, 71 por cento em 1995, 70 por cento em 2000 e 84 por cento em 2005.

O Estado social é, provavelmente, a mais notável realização europeia dos últimos sessenta a cem anos. Mas não nos deveremos enganar: ele só pode sobreviver se assentar numa economia próspera. E isto é decisivo porque, se não conseguirmos aumentar significativamente o ritmo de expansão da riqueza nacional, o presente nível de “redistribuição” – mesmo insuficiente, como já é – terá de ser reconsiderado em baixa, mesmo em muito forte baixa.

Sem mais “economia” só pode haver menos “social”.

É certamente viável redistribuir “melhor”, discriminando positivamente. Mas não se redistribuirá “mais”.

São bem conhecidos os sectores e os vícios que mais afectam a produtividade e a competitividade da nossa economia. Os que se situam na área pública ou que do Estado dependem, só por ele poderão ser solucionados, através de medidas e de reformas que eliminem ou reduzam as suas consequências negativas.

Mas numa economia internacionalizada, como é a actual, tudo o que dele pode exigir-se ou esperar-se é a criação das condições indispensáveis à atracção dos investimentos que nos convêm: os de mais rápida reprodutividade, destinados às exportações e à substituição
de importações.

É por isso surpreendente que entrem e saiam governos, ficando sempre tudo na mesma ou quase. Sem carácter exaustivo, é óbvia e imperiosa a necessidade de mudar muito no ensino, o nosso maior reprodutor de mediocridade e que está a “hipotecar” o futuro daqueles que finge promover; na formação passa-se quase o mesmo, fazendo-se crer na possibilidade de aprender em poucos meses aquilo que só se aprende em alguns anos; na justiça permanecem as demoras sem fim e sem previsão, que a tornam, em grande parte, desacreditada, inútil e aleatória; o sistema dos impostos é pesado, complicado sem vantagens, sempre instável, por vezes abusivamente agressivo e iníquo devido ao elevado peso da tributação indirecta; a administração pública continua sem reorganização, requalificação, rejuvenescimento e reequipamento, porque quase tudo isso passa ao lado do PRACE; a grande burocracia está cristalizada, como se confirma com a existência perversa dos PIN, necessários só para quem o Governo entende contemplar; a grande corrupção está para ficar e mesmo para crescer, indiferente às medidas com que apenas se simula querer combatê-la; mantêm-se incompreensivelmente os pagamentos atrasados do Estado, tão lesto a pregar moral aos privados que se atrasam; a multidão dos licenciados sem trabalho não encontra qualquer resposta que os reconverta profissionalmente; o mercado do arrendamento continua a não existir e nada se faz aí com consequências relevantes; não temos técnicos adequados às exigências do mercado; o excessivo peso financeiro do Estado, o espantoso mapa autárquico desenhado para o tempo da “diligência” e das carroças, o regime das relações laborais, a preferência constante pela facilidade e pela mediocridade, entre outros, constituem “defeitos” graves, sem qualquer remédio à vista.

Estas são questões de fundo que só ao Estado competem e em que só ele tem uma palavra a dizer. Pouco ou nada fazendo, revela a sua incapacidade política para propiciar o ambiente indispensável à criação do aparelho produtivo e competitivo que a nova economia exige.

Sem “tempo”, sem “verdade” e sem “qualidade” na política, como até aqui, nenhum Governo conseguirá realizar em Portugal a obra que o futuro nos impõe. E porque a conjuntura está hoje fora do poder do Estado, é preciso que alguém responsável, por uma vez, diga que a recuperação é difícil, que a tarefa é árdua e que os resultados são demorados. O estado da nossa decadência é profundo e as circunstâncias envolventes são complexas.

Os que têm surgido vêm apenas para ganhar eleições, promover-se e repartir vantagens pelos amigos e pelos arrivistas de sempre. Usam sem escrúpulos sofismas que só retardam a compreensão das coisas e dificultam a aplicação das decisões essenciais. Montam circos atraentes para impressionar, acenam com facilidades que não existem e prometem um amanhã que nunca chegará. Servem-se e servem outros. É quase tudo.


