«Olivença e Juromenha – uma história por contar»

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Xico Picão
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«Olivença e Juromenha – uma história por contar»

Mensagempor Xico Picão » 19 fev 2008, 14:01

Grupo dos Amigos de Olivença



Divulgação 02-2008

Vai ser apresentado, no próximo dia 28 de Fevereiro, às 18h30m, no Palácio das Necessidades (Instituto Diplomático - MNE, Largo do Rilvas, Lisboa), o livro «Olivença e Juromenha – uma história por contar» , da Professora Ana Paula Fitas, sua tese de Doutoramento.

A apresentação do livro será feita pelo Professor Doutor Armando Marques Guedes e pelo General Loureiro dos Santos

O tema do livro, que já foi defendido pela Autora em colóquio do GAO, merece a atenção de todos, a que acresce o significado e o relevo da sua apresentação no ID - MNE.

Convidamos todos os associados do GAO e todos os apoiantes da causa de Olivença a participarem no acto.

O GAO dispõe de convites que enviará a quem o solicitar (tlm. 967431769)
Lx., 19-02-08.

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Olivença é Terra Portuguesa!

PEi
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Re: «Olivença e Juromenha – uma história por contar»

Mensagempor PEi » 25 fev 2008, 14:46

Tese de Ana Paula Fitas acerca de Olivença


O trabalho de Ana Paula Fitas foi realizado no âmbito da especialidade da cultura portuguesa e intitula-se «Continuidade Cultural e Mudança Social - Um estudo etnológico comparado entre Juromenha e Olivença». Para o elaborar viveu dois anos na região, tendo utilizado o método antropológico participante, o que proporcionou um contacto muito directo e profundo com a população e com as instituições locais. Tal facto leva-a à formulação de nova censura a Portugal: «Não há nem nunca houve qualquer política de salvaguarda do património cultural e etnológico português, lesando-se assim a população oliventina na preservação da sua memória histórica e deixando-se que as marcas da sua singularidade regional, das quais tanto se orgulha, acabem por desaparecer».

Para esta especialista em Estudos Portugueses, o convívio com a população - composta por cerca de dez mil pessoas - permitiu-lhe perceber a forma de construção da sua actual identidade. «Ela é portuguesa, do ponto de vista histórico; oliventina (singular), na perspectiva cultural; e politicamente espanhola no contexto regional», esclarece, para acrescentar depois que «a tentativa de castelhanização das suas gentes e do seu modo de vida ainda não se impôs».

Até à instauração da democracia espanhola, os oliventinos foram perseguidos e discriminados socialmente, tendo pago a factura da sua origem portuguesa. Hoje, como os alentejanos, vivem essencialmente da agricultura. Há trinta anos eram tão pobres quanto os de Juromenha. Mas, com a criação das comunidades autónomas, acabaram por dar o salto em frente, muito devendo ao alcaide Ramón Rocha, que os integrou de pleno direito na região da Extremadura.

Na opinião de Ana Paula Fitas, as gentes de Olivença sempre resistiram à mudança social orientada segundo os paradigmas sociais, políticos e ideológicos do Estado espanhol, a partir do final da administração portuguesa. «Isto é particularmente evidente na continuidade cultural portuguesa que se manifesta em grande parte das suas representações sociais», elucida. Por isso avança com a afirmação de que Olivença é ainda hoje «uma realidade luso-espanhola».

Ana Paula Fitas conclui que, se «não houver uma intervenção cultural portuguesa no território, os oliventinos estão expostos à adesão a práticas e símbolos homogeneizantes que debilitarão as suas reservas de resistência cultural».

http://olivenca.blogspot.com/
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PEi
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Re: «Olivença e Juromenha – uma história por contar»

