Veteranos da Guerra do Ultramar

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Diana
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Veteranos da Guerra do Ultramar

Mensagempor Diana » 10 ago 2008 18:37

:shock:


Ultramar


A luta na rua

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Ser sem-abrigo é estar na condição de alguém que esgotou todos os recursos para resolver as vicissitudes da vida. É uma luta inglória que cerca de 200 veteranos da Guerra do Ultramar vivem hoje, apesar de a esta terem sobrevivido. Vale-lhes a caridade.

É preciso coragem para viver duas guerras: a de ter combatido no Ultramar e a de ser sem-abrigo. Deitado colado à montra do posto dos Correios da rua dos Caminhos de Ferro, junto a Santa Apolónia, Lisboa, repousa um antigo primeiro-cabo na Guerra Colonial hoje sem morada para receber correspondência. José Freitas foi obrigado a defender a pátria em Angola. Como ele, combateram cerca de 1,2 milhões de efectivos, dos quais 700 mil estão vivos. Quase dez mil morreram em batalha e têm os nomes inscritos no Monumento ao Combatente, perto da Torre de Belém. Regressaram 30 mil com o corpo ferido, deficiente. Pela cabeça de metade passam traumas e stress de guerra. Estima-se, por fim, que 200 sejam sem-abrigo – mas quem cuida destes?

Todas as noites há rondas da Comunidade Vida e Paz – e de outras instituições – na rotina dos sem-abrigo de Lisboa. Por ser Verão basta um saco-cama para enrolar José Freitas. 'Vim parar à rua porque sou da rua', diz, emocionado. 'Não tenho rendimento mínimo, não tenho nada. O que tenho é de arrumar carros.' O seu corpo está visivelmente debilitado. Muito magro.

'A única memória que tenho da guerra é que fui para a mata no Toto. Estive ali 17 meses até que saí para Luanda onde ia embarcar, mas fiquei lá sete meses', recorda, levantando a manga para mostrar a tatuagem. As suas palavras são vagas. E estas são as curtas memórias que se podem ouvir de José quando fala deste período da sua vida, entre 1972 e 74. 'Não sofro com nada, só que gosto de andar sozinho. Tenho muitos amigos – e aponta para os dois sem-abrigo ao seu lado – só que, às vezes, gosto que não falem comigo' – afirma. Depois, confessa que 'antes de ir para a tropa não era assim'. Dizem os técnicos que o acompanham que nos últimos dez anos se tem degradado física e emocionalmente – é o alcoolismo.

Não é fácil fazer com que um sem-abrigo conte o que se passou na tropa. António Bengaló, 63 anos, era o soldado 33 446 em Moçambique. Embarcou em 1965 e regressou, precisa, a 14 de Março de 68. 'A mágoa que sinto é uma coisa muito íntima. Acredito que haja muitos [ex-combatentes] que se façam de malucos só por interesse.' Mas este não aceita essa ‘alcunha’. 'Estive um ano na Zambézia. Não havia lá guerra nenhuma. No Sul havia a chamada guerra subversiva e no Norte é que já havia zona de combate. Quando fui para aí lembro-me de um rapaz que era alcunhado de ‘Alho’ – até parece que o estou a ver – e havia outro rapazola perto de nós que com um estilhaço na garganta morreu aos meus pés...'

As pernas de António já fraquejam. Garante que não é alcoólico e que só ganha 180 euros do Rendimento Social de Inserção. Servem para pagar o quarto. Alimentação é o que lhe vai aparecendo com o apoio aos sem-abrigo. 'Já sei que não sou desprezado.' Pelo menos diz isso porque exclui a família. Da mulher divorciou-se e 'os filhos aproveitam a deixa para ser livres e, depois, o velho não presta para nada.' Da profissão de dourador (trabalho com peças antigas de sacristia) e, depois do 25 de Abril, de pintor da construção civil, ainda não recebe qualquer reforma.