(continua)
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Re: Compromisso Portugal - Estado da Governação em Julho de 2008

Mensagempor Diana » 08 jul 2008 09:53

(continuação do post anterior)



Se a “verdade” nos assusta em vez de nos mobilizar, resta-nos apenas a capitulação perante os sofistas que temos tido e perante os seus “herdeiros”. Só haveremos, então, de queixar-nos de nós mesmos. Se os eleitores o não entenderem muito depressa, ficaremos com “Lisboa” nos papéis e com os portugueses feitos os pobres da Europa.

Público • Sexta-feira 13 Junho 2008 •




Notas:

1) Houve 17 governos em 32 anos: média de 23 meses por cada um. Descontados os de maioria absoluta de um só partido: média de 15. Entre 2000 e 2009 registar–se-á uma média de 30 meses.

2) Mário Soares, Le Portugal Baillonné –Témoignage, Calmann-Levy, Paris – 1972, pp. 30 e 31.

3) Entre 1990 e 2006 são as seguintes as receitas a considerar:

17.000 M€ de privatizações, 51.000 M€ de fundos europeus e 90.000 M€ de acréscimo da dívida pública.

4) João Ferreira do Amaral, As condicionantes orçamentais, Seara Nova, n.º 81, Verão de 2003, p. 37.

5) Para se imaginar a influência do crescimento da economia sobre o poder de compra dir-se-á que, aos preços actuais, + 0,1% do PIB equivalem a cerca de 18 € por português e por ano, ou seja, um café tomado ao balcão, de 10 em 10 dias. E + 1% do PIB, 1 café por português e por dia !

6) Incluem-se as despesas com as Funções Sociais do Estado (Educação, Saúde, Habitação e Cultura), Segurança Social e Caixa Geral de Aposentações.
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Re: Compromisso Portugal - Estado da Governação em Julho de 2008

Mensagempor Diana » 08 jul 2008 12:24

:!:


As vozes da Nação falam do estado da Nação


Na semana em que o Parlamento português avalia a situação do país, diversas personalidades da sociedade portuguesa vêm à TSF falar do estado da Nação.

Ficam aqui os seus testemunhos...


:!: Letrista e poeta, Carlos Tê não embarca em alarmismos, mas defende que é urgente apostar na credibilização da política.~

:!: O general Garcia Leandro, presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, aponta diversas fragilidades no país… Mas considera que os caminhos apontados pelo Governo estão correctos.

:!: A escritora Lídia Jorge reconhece que atravessamos um momento doloroso, mas defende que não podemos ser derrotistas

:!: A actriz Ana Bola considera que o país está a perder o encanto e que estamos a baralhar as prioridades... Mas garante que, apesar de tudo continua a manter a esperança e o optimismo

:!: Zé Pedro está preocupado com a escalada do petróleo e com a crise alimentar… Mas o guitarrista dos Xutos e Pontapés não aponta um dedo acusador ao primeiro-ministro.

:!: Rui Reininho considera que é necessário olhar para o estado do país com sentido de humor. O vocalista dos GNR acha que Portugal devia ser uma espécie de off-shore.

:!: Rui Moreira, presidente da Associação Comercial do Porto, aponta o dedo à falta de ousadia dos governantes e explica porque é que diz que em Portugal existe uma fobia do elitismo.

:!: Fernando Nobre considera que estamos a viver uma terceira revolução global. O presidente da AMI explica porque é que acredita que podemos vencer os desafios que temos pela frente.


Pode ouvir, clicando em cada um dos supracitados, aqui:


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Re: Compromisso Portugal - Estado da Governação em Julho de 2008

Mensagempor Diana » 09 jul 2008 08:24

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Tomada de posição da SEDES - “O Estado da Nação”


A aproximação das eleições de 2009 –europeias, legislativas e autárquicas – tem tido consequências claras e visíveis na vida política portuguesa.
O Governo, após três anos de esforços de estabilização orçamental e de várias reformas que exigiram coragem política, dá agora sinais de preocupação com o calendário eleitoral em detrimento da administração do País. São disso exemplos a declaração do fim da crise orçamental, a ênfase nos investimentos públicos de grande dimensão, a cedência à agitação
social e as recentes baixas de impostos.

