Atletismo: Francis Obikwelu falhou o apuramento para a final dos 100 metros
"Peço desculpa"
"Peço desculpa aos portugueses, são eles que estão a pagar para estar aqui e eu não fui à final", disse Francis Obikwelu, que ontem foi eliminado nas meias-finais dos 100 metros, ao terminar em 6º com 10,10 segundos (11º no total). O velocista anunciou ainda o fim da carreira – já não vai correr os 200 m – para se dedicar à sua fundação.
Foi um Francis Obikwelu desapontado aquele que ontem surgiu na zona mista. Tinha prometido correr abaixo dos 10 segundos e não conseguiu. 'Não quero desculpas. Este é um momento baixo. Sou eu o responsável por não ter chegado à final', revelou o luso-nigeriano, considerando que ficou afectado com a falsa partida. 'Foi um problema, mas não quero falar disso. Este foi o meu pior arranque em Pequim', disse.
A decisão do abandono foi imediata: 'Vou deixar o atletismo. Compito há 14 anos e tenho muitos problemas no joelho. Foi a última corrida, nem vou aos 200 metros.'
Em jeito de balanço, Francis Obikwelu confessou o que mais o marcou: 'Já ganhei medalhas em Mundiais, Europeus e Jogos Olímpicos, mas o que mais me marcou foi a forma como os portugueses me receberam. Em Portugal, Francis é Francis.'
Quanto ao futuro, o velocista vai tirar férias e dedicar-se à sua fundação, em Albufeira, e terá como função formar jovens atletas. 'A minha família está no Algarve e é para lá que vou de férias. Já está tudo tratado para iniciar a fundação Francis Obikwelu.'
PERFIL
Francis Obiora Obikwelu nasceu a 22/11/78 (29 anos) em Onitscha, Nigéria. A morar em Portugal desde os 15 anos, o atleta do Sporting – que trabalhou na construção civil – naturalizou-se em 2001. Obikwelu participou em quatro Jogos Olímpicos – Pequim 2008, Atenas 2004, Sydney 2000 e Atlanta 1996, sendo que os dois primeiros foi pela Nigéria –, tendo conquistado uma medalha de prata nos 100 m em Atenas.
BOLT VOA PARA RECORDE (9,69)
O jamaicano Usain Bolt venceu a final dos 100 metros, com o tempo de 9,69 segundos, novo recorde do Mundo. O velocista confirmou o favoritismo e festejou a vitória mesmo antes de cortar a meta. Em segundo ficou Richard Thompson (9,89), de Trinidad e Tobago, enquanto o norte-americano Walter Dix arrecadou o bronze (9,91).
Correio da Manhã
Peço desculpa ... !
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Diana
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Peço desculpa ... !
Pelo rei às vezes, pela Pátria sempre
(pro rege saepe; pro patria semper)
(pro rege saepe; pro patria semper)
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Diana
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Re: Peço desculpa ... !
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Para se ser bom português é preciso nascer na Nigéria
Carolina Reis (sapato nº 37)
Sábado, 16 de Ago de 2008
Obikwelu sai de Pequim sem medalhas, mas não sai sem glória. O atleta foi a figura do dia. Não por ter anunciado o fim da carreira desportiva, mas a forma como o fez.
Calmo e sereno, Obikwelu anunciou aos jornalistas que se despedia do atletismo sem dramas nem cenas. Não houve comentários sobre a falta de apoio ao desporto em Portugal, nem sobre os adversários, nem teorias da conspiração sobre perseguições de juízes desportivos.
Obikwelu abandonou os palcos do desporto mundial com um obrigado ao país que o acolheu. "Sempre estiveram ao meu lado, nos bons e nos maus momentos. Para Portugal, Francis e Francis", disse em Pequim. E, como se não bastasse, ainda pediu desculpa aos contruibuintes por sair sem subir ao pódio, porque "pagaram para eu vir aos jogos".
Atitude tão diferente da de Telma Monteiro, que no rescaldo da derrota tratou logo de culpar os árbitros. Talvez a diferença entre Obikwelu e Telma esteja no "pó" que este cidadão português, nascido na Nigéria, teve de comer para chegar aos palcos olímpicos. É que Obikwelu foi abandonado pelos dirigentes desportivos nigerianos depois de uma lesão, ficou sem clube e teve de trabalhar nas obras.
Numa altura em que se questiona a presença dos estrangeiros em Portugal, saímos de uma prova mundial sem desculpas nem culpas a ninguém da derrota.