Já em Santa Apolónia, Carlos (nome fictício) recebe das mãos de uma das voluntárias um saquinho com a ceia: um iogurte, uma sandes e um bolo, uma peça de fruta e um copo de leite fresco. Conta que foi polícia militar no aeroporto de Luanda, Angola, durante 24 meses, desde 1968. Foram 'férias', repete. 'Fui porque quis. Como o meu irmão já estava na tropa em África, deram-me a escolher. E fui'

Comum boné na cabeça e uma roupa envelhecida pela vida de rua, Carlos fuma lentamente. Tem um discurso escorreito. Viveu sempre – e trabalhava como estivador na camionagem – ali perto. 'Eu não era mau, era bera.' Passou por reformatórios para crianças e adolescentes e, mais tarde, – entenda-se – para adultos. 'Desde os oito anos que vivo na rua', acrescenta, mas não será mais que um eufemismo para justificar o seu disfuncional berço. Vai bebendo 'um copito' e arrumando carros para amealhar para mais uma rodada.

Outra semelhança entre estes sem-abrigo, além de ex-combatentes, é que a esmagadora maioria é alcoólica. Por isso, quando são tirados da rua passam por tratamentos de recuperação.

O corpo vai degradando-se sem que Henrique de Castro, 59 anos, se aperceba da rapidez; subjugado a uma cadeira de rodas, tem o lado esquerdo adormecido por um AVC. Penteou-se no dia da reportagem como se regressasse a 1970. Mesmo na guerra de Angola, no Bembe, vestia com garbo a farda de alferes dos Comandos. Neste dia de reportagem perfumou-se com ‘Old Spice’. Henrique foi o primeiro sem-abrigo ex-combatente a ser recebido na Quinta do Espírito Santo, da Comunidade Vida e Paz, em Sobral de Monte Agraço, depois do acordo com a Associação de Combatentes do Ultramar Portugueses (ACUP).

Henrique não esquece a guerra. Folheia inúmeras vezes dois álbuns de fotografias com inscrições na capa: 'ditosa Pátria que tais filhos tem' e 'honra e glória'. Retratos do rapazola no jipe militar; em pose com camaradas; a beber cerveja; armado em combate. Teve um louvor de 'primeira classe de comportamento'. Mas no final da comissão, em 1973, tudo se transformou. 'Casei nesse ano e não fumava nem bebia. Depois, até liamba fumei. E só bebia vinho.' Foi boa a tropa – como vai dizendo – mas o certo é que desde aí, por tudo e por nada, ficava com os nervos em franja. As bebedeiras deram direito ao divórcio e ao afastamento dos dois filhos.

Nas ruas de Faro era conhecido pelo ‘Bósnia’. Henrique diz que ficou sem-abrigo com a morte da mãe, em 2007. 'Chegava a ganhar 50 euros, à porta do supermercado, graças à situação de estar numa cadeira de rodas'. Dormia onde calhava e onde aliviava as necessidades.

Henrique reformou-se por invalidez aos 50 anos, forçado pelo AVC. Recebe 281,15 euros mensais. Foi para a Quinta do Espírito Santo para curar o vício da bebida mas, um dia, interrompeu o tratamento abruptamente. 'Fui para uma pensão em Lisboa, na Praça da Figueira. Comprei numa lojita uma pistola-metralhadora, mas era uma réplica. Andava com ela à cintura e, uma noite, a polícia foi à pensão e levou-ma'.

Ao seu lado está Adriano Grife, com 58 anos. Toda a vida foi pescador em Peniche e, agora, saiu-lhe na rede uma reforma de 160 euros. Por isso, esta semana vai voltar ao mar. Quando Adriano fala reflecte o rosto de outros ex-combatentes que, já na meia-idade, ficaram sem-abrigo. Contam sempre a mesma história em três capítulos: a guerra; o divórcio e afastamento da família; e o alcoolismo. Adriano foi primeiro-grumete na esquadrilha de lanchas. Esteve na Guiné entre 1972 e 74. 'Quando estava a acabar o meu tempo, sofremos uma emboscada no rio Cacheu. Éramos 40 ou 50 homens. Passámos numa clareira e aquilo foi de rajada que nos atacaram. Fugimos, claro.'