Por outro lado, o contexto social, político e económico alterou-se também substancialmente.
No maior partido da oposição poder-se-á ter iniciado um ciclo de estabilidade, condição necessária para a afirmação de uma alternativa credível. Por sua vez, os partidos à esquerda do partido do governo, em aparente crescendo, competem pela mobilização dos mais descontentes
com a situação actual, sem, contudo, constituirem uma alternativa credível.

Este contexto político-eleitoral coincide, ainda, com uma crescente incerteza em relação à evolução da economia a médio prazo. A crise financeira internacional, a subida dos preços do petróleo e dos produtos alimentares e a desaceleração da economia dos nossos principais parceiros comerciais são factores –é justo salientar– fora do controle do Governo mas
que já implicaram a revisão em baixa das previsões de crescimento em Portugal. Os indicadores de várias instituições independentes e a evolução da bolsa de valores reflectem bem a deterioração do clima económico, das expectativas e da confiança dos consumidores e investidores. Por tudo isto, desvaneceu-se em poucos meses a percepção de uma recuperação
económica lenta, mas segura.

A mudança de expectativas e o espectro da recessão aumentaram a conflitualidade social, tornando aparente alguma desorientação por parte do Governo. A inversão do ciclo de boa-vontade face ao Governo, experimentado na primeira parte do mandato, poderá ser irreversível, a crer nos indicadores disponíveis. Portugal é hoje, segundo os dados mais recentes do Eurobarómetro, um dos países com a opinião pública mais pessimista sobre
a evolução da economia e a situação financeira das famílias no próximo ano.

Simultaneamente, verifica-se uma desconfiança dos cidadãos em relação aos políticos, aos partidos e até ao funcionamento da democracia representativa. Descrevemos estes fenómenos na nossa anterior tomada de posição. Não sendo novos em Portugal, nem exclusivos do País, também não ajudam à recuperação da confiança dos eleitores, seja no partido de governo, seja naqueles que se apresentam como alternativas.

Salientámos ainda que “O mal-estar e a degradação da confiança” conduziriam “mais cedo ou mais tarde, uma crise social de contornos difíceis de prever”. O recente bloqueio das estradas por parte de camionistas e empresas de camionagem, e as suas consequências, foi um
pequeno exemplo dessa possível crise. Mas sobretudo, o bloqueio tornou evidentes fragilidades do Estado de que os cidadãos não tinham consciência: a incapacidade para prever, prevenir e reagir perante situações de crise e acções ilegais de alteração da ordem pública.

Esta conjunção de factores preocupa a SEDES. O actual governo iniciou um conjunto de reformas corajosas e indispensáveis. São exemplos a consolidação orçamental, a reforma da administração pública, a sustentabilidade da segurança social, a reorganização do Serviço Nacional de Saúde, a redução dos riscos de pobreza entre os mais idosos, a integração dos imigrantes, o funcionamento do sistema educativo, as leis laborais…

Terá havido, nalguns casos, inabilidade política, confrontação desnecessária e desfasamentos entre as intenções anunciadas e a sua concretização. Mas a SEDES considera-as indispensáveis. É um risco maior para o futuro do País a suspensão, diluição ou mesmo a inversão das reformas já iniciadas. Há sinais de expectativas defraudadas de reforma e de passos cruciais a serem sustidos, ou mesmo invertidos, por razões ligadas ao tempo eleitoral que se aproxima.

Esse risco é mais elevado em três áreas nas quais a inversão de rumo terá inevitavelmente grandes custos económicos e sociais: saúde, educação e regulação do mercado laboral. A SEDES toma posição sobre elas, num tempo em que o país discute "O Estado da Nação".