O Obikwelu nascido na Nigéria e naturalizado português deixou-nos a todos bem vistos. Foi um bom português.
Como mulher gostava de ver mais homens assim e mais mulheres inspiradas em Rosa Mota.
O Blogue do Sexo Forte
Expresso
Para se ser bom português é preciso nascer na Nigéria
Carolina Reis (sapato nº 37)
Sábado, 16 de Ago de 2008
Obikwelu sai de Pequim sem medalhas, mas não sai sem glória. O atleta foi a figura do dia. Não por ter anunciado o fim da carreira desportiva, mas a forma como o fez.
Calmo e sereno, Obikwelu anunciou aos jornalistas que se despedia do atletismo sem dramas nem cenas. Não houve comentários sobre a falta de apoio ao desporto em Portugal, nem sobre os adversários, nem teorias da conspiração sobre perseguições de juízes desportivos.
Obikwelu abandonou os palcos do desporto mundial com um obrigado ao país que o acolheu. "Sempre estiveram ao meu lado, nos bons e nos maus momentos. Para Portugal, Francis e Francis", disse em Pequim. E, como se não bastasse, ainda pediu desculpa aos contruibuintes por sair sem subir ao pódio, porque "pagaram para eu vir aos jogos".
Atitude tão diferente da de Telma Monteiro, que no rescaldo da derrota tratou logo de culpar os árbitros. Talvez a diferença entre Obikwelu e Telma esteja no "pó" que este cidadão português, nascido na Nigéria, teve de comer para chegar aos palcos olímpicos. É que Obikwelu foi abandonado pelos dirigentes desportivos nigerianos depois de uma lesão, ficou sem clube e teve de trabalhar nas obras.
Numa altura em que se questiona a presença dos estrangeiros em Portugal, saímos de uma prova mundial sem desculpas nem culpas a ninguém da derrota.
O Obikwelu nascido na Nigéria e naturalizado português deixou-nos a todos bem vistos. Foi um bom português.
Como mulher gostava de ver mais homens assim e mais mulheres inspiradas em Rosa Mota.
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Diana
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Re: Peço desculpa ... !
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QUEM PENSA ELE QUE É PARA ME PEDIR DESCULPA?
Ontem, estivesse eu ao pé, ele haveria de ouvir das boas. O tolo!
Mas quem pensa ele que é para ousar fazer o que fez? Virar-se para mim e dizer: "Peço desculpa!!!"
A frase inteira até é assim: "Agradeço a todos, porque estiveram a ver-me na televisão, e peço desculpa."
Eu estive a ver televisão e tomo a frase para mim: Francis Obikwelu pede-me desculpa!
Ele ainda há-de engolir essas palavras. Não perde pela demora. Aproveitou dizer isso agora que estamos com meio mundo a separar-nos, mas hei-de encontrá-lo. E bem pode ele ter mais um palmo de altura, mais bíceps e várias décadas menos. Vou-me a ele e espeto-lhe o dedo no peito: "Oiça lá, meta as desculpas onde quiser. Eu não as admito, ouviu?! Eu de si só quero que aceite o que tenho a agradecer-lhe." E, depois, desbobino tudo.
Desde logo aquele dia de Atenas em que fiquei sentado no estádio muito mais tempo do que ele levou a fazer - a uma vintena de metros dos meus olhos - os seus 100 metros de prata. Varreu-se-me o rapaz que lhe ficou à frente e todos os outros. Só ele contava não porque fosse belo a correr - todos os velocistas são belos a correr - mas dele sabia-lhe a história. Claro que o isco era ele ser do meu país, mas os iscos servem para fascinar, não para cativar. E eu de Francis Obikwelu, estava, estou cativo. Toda a minha vida foi feita para saber admirar homens assim. Ele ia na volta de honra, com uma bandeirinha, e eu sentado, sem gritos, nem aplausos, com o silêncio que me dou quando pratico a minha religião. A minha religião são os homens.
Eu já vivi, de casa montada e cultura bebida, em três países, sou filho e neto de emigrantes, sei que as pátrias mudam. E que ele há homens e ele há homens e que os primeiros são-me os preferidos: os que fazem seu o lugar onde estão. O africano Francis Obikwelu veio para Portugal aos 16 anos (o meu pai foi com um ano mais para Angola com um irmão mais novo, só os dois). Obikwelu trabalhou nas obras - e, diz-se, acarretando os sacos de cimento arranjou a estrutura muscular que haveria de o prejudicar nos arranques das corridas (ser pobre paga-se). Para fazer aquilo que queria, atletismo, chegou a dormir sob as bancadas do estádio do Belenenses.