E tem traumas da guerra? 'No princípio não podia ouvir foguetes. Depois, passou' – diz Adriano, marcado no braço e na vida pela tatuagem 'Guiné 72'. 'Comecei a beber porque não sabia que era uma doença'. Em casa havia discussões todos os dias. 'Ela era arisca. Ora, arisca contra o vinho dava boxe.' O casal divorciou-se há 15 anos. O álcool foi-lhe roubando a vida. 'Cheguei a dormir em camiões, carros abandonados. Ou dormia na rua.'

Os assistentes sociais levaram-no há 11 meses para a Quinta do Espírito Santo. 'Aquilo que eu era e aquilo que sou... Parecia um vagabundo' – conta Adriano. 'Já tenho higiene, medicação, cumpro horários.' A Câmara de Peniche agora arranjou-lhe casa. 'Muitos não sabem ou não querem submeter-se a este tratamento. E é fácil. Para mim, beber já não me diz nada.'

'Julgo que nos trezentos e tal utentes que passaram pela Quinta do Espírito Santo, mais de cem sejam ex-combatentes', diz Cláudio Martins, técnico naquela instituição, que apoia lá agora 15 veteranos de guerra. 'Grande parte dos sem-abrigo, na faixa etária 55/ 70 anos, são ex-combatentes.'


(continua)
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Re: Veteranos da Guerra do Ultramar

Mensagempor Diana » 10 ago 2008 18:41

(continuação do post anterior)



Arsénio Martins confessa que só está na Quinta para regressar ao ateliê terapêutico e ocupacional da Misericórdia de Lisboa. Por isso luta há seis meses contra a dependência do álcool. 'Deram-me duas opções: fazia o tratamento ou o meu lugar estava em risco', diz.

Vivia há menos de um mês sem tecto quando o Centro Regional de Alcoologia do Sul (CRAS) encaminhou Arsénio para o albergue de Xabregas, Lisboa. Mas graças à Santa Casa recebe uma bolsa de 220 euros para a alimentação e outros gastos, pagam-lhe o passe e o aluguer do quarto até 175 euros, além de ter assistência médica. A verdade é que quando Arsénio foi para a guerra, em Moçambique, já tinha vícios. 'O meu pai já bebia. E eu bebo a sério desde os 17, 18 anos.' Na tropa – 25 meses em África e 30 meses cá – foi um Marinheiro com 'respeito' pelo oceano. E ofício longe dos tiros. 'Eu só via as armas no navio, mas nunca as usei no mar. Exceptuando as Walter de serviço, que nunca trabalhavam.'

Para o presidente da ACUP, José Nunes, os sem-abrigo são os 'verdadeiros stressados de guerra'. A associação estima que haja mais de 200 ex-combatentes sem-abrigo e para eles defendem o acesso a tratamentos de recuperação. Depois, os que não tenham família de acolhimento, deveriam recolher a um lar. 'Os Centros Distritais de Segurança Social devem fazer com que as IPSS [Instituições Particulares de Solidariedade Social] cumpram os protocolos estabelecidos para admissão dos utentes de acordo com as vagas que devem ser ocupadas por estas pessoas e que na realidade não são'. Ou então, defendem, o Estado deveria apoiar a construção de um lar.

'Nós apanhamo-los no final da linha', diz o psicólogo e coordenador de equipas de intervenção directa da Comunidade Vida e Paz (ver entrevista). 'Provavelmente, eles já tentaram várias fórmulas para resolverem os problemas que vão sentindo e que, muitas vezes, até os desconhecem. A situação de sem-abrigo é a mais visível de todas' – acrescenta Celestino Cunha. 'Um cenário de guerra pode ser, mesmo muitos anos depois, um detonador para atirar os ex-combatentes para uma situação de 'fim de linha'.

Henrique não esquece a guerra. Folheia inúmeras vezes dois álbuns de fotografias com inscrições na capa: 'ditosa Pátria que tais filhos tem' e 'honra e glória'. Retratos do rapazola no jipe militar; em pose com camaradas; a beber cerveja; armado em combate. Teve um louvor de 'primeira classe de comportamento'. Mas no final da comissão, em 1973, tudo se transformou. 'Casei nesse ano e não fumava nem bebia. Depois, até liamba fumei. E só bebia vinho.' Foi boa a tropa – como vai dizendo – mas o certo é que desde aí, por tudo e por nada, ficava com os nervos em franja. As bebedeiras deram direito ao divórcio e ao afastamento dos dois filhos.

