Um sequestro em Lisboa
por Clara Ferreira Alves
"Há uns meses vi-me no meio de uma trapalhada. Na loja onde costumo comprar revistas estrangeiras, um gigante vestido com um fato branco começou aos berros a insultar os consumidores da "New Yorker" e da "Wired" e pregou um estalo num deles, sem rixa. O homem arengou no corredor das revistas e desatou a bater em quem lá estava. Depois, o gigante colocou os braços na porta, junto da caixa registadora, e disse que ninguém saía e que ia matar toda a gente. Eu estava a pagar e tentei convencê-lo a deixar-me sair. A loja é um vão de escada e lá fora ninguém se apercebera. Eu temia que o gigante, que parecia um segurança de discoteca, muito transtornado, estivesse armado e desatasse aos tiros. Se estivesse nos Estados Unidos ou no Brasil, teria muito medo.
O homem reconheceu-me da televisão, começou a berrar olha a doutora e a beijar-me as mãos (momento embaraçoso) e deixou-me escapar. Corri o mais que pude até ao polícia mais próximo, um agente da PSP pasmado numa esquina, e ele respondeu-me agora não posso sair daqui, tenho ordens para guardar o perímetro em volta do hotel e não posso abandonar o local. Experimente telefonar para a Central. Gritei com o "agente da autoridade", você tem consciência de que o homem pode estar armado e matar alguém? E que há reféns dentro da loja? Daqui não saio, sorriu, e apontou o hotel de cinco estrelas. Regressei a correr à loja e um bando de arrumadores parecia disposto a fazer justiça popular e a "tomar conta da ocorrência". Um dizia "ele bateu no meu irmão, o gajo bateu no meu irmão, bora lá ter com ele..." O gigante saíra da loja de revistas e entrara na loja ao lado, onde continuava a fazer desacatos. Um empregado das revistas saíra, lesto, antes de ele ter tempo de encurralar os clientes e chamara a Polícia, com mais sorte do que eu. Enervado, dizia que não era a primeira vez que eram assaltados. Quando chegou o carro da PSP, com dois polícias armados e de óculos escuros, dois figurantes de cinema, alguém disse que eram piores do que os assaltantes.
Os polícias foram-se chegando como quem anda a passear e está farto de cenas, e o gigante acabou a conversar com eles. Entretanto, uma pequena multidão de arrumadores, teóricos, transeuntes, clientes, comentava o episódio encolhendo os ombros. O homem esbofeteado desaparecera. Lembro-me de ter pensado que isto só em Portugal, onde o crime violento está confinado aos subúrbios e subculturas e onde os gigantes de fato branco não matam nem estão armados. Se matassem, a loja de revistas tinha ido toda antes de a Polícia chegar. No hotel, o agente assobiava de tédio.
Num país de brandos costumes nada se leva a sério. Quando passei na Rua Marquês da Fronteira e vi o aparato policial, as carrinhas do INEM e as câmaras com as luzes montadas pensei: estão a fazer um filme e pararam a circulação na cidade. Ia a caminho do cinema para ver "Tropa de Elite", o filme de José Padilha sobre o BOPE, Batalhão de Operações Policiais Especiais, as forças que entram a matar nas favelas do Rio de Janeiro e combatem o tráfico e o sequestro. O filme é um retrato do submundo de polícias e ladrões que trabalham para manter a classe média liberal e os milionários do Brasil na impressão de que vivem num país seguro e "lindo" onde os miseráveis estão controlados por forças militares e paramilitares. O filme é anti-sentimental e muito realista. No final, as distinções morais são difusas e em vez do relativismo moral sobra a certeza de que a violência urbana no Brasil devia ter (e não tem) solução política, e de que não existem dois lados em conflito, um bom e um mau. Os bons e os maus são todos, e somos todos, mesmo os que propagamos a defesa dos direitos humanos e do Estado de Direito, sem querer saber quem paga o preço da nossa segurança.
Exactamente a essa hora, acontecia um sequestro em Lisboa. Uma agência do BES foi assaltada e foram feitos reféns. Daí o aparato. Mais do que o assalto, tinha havido reféns, tiros, mortos, uma violência que não é habitual no centro da cidade. Este tipo de crime não é comum em Portugal. E este crime terá sido cometido por cidadãos brasileiros, que importam a violência do Brasil, e os métodos, para um país cujas regras desconhecem. Aquela dependência do BES não tinha dinheiro. É provável que nos próximos tempos, com a crise económica e a recessão, com a proletarização de grupos sociais desprotegidos, o número de assaltos violentos aumente e a insegurança também. Como é provável que se copiem crimes de países onde os costumes não são tão brandos. Nos subúrbios, a polícia trava batalhas que desconhecemos, ou deixa-se corromper por elas, como no filme de José Padilha. O narrador, um bope incorruptível de um esquadrão da morte, diz que na favela o equilíbrio se estabelece entre "a munição dos marginais e a corrupção dos policiais". Lá como cá, as forças especiais da polícia são chamadas para situações como esta. Lá como cá, as forças especiais actuam com regras especiais, que nem sempre são as do Estado de Direito."
http://clix.expresso.pt/gen.pl?p=storie ... ies/389531
UM SEQUESTRO EM LISBOA
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matahary
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UM SEQUESTRO EM LISBOA
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punisher
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Re: UM SEQUESTRO EM LISBOA
mas onde está o intresse de ler estas bacuradas....sem ler os comentários colocados pelos leitores do Expresso.
Será por serem pessoas anónimas, que não são reconhecidas nas livrarias?????????