Aconteceu que Francis Obikwelu encontrou uma família portuguesa que lhe deu a mão e aconteceu que a essa família ele deu aquele sorriso com que brindou o Ninho de Pássaro, ontem, antes de sabermos que era a sua derradeira corrida. Com Portugal, Obikwelu fez o mesmo, um contrato. Coisa entre iguais: eu dou e tu dás.
Sendo assim, porque digo que lhe estou agradecido? Porque são raros os que, como Obikwelu, não pedem, trocam. Ou, melhor, não são raros, fala-se de mais é dos outros. Ontem, lamentando não ter dado o que os portugueses esperavam, Obikwelu disse: "Este é o meu trabalho e queria pelo menos dar uma final aos portugueses."
Repararam na palavra?
Trabalho. É a palavra dos homens.
Obrigado, Obikwelu.




Ferreira Fernandes - Jornalista
Diário de Notícias
QUEM PENSA ELE QUE É PARA ME PEDIR DESCULPA?
Ontem, estivesse eu ao pé, ele haveria de ouvir das boas. O tolo!
Mas quem pensa ele que é para ousar fazer o que fez? Virar-se para mim e dizer: "Peço desculpa!!!"
A frase inteira até é assim: "Agradeço a todos, porque estiveram a ver-me na televisão, e peço desculpa."
Eu estive a ver televisão e tomo a frase para mim: Francis Obikwelu pede-me desculpa!
Ele ainda há-de engolir essas palavras. Não perde pela demora. Aproveitou dizer isso agora que estamos com meio mundo a separar-nos, mas hei-de encontrá-lo. E bem pode ele ter mais um palmo de altura, mais bíceps e várias décadas menos. Vou-me a ele e espeto-lhe o dedo no peito: "Oiça lá, meta as desculpas onde quiser. Eu não as admito, ouviu?! Eu de si só quero que aceite o que tenho a agradecer-lhe." E, depois, desbobino tudo.
Desde logo aquele dia de Atenas em que fiquei sentado no estádio muito mais tempo do que ele levou a fazer - a uma vintena de metros dos meus olhos - os seus 100 metros de prata. Varreu-se-me o rapaz que lhe ficou à frente e todos os outros. Só ele contava não porque fosse belo a correr - todos os velocistas são belos a correr - mas dele sabia-lhe a história. Claro que o isco era ele ser do meu país, mas os iscos servem para fascinar, não para cativar. E eu de Francis Obikwelu, estava, estou cativo. Toda a minha vida foi feita para saber admirar homens assim. Ele ia na volta de honra, com uma bandeirinha, e eu sentado, sem gritos, nem aplausos, com o silêncio que me dou quando pratico a minha religião. A minha religião são os homens.
Eu já vivi, de casa montada e cultura bebida, em três países, sou filho e neto de emigrantes, sei que as pátrias mudam. E que ele há homens e ele há homens e que os primeiros são-me os preferidos: os que fazem seu o lugar onde estão. O africano Francis Obikwelu veio para Portugal aos 16 anos (o meu pai foi com um ano mais para Angola com um irmão mais novo, só os dois). Obikwelu trabalhou nas obras - e, diz-se, acarretando os sacos de cimento arranjou a estrutura muscular que haveria de o prejudicar nos arranques das corridas (ser pobre paga-se). Para fazer aquilo que queria, atletismo, chegou a dormir sob as bancadas do estádio do Belenenses.
Aconteceu que Francis Obikwelu encontrou uma família portuguesa que lhe deu a mão e aconteceu que a essa família ele deu aquele sorriso com que brindou o Ninho de Pássaro, ontem, antes de sabermos que era a sua derradeira corrida. Com Portugal, Obikwelu fez o mesmo, um contrato. Coisa entre iguais: eu dou e tu dás.
Sendo assim, porque digo que lhe estou agradecido? Porque são raros os que, como Obikwelu, não pedem, trocam. Ou, melhor, não são raros, fala-se de mais é dos outros. Ontem, lamentando não ter dado o que os portugueses esperavam, Obikwelu disse: "Este é o meu trabalho e queria pelo menos dar uma final aos portugueses."
Repararam na palavra?
Trabalho. É a palavra dos homens.
Obrigado, Obikwelu.





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