Nas ruas de Faro era conhecido pelo ‘Bósnia’. Henrique diz que ficou sem-abrigo com a morte da mãe, em 2007. 'Chegava a ganhar 50 euros, à porta do supermercado, graças à situação de estar numa cadeira de rodas'. Dormia onde calhava e onde aliviava as necessidades.

Henrique reformou-se por invalidez aos 50 anos, forçado pelo AVC. Recebe 281,15 euros mensais. Foi para a Quinta do Espírito Santo para curar o vício da bebida mas, um dia, interrompeu o tratamento abruptamente. 'Fui para uma pensão em Lisboa, na Praça da Figueira. Comprei numa lojita uma pistola-metralhadora, mas era uma réplica. Andava com ela à cintura e, uma noite, a polícia foi à pensão e levou-ma'.

Ao seu lado está Adriano Grife, com 58 anos. Toda a vida foi pescador em Peniche e, agora, saiu-lhe na rede uma reforma de 160 euros. Por isso, esta semana vai voltar ao mar. Quando Adriano fala reflecte o rosto de outros ex-combatentes que, já na meia-idade, ficaram sem-abrigo. Contam sempre a mesma história em três capítulos: a guerra; o divórcio e afastamento da família; e o alcoolismo. Adriano foi primeiro-grumete na esquadrilha de lanchas. Esteve na Guiné entre 1972 e 74. 'Quando estava a acabar o meu tempo, sofremos uma emboscada no rio Cacheu. Éramos 40 ou 50 homens. Passámos numa clareira e aquilo foi de rajada que nos atacaram. Fugimos, claro.'

E tem traumas da guerra? 'No princípio não podia ouvir foguetes. Depois, passou' – diz Adriano, marcado no braço e na vida pela tatuagem 'Guiné 72'. 'Comecei a beber porque não sabia que era uma doença'. Em casa havia discussões todos os dias. 'Ela era arisca. Ora, arisca contra o vinho dava boxe.' O casal divorciou-se há 15 anos. O álcool foi-lhe roubando a vida. 'Cheguei a dormir em camiões, carros abandonados. Ou dormia na rua.'

Os assistentes sociais levaram-no há 11 meses para a Quinta do Espírito Santo. 'Aquilo que eu era e aquilo que sou... Parecia um vagabundo' – conta Adriano. 'Já tenho higiene, medicação, cumpro horários.' A Câmara de Peniche agora arranjou-lhe casa. 'Muitos não sabem ou não querem submeter-se a este tratamento. E é fácil. Para mim, beber já não me diz nada.'

'Julgo que nos trezentos e tal utentes que passaram pela Quinta do Espírito Santo, mais de cem sejam ex-combatentes', diz Cláudio Martins, técnico naquela instituição, que apoia lá agora 15 veteranos de guerra. 'Grande parte dos sem-abrigo, na faixa etária 55/ 70 anos, são ex-combatentes.'

Arsénio Martins confessa que só está na Quinta para regressar ao ateliê terapêutico e ocupacional da Misericórdia de Lisboa. Por isso luta há seis meses contra a dependência do álcool. 'Deram-me duas opções: fazia o tratamento ou o meu lugar estava em risco', diz.

Vivia há menos de um mês sem tecto quando o Centro Regional de Alcoologia do Sul (CRAS) encaminhou Arsénio para o albergue de Xabregas, Lisboa. Mas graças à Santa Casa recebe uma bolsa de 220 euros para a alimentação e outros gastos, pagam-lhe o passe e o aluguer do quarto até 175 euros, além de ter assistência médica. A verdade é que quando Arsénio foi para a guerra, em Moçambique, já tinha vícios. 'O meu pai já bebia. E eu bebo a sério desde os 17, 18 anos.' Na tropa – 25 meses em África e 30 meses cá – foi um Marinheiro com 'respeito' pelo oceano. E ofício longe dos tiros. 'Eu só via as armas no navio, mas nunca as usei no mar. Exceptuando as Walter de serviço, que nunca trabalhavam.'