Saúde

Nos últimos quatro anos, houve alterações substantivas no sistema de saúde português. Assinalam-se as transformações em curso no Serviço Nacional de Saúde (nos cuidados de saúde primários, na gestão hospitalar, na reorganização da rede prestadora, nos cuidados continuados) e o crescimento do sector privado, seja na componente de financiamento (seguros e sub-sistemas) seja na de prestação de serviços (nomeadamente, na oferta hospitalar).

O processo técnico de apoio à reorganização do Serviço Nacional de Saúde foi considerado de elevada qualidade. Contudo, um período de forte contestação pública levou a um aparente repensar deste percurso. As transformações em curso no Serviço Nacional de Saúde correm o risco de não serem concluídas, ou mesmo de sofrerem um retrocesso, nomeadamente, na reorganização da rede prestadora.

Nos cuidados de saúde primários, a principal alteração consiste na criação das Unidades de Saúde Familiar, na prestação de cuidados de saúde de proximidade. Em fase avançada de concretização, é importante que esta seja concluída.

Por outro lado, não sendo claras as implicações orçamentais de algumas destas medidas, o seu desenvolvimento deverá realizar-se dentro de um rigoroso planeamento a este nível. A componente de cuidados continuados (e paliativos), após um impulso adicional, não dá ainda resposta cabal às necessidades das populações.

Já o percurso iniciado pelo sector privado no desenvolvimento da sua rede de prestação, em particular de equipamentos hospitalares, será provavelmente finalizado. Mas, também nesta matéria, pode estar em revisão a relação ideológica entre o Estado e o sector privado da saúde, sem que as respectivas consequências sejam claras.

O sector público manifesta uma crónica incapacidade de concluir as transformações que inicia. A relevância das reformas em curso exige, para o desenvolvimento do Serviço Nacional de Saúde e o bom funcionamento do sistema, que sejam completadas, sem cedências nem eventuais recuos por força da fase pré-eleitoral.

Educação

Há um espectro que paira sobre sucessivas gerações de portugueses, um claro problema de eficácia. O país gasta em educação não-universitária mais que os seus parceiros europeus mas os resultados são paupérrimos e lançam-nos sistematicamente para os últimos lugares na Europa.

A recente polémica sobre os exames é mais um contributo para a descredibilização do sistema. A forma de organização e elaboração dos exames, desde há muito, não segue padrões técnicos
internacionacionalmente aceites e a polémica repete-se todos os anos.

Este Governo iniciou um conjunto de reformas difíceis e urgentes: fecho de escolas com poucos alunos, introdução do inglês como língua obrigatória desde o início da escolaridade, estabilização do corpo docente, controle de custos, avaliação de desempenho dos docentes, envolvimento das autarquias e dos País na gestão das escolas, etc.

Embora a titular da pasta se tenha mantido, nota-se uma perda de fôlego relativamente aos primeiros tempos, com as últimas reformas a aparentar não terem passado de intenções. A confirmar-se, o espectro continuará presente e o fosso agravar-se-á.

Só através da dotação de conhecimentos habilitantes num mundo competitivo, se pode promover eficazmente a ascensão social, pelo que uma educação competente é o melhor, senão mesmo o único, meio de libertar duradouramente as pessoas da pobreza e das limitações da sua
origem social. Por isso as atitudes de complacência e de rebaixamento dos padrões de exigência que têm dominado, nas últimas décadas, o nosso sistema de ensino são, no fundo, os melhores meios para tornar os pobres mais pobres e para perpetuar a sua situação de dependência. E não há nenhum discurso socializante que, por si só, inverta esta realidade.


(continua)
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Re: Compromisso Portugal - Estado da Governação em Julho de 2008

Mensagempor Diana » 09 jul 2008 08:25

(continuação)




Legislação laboral

Há muito que a alteração das leis laborais é referida como uma das reformas mais necessárias, num contexto de grande concorrência internacional. Ensina ainda a teoria económica, e confirma a experiência, que o País ganhará tanto mais com a participação na zona euro e com a globalização quanto mais flexível for a sua economia. Haverá decerto alguns exageros no singularizar as leis laborais mas a reacção e a defesa de um imobilismo intransigente são difíceis de justificar.

