Ultramar
A luta na rua

Ser sem-abrigo é estar na condição de alguém que esgotou todos os recursos para resolver as vicissitudes da vida. É uma luta inglória que cerca de 200 veteranos da Guerra do Ultramar vivem hoje, apesar de a esta terem sobrevivido. Vale-lhes a caridade.
É preciso coragem para viver duas guerras: a de ter combatido no Ultramar e a de ser sem-abrigo. Deitado colado à montra do posto dos Correios da rua dos Caminhos de Ferro, junto a Santa Apolónia, Lisboa, repousa um antigo primeiro-cabo na Guerra Colonial hoje sem morada para receber correspondência. José Freitas foi obrigado a defender a pátria em Angola. Como ele, combateram cerca de 1,2 milhões de efectivos, dos quais 700 mil estão vivos. Quase dez mil morreram em batalha e têm os nomes inscritos no Monumento ao Combatente, perto da Torre de Belém. Regressaram 30 mil com o corpo ferido, deficiente. Pela cabeça de metade passam traumas e stress de guerra. Estima-se, por fim, que 200 sejam sem-abrigo – mas quem cuida destes?
Todas as noites há rondas da Comunidade Vida e Paz – e de outras instituições – na rotina dos sem-abrigo de Lisboa. Por ser Verão basta um saco-cama para enrolar José Freitas. 'Vim parar à rua porque sou da rua', diz, emocionado. 'Não tenho rendimento mínimo, não tenho nada. O que tenho é de arrumar carros.' O seu corpo está visivelmente debilitado. Muito magro.
'A única memória que tenho da guerra é que fui para a mata no Toto. Estive ali 17 meses até que saí para Luanda onde ia embarcar, mas fiquei lá sete meses', recorda, levantando a manga para mostrar a tatuagem. As suas palavras são vagas. E estas são as curtas memórias que se podem ouvir de José quando fala deste período da sua vida, entre 1972 e 74. 'Não sofro com nada, só que gosto de andar sozinho. Tenho muitos amigos – e aponta para os dois sem-abrigo ao seu lado – só que, às vezes, gosto que não falem comigo' – afirma. Depois, confessa que 'antes de ir para a tropa não era assim'. Dizem os técnicos que o acompanham que nos últimos dez anos se tem degradado física e emocionalmente – é o alcoolismo.
Não é fácil fazer com que um sem-abrigo conte o que se passou na tropa. António Bengaló, 63 anos, era o soldado 33 446 em Moçambique. Embarcou em 1965 e regressou, precisa, a 14 de Março de 68. 'A mágoa que sinto é uma coisa muito íntima. Acredito que haja muitos [ex-combatentes] que se façam de malucos só por interesse.' Mas este não aceita essa ‘alcunha’. 'Estive um ano na Zambézia. Não havia lá guerra nenhuma. No Sul havia a chamada guerra subversiva e no Norte é que já havia zona de combate. Quando fui para aí lembro-me de um rapaz que era alcunhado de ‘Alho’ – até parece que o estou a ver – e havia outro rapazola perto de nós que com um estilhaço na garganta morreu aos meus pés...'
As pernas de António já fraquejam. Garante que não é alcoólico e que só ganha 180 euros do Rendimento Social de Inserção. Servem para pagar o quarto. Alimentação é o que lhe vai aparecendo com o apoio aos sem-abrigo. 'Já sei que não sou desprezado.' Pelo menos diz isso porque exclui a família. Da mulher divorciou-se e 'os filhos aproveitam a deixa para ser livres e, depois, o velho não presta para nada.' Da profissão de dourador (trabalho com peças antigas de sacristia) e, depois do 25 de Abril, de pintor da construção civil, ainda não recebe qualquer reforma.
Já em Santa Apolónia, Carlos (nome fictício) recebe das mãos de uma das voluntárias um saquinho com a ceia: um iogurte, uma sandes e um bolo, uma peça de fruta e um copo de leite fresco. Conta que foi polícia militar no aeroporto de Luanda, Angola, durante 24 meses, desde 1968. Foram 'férias', repete. 'Fui porque quis. Como o meu irmão já estava na tropa em África, deram-me a escolher. E fui'
Comum boné na cabeça e uma roupa envelhecida pela vida de rua, Carlos fuma lentamente. Tem um discurso escorreito. Viveu sempre – e trabalhava como estivador na camionagem – ali perto. 'Eu não era mau, era bera.' Passou por reformatórios para crianças e adolescentes e, mais tarde, – entenda-se – para adultos. 'Desde os oito anos que vivo na rua', acrescenta, mas não será mais que um eufemismo para justificar o seu disfuncional berço. Vai bebendo 'um copito' e arrumando carros para amealhar para mais uma rodada.