Para o presidente da ACUP, José Nunes, os sem-abrigo são os 'verdadeiros stressados de guerra'. A associação estima que haja mais de 200 ex-combatentes sem-abrigo e para eles defendem o acesso a tratamentos de recuperação. Depois, os que não tenham família de acolhimento, deveriam recolher a um lar. 'Os Centros Distritais de Segurança Social devem fazer com que as IPSS [Instituições Particulares de Solidariedade Social] cumpram os protocolos estabelecidos para admissão dos utentes de acordo com as vagas que devem ser ocupadas por estas pessoas e que na realidade não são'. Ou então, defendem, o Estado deveria apoiar a construção de um lar.

'Nós apanhamo-los no final da linha', diz o psicólogo e coordenador de equipas de intervenção directa da Comunidade Vida e Paz (ver entrevista). 'Provavelmente, eles já tentaram várias fórmulas para resolverem os problemas que vão sentindo e que, muitas vezes, até os desconhecem. A situação de sem-abrigo é a mais visível de todas' – acrescenta Celestino Cunha. 'Um cenário de guerra pode ser, mesmo muitos anos depois, um detonador para atirar os ex-combatentes para uma situação de 'fim de linha'.

AS VOLTAS DA NOITE

A Comunidade Vida e Paz tem 42 equipas de dez voluntários, que todas as noites se revezam para fazerem três rondas, para apoiar cerca de 400 pessoas, distribuindo uma ceia: um iogurte, uma sandes e um bolo, uma peça de fruta e um copo de leite fresco. 'O objectivo é dar um pequeno lanche e criar um espaço de relação dos voluntários e técnicos com estas pessoas', explica Celestino Cunha, psicólogo e coordenador de equipas de intervenção directa da Comunidade Vida e Paz. 'Há um aumento da procura da nossa resposta. Mas não quer dizer que haja mais gente a viver na rua.' Celestino lamenta que haja descoordenação entre organizações que fazem igual trabalho em Lisboa, o que faz com que muitas pessoas recebam ajuda a dobrar.

BENEFÍCIOS POLÉMICOS

Os benefícios que os ex-combatentes vão receber do Estado português não serão superiores a 150 euros anuais, avançou esta semana o secretário da Defesa, João Mira Gomes. O pagamento deixará de estar indexado à reforma para que os veteranos da Guerra Colonial passem a receber de acordo com três escalões definidos em função do tempo de serviço: 'de 75 euros para quem tenha menos tempo de serviço, um de cem e outro de 150 euros', disse Mira Gomes. Acontece que, pelas contas do deputado parlamentar do CDS/PP João Rebelo, nove em cada dez ficam 'substancialmente a perder'. O secretário de Estado não gostou das críticas do CDS – incluindo de Paulo Portas – e respondeu: '[Vamos] alargar o universo de beneficiários, introduzir critérios de justiça relativa e criar condições de sustentabilidade financeira para estes benefícios.'


(continua)
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Re: Veteranos da Guerra do Ultramar

Mensagempor Diana » 10 ago 2008 18:44

(continuação do post anterior)



O TRABALHO DAS ASSOCIAÇÕES DE VETERANOS

A Associação de Combatentes do Ultramar Portugueses (ACUP) celebrou um acordo com a Comunidade Vida e Paz para receber os ex-combatentes da Guerra Colonial sem-abrigo na Quinta do Espírito Santo, em Sobral de Monte Agraço. Esta é uma forma de dignificar a vida dos antigos veteranos de guerra mais desprotegidos. A Domingo tentou saber junto das principais associações similares se acreditam que haja 200 ex-combatentes sem-abrigo. Sendo Agosto, a maioria não responde por se encontrarem de férias os responsáveis máximos. Para Geraldino Costa, da Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra, 'tudo do que se fala é para se conseguir verbas.' E confirma que não dão apoio aos sem-abrigo. Tal como não o faz a Associação Nacional dos Combatentes do Ultramar, segundo António Ferraz. Sobre os tais 200 sem-abrigo, responde: 'sou agnóstico nisso. Não conheço e não tenho motivo para desacreditar.'

