Relançado debate sobre energia nuclear em Portugal
Vitor Constâncio relançou o debate sobre o nuclear. Os ambientalistas já vieram a terreiro mostrar a sua oposição a esta fonte energética. O Governo esclarece que a introdução do nuclear em Portugal não está "na ordem do dia".
No parlamento, o Governador do banco central defendeu a necessidade de se discutir a questão nuclear, face à dependência energética do país. O governador do Banco de Portugal disse que "a alteração estrutural dos preços da energia está para ficar e tudo tem de ser discutido, incluindo o nuclear".
Vítor Constâncio apresentava o relatório da Primavera do Banco de Portugal na comissão parlamentar de economia e finanças, em que reviu por baixo o crescimento da economia portuguesa para 1,2 % e por alto a inflação que estima agora em 3,0%.
O Governo já veio, entretanto, através do ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, esclarecer que a introdução da energia nuclear em Portugal continua fora da agenda do Governo, que tem como prioridades as energias renováveis e a eficiência energética.
Posto perante o apoio dado pelo governador do Banco de Portugal, Victor Constâncio, à introdução da energia nuclear em Portugal, Pedro Silva Pereira demonstrou abertura do executivo para que essa questão seja debatida.
"Só numa sociedade dirigida, ou que vivesse em claustrofobia democrática, é que o Governo poderia decretar os debates que se devem ou não realizar", ironizou, citando algumas expressões utilizadas pelo novo líder parlamentar do PSD, Paulo Rangel.
“Todas as pessoas são livres de emitir as suas posições", salientou o governante.
"Não tenho sequer a ideia que esse tema ainda não tenha sido debatido na sociedade portuguesa nos últimos tempos. Há um ano ou dois havia um empresário privado que manifestou a intenção de instalar em Portugal uma central nuclear", disse, referindo-se a Patrick Monteiro de Barros.
Concluiu que, "o nuclear não está na agenda do Governo", garantindo que "a prioridade do Governo continuam a ser as energias renováveis e a eficiência energética".
CIP defende a opção nuclear
Para o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa, a opção pela energia nuclear "é apenas uma contribuição para a redução" da poluição atmosférica e não se destina a substituir a produção a partir de fontes renováveis.
Francisco Van Zeller defende que a construção de uma central nuclear em Portugal permitiria apenas a substituição de "uma terça parte dos cerca de 30 a 40 por cento que o carvão representa no consumo energético nacional, que é de cerca de 12 mil milhões de megawatts".
Conhecida que é a sua opção pelo nuclear, não se pode deixar de recordar que há dois anos relançou o debate sobre essa opção. Francisco Van Zeller sublinhou que não se trata de substituir a produção a partir de fontes renováveis, como a eólica ou a hídrica, cuja aposta, na sua opinião, “deve ser mantida".
"O nuclear pode é substituir parcialmente a produção de energia de base, que tem actualmente duas fontes quase exclusivas em Portugal, a importação e o carvão", sustentou o presidente da CIP.
LPN defende um debate alargado
A Liga para a Protecção da Natureza declarou-se favorável a um debate alargado sobre o nuclear, mas salientou a necessidade de todos os interessados apresentarem todos os custos deste tipo de produção de energia.
Eugénio Sequeira, presidente da LPN, chamou a atenção para o facto de, na sua opinião, o debate sobre a energia nuclear estar "inquinado", precisamente porque os interessados neste assunto têm "escondido as contas".
"O debate é sempre útil, até porque tem estado inquinado. A mentira permanente de não quererem fazer as contas leva à necessidade de um debate sério", afirmou o ambientalista.
"Quanto custa qualquer avaria numa central? Quanto custa o encerramento duma central?", questionou.
As contas do nuclear têm de ser apresentadas "do berço até à cova", sem camuflar ainda as soluções existentes para os produtos e resíduos radioactivos.
Do ponto de vista global, a LPN considera o "risco" do nuclear "demasiado elevado" e aponta a falta de sustentabilidade financeira desta opção: "o preço da energia produzida é muito maior".
Lá por fora
Quase um quarto da produção de energia eléctrica nos países OCDE vem de fonte nuclear.
Segundo os dados divulgados pela Agência da Energia Nuclear, as centrais nucleares forneceram 21,6 por cento da electricidade nos 30 países membros da OCDE no ano passado.
Ainda assim a produção diminuiu quase 4 por cento face ao ano anterior.
Um recuo que decorre de reduções do contributo da Alemanha, França e Japão, e do encerramento de instalações na Eslováquia e do Reino Unido.
No início deste ano, havia em funcionamento 346 reactores atómicos para a produção de electricidade em 17 países da OCDE.
Estão em construção mais 14: seis na Coreia do Sul, três no Japão, dois na Eslováquia, um na Finlândia, um na França e um nos Estados Unidos.
RTP
2008-07-16 17:07:22