Outra semelhança entre estes sem-abrigo, além de ex-combatentes, é que a esmagadora maioria é alcoólica. Por isso, quando são tirados da rua passam por tratamentos de recuperação.
O corpo vai degradando-se sem que Henrique de Castro, 59 anos, se aperceba da rapidez; subjugado a uma cadeira de rodas, tem o lado esquerdo adormecido por um AVC. Penteou-se no dia da reportagem como se regressasse a 1970. Mesmo na guerra de Angola, no Bembe, vestia com garbo a farda de alferes dos Comandos. Neste dia de reportagem perfumou-se com ‘Old Spice’. Henrique foi o primeiro sem-abrigo ex-combatente a ser recebido na Quinta do Espírito Santo, da Comunidade Vida e Paz, em Sobral de Monte Agraço, depois do acordo com a Associação de Combatentes do Ultramar Portugueses (ACUP).
Henrique não esquece a guerra. Folheia inúmeras vezes dois álbuns de fotografias com inscrições na capa: 'ditosa Pátria que tais filhos tem' e 'honra e glória'. Retratos do rapazola no jipe militar; em pose com camaradas; a beber cerveja; armado em combate. Teve um louvor de 'primeira classe de comportamento'. Mas no final da comissão, em 1973, tudo se transformou. 'Casei nesse ano e não fumava nem bebia. Depois, até liamba fumei. E só bebia vinho.' Foi boa a tropa – como vai dizendo – mas o certo é que desde aí, por tudo e por nada, ficava com os nervos em franja. As bebedeiras deram direito ao divórcio e ao afastamento dos dois filhos.
Nas ruas de Faro era conhecido pelo ‘Bósnia’. Henrique diz que ficou sem-abrigo com a morte da mãe, em 2007. 'Chegava a ganhar 50 euros, à porta do supermercado, graças à situação de estar numa cadeira de rodas'. Dormia onde calhava e onde aliviava as necessidades.
Henrique reformou-se por invalidez aos 50 anos, forçado pelo AVC. Recebe 281,15 euros mensais. Foi para a Quinta do Espírito Santo para curar o vício da bebida mas, um dia, interrompeu o tratamento abruptamente. 'Fui para uma pensão em Lisboa, na Praça da Figueira. Comprei numa lojita uma pistola-metralhadora, mas era uma réplica. Andava com ela à cintura e, uma noite, a polícia foi à pensão e levou-ma'.
Ao seu lado está Adriano Grife, com 58 anos. Toda a vida foi pescador em Peniche e, agora, saiu-lhe na rede uma reforma de 160 euros. Por isso, esta semana vai voltar ao mar. Quando Adriano fala reflecte o rosto de outros ex-combatentes que, já na meia-idade, ficaram sem-abrigo. Contam sempre a mesma história em três capítulos: a guerra; o divórcio e afastamento da família; e o alcoolismo. Adriano foi primeiro-grumete na esquadrilha de lanchas. Esteve na Guiné entre 1972 e 74. 'Quando estava a acabar o meu tempo, sofremos uma emboscada no rio Cacheu. Éramos 40 ou 50 homens. Passámos numa clareira e aquilo foi de rajada que nos atacaram. Fugimos, claro.'
E tem traumas da guerra? 'No princípio não podia ouvir foguetes. Depois, passou' – diz Adriano, marcado no braço e na vida pela tatuagem 'Guiné 72'. 'Comecei a beber porque não sabia que era uma doença'. Em casa havia discussões todos os dias. 'Ela era arisca. Ora, arisca contra o vinho dava boxe.' O casal divorciou-se há 15 anos. O álcool foi-lhe roubando a vida. 'Cheguei a dormir em camiões, carros abandonados. Ou dormia na rua.'
Os assistentes sociais levaram-no há 11 meses para a Quinta do Espírito Santo. 'Aquilo que eu era e aquilo que sou... Parecia um vagabundo' – conta Adriano. 'Já tenho higiene, medicação, cumpro horários.' A Câmara de Peniche agora arranjou-lhe casa. 'Muitos não sabem ou não querem submeter-se a este tratamento. E é fácil. Para mim, beber já não me diz nada.'
'Julgo que nos trezentos e tal utentes que passaram pela Quinta do Espírito Santo, mais de cem sejam ex-combatentes', diz Cláudio Martins, técnico naquela instituição, que apoia lá agora 15 veteranos de guerra. 'Grande parte dos sem-abrigo, na faixa etária 55/ 70 anos, são ex-combatentes.'
(continua)