O ANGOLANO QUE LUTOU DO LADO DO MPLA

'Perdi muita gente na guerra. Irmãos, primos, sobrinhos. O meu pai foi agredido várias vezes' – recorda, com mágoa, o angolano Roberto Reis (na foto em cima). Esta é uma recordação não muito vaga para os angolanos. Este ex-combatente do MPLA entre Outubro de 1975 e Janeiro de 89, aos 54 anos recorda que esta era uma guerra intensa entre partidos. Mas que, em 87, degenerou e passou a guerra civil. Só em 1990 se formou um partido de governo único (MPLA) e a UNITA voltou para a mata. Em 1992, Roberto refez a vida e até conseguiu estabelecer-se em Benguela com duas lojas. Em 2000, a vida deu outra volta de terror e foi obrigado a fechar uma das lojas. Dois anos depois, morreu a sua mulher com uma infecção e ele decidiu passar a segunda loja a um português. Com 20 mil euros no bolso, o angolano pegou nos dois filhos – de cinco anos e de 20 meses – e voou para Portugal. Confessa que viveu uma vida devota ao álcool durante os dois meses que durou o dinheiro. Os filhos foram então institucionalizados e ele albergado em São Bento, Lisboa. Todos os domingos visitava os meninos e até conseguiu fazer um curso de carpintaria, com estágio no Museu dos Coches. Mas perdeu-se na bebida outra vez. Passou a arrumar carros e a ganhar, diz, 150 euros por dia para as bebedeiras. Até que um amigo o encaminhou para a Quinta do Espírito Santo, em Sobral de Monte Agraço, onde desde há quase 20 meses está em recuperação e onde já se integrou como cozinheiro principal. Só espera que os filhos tenham melhor sorte.

VIDA EM COMUNIDADE

Na Quinta do Espírito Santo, em Sobral de Monte Agraço, da Comunidade Vida e Paz, os quartos são divididos por dois a três homens tirados da rua. Todos estão a passar por um período de recuperação, quer seja de dependências, quer seja de traumas ou de doenças psíquicas. Arsénio Martins confessa que só lá está porque tem de tratar o alcoolismo para regressar aos ateliês da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. No seu quarto só há um objecto pessoal na mesa de cabeceira: um postal de aniversário que recebeu do grupo que integra o ateliê.

CELESTINHO CUNHA (psicólogo da Comunidade Vida e Paz)

O stress de guerra pode, ao fim destes anos, empurrar alguns homens para a rua?

Eu acredito que sim. Por isso é que este stress é pós-trauma. Não havendo um escape para ele se diluir ao longo da vida, pode haver um momento de tensão que seja detonador.

O que tem de especial o stress de guerra em relação a outros tipos?

O stress de guerra dá para entender que é muito intenso. Normalmente, o stress está associado a situações de risco para a vida da pessoa. Na altura, ela não se apercebe que está sujeita a isso. E, por isso, tende a acumular.

Há alguma coisa em comum a todos os sem-abrigo, além de serem ex-combatentes?

Percebe-se na maioria que as relações significativas não foram duradouras. E a cultura de rua situa-se nisso: hoje tenho interesse naquela pessoa e ela é amiga; amanhã já não tenho interesse e deixa de ser amiga.

Ao fim de quanto tempo é possível reabilitá-las?

Nós dizemos que o processo de reabilitação não tem fim. Quando se está perante uma dependência isso é claro. Tentamos que elas nunca percam um vínculo com a Comunidade para, quando for preciso, nós intervirmos. Às que não têm dependência há que criar a ideia de que apenas funcionamos como retaguarda.

Depois de reabilitadas como deveriam ser acompanhadas estas pessoas?

Através de pequenos albergues para cerca de dez pessoas, para que seja possível falar com elas e desenvolver um processo de acompanhamento contínuo.

Correio da Manhã
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