Por isso aqui ficam alguns:
Este texto, além de falacioso, vem cheio espuma proveniente dos cantos da boca, de raiva e ódio contra as forças policiais.
1) Não me acredito que um homem movido pelo ódio lhe fosse beijar a mão de Sua Senhora. Tem-se em muito boa conta.
2) Não me acredito que qualquer polícia fizesse o que ela aqui pinta. Alguém ouviu, viu ou leu alguma notícia deste "crime"?
3) Diz a Senhora: "(...) Aquela dependência do BES não tinha dinheiro (...)".
Notícia do Expresso online: "A polícia recuperou um saco de plástico com 90 mil euros. Apesar do banco não aceitar depósitos em numerário, parece evidente que os assaltantes sabiam que havia bastante dinheiro no cofre." (http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stori ... ies/388207)
Notícia do JN: "Os dois assaltantes do BES tinham na sua posse entre 50 e 100 mil euros, depois de terem obrigado a gerente da agência de Campolide a abrir-lhes o cofre." (http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Policia ... _id=977727)
4) "(...) Lá como cá, as forças especiais actuam com regras especiais, que nem sempre são as do Estado de Direito."
Artigo 32.º
Legítima defesa
Constitui legítima defesa o facto praticado como meio
necessário para repelir a agressão actual e ilícita de interesses
juridicamente protegidos do agente ou de terceiro.
(Código Penal: Lei 59/2007 de 04 de Setembro)
2 - O recurso a arma de fogo contra pessoas só é permitido desde que, cumulativamente, a respectiva finalidade não possa ser alcançada através do recurso a arma de fogo, nos termos do n.º 1 do presente artigo, e se verifique uma das circunstâncias a seguir taxativamente enumeradas:
a) Para repelir a agressão actual ilícita dirigida contra o agente ou terceiros, se houver perigo iminente de morte ou ofensa grave à integridade física;
b) Para prevenir a prática de crime particularmente grave que ameace vidas humanas;
c) Para proceder à detenção de pessoa que represente essa ameaça e que resista à autoridade ou impedir a sua fuga.
(nº 2 do art. 3.º do Dec. Lei 457/99)
Mais uma nota: Nenhum jurista, Professor de Direito, criminologista, penalista ou constitucionalista, achou a operação ilegal, repito, NENHUM. Mas parece que surgiram, de repente, alguns experts em Direito Penal. 5) O estigma anti-polícia está bem patente: "(...) Quando chegou o carro da PSP, com dois polícias armados e de óculos escuros, dois figurantes de cinema, alguém disse que eram piores do que os assaltantes (...)". Porquê? Porquê usavam óculos de sol? Que tem a ver os óculos de sol para o caso? Não demonstra o mínimo respeito.
Se alguém critica a maneira de vestir extrovertida de algumas figuras públicas é logo alvo de censura: "cada um veste como quer; é estúpido fazer-se troça da maneira de vestir". Mas estas pessoas, achando-se num pedestral, entendem que têm direito de dizer o que quiserem.
Se este texto não fosse tão deprimente, era uma boa crónica de humor.
Este artigo e mais uma prova da pseudo-intelectualidade reinante na imprensa.
Que bonito!
Que intelectual!
Não foi à baiuca de vão de escada comprar a Maria, foi a uma loja de vão de escada onde compra as revistas estrangeiras!
Deve ser para ver os bonecos, não?
Gosto desta superioridade!
Conforme lhe disse num comentário ao seu “artigo” anterior, Freud explica o significado do complexo de superioridade!
Sabe, quem crítica a utilização de uns óculos escuros a um polícia (por acaso averiguou se eram mesmo escuros ou fotossensíveis?), arrisca-se a que lhe digam umas verdades relativamente ao seu aspecto, que não é de forma nenhuma exemplar!
Vá fazer sky para a Serra da Estrela com um saco de plástico, que está mais de acordo com o seu aspecto!
Assim, com o exercício do contraditório tem muito mais intresse........
"quem poupa o lobo...sacrifica o cordeiro..."
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Diana
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Re: UM SEQUESTRO EM LISBOA
punisher Escreveu: Será por serem pessoas anónimas, que não são reconhecidas nas livrarias?????????
... às tantas, algumas das pessoas anónimas, até são reconhecidas nas livrarias, sendo (bem) conhecedoras dos temas que comentam, só que não pretendem dar a cara, pelas mais diversas razões.
Mais importante, do que o "QUEM" .... é o "QUÊ" !
O centro do debate é a MENSAGEM, e não o mensageiro.
Digo eu... Caro punisher ....!
punisher Escreveu: mas onde está o interesse de ler estas bacuradas....sem ler os comentários colocados pelos leitores do Expresso.
Por isso aqui ficam alguns:
Boa ideia Caro punisher !!!
às vezes, sou tentada a fazer o mesmo, isto é, a publicar comentários associados, aos artigos de opinião ou notícias, porque, por vezes, nos comentários encontram-se opiniões muito melhor fundamentadas e interessantes.
Só não o faço, para não "estender o lençol".
Pelo rei às vezes, pela Pátria sempre
(pro rege saepe; pro patria semper)
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punisher
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- Registado: 15 dez 2007 23:55
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Re: UM SEQUESTRO EM LISBOA
Diana Escreveu: nos comentários encontram-se opiniões muito melhor fundamentadas e interessantes.
Só não o faço, para não "estender o lençol".
Neste caso não resisti...
É que este artigo desta ilustre Clara F. Alves é tão insípido, mas tão insípido...que até dá dó!!!!!!!!!
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