Contudo, várias vezes foram iniciados processos de reforma, outras tantas eles ficaram aquém das expectativas mais pessimistas.

Na revisão em curso, registe-se a maior certeza jurídica e rapidez processual, importantes para as empresas e para os trabalhadores.

Consideramos igualmente positivas a possibilidade, ainda que limitada, de uma indemnização substituir a reintegração de um trabalhador despedido indevidamente e a relativa redução das taxas de contribuição para a Segurança Social dos independentes. O essencial dos direitos dos
trabalhadores ficam salvaguardados e aumenta a capacidade das empresas para se adaptarem à mudança.

No entanto, o agravamento das contribuições sociais para todos os contratos a termo pode ter efeitos adversos, pois destes depende uma parte significativa do ajustamento no mercado de trabalho. Assim sendo, seria preferível um sistema que penalizasse a excessiva rotação de trabalhadores pelos custos que impõe à segurança social e aos trabalhadores.

Além disso, o subsídio de desemprego deveria ser analisado neste contexto das leis laborais: protecção ao desempregado e a protecção ao empregado são duas faces de uma mesma moeda. A sua exígua cobertura e longa duração são problemas a resolver. Além disso, é sempre preferível subsidiar o emprego que o desemprego.

O âmbito e a profundidade das reformas ficaram, mais uma vez, aquém do esperado e do necessário. Um processo destes, mal se inicia, tem custos no ambiente das empresas e, sem resultados significativos, pode revelar-se mais prejudicial do que benéfico. Além disso, uma parte da rigidez, mais do que das leis, advém da sua regulamentação e da sua interpretação pelos tribunais. Por último, o mercado continua dual: excessivamente flexível nos contratos a termo e excessivamente rígido nos permanentes. Seria desejável uma aproximação das regras existentes para estes dois tipos de contratos ou, em alternativa, a introdução de um novo tipo de contrato de flexibilidade intermédia.

A reforma das leis laborais peca, pois, por ser tímida e pouco relevante no contexto dos problemas nacionais, apesar de apontar no rumo certo. Salienta-se ainda, como positivo, o facto de ter havido um acordo no contexto da Concertação Social.

Conclusão

A evolução económica e a sombra das eleições são um teste ao Governo e à sinceridade com que iniciou reformas cruciais para o País. Para além do mercado de trabalho, da saúde e do ensino, outras áreas existem que merecem atenção. Contudo, são áreas onde as reformas foram, na sua maioria e infelizmente, pouco relevantes, pelo que não há perigo de travagem ou regressão. Em particular, a Justiça e a Segurança são áreas em que, para além de ajustamentos pontuais, não houve qualquer programa de reformas claramente assumido pelo Governo. Mas as insuficiências permanecem e são graves.

Não deixa de ser verdade que exactamente no momento em que o Governo inicia uma aparente suspensão do processo das reformas, a opinião pública parece voltar-se contra ele. Coincidência ou causalidade, nunca saberemos, mas os sacrifícios feitos por todos não podem, nem devem, ser desperdiçados.

Como salientámos no início do ano, a Democracia representativa não se esgota nos partidos; mas será deficiente e com custos altos para o país sem partidos políticos fortes, renovados e responsáveis.

É em nome de todos os portugueses, particularmente dos mais vulneráveis, que se exige um Estado exemplar nas suas relações com o cidadão, forte e independente, para ter a capacidade de levar até ao fim as mudanças necessárias.

Lisboa, 7 de Julho de 2008

O Conselho Coordenador da SEDES

Luís Campos e Cunha (Presidente),
Amilcar Theias,
Fátima Viegas,
F. Ribeiro Mendes,
Henrique Neto,
Luís Barata,
Paulo Sande,
Pedro Magalhães,
Pedro Pita Barros.
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