Mensagempor PEi » 25 fev 2008, 14:54

DIÁRIO DO SUL
29-Abril-2005
Jornalista LUÍS MANETA

~~~~~~~~~~~~~~~~~
Investigadora Ana Paula Fitas elabora tese sobre Olivença:
"PORTUGAL AFASTOU-SE E NEGLIGENCIOU O TERRITÓRIO OLIVENTINO"

Com a classificação máxima de "Muito Bom, com distinção e louvor", a investigadora Ana Paula Fitas doutorou-se na Universidade Nova de Lisboa com uma tese sobre a questão oliventina. "Continuidade Cultural e Mudança Social - Um Estudo Etnológico Comparado entre Juromenha e Olivença" é o título de um trabalho que analisa os últimos duzentos anos na vida das duas povoações.

Diário do Sul - Quais os motivos da escolha deste tema para a tese de
doutoramento?

Ana Paula Fitas - A questão da continuidade cultural é uma questão que do ponto de vista antropológico é determinante para compreender as sociedades contemporânes. Por um lado porque a continuidade cultural nos remete para a construção da identidade histórica, social, e cultural das populações. Por outro porque todas as sociedades estão sujeitas à mudança, que é um processo dinâmico da organização social. Nesta sentido trata-se de perceber como é que se processava a construção social das identidades culturais, históricas e sociais destas populações e destas regiões.

DS - E desse ponto de vista, este é um território muito particular. De que modo a questão de Olivença que, pelo menos do lado português continua em aberto, influenciou a escolha do local para a realização do estudo?

APF - O território composto pelos municípios de Juromenha e Olivença é óptimo para fazer um estudo deste tipo porque sendo uma área espacialmente contígua apresentava uma particularidade assaz pertinente para esta problemática e que se prende com o facto de há 204 anos atrás, portanto em 1801, Olivença ser um município português tal como Juromenha, que também era município e sede de Concelho. Eram duas localidades em espaço contíguo e sujeitas ao mesmo tipo de administração política. Passado este tempo há um processo de diferenciação na forma de organização social das duas populações uma vez que uma ficou sujeita à administração política
portuguesa, outra à espanhola. Daí ser interessante ver o que é que se manteve e o que é que mudou nestas duas localidades.

DS - No caso de Olivença, duzentos anos depois são perceptíveis alguns traços do que podemos denominar como "portugalidade"?

APF - Sim, sim...sem dúvida.

DS - Visíveis em que aspectos?

APF - É perfeitamente visível na gastronomia, na música popular, no folclore, muito influenciado pelos corridinhos e pelas saias. È também visível nas danças e na religião popular - o tipo de cultos, de manifestações religiosas, de festividades populares. E na língua, naturalmente.

DS - De um ponto de vista da língua, em que medida o Português está ainda presente em Olivença?

APF - A população oliventina fala português como segunda língua. A
população idosa, com mais de 60 anos, fala um português correcto
exactamente como os alentejanos. E dizem, ainda hoje o afirmam, que a fala deles é o Português. Utilizam a língua espanhola por uma questão de integração social, de socialização, porque há muita população espanhola que está ali instalada há diversas gerações e porque a administração política, institucional e escolar é espanhola. De forma que existe uma adaptação e uma adopção do espanhol como língua de uso, se assim se pode dizer.

DS - E o Português?

APF - É um Português, diria, alentejano. Porque mesmo em expressões
idiomáticas utilizam expressões como as que são usadas no Alentejo. Quando falamos em português com um oliventino idoso não encontramos nenhuma diferença.
A perda do uso da língua ficou a dever-se a questões políticas - o uso do Português foi proibido em meados do século XIX e novamente proibido em meados do século XX, o que fez com que a língua deixasse de ser usada em espaço público passando a falar-se quase xclusivamente no espaço doméstico. Com o processo de escolarização, as gerações mais recentes acabaram por adoptar a língua espanhola e deixaram de praticar o português.

DS - A Ana Paula Fitas refere que da parte portuguesa, todo esse património cultural e etnológico de Olivença foi deixado como que ao abandono.

APF - A questão política impediu qualquer aproximação do ponto de ista físico, social e cultural. Nem o Estado Português nem os Portugueses se mobilizaram para reforçar o património cultural português em Olivença. Do ponto de vista arquitectónico isso poderia ser difícil uma vez que a administração é espanhola mas ao nível das actividades culturais e de divulgação da leitura, por exemplo, esse trabalho nunca foi feito. O Estado afastou-se e negligenciou completamente aquele território deixando-o exposto a todos os tipos de influências e de construção social que Espanha quisesse esenvolver em território oliventino.

___________________
SI/GAO
Rua Portas S. Antão, 58 (Casa do Alentejo), 1150-268 Lisboa
olivenca@olivenca.org

Tlm. 96 743 17 69 - Fax. 21 259 05 77
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Re: «Olivença e Juromenha – uma história por contar»

Mensagempor Xico Picão » 14 mar 2008, 13:35

CHEGOU A ALTURA DE RESOLVER A QUESTÃO DE OLIVENÇA

A HISTÓRIA NÃO ACABOU.
HÁ MUITA HISTÓRIA NO FUTURO.
UM FUTURO INCERTO E, PROVAVELMENTE, MUITO PERIGOSO.

«A Lógica de cooperação e competição das relações com Espanha criou a oportunidade para resolver a questão de Olivença»

O contexto estratégico conjuntural que originou o Tratado de Badajoz de 1801, pelo qual Olivença passou paras a soberania espanhola, não se modificara integralmente em 1815, quando a devolução de Olivença a Portugal foi determinada pelo Tratado de Viena. A relação de forças na Europa da Época não ordenou de modo peremptório e imediato essa devolução, remetendo-a para quando Portugal e Espanha considerassem oportuno - o que significava, de facto, submeter a resolução do problema ao entendimento Portugal-Espanha, logo aos objectivos nacionais de cada país e às tensões estratégicas correspondentes. A definição do momento oportuno, se não fosse efectuada por potências extrapeninsulares, teria de ser proposta por Portugal a uma Espanha da qual, naturalmente, nunca partiria a iniciativa. Para Portugal, o momento oportuno teria de coincidir com uma "oportunidade estratégica" favorável. Na altura do regime da ditadura, foi dito não ser oportuno levantar o problema.

Aqui reside o cerne do problema. Findos os acontecimentos que envolveram os dois Estados nas guerras napoleónicas e seus desenvolvimentos, a relação de forças europeias e mundiais nunca deixou de se traduzir, para a península, numa lógica de conflito e confrontação. Por trás do comportamento pacífico e amistoso entre os dois Estados, havia sempre a percepção, por cada um deles, que a existência do outro constituía uma ameaça. Ou porque poderia servir de cais de desembarque e base de ataque para forças poderosas que visassem a Espanha e/ou foco de contaminação política que fizesse perigar o seu regime (absolutista, liberal ou monárquico). Ou porque representava uma ameaça existencial para Portugal e/ou também poderia contaminar negativamente o seu regime.

Esta lógica de confrontação teve situações mais agudas e outras menos, mas nunca deixou de existir. A percepção dos responsáveis políticos portugueses ao longo dos séculos XIX e XX, até à guerra fria, foi sempre a de que tudo deveria ser feito para evitar uma crise aberta com a Espanha, pois tinham consciência de que a lógica de conflito existente entre os dois países se poderia transformar num confronto aberto muito desfavorável a Portugal. Confronto aberto que até poderia ser convenientemente provocado pelos governantes espanhóis, para fazerem esquecer os graves problemas internos que os seus súbditos sentiam, bem como os efeitos deletérios dos traumas causados pelos enormes abalos nacionais que afectaram Espanha.

Dentro desta lógica de confronto, tornava-se quase impossível alterar as relações de forças de modo a surgir uma oportunidade estratégica que nos permitisse procurar resolver a questão de Olivença junto dos espanhóis.

A lógica de confronto, embora atenuada pela natureza dos regimes então vigentes, não terminou durante a guerra fria. Só viriam a surgir modificações, e profundas, com a democratização dos dois vizinhos peninsulares, a queda do Muro de Berlim e, principalmente, com a globalização, o mercado comum europeu e, acima de tudo, com o estabelecimento do espaço Shengen. Estas novas linhas de força tiveram como resultado uma alteração profunda no contexto estratégico do relacionamento peninsular. Não porque surgiram desequilíbrios que nos fossem favoráveis em termos de confronto, mas precisamente pelo congelamento da lógica de confronto e a sua substituição por uma lógica de cooperação/competição.

A abertura de fronteiras e a liberdade de movimentos de pessoas, bens e ideias entre os dois países fizeram com que as regiões homogéneas naturais da península, todas periféricas, se tivessem aproximado, como que desafiando o centro peninsular - a despeito das fronteiras administrativas e políticas. Na Espanha, foram reconstituindo uma configuração multipolar em termos económicos, com as regiões periféricas a tentar "conquistar" poder político a Madrid, interagindo umas com as outras e também com Portugal, que além de região económica é um país soberano. Esta situação multipolar, num contexto de uma lógica de cooperação/competição, favorece Portugal, pois, de todas as regiões peninsulares com ligações a um centro de poder afastado (Bruxelas), é a única cuja independência lhe permite relacionar-se com o Governo espanhol no mesmo patamar político. Todas as restantes terão de sujeitar-se às orientações de Madrid.

Finalmente, esta lógica de cooperação/competição que caracteriza as nossas relações com a Espanha permitiu o aparecimento da oportunidade estratégica para que os dois países - amigos, aliados, que não encaram o outro como ameaça - resolvam a questão de Olivença. E para que Portugal possa tomar a iniciativa de abrir o diálogo.

É pôr fim a um contencioso que pode funcionar como um foco de potencial atrito e de conflito em situações de maior tensão entre as posições dos dois países. Lembremo-nos de que a História não acabou. Há muita História no futuro. Um futuro incerto e, provavelmente, muito perigoso. É avisado acautelarmo-nos. Olivença é um problema que se pode agravar, mas podemos fazer dele um pólo de atenuação de tensões entre os Estados peninsulares.

Não deve ser ignorada a realidade actual de Olivença, criada nos últimos dois séculos pela administração espanhola. Uma realidade que já não é sustentada apenas em elementos identitários lusitanos, mas em que persistem muitos deles. Olivença constitui uma micro-região, com características distintivas em relação aos espanhóis, mas também aos portugueses. Foi como se, na zona raiana, tivesse aparecido um elo de ligação entre os dois povos, semelhante a ambos mas deles diferenciado.

Para a solução desta questão são de afastar posições radicais, sem recuo e sem condições, antes recorrer-se a uma abordagem gradual e "soft", com a tónica na cultura: considerar a hipótese de permitir que os oliventinos escolham a dupla nacionalidade, autorizar o ensino da língua portuguesa por professores destacados por Portugal, além do castelhano já obrigatório, não proibindo o uso do português no espaço público, estabelecer uma delegação que promova a cultura portuguesa. Admitir mesmo a hipótese de se chegar a uma soberania partilhada sobre Olivença, como região especial e exemplo de amizade e cooperação entre os dois países, que, numa fase inicial, poderia assumir vínculos políticos mais fortes com Espanha do que com Portugal.


PÚBLICO, 14 de Março de 2008,
José Loureiro dos Santos
General

«Nota: Este texto constitui a súmula da apresentação do livro de Ana Paula Fitas "Juromenha e Olivença, Uma História por Contar" das Edições Colibri, a publicar na íntegra no próximo número da "Revista dos Negócios Estrangeiros